6 – ENCARTE PARQUE NACIONAL DO IGUAÇU E ZONA DE TRANSIÇÃO

6.1. Histórico do Planejamento

O PNI conta, até o momento, com três importantes instrumentos clássicos de planejamento e manejo. O primeiro deles é o PM publicado em 1981, o segundo é o Plano de Uso Público (PUP), de 1982, e o terceiro é o Plano de Ação Emergencial (PAE), de 1994.

Um quarto instrumento aparece no cenário, o que não é previsto nos diversos procedimentos do IBAMA, para a implantação das UC. Trata-se do Plano de Revitalização (PR) do PNI (IBAMA, s.d.) que objetiva a melhoria da infra-estrutura, para atender e aumentar a visitação pública no Parque e intensificar o ecoturismo na região.

Elaborado em 1979, o primeiro PM do PNI foi publicado em 1981 (IBDF/FBCN, 1981). Previsto para ser atualizado em um prazo de cinco anos, o que não aconteceu, tal PM sofreu uma avaliação em 1994, através do Plano de Ação Emergencial (Auer, 1994).

O PAE foi concebido para servir de alternativa para subsidiar o manejo das UC, especialmente daquelas que à época não contassem com qualquer instrumento de planejamento de suas diretrizes de uso ou daquelas cujos PM estivessem desatualizados. A idéia é que o PAE tivesse uma elaboração simplificada, com horizonte de planejamento de dois anos, contrapondo-se aos cinco de um PM. No caso das UC que apresentassem o PM, o PAE faria uma avaliação do seu grau de implementação.

O PAE fez uma análise dos Programas propostos à época para o PM e, na sua avaliação do grau de implementação, identificou que apenas 27,3% das atividades haviam sido implementados, sendo que os Subprogramas de Investigação, Monitoramento, Educação, Turismo e Administração "não tiveram qualquer das suas atividades realizadas" (Auer, 1994) mesmo tendo transcorridos treze anos desde a sua publicação.

Agora em 1998 e 1999, durante os trabalhos de campo da Equipe de Planejamento da presente revisão do PM, mais uma vez foi verificado com o pessoal do Parque o cumprimento das metas propostas, inclusive do PAE. Também, foi realizada uma análise mais profunda, no que se refere às metas de uso público do PM e do PAE, sendo que o PUP também foi avaliado (Magro & Vieira, 1998 e 1999). O Anexo 1 mostra os resultados obtidos em todas as oportunidades apresentadas acima, acerca da implementação das recomendações dos três Planos, acrescidos de comentários, quando possível.

Na análise feita, tem-se que o primeiro PM apresenta 20% de implentação (S); 37,90% de implementação parcial (P) e 42,10% de não-implementação (N). O PUP tem os seguintes dados: 34,60% (S), 21% (P) e 44,40% (N), e o PAE apresenta 17,65% (S), 35,30% (P) e 47,05% (N).

Ressalte-se que o PAE e esta presente versão do PM contaram, na sua elaboração, com reuniões técnicas de planejamento, de caráter participativo, onde se fizeram representar os funcionários do Parque, a Polícia Florestal, representantes dos concessionários, diversas instituições técnicas, diversas organizações não-governamentais (ONG), instituições de ensino e pesquisadores, técnicos e pesquisadores da revisão do PM, prefeituras do entorno, associações diversas, munícipes e outros convidados, envolvidos direta e indiretamente com as questões do Parque.

Tais reuniões são para consulta aos interessados e constituíram-se em foros de discussões e oportunidades para todos poderem dar suas opiniões e sugestões nos assuntos que envolvem a existência e o manejo do Parque. Então, muitos dos resultados das discussões promovidas pelo IBAMA estão contemplados nos dois instrumentos de planejamento.

Assim é que foram realizadas as seguintes reuniões de consulta: uma primeira foi realizada em Curitiba, envolvendo todos os pesquisadores e demais técnicos dos levantamentos dos trabalhos de revisão do presente PM, nos dias 28 a 30/10/1998, além de dois professores da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) (Sandra Kendrick e Jair Kotz) e dois ouvintes, o vice-prefeito de Capanema (Carlos Carboni) e um representante da Associação de Integração Comunitária Pró-Estrada do Colono (AIPOPEC) (Arnaldo Carlos Muller). Os presentes (exceto os ouvintes) fizeram uma rápida apresentação do resultados dos levantamentos realizados e foram ouvidos quanto aos objetivos específicos de manejo para o PNI, além de terem trabalhado em uma proposta de zoneamento para o Parque, com base no sua área de conhecimento e atuação.

A segunda reunião foi realizada com todos os funcionários do PNI, incluindo representantes da Polícia Florestal, do destacamento do PNI. No caso, os presentes fizeram uma análise de problemas, uma análise dos objetivos e sugestões de solução para cada problema apontado e uma avaliação da oficina de trabalho.

Um terceira reunião foi na Cidade de Foz do Iguaçu, na Sede do PNI, para os Municípios de Foz do Iguaçu e Santa Terezinha do Itaipu, em 23/11/998. A quarta reunião foi realizada em Serranópolis, para esse Município, além de Capanema, Planalto, São Miguel do Iguaçu, Medianeira, Matelândia e Céu Azul, realizada no dia 25/11/1998. A quinta reunião com municípios do entorno foi realizada em Santa Tereza do Oeste, no dia 27/11/1998, envolvendo Santa Tereza do Oeste, Lindoeste, Santa Lúcia e Capitão Leônidas Marques.

Em todas as reuniões, abertas a todos os munícipes, autoridades municipais, associações civis e outras organizações, os presentes foram ouvidos quanto ao significado do PNI para eles, ao que esperavam do PNI, com o que podiam contribuir com o PNI e aos problemas ambientais dos seus respectivos municípios. Cite-se que todas essas reuniões eram abertas à sociedade como um todo.

Uma sexta e última reunião foi realizada em Toledo, também no Paraná, que se constituiu em uma oficina de planejamento, com estrutura e grau de envolvimento diferentes das anteriores. Na oportunidade, foram convidados representantes de todos os municípios das reuniões anteriores, além de Cascavel, Vera Cruz do Oeste, Planalto, Parque Nacional del Iguazú, ONG locais e de Curitiba, como a Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e o Fórum Pró-Conservação da Natureza/PR, organizações dos governos estadual e municipais envolvidas com a questão ambiental, secretarias municipais diversas, dois representantes dos pesquisadores da revisão deste PM, Polícia Florestal que atua no PNI, Marinha (Capitania Fluvial do Rio Paraná), Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econömico e Social (IPARDES), Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), UNIOESTE, Associações dos Prefeitos, empresa Terra Preservada, Ministério do Meio Ambiente (MMA), Ministério Público da União/Procuradoria Geral da República, Fundação de Pesquisas Florestais do Paraná (FUPEF), funcionários e Chefia do PNI e Equipe de Planejamento deste PM.

Tal Oficina de Planejamento (ou Seminário Externo), realizada em Toledo, nos dias de 30/11 a 02/12/1998, teve uma abrangência bem maior e mais complexa, sendo feitas análises de situação, com as forças impulsoras e seus aspectos relevantes; das forças restritivas e seus aspectos relevantes; das oportunidades, com seus aspectos relevantes; análises das ameaças e seus aspectos relevantes; análise de cenários com as tendências de desenvolvimento, com seus aspectos relevantes, possíveis impactos sobre o PNI e os impactos negativos; as questões da estrada do Colono (como tema novo); análise dos programas de manejo, com os principais problemas, matriz de problemas e soluções e, finalmente, sugestões de cooperação institucional que cada um poderia indicar.

Apesar do PNI constituir-se em unidade gestora desde 1991, o que lhe propicia maior autonomia administrativa e financeira, isso não parece ter contribuído de forma expressiva para que as metas recomendadas fossem implementadas. Como unidade gestora, o PNI recebe os recursos financeiros diretamente da administração central do IBAMA, sem ter que passar pela sua representação estadual (antiga SUPES), em Curitiba.

Entretanto, o que se observa é que as diversas chefias do PNI não deixaram de seguir adiante com a implementação, mas só que essa não se deu a partir dos Planos, mas a partir de circunstâncias como a disponibilidade de recursos financeiros, de pessoal, uma ou outra concessão oferecida ou desativada, melhorias na infra-estrutura e outras. Observa-se que há dificuldade em que os instrumentos de planejamento sejam seguidos, aprimorados, atualizados, questionados e avaliados com rigor, através de indicadores e tratamento estatístico dos resultados.

Várias das questões levantadas pelo PAE não diferem muito do que foi agora visto, na presente revisão do PM. Os estudos e pesquisas, que são importantes para o detalhamento do manejo, praticamente não são estimulados e não se constituem em prioridade para a UC. Exceção deve ser feita no caso do Projeto Carnívoros, do CENAP/IBAMA, que, mesmo não tendo sido previsto no PM, é desenvolvido dentro do Parque, especialmente, e no seu entorno. Outra questão é que as pesquisas, quando ocorrem, pouco resultam em dados retornados para a UC.

Boa parte dos problemas sem solução pode ser resolvida a partir de soluções simples, como no caso daqueles apontados pelos visitantes, registrados no livro de reclamações, que fica na portaria do Parque. Muitos referem-se à falta de informação sobre as normas e os objetivos da UC, o que poderia ter sido resolvido com um simples telefonema de retorno aos interessados (Magro & Vieira, 1998 e 1999).

A falta de pessoal pode ser uma barreira intransponível na maioria dos casos, mas pode ser resolvida indiretamente, no caso específico do PNI. Entretanto, a demora na revisão do convênio do PNI com a Polícia Florestal, o que determina a quase total falta de fiscalização na área, por exemplo, arrasta-se há anos.

No que se refere ao PR, concebido excepcionalmente, não contempla o manejo integrado da UC, mas, antes, propõe apenas aumento da infra-estrutura e ações para o uso público, com praticamente todos os serviços prestados a partir de concessionários. Conforme diz Magro & Vieira (1999), "apesar da preservação dos ecossistemas naturais ser apontada como uma das metas do Programa, o documento trata essencialmente da adequação da Unidade para o atendimento do mercado turístico.

Interessante a ênfase dada às concessões para prestação de serviços ao público pelo PR, pois as reclamações dos visitantes apontam problemas também com funcionários dessas e não somente com os Florestais e outros do PNI. Ainda, as avaliações das concessões feitas até agora para o Parque (Porto Canoas e Trilha do Macuco) são superficiais e não endossam tal recomendação como essencial para um melhor atendimento dos visitantes.

Apesar das Equipes de Análise do Impacto da Visitação e de Planejamento não terem conseguido ter em mãos uma versão única do PR (nem mesmo uma versão "final"), observa-se que, nas suas diversas versões, ele cria novas modalidades de uso e infra-estrutura para o visitante sem, contudo, considerar e se referir aos PM, PUP e PAE, documentos oficiais aprovados pelo IBAMA e em vigor.

Ainda, outro grande problema é que o PR não analisa o PNI como um todo e não considerou as suas mais diversas necessidades, e, mesmo sabendo-se da presente revisão do PM, não se conseguiu que as diversas autoridades do IBAMA, envolvidas na condução das negociações referentes à aprovação e à execução do PR, esperassem a conclusão do PM para adequar-se a ele ou por ele ser absorvido e pudesse atender até a mais atividades e necessidades do uso público, analisadas em profundidade pela Equipe do PM.

 

6.2. Caracterização dos Fatores Abióticos

 

6.2.1. Clima

 

62.1.1. Caracterização do Clima

 

Para a análise da temperatura do ar; umidade relativa do ar regime de ventos, precipitação e insolação, foram utilizadas quatro estações meteorológicas (Quadro 1), que são operadas pelo Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR) e Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Os dados encontram-se no banco de dados da Companhia Paranaense de Energia (COPEL) e mais detalhados em Araújo (1998).

 

A localização das estações pode ser visualizada na Figura 1, que mostra algumas estações meteorológicas do oeste do Estado do Paraná, operadas pelo IAPAR e pelo lNMET. A estação de Cascavel localiza-se à leste do PNI e possui 23 anos de registro de dados, considerando até o ano de 1995. A estação de Planalto está localizada ao sul e possui uma série de 22 anos. A estação de São Miguel do Iguaçu localiza-se ao norte, contando com treze anos de observações, e a estação de Foz do Iguaçu, localizada a leste apesar de possuir a maior série de dados, parou de operar no ano de 1982, e ainda apresenta um grande número de falhas.

 

Quadro 1 - Estações meteorológicas do Estado do Paraná, utilizadas para o estudo dos aspectos climatológicos do Parque Nacional do Iguaçu

 

Código

Estação

Período

Latitude

Longitude

Entidade

02453023

Cascavel

72 a 95

24º 53'

53º 33'

IAPAR1

02553015

Planalto

73 a 95

25º 42'

53º 46'

IAPAR

02554004

Foz do Iguaçu

51 a 81

25º 33'

54º 34'

INMET2

02554026

São Miguel do Iguaçu

82 a 95

25º 11'

54º 08'

IAPAR

1 - Instituto Agronômico do Paraná

2 - Instituto Nacional de Meteorologia

 

Ressalte-se que os algorítimos foram levados em conta, objetivando-se não considerar os dados com códigos de falhas. Não foi possível adotar nenhum procedimento de verificação da qualidade dos dados das estações meteorológicas. Futuramente, seria interessante dispor-se de mais tempo, que permitirá estender o processamento dos dados até o período presente, pois que esses já se encontram na estrutura de banco de dados do Sistema Meteorológico do Paraná (SIMEPAR), que atualmente é alimentada automaticamente.

Figura 1 - Localização das estações meteorológicas aqui consideradas, localizadas próximas ao Parque Nacional do Iguaçu, no Estado do Paraná

 

6.2.1.2. Caracterização das Variáveis Meteorológicas

 

As variáveis meteorológicas medidas nas estações relacionadas, foram utilizadas nesse trabalho com vistas a caracterizar o clima na região do PNI. Foram processadas as seguintes variáveis: temperatura do ar, temperaturas do ar máximas e mínimas, velocidade e direção do vento, precipitação acumulada no dia, umidade do ar e número de horas de brilho do sol.

 

A região geográfica que o PNI ocupa é caracterizada por possuir um clima de transição. Isto fica claro olhando-se os mapas de classificação de clima global de koppen (Koeppe & De Long, 1958), que mostram a fronteira entre o clima tropical, caracterizado pela ocorrência de duas estações chuvosas bem definidas, e o clima temperado, onde as chuvas encontram-se distribuídas igualmente ao longo de todo o ano.

 

Para a região do PNI, que apresenta pluviosidade acima de 900mm, igualmente distribuídas ao longo do ano, e temperaturas médias entre 150C e 250C, a classificação de Koppen indica a existência de um clima subtropical úmido, ou mesotérmico com verão pronunciado (Cfa), com possibilidades de uma pequena seca durante o inverno, o que passaria a caracterizar um clima do tipo Cw.

 

Tal condição de transição é regida pelas condições de larga escala do clima. Uma vez que as condições para a predominância de um dos dois tipos de clima se estabeleça globalmente, essa passa a determinar o clima local segundo suas características dominantes.

 

I. Regime de Chuvas

 

De maneira geral, o regime de chuvas reflete o comportamento de clima de transição, apresentando índices pluviométricos elevados, entre 1.500mm a 2.000mm anuais. Os meses de outubro, novembro, dezembro e janeiro são os meses consecutivos mais chuvosos (Figuras 2 a 5), sendo que o mês de novembro é o que apresenta historicamente a menor pluviosidade do período de chuvas.

 

Os meses de junho, julho e agosto são historicamente os meses de menor pluviosidade. Em anos onde as condições do tempo são dominadas pelas características do clima tropical, podem ocorrer secas de pequena intensidade nestes períodos de inverno.

 

A manutenção de níveis pluviométricos elevados durante todo o ciclo anual é de fundamental importância para os ecossistemas do PNI (ou "Sistema PN") que, por sua vez é responsável pela retroalimentação do ciclo hidrológico, através do processo de evapotranspiração. Sendo assim, o PNI tem papel importante na equalização do regime de chuvas da região.

 

II. Regime de Ventos

 

Os ventos mostram-se bastante variáveis, tanto em relação à sua distribuição espacial, quanto à distribuição temporal. No entanto, apresentam uma marcante constância intra-anual. Na estação de Cascavel, a direção do vento medida nos horários sinóticos das 9,15 e 21h revela que a direção principal dos ventos é de Nordeste (NE) durante todo o ano. Na estação de Foz do Iguaçu, a direção norte (N) é a dominante, apenas sofrendo uma inversão para vento sul (S) no início e final do dia. Na estação localizada no Município de Planalto, o regime de ventos é bastante semelhante ao encontrado na estação de Cascavel, predominando a direção (NE) durante todo o ano. A estação de São Miguel do Iguaçu é a que apresenta a maior variabilidade durante o dia, ao longo de todo o ano. No período da manhã o vento sopra de (E), durante a tarde de (N), e às 21h predomina a direção (S).

 

A intensidade dos ventos medida nas estações relacionadas é em torno de 11km/h, não apresentando variações significativas ao longo do ano. Na estação de Cascavel (Figura 7) registram-se os ventos médios mais intensos, acima de 14km/h, nos meses de inverno. A estação de Foz do Iguaçu (Figura 8), localizada à oeste do PNI, apresenta as intensidades mais fracas, em torno de 4km/h, revelando também uma impressionante constância ao longo do ano. A estação de Planalto (Figura 9) registra ventos com intensidade em torno de 10km/h, apresentando as intensidades máximas nos meses de julho e dezembro. A estação de São Miguel do Iguaçu (Figura 10) apresenta ventos da mesma magnitude dos registrados na estação de Planalto, em torno de 9km/h.

 

 

Figuras 2, 3, 4 e 5 - Precipitação acumulada mensal do histórico obtido nas estações de Cascavel, Foz do Iguaçu, Planalto e São Miguel do Iguaçu, respectivamente, junto ao Parque Nacional do Iguaçu

Observando-se a distribuição espacial das estações em relação ao PNI e as intensidades registradas em cada estação, associadas à direção principal dos ventos pode-se concluir que o PNI age como uma barreira, extraindo quantidade de movimento do ar, ou seja, devido à sua maior rugosidade superficial em relação ao entorno, o PNI cria um gradiente de velocidade de leste para oeste, reduzindo a intensidade dos ventos.

A Figura 6 apresenta uma amostra representativa das rosas dos ventos traçadas para os horários sinóticos das 9, 15 e 21h para o mês de dezembro, na estação de Cascavel. Um total de 324 figuras, compostas pelas rosas dos ventos de nove estações meteorológicas localizadas no oeste do Estado do Paraná, incluindo-se aí Cascavel, São Miguel do Iguaçu, Planalto e Foz do Iguaçu, pode ser encontrado em Araujo et alii (1997).

 

Apesar das características gerais moderadas apresentada para o PNI, em termos das condições anemológicas, sua região tem sido atingida por alguns pequenos ciclones, que já alcançaram proporções catastróficas em um passado recente.

 

Força considerável têm os ciclones do tipo furacão, mais comuns entre abril e maio, no período de transição do avanço dos anticiclones do Atlântico Sul e com o recuo massas de ar tropical de pressão baixa (Maack, 1981). Tal autor relata que tufões da largura de 300 a 400m atingiram Guarapuava e Cascavel, próximo ao PNI, em maio de 1957, destruindo centenas de casas, assim como deixou sua trilha bem marcada dentro das matas, "onde as árvores e copas das araucárias se amontoaram umas sobre as outras".

 

O autor relata que outro tufão de NW atingiu Guarapuava, em maio de 1965, destruindo povoados e faixas de mais de 200km de mata, para oeste, até a Cidade de Planalto, no leste do PNI. Sua força era tal que arrancou árvores com raízes de até 30cm de diâmetro. "Os troncos das araucárias ainda em pé revelava com seus galhos a direção do vento".

 

Figura 6 - Rosa dos ventos na estação de CascaveI, Estado do Paraná, na região do Parque Nacional do Iguaçu, para os horários sinóticos de 9, 15 e 21h, no mês de dezembro

 

Figuras 7, 8, 9, 10 - Velocidade do vento média mensal do histórico obtido nas estações de Cascavel, Foz do Iguaçu, Planalto e São Miguel do Iguaçu, junto ao Parque Nacional do Iguaçu

 

Maack (1981) ainda informa que tais tufões também podem ocorrer em setembro e outubro, quando do avanço das massas de ar de pressão baixa. Segundo o autor, um último tufão dessa magnitude, com trovoadas e forte chuva e com uma frente de 50km, ocorreu em julho de 1965, entre Apucarana e Maringá, destruindo casas, culturas de café e florestas.

 

Agora, mais recentemente em 1998, tais ciclones, em número de três, têm atingido a região e o PNI, destruindo duas grandes áreas da sua Floresta Estacional Semidecídua, tanto próximo à sede, quanto em área próxima ao Posto de Informação e Controle (PIC) de Céu Azul e próximo à ilha do Sol. Cite-se que no mês de abril último (1999) outro ciclone com chuvas e trovoadas atingiu o noroeste do Paraná, em área vizinha ao Parque, no Município de Santa Cruz de Monte Castelo, derrubando e destelhando casas e ferindo pessoas.

 

III. Regime de Temperatura

 

As temperaturas médias mensais obtidas para as quatro estações analisadas mostram a existência de uma sazonalidade clara entre o inverno, com temperaturas médias em torno de 150C, e o verão, com temperaturas médias em torno de 250C. Um destaque especial deve ser dado para os dados da estação de Cascavel, já mais distante do PNI, onde as temperaturas tendem a ser ligeiramente mais baixas, provavelmente devido ao efeito da topografia.

 

As temperaturas máximas e mínimas seguem o mesmo padrão das temperaturas médias. A Tabela 1 resume os valores registrados nas estações, com distinção para os períodos de verão e inverno. A climatologia mensal para cada estação, das temperaturas mínimas, médias e máximas, pode ser vista na seqüência da Figura 11 à Figura 22.

 

Deve-se ressaltar, no entanto, que no interior da floresta, essas temperaturas tendem a ser suavizadas, pois a penetração da radiação solar é menor. Um estudo mais localizado do microclima da floresta, seria de grande importância para diversas áreas temáticas de estudo, podendo subsidiar as ações de manejo.

 

Tabela 1 - Resumo das temperaturas mínima, média e máxima para os meses de verão e inverno, de acordo com dados de estações da região do Parque Nacional do Iguaçu

 

Inverno

Verão

Mínima

Média

Máxima

Mínima

Média

Máxima

Cascavel

10

15

20

20

24

27

Planalto

10

16

20

20

25

31

São Miguel do Iguaçu

10

16

20

20

25

31

Foz do Iguaçu

10

15

22

20

25

35

 

Figuras 11, 12, 13 e 14 - Temperatura média mensal do histórico obtido nas estações de Cascavel, Foz do Iguaçu, Planalto e São Miguel do Iguaçu, respectivamente, na região do Parque Nacional do Iguaçu

 

Figuras 15, 16, 17 e 18 - Temperatura máxima mensal do histórico obtido nas estações de Cascavel, Foz do Iguaçu, Planalto e São Miguel do Iguaçu, respectivamente, na região do Parque Nacional do Iguaçu

 

 

Figuras 19, 20, 21 e 22 - Temperatura mínima mensal do histórico obtido nas estações de Cascavel, Foz do Iguaçu, Planalto e São Miguel do Iguaçu, respectivamente, na região do Parque Nacional do Iguaçu

 

IV. Regime de Umidade

 

Devido à influência direta do regime de precipitação nos campos de umidade, e devido ao fato de a pluviosidade ser quase sempre bem distribuída ao longo do ano, a umidade não apresenta uma sazonalidade tão acentuada. No entanto, existe uma diferença marcante entre os dois pequenos picos de precipitação que se apresentam nos meses de maio (outono) e outubro (inverno). Em outubro a umidade é ligeiramente menor do que em maio, devido à diferença na evapotranspiração, que é maior nesse período. O mês de maio, apesar dos volumes precipitados serem próximos dos precipitados em outubro, apresenta maior umidade, pois a energia disponível para a evapotranspiração é menor.

 

Em função da baixa variabilidade intra-anual da umidade, são apresentados os gráficos da climatologia diária (Figuras de 23 a 26). Em Cascavel a umidade fica em torno 78% ao longo de todo o ano. Em Foz do Iguaçu, registra-se a umidade mais elevada, em torno de 80%, apresentando uma pequena tendência de elevação até 83% no mês de maio. A umidade em Planalto é a mais baixa da região, em torno de 66%, influenciada diretamente pelos menores índices pluviométricos. Em São Miguel do Iguaçu a umidade média é bem próxima da umidade em Cascavel, ficando em torno de 79%.

 

Se é possível afirmar-se algo a respeito dos possíveis efeitos do PNI sobre a umidade da região, a partir dos dados apresentados, o que se poderia dizer é da característica marcante de constância da umidade em elevados níveis durante todo o ano, apesar da sazonalidade apresentada pelo fenômeno da evapotranspiração. Apesar disso, estudos que levem em conta a interação dos efeitos da floresta, conjugados com os efeitos do lago da UHE de Itaipu, poderiam contribuir fortemente para um maior entendimento dessas variáveis locais. Um exemplo é apresentado no Relatório Técnico II do Projeto Mesolit (Dias et alii, 1998), onde se faz um estudo do gradiente de umidade a partir de Foz do Iguaçu até Cascavel, ficando evidente o efeito do lago.

 

Figuras 23, 24, 25 e 26 - Umidade média diária do histórico obtido nas estações de Cascavel, Foz do Iguaçu, Planalto e São Miguel do Iguaçu, respectivamente, na região do Parque Nacional do Iguaçu

 

Uma sazonalidade mais acentuada em função da variação astronômica do sol era esperada. No entanto, o que se percebe é a ausência de uma sazonalidade marcante, o que provavelmente pode ser explicado pela maior presença de nebulosidade no verão e também pela distribuição de chuvas durante o ano todo. A seqüência da Figura 27 à Figura 30 ilustra a climatologia da insolação nas estações consideradas, onde pode-se perceber que o número médio de horas de brilho intenso do sol está em torno de seis a oito horas por dia.

 

Figuras 27, 28, 29 e 30 - Insolação média diária do histórico obtido nas estações de Cascavel, Foz do Iguaçu, Planalto e São Miguel do Iguaçu, respectivamente, na região do Parque Nacional do Iguaçu

 

6.2.1.3. Evapotranspiração

 

Para a descrição das características da evapotranspiração do PNI, adota-se aqui o estudo de Caramori & Arita (1988), que aplicaram o método de Penman (1956) aos dados das treze estações meteorológicas do Estado do Paraná operadas pelo IAPAR. Das treze estações analisadas para todo o Estado são apresentados os resultados obtidos para as estações de Cascavel e Planalto que são as estações mais próximas ao PNI. O estudo com base nos totais médios anuais, identificou Ires regiões distintas de evapotranspiração: entre 1.200 a 1.400mm, para regiões com clima Cfa, entre 800 a 1.000mm, para regiões com clima Cfb. e, por fim, a região de Piraquara e Morretes com menos de 800mm de total médio anual.

 

O PNl está localizado na região dois com totais médios anuais entre 800 a 1.000mm. A Figura 31 ilustra a variabilidade intra-anual, que mostra claramente uma evapotranspiração potencial média mensal em torno de 120mm para os meses mais quentes (novembro, dezembro e janeiro), chegando a um mínimo de 35mm para os meses mais frios (maio, junho e julho).

 

É importante perceber a influência do fenômeno da evapotranspiração em outros regimes como a umidade do ar, conforme comentado anteriormente. O conhecimento mais aprofundado dos mecanismos que regem as trocas superfície /atmosfera pode responder diversas questões importantes para que se entenda melhor o papel da floresta no equilíbrio do ecossistema da região.

 

Figura 31- Evapotranspiração potencial nas estações de Cascavel (esquerda) e Planalto (direita), na região do Parque Nacional do Iguaçu

 

Estudos como o Mesolit (Dias et alii, 1997; Dias et alii , 1998; Araujo et alii, 1998; Gobbi et alii, 1998a e Gobbi et alii, 1998b), onde se busca compreender os efeitos da superfície, por meio de diferentes canários de cobertura vegetal e uso do solo sobre os padrões de clrculação atmosférica local, reunindo a aplicação de técnicas de medição de fluxos turbulentos com modelagem de mesoescala, apresentam um grande potencial para melhorar as estimativas de evapotranspiração e, consequentemente, do balanço hídrico para a região do PNI.

 

Elementos desse estudo, atualmente desenvolvido pelo SIMEPAR em conjunto com a empresa ltaipu Binacional podem ser estendidos ao PNI, com vistas a subsidiar as diversas áreas temáticas envolvidas no manejo, que tenham necessidade de informações mais detalhadas a respeito do microclima do Parque.

 

6.2.1.4. O Fenômeno EI Niño

 

EI Niño, fenômeno climático conhecido, refere-se a um aquecimento pronunciado das águas superficiais do oceano Pacifico tropical, nas suas regiões leste e central, que ocorre com uma freqüência em torno de três a seis anos. Associado a uma fraca corrente marítima quente para o sul, ao longo da costa do Peru e do Equador, recebeu inicialmente a denominação de EI Niño, devido ao fato de surgir perto da época do Natal.

 

Apenas mais recentemente tal denominação passou a ser relacionada com os aquecimentos mais pronunciados do oceano Pacífico. Em resumo, o EI Niño pode ser definido como o "aquecimento das águas do oceano Pacífico, nas proximidades do Equador" (Nobre, 1998), responsável pela formação de correntes no Pacífico (Ciência Hoje, 1997).

 

O fenômeno configura-se na região tropical do Pacífico entre os 120º de Longitude Oeste, onde se localizam as águas mais quentes do mundo, atingindo mais de 290C próximo ao Equador, e 80º de Longitude Oeste, junto à América do Sul, com águas mais frias, atingindo temperaturas inferiores a 200C. Em condições normais, os ventos alísios, que sopram de leste, empurram as águas superficiais mais aquecidas para junto da costa da Indonésia, causando um acúmulo de água quente e uma elevação de nível de até 60cm. As águas mais profundas e mais frias tendem a subir à superfície na costa da América do Sul.

 

Em condições de EI Niño, os ventos alísios ficam mais fracos, podendo soprar no sentido inverso, ou seja, de oeste. Dessa forma, as águas mais quentes, inicialmente acumuladas no Pacífico oeste, espalham-se mais para leste e a subida de águas profundas e frias na costa leste é reduzida. Essas alterações na configuração da temperatura da superfície do oceano Pacífico causam diversos impactos, entre os quais, alteram a circulação atmosférica tropical, provocando um deslocamento para leste da região de chuvas tropicais mais intensas.

 

Os impactos causados pelo fenômeno EI Niño, na região tropical são facilmente explicáveis pelo que foi visto até aqui, ou seja, o deslocamento da região de precipitações intensas para leste e o aumento na temperatura na faixa tropical, devido à liberação de calor na atmosfera, quando o vapor de água se transforma em chuva.

 

No início, as manifestações do EI Niño, chegaram a " sabotar " as previsões das modelagens de clima. Em 1997, com efeito do EI Niño, as águas do Pacífico chegaram a aumentar 20C em certas regiões e tempestades até então previsíveis (comuns) na Indonésia, manifestaram-se no leste. Isso levou a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos da América (EUA) a prever novos eventos do EI Niño ocorridos em 1998, com conseqüências para o mundo inteiro: seca mais intensa na Austrália, na Índia, no Brasil e no leste da África e aumento de chuvas torrenciais e inundações nos desertos do Peru à Califórnia e dos incêndios nas florestas da Indonésia (Ciência Hoje, 1997).

 

Como efeitos mais notáveis do EI Niño no Brasil, o instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a Nasa e as universidades de Washington e Texas, em estudo conjunto, que também investigou efeitos do aquecimento global no continente americano, registraram um número alarmante de duzentos mil relâmpagos no Sudeste do Brasil, em abril de 1992, quando tal fenômeno estava em atividade (Ciência Hoje, 1998).

 

Segundo Nobre (1998), de acordo com trabalhos de previsões pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do INPE, e de outros meteorologistas, já era sabido que entre os efeitos do EI Niño estavam as estiagens ocorridas nas áreas norte e leste da Amazônia e na parte norte do Nordeste brasileiro. De acordo com esse autor, os efeitos do EI Niño, iniciados em 1997 e que perduraram em 1998, foram considerados os mais intensos dos últimos 150 anos, conforme registros históricos sobre o clima e sobre o oceano Pacífico.

 

De qualquer modo, explicar a influência desse fenômeno, aparentemente restrito a essa região do Pacífico, em regiões mais distantes como o sul do Brasil parece ainda merecer estudos mais específicos. No entanto, sabe-se que as fontes de calor geradas a partir do fenômeno podem se propagar pela atmosfera, na forma de ondas, e que, por causa da influência da forma da Terra (rotação) e as diferenças de aquecimento da sua superfície pelo Sol, existem caminhos de preferência para a propagação dessa energia na forma de "trens de ondas".

 

Estudos que estão sendo realizados pelo grupo de meteorologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), dirigido pela Professora Alice Grimm, do Departamento de Física, em conjunto com o SIMEPAR, procuram identificar os reais impactos que os fenômenos EI Niño e La Niña, novo fenômeno, com manifestações diversas, podem causar na região do Paraná.

 

Os estudos de Grimm et alii (1997) mostram que, em condições de EI Niño, a região sul do Brasil é afetada pela ocorrência de chuvas acima do normal, tanto em intensidade, quanto com relação à persistência. Isso parece estar associado ao fortalecimento do jato subtropical e de seu posicionamento. O jato subtropical é uma corrente que existe na atmosfera subtropical, soprando de oeste para leste, posicionado em torno de 10km de altitude. Devido ao fato da propagação desses trens de onda dependerem da circulação atmosférica e, por sua vez, essas dependerem das estações do ano, nem sempre um forte aquecimento associado ao EI Niño provoca impactos no sul do Brasil.

 

A partir da utilização de mais de cem estações pluviométricas em todo o Estado do Paraná, considerando o inverno do ano em que o EI Niño se inicia até o inverno do ano seguinte, os resultados obtidos a partir de testes estatísticos específicos mostram que o impacto sobre as chuvas no Paraná é maior na primavera do ano em que o fenômeno inicia, havendo também, na região sul/sudes te do Estado, uma tendência ao excesso de chuvas no outono/inverno do ano seguinte.

 

Na Figura 32 apresenta-se a distribuição normal da chuva média acumulada no período outubro/novembro/dezembro no Estado do Paraná, que pode ser contrastada com a Figura 33, onde se mostram os desvios médios da chuva durante o mesmo período, em anos onde ocorreram o EI Niño.

 

A probabilidade de ocorrência de chuva acima do normal, no período de outubro/novembro/dezembro, em anos de EI Niño é mostrada na Figura 34, onde se pode perceber que na região oeste do Estado a probabilidade de que chova acima da média chega a 90 % e os desvios chegam a 40 % da chuva média.

 

Nas Figuras 32, 33 e 34, o eixo das abcissas representa a longitude (em graus) e o eixo das ordenadas representa a latitude (em graus). A escala de cores tendendo para o vermelho representa as maiores intensidades de chuva, enquanto a escala tendendo para o azul aponta para as menores intensidades de chuva.

 

Cabe ressaltar que apesar das informações e dos conhecimentos acumulados a respeito dos possíveis impactos dos fenômenos EI Niño e La Niña, no Estado do Paraná, os estudos encontram-se em fase inicial, apresentando forte potencial de evolução, podendo ser estendidos para outras variáveis e para regiões mais específicas. O SIMEPAR e a UFPR, juntos, têm desenvolvido programas de acompanhamento das condições climáticas, em especial durante a ocorrência desses fenômenos climáticos, desenvolvendo, assim, uma grande capacidade de monitoramento e agregação das informações em suas rotinas operacionais.

 

Figura 32 - Distribuição da chuva mediana acumulada (mm) no Estado do Paraná, no período outubro/novembro/dezembro. Os valores nos retângulos brancos significam altura de chuva (mm), registrada em um pluviômetro no Estado (extraido de Grimm et alii, 1997)

 

Figura 33 - Desvios médios da chuva no Estado do Paraná, durante o período de outubro/novembro/dezembro, em anos de EI Niño. Os valores nos retângulos brancos significam os desvios médios (%) da chuva no Estado, em anos de EI Niño (extraído de Grimm et alii, 1997)

No caso do fenômeno La Niña, esse não pôde ser explorado aqui por ser mais recente e haver poucos dados disponíveis sobre seus efeitos no Brasil e consequentemente, na região do PNI, mas pode-se dizer que o fenômeno ocorre quando as condições de aquecimento das águas do oceano Pacifico se invertem com relação às condições do EI Niño, ou seja, quando ocorre o resfriamento das águas do Pacífico central e leste e leve aquecimento no Pacífico oeste, acentuando a diferença de temperatura oeste/leste.

 

Um maior detalhamento dos estudos climatológicos do PNI é necessário, objetivando dar mais segurança na tomada de decisão acerca das intervenções necessárias ao seu manejo, especialmente aqueles nas áreas das trocas entre a floresta e a atmosfera, impacto da floresta sobre a atmosfera em mesoescala e hidrologia da floresta. Quando possível, devem ser concebidos em consonância com os estudos de fragmentação de habitats.

 

Figura 34 - Probabilidade (%) de chuva acima do normal no período de outubro/novembro/ dezembro, em anos de EI Niño. Os valores nos retângulos brancos significam a probabilidade (%) da ocorrência de chuva no Estado, acima do normal, em anos de EI Niño (extraído de Grimm et alii,1997)

 

6.2.2. Levantamentos Geoambientais

O que se tem a seguir são os resultados dos levantamentos geo-ambientais efetuados no PNI por Salamuni et alii (1998), quanto aos seus aspectos lito-estruturais, geomorfológicos e geotécnicos, incluindo a descrição dos solos. Através desses levantamentos foi elaborada uma avaliação preliminar da fragilidade do Parque, do ponto de vista de seus condicionantes físicos, no sentido de subsidiar o seu zoneamento.

 

Os trabalhos foram executados a partir da análise das informações previamente coligidas em experiências anteriores dos autores na região, sendo usadas fotografias aéreas e as imagens de satélite disponíveis como instrumentos auxiliares.

 

Na seqüência, foi realizado um reconhecimento expedito de campo na área de interesse, para confirmações dos perímetros e elucidação de alguns pontos duvidosos. Foram elaboradas lâminas petrográficas de três pontos do Parque, na tentativa de caracterizar-se a composição das rochas locais.

 

6.2.2.1. Geologia Geral

Os trabalhos de campo, efetivados há vários anos e aqueles realizados recentemente, denotam algumas diferenças já marcantes nos limites do Parque, as quais requerem cuidados redobrados no manejo do mesmo, particularmente na proteção de pontos geologicamente mais suscetíveis (Salamuni, 1969).

 

A evolução geológica regional está, fundamentalmente, condicionada ao tipo de vulcanismo que era amplamente predominante ao tempo desses fenômenos, conforme explicado adiante.

 

Do ponto de vista estratigráfico, o empilhamento das lavas compreende um espaço de tempo relativo ao Triásico Superior. As idades determinadas radiometricamente (através da radioatividade), entretanto, indicam que o vulcanismo principal se deu no Cretáceo inferior-médio, entre 120 a 130 milhões de anos. Compreende-se, assim, que as rochas vulcânicas do Terceiro Planalto Paranaense, onde está o PNI, mostram idades que podem variar entre aproximadamente 165 e 120 milhões de anos.

 

A evolução das características geomorfológicas locais, está intimamente relacionada às sucessivas modificações climáticas, que ocorreram no sul do Brasil, a partir do Plioceno, estendendo-se no Pleistoceno até os dias atuais.

 

Os climas variaram de áridos, semi-áridos a úmidos e deixaram claras evidências nos processos geomorfológicos do Quaternário, como é o caso das paisagens tabuliformes (mesetas; lembram uma mesa) e dos restos de pedimentos (formas de superfície desenvolvidas em clima desértico), que eram próprios de ambientes desérticos ou semi-desérticos.

 

A drenagem principal é orientada pelos principais lineamentos estruturais, principalmente os de gênese tectônica. Em linhas gerais, esses lineamentos seguem a inclinação dos derrames basálticos para oeste-sudoeste. Por sua vez, as fraturas atectônicas são responsáveis pelas drenagens secundárias.

 

I. Considerações sobre o Vulcanismo

 

A área do Parque constitui uma pequena parcela dos amplos derrames vulcânicos, que ocupam considerável extensão da bacia do Paraná (Mapa 1).

 

Tais derrames, geralmente conhecidos como efusivas basálticas ou simplesmente basaltos, independente de sua eventual variação litológica, ocupam aproximadamente 2/3 do território paranaense, distribuindo-se em quase toda a sua porção oriental. Na mencionada área, as vulcânicas são geralmente de composição básica, de tipo toleítico e eventualmente ácidas.

 

As únicas atividades vulcânicas modernas, que podem servir de modelo aproximado para o vulcanismo que originou as rochas do PNI, são aquelas que ocorrem atualmente na Islândia. Na realidade, trata-se do chamado vulcanismo de fendas, que representa fraturas geralmente com vários quilômetros ou, pelo menos, várias centenas de metros de extensão, através das quais se procediam os derrames, praticamente sem episódios explosivos. Assim, as lavas fluíam por essas fraturas e, devido à sua maior fluidez, espalhavam-se por extensas superfícies.

 

O tipo de vulcanismo da região é considerado um dos mais extensos processos de fissura do mundo, e as rochas basálticas produzidas constituem a formação Serral Geral (Almeida & Carneiro, 1998 e Carneiro & Almeida, 1990). Segundo tais autores, "nesse tipo de vulcanismo, a lava derrama-se a partir de rachaduras no solo, sem a presença de vulcões típicos, em forma de cone".

 

Derrames sucessivos de lavas produziam seu empilhamento, que hoje pode ser visto, por exemplo, nas cataratas do rio Iguaçu, dando a impressão de degraus e facilitando a formação de quedas de água.

 

II. Litologias

 

Afigura-se importante conhecer a composição mineralógica das rochas do PNI ou, pelo menos, ter uma visão geral da mesma para que se possa, numa eventual necessidade, conhecer mais adequadamente os solos delas derivados. Isso porque a alteração química desses minerais dará lugar a diversos tipos de compostos, que serão utilizados no metabolismo dos vegetais, aos produtos químicos que influirão na mineralização da água subterrânea, aos óxidos de ferro que darão as cores do solo e aos minerais argilosos que darão sustentação a um grande número de seres vivos, que fazem do solo o seu habitat.

 

Dessa forma, com a intenção de se caracterizar a composição mineralógica das rochas do Parque, foram coletadas amostras em três pontos distintos (Mapa 1) e, posteriormente, realizadas análises petrográficas no laboratório do Departamento de Geologia, da UFPR, com os resultados a seguir descritos de forma sucinta (Quadro 2).

 

Quadro 2 - Composição mineralógica de amostras do Parque Nacional do Iguaçu

 

Amostra

Minerais essenciais

Minerais acessórios

Mineirais secundários

Classificação da amostra

1. Procedente das proximidades das Cataratas, no local denominado Salto do Macuco

Labradorita: 45%

 

Augita: 20%

-

Opacos: 15%

Óxidos (responsáveis pela cor vermelha): 10% e

Argilo-minerais: traços

Basalto

(parcialmente alterado)

2. Coletada no limite leste do Parque, divisa dos Municípios de Céu Azul e Santa Tereza do Oeste

Quartzo: 35%

Biotita: 30%

Oligoclásio: traços

Turmalina: traços

Óxidos: 15%

Opacos: 5%

Argilo-minerais: 15%

No caso, pode ser considerada "muscovita - biotita-quartzo-hornfels", ou seja, rocha de metamorfismo de contato, composta de quartzo fino, associado com a biotita, oligoclásio e muscovita

3. Proveniente do limite norte do Parque Nacional com o Município de Céu Azul, nas proximidades da BR-277

Labradorita: 35%

 

Augita: 45%

-

Opacos: 10%

Óxidos: 0,5%

Argilo-minerais: 5%

Basalto

 

III. Conclusões Acerca da Litologia

 

Embora insuficientes, as lâminas mostraram sua importância porque permitem definir aspectos litológicos de pontos distantes do Parque, circunstância que admite extrapolações para locais afins. Além disso, sob o aspecto da alteração química, infere-se que os produtos derivados são bastante similares, mesmo que a amostragem tenha sido efetivada em locais relativamente afastados. A presença de hornfels sugere metamorfismo de contato, possivelmente em pequeno corpo arenoso, intercalado, nas lavas básicas.

 

A alteração química não é exatamente similar em todos os pontos do Parque, mesmo porque ocorrem algumas variações da composição mineralógica das rochas. Essas podem ser mais básicas, mais ácidas ou, em casos esporádicos, mostrar metamorfismo de contato, o que pode significar modificações de ordem geoquímica mais intensas.

 

IV. Outras Litologias Associadas

 

Em regra geral e em caráter subsidiário, é relativamente comum a ocorrência de outros tipos de rochas associados aos basaltos. Brechas (rochas que podem ser de origem sedimentar ou vulcânica, formadas por fragmentos angulares) basálticas têm sido freqüentemente mencionadas na área e são, sem dúvida, uma presença marcante no conjunto litológico do Parque. Em casos mais raros, chama-se a atenção para a presença de brecha vulcânica, encontradas mais para leste do Parque, originadas por fenômenos "micro-explosivos", pequenas crateras alinhadas ao longo das fraturas principais (a exemplo do que sucede no vulcanismo da Islândia atualmente).

 

Tais rochas podem estar relacionadas à acumulação de água, originando algumas lagoas que são encontradas no Parque. No entanto, só um mapeamento com maior detalhe poderá esclarecer esses pontos.

 

Apesar da inexistência de mapeamento detalhado, é possível que ocasionalmente ocorram rochas ácidas na área do Parque e nas vizinhanças imediatas. Tais rochas podem ser de caráter andesítico, dacítico ou riodacítico, que são encontrados mais para leste. Algumas evidências da eventual presença dessas litologias são as diferenças do padrão de decomposição das mesmas e da coloração diversa daquela do regolito (parte alterada da rocha) basáltico.

A. Minerais Secundários

 

É comum que no topo de cada derrame, preenchendo amígdalas (antigas vesículas), ocorra uma grande variedade de minerais secundários, que se tornam bastante importantes para circulação e armazenamento de água subterrânea (Schneider, 1964). Muitos desses minerais são responsáveis pela eventual mineralização da água, sendo dignos de menção as zeólitas, a calcita, os silicatos diversos, dentre outros que ocorrem esparsos ao longo dos derrames.

V. Principais Características dos Derrames

 

No conjunto, os derrames consistem em empilhamentos tabulares sucessivos, cuja soma pode atingir centenas de metros. As unidades podem variar desde cerca de 1m até perto de 100m, embora sejam mais freqüentes espessuras individuais entre 10 e 20m e, mesmo, entre 30 e 40m. Na área do Parque, a espessura máxima deve variar entre 700 e 750m, com eventuais variações locais.

 

Critérios que têm provado ser bastante úteis para determinar a base e o topo de um dado derrame têm sido os horizontes amigdalóides, que freqüentemente mostram estruturas fluidais.

 

O aspecto de vale suspenso do rio Iguaçu, em relação ao rio Paraná, é dado em função da maior energia deste último que escava seu leito com maior velocidade que seu tributário, o rio Iguaçu. A erosão remontante dá-se rio acima, em virtude dos padrões de fraturamentos, principalmente das juntas verticais e das superfícies de contato entre diferentes derrames, promovendo o recuo das cataratas do rio Iguaçu.

 

É comum observar, em vários afloramentos, a disjunção colunar do basalto que pode ocorrer em prismas de base trigonal, tretragonal, pentagonal ou hexagonal, em exposições na BR-277, entre os Municípios de Céu Azul e Santa Tereza do Oeste, no limite norte do Parque.

 

A porção superficial dos basaltos acha-se invariavelmente alterada, desenvolvendo um regolito argiloso ou argilo-arenoso, de espessuras muito variáveis e de coloração castanho-avermelhada.

 

6.2.2.2. Síntese da Geologia Estrutural

 

Os principais tipos de estruturas observadas na zona estudada são os sistemas de fraturas, geneticamente classificáveis em tectônicos e atectônicos.

 

No primeiro caso, as fraturas de origem tectônica compreendem lineamentos em geral paralelos, de extensões consideráveis e de direções claramente definidas. Localmente, constata-se claramente que as mais importantes tendências são: NNE-SSW, do vale do rio Gonçalves Dias; NNE-SSE, do rio Floriano; NE-SW, do rio Castro Alves; NE-SW, do rio Floriano, e N-S, do rio Benjamim Constant, por exemplo. As mesmas tendências gerais acima referidas são observáveis em importantes segmentos do rio Iguaçu, inclusive na área das Cataratas.

 

Quanto às estruturas atectônicas, essas não mostram direções definidas. Entretanto, em fraturas de menor expressão, é possível verificar uma nítida direção preferencial N 40-500W ou N 50-600W, direções essas bem definidas na parte norte do Parque, nos afluentes menores dos rios Floriano, Castro Alves e Gonçalves Dias.

 

O mergulho geral dos derrames basálticos faz-se para oeste-sudoeste, sendo de relativamente pequena expressão, segundo vários autores, ou seja, de poucos metros por quilômetro (Cordani & Vandoros, 1967).

 

6.2.2.3. Geomorfologia

 

Para que se entenda melhor os detalhes geomorfológicos da área do Parque e suas circunvizinhanças, é fundamental que se tenha presente as circunstâncias climáticas e estruturais, responsáveis pelo modelado superficial.

 

Sem dúvida, um dos aspectos que mais chamam a atenção é a freqüência das formas tabulares, cuja incidência no sudoeste do Paraná é uma constante. Aliás, a paisagem tabuliforme, principalmente nas regiões basálticas, embora em boa parte subordinada à estrutura dos derrames, é também decorrente dos fatores climáticos vigentes no transcurso do Quaternário, em função da alternância de climas áridos, semi-áridos e úmidos, que interagiram com outras causas para a consolidação da paisagem atual.

 

Ao contrário do que ocorria durante a vigência dos climas áridos ou semi-áridos do Quaternário, a tendência do clima atualmente vigente é o arredondamento das formas, regra geral sob climas úmidos ou temperados.

 

Restos de pedimentos e de antigos pediplanos podem, ainda ser observados em diversos locais do oeste e do sudoeste. Tais pedimentos tanto podem ser detríticos como rochosos.

 

A drenagem é, a grosso modo, retangular a sub-retangular e sub-dendrítica nos detalhes menores. Uma análise dos principais rios que banham o Parque, particularmente os da margem direita do Iguaçu, como é o caso dos rios Benjamin Constant, Castro Alves, Floriano, Gonçalves Dias, dentre outros de menor expressão, mostra notável paralelismo segundo a direção NE-SW. Esta mesma tendência é verificada ao longo do vale do rio Iguaçu, no seu percurso no Parque. Além desse direcionamento, outro bastante pronunciado e de expressão regional é aquele NW-SE.

 

Conforme observa-se nos mapas anexos, essas direções são as principais responsáveis pela configuração hidrográfica no domínio do Parque e seus arredores imediatos. Isso significa dizer que as calhas desses cursos d’água estão encaixadas em antigas linhas de fraqueza da crosta, através das quais os mesmos impõem sua dinâmica de evolução.

 

Dessa maneira, pode-se estabelecer que os principais cursos d’água são direcionais em se considerando os mais importantes lineamentos tectônicos, mas também podem ser classificados como conseqüentes em função do mergulho dos derrames basálticos para oeste-sudoeste.

 

O rio Iguaçu, pode ser considerado, consequentemente, influenciado pelo mergulho dos derrames para oeste-sudoeste.

 

I. Compartimentos Geomorfológicos

 

Na área do PNI dois domínios geomorfológicos básicos foram concebidos com base na observação das cartas topográficas, imagens Landsat e fotografias aéreas. Tal divisão encontra-se representada no mapa de compartimentação do relevo (mapa 1). No entanto, a compartimentação não pode ser considerada definitiva, uma vez que os mapas-base disponíveis, por ocasião dos estudos, não definiam os níveis hipsométricos e nem as declividades ocorrentes no Parque.

 

Mesmo assim, puderam ser definidos, a grosso modo, os seguintes compartimentos:

terrenos menos acidentados, prevalecendo formas arredondadas, suavemente onduladas a onduladas, desenvolvendo padrão de drenagem dendrítico, retangular a sub-retangular, interflúvios amplos e baixas declividades, manifestando-se principalmente entre as bacias dos rios Floriano e São João. As características são distintas para a calha do rio Iguaçu, na porção sul do Parque, onde são observadas feições de relevo acidentado, como quedas d’água, corredeiras, paredões basálticos expostos e interflúvios estreitos, sendo as Cataratas a máxima expressão dessa porção do PNI e

 

características semelhantes às anteriormente expostas são encontradas no segundo compartimento geomorfológico concebido para o PNI, ocupando o setor centro-norte do mesmo. Nessa porção do Parque, principalmente nas áreas mais interiores, ocorrem terrenos com relevo acidentado, marcados por feições escarpadas, materializadas por paredões basálticos expostos, com inclinações verticais a subverticais, além de quedas d’água, corredeiras e desníveis acentuados nas vertentes.

 

Em termos paisagísticos, o setor sul, em especial a calha do rio Iguaçu, e o setor centro-norte representam os terrenos com maior diversidade de belezas cênicas, entre as quais destaca-se o conjunto de quedas que conformam as cataratas do Iguaçu. Feições semelhantes, porém em escala reduzida, manifestam-se nas áreas de relevo acidentado, conforme já descrito, e constituem áreas potenciais à visitação.

 

 

Sob o ponto de vista dos aspectos físicos, recomenda-se que as áreas mais interiores no setor centro-norte, sejam preservadas de eventuais interferências externas, mesmo aquelas relacionadas à visitação pública, já que as mesmas constituem o núcleo das principais bacias hidrográficas, bem como as zonas de maior preservação do PNI.

 

II. Processos de Origem Fluvial

 

O PNI pode ser entendido como um grande geossistema, com predomínio de processos fluviais, cujo entendimento é definido pela integração das variáveis clima, solos, rochas, declividade e cobertura vegetal e que, atualmente, se constitui no principal agente modelador da paisagem da região.

 

De uma forma geral, na natureza, os rios estão em equilíbrio com seus fluxos, havendo um balanço entre a descarga líquida, o transporte de sedimentos, a erosão e a deposição, de tal modo que o rio mantém a proporcionalidade do tamanho de sua calha até a sua foz.

 

O sistema de drenagem pode ser considerado como um sistema aberto, onde ocorre entrada de energia alimentada pelo clima local e pela estruturação física das rochas (falhas e fraturas). A eliminação dos fluxos energéticos dá-se pela saída da água, sedimentos e compostos em solução.

 

Existe uma inter-relação dinâmica entre o relevo mais abrupto do Parque e o vale do Iguaçu, que permite uma constante troca de causa e efeito entre todos os elementos da Bacia. Assim, as mudanças de uso do solo, incluindo os processos naturais gravitacionais, que estão ocorrendo nas encostas, determinam os processos erosivos e promovem a alteração da dinâmica fluvial, responsável pela formação de uma grande variedade de núcleos biológicos, estruturas e condições específicas que, em conjunto, determinam o ecossistema local, a saber, a existência de áreas úmidas (brejos, várzeas e lagoas) dentro do Parque.

 

O rio Iguaçu, na parte sudoeste, apresenta a ocorrência de formas meândricas, que representam esse estado de relativa estabilidade do canal, configurando um ajustamento entre todas as variáveis hidrológicas (velocidade do fluxo; declividade, largura e profundidade do canal; rugosidade do leito; carga sólida e vazão).

 

Tal equilíbrio, no entanto, vem sendo alterado como resultado da atividade humana na área do entorno do Parque, como, por exemplo, a substituição da vegetação natural por terras cultivadas e a urbanização crescente, dois fatores com grande influência sobre as bacias de drenagem e, por conseguinte, sobre seus canais constituintes e a construção de sucessivas UHE, barrando o rio em vários trechos, inclusive bem próximo ao Parque, como no caso da UHE de Salto Caxias.

 

6.2.2.4. Considerações sobre a Água Subterrânea

 

Como foi dito, o PNI é parte integrante de uma das maiores reservas mundiais de água subterrânea: a formação Serra Geral, componente do Grupo São Bento, que é uma unidade estratigráfica do Mesozóico.

 

A formação Botucatu, à qual está vinculada a formação Serra Geral, onde se encontra o PNI, e as demais vinculadas à primeira "constituem a principal parte do reservatório subterrâneo de água das bacias do Paraná e do Chaco-Paraná. Esse reservatório, um dos maiores do mundo, com cerca de 1,2 milhões de km², foi batizado recentemente de aqüífero Guarani" (Almeida & Carneiro, 1998).

 

Mapa 1 - Compartimentação do relevo do Parque Nacional do Iguaçu

 

Situadas nos países que formam o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), tais águas necessitarão de acordos internacionais para seu aproveitamento, além de mais estudos regionais e locais (Almeida & Carneiro, 1998).

 

Efetivamente, toda a água extraída do subsolo origina-se daquela formação, através de poços tubulares, no sudoeste do Paraná. Os aqüíferos principais são representados pelas tramas estruturais, configuradas pelos sistemas de fraturas tanto tectônicos como atectônicos, que caracterizam os empilhamentos de lavas.

 

As fraturas tectônicas são, a rigor, lineamentos, de direções definidas e extensões geralmente consideráveis. As fraturas atectônicas, por sua vez, são, em regra, fraturas de pequena extensão, sem direções definidas, geralmente assistemáticas. Originam-se em função dos processos de resfriamento das lavas. Em resumo, para a circulação e o armazenamento transitório da água subterrânea, ambas são igualmente importantes.

 

Além disso, quando incidem nas faixas de basaltos amigdalóides (aqueles preenchidos com minerais secundários) são passíveis de importante mineralização da água. É oportuno enfatizar que a manutenção de reservas florestais é de fundamental importância para a recarga dos aqüíferos basálticos e para o comportamento da água subterrânea.

6.2.2.5. Solos

Os estudos pedológicos foram baseados em dados secundários, ou seja, sem etapa de campo, obtidos através do Levantamento de Reconhecimento de Solos do Estado do Paraná, escala 1: 600.000 (EMBRAPA, 1981). Basicamente foram encontrados quatro grandes grupos, Latosol Roxo, Terra Roxa, Solos Hidromórficos e Solos Litólicos, descritos a seguir (Mapa 2).

I. Latosol Roxo

 

Os latossolos são solos espessos, com perfis de alteração de dezenas de metros, homogêneos, porosos, com aspecto maciço, porém friável quando seco. São solos típicos de áreas planas ou de colinas suaves e dos topos dos morrotes com declividades entre 1 e 10%.

 

Dependendo da rocha-mãe, terão diferentes texturas: argilosas, se forem basaltos, e arenosos, se forem arenitos. São, portanto, solos com pouca suscetibilidade natural à erosão, escorregamentos etc.

 

Os principais problemas geotécnicos desses solos advêm de uso inadequado, provocando a concentração de água em grandes volumes no solo. Se atingida a saturação total, os latossolos perdem a estrutura e sofrem colapso, provocando abatimentos no terreno.

 

Se a concentração de água gerar sulcos na superfície do solo, rapidamente eles podem evoluir, formando grandes ravinas que, ao atingir o lençol freático, formam voçorocas de grande porte, caracterizando-se um intenso processo erosivo de difícil controle.

 

Os latossolos argilosos apresentam como principal problema a compactação, que diminui os poros de maneira acentuada, comprometendo a capacidade de infiltração da água e gerando processos de degradação permanentes. Os latossolos são, portanto, solos naturalmente estáveis e pouco suscetíveis aos problemas geotécnicos. No entanto, sob condições intensas de uso, desenvolvem graves processos de degradação.

 

Na região do PNI são solos muito profundos, formados a partir de rochas eruptivas básicas, com seqüência de horizontes A, B e C pouco diferenciados, com transições geralmente difusas. Possuem coloração arroxeada, sendo muito porosos, muito friáveis e acentuadamente drenados.

 

A coloração está compreendida entre o vermelho escuro acizentado e o vermelho escuro, pois, normalmente, são de matriz 2,5 YR (vermelho-amarelado) e 10R (vermelho), com valor constante 3 e croma (grau de saturação ou de pureza da cor, cuja escala varia de 0 a 10) variando de 2 a 6. Os cromas mais elevados estão no horizonte B. Para mais detalhes sobre as características de matriz, valor e croma, consultar Munsell Color Company (1946) ou Bigarella (1996). Quando amostras secas em estado natural são comparadas com amostras secas trituradas, a diferença de cor entre elas é muito acentuada.

 

A textura é muito uniforme em todo perfil, sendo que a classe textural, tanto no horizonte A como no B é muito argilosa, possuindo, portanto, baixo gradiente textural.

 

O horizonte A, que possui aproximadamente 40cm de espessura, apresenta estrutura granular fraca ou moderadamente desenvolvida, enquanto que a do B é microgranular, com aspecto de maciça porosa ou em blocos subangulares, com grau de desenvolvimento fraco. Tanto o horizonte superficial como os inferiores são muito porosos.

 

O grau de consistência ao longo do perfil é macio quando seco, muito friável quando úmido e quando molhado é plástico e pegajoso, embora possa ser ligeiramente plástico e ligeiramente pegajoso no B3.

 

Apesar da grande estabilidade da estrutura, o grau de coesão que une os pequenos agregados nos horizontes inferiores do perfil é muito fraco, mesmo em solo seco, transformando-se os torrões com muita facilidade em material pulverulento, conhecido vulgarmente como "pó de café ".

 

Quando as amostras tomadas no perfil são tratadas com água oxigenada, apresentam efervescência, em vista dos teores relativamente elevados de manganês.

 

Registra-se, também, a presença de grandes quantidades de minerais pesados, muitos dos quais facilmente atraídos pelo imã, sendo comuns encontrar-se depósitos desses minerais, com aspecto de limalha de ferro, nos leitos de drenagem superficial das águas das chuvas.

 

O fato de apresentarem características morfológicas homogêneas determina perfis pouco diferenciados, onde a identificação dos horizontes se torna difícil.

 

A) Latosol Roxo Distrófico com A moderado textura argilosa fase floresta tropical perenifólia relevo suave ondulado - Lrd1

 

Além das características comuns à classe, são ácidos, de média a baixa fertilidade natural, baixa saturação de bases e de baixo a médio teor de alumínio trocável. Ocorrem normalmente nos espigões de relevo suave ondulado de pendentes longas, ocupando também, em alguns casos, as partes baixas dos vales, quando o relevo regional é mais movimentado. Por não apresentarem grandes problemas quanto ao alumínio trocável, são de mais fácil correção. Com relação aos fatores disponibilidade de água, erosão e mecanização, não apresentam maiores problemas.

 

b) Latosol Roxo Distrófico com A proeminente textura argilosa fase floresta subtropical perenifólia relevo ondulado - Lrd3

 

Suas características morfológicas e químicas são semelhantes às dos solos LRd2, mas como ocorrem em relevo ondulado, foram mapeados separadamente.

 

As principais inclusões encontradas na área dessa unidade são as seguintes:

 

Cambisol Distrófico com A proeminente (substrato rochas eruptivas básicas);

 

Solos Litólicos Eutróficos com A chernozêmico (substrato rochas eruptivas básicas) e

 

Terra Roxa Estruturada Distrófica com A moderado.

 

São solos de média a baixa fertilidade natural, ácidos, de baixa saturação de bases e de baixa saturação com alumínio trocável. O horizonte superficial é deficiente em fósforo e os teores de potássio variam de altos a médios; os de cálcio + magnésio são médios e os de alumínio trocável variam de médios a altos. O horizonte subsuperficial é pobre em fósforo e os teores de potássio, cálcio + magnésio e os de alumínio trocável variam de baixos a médios. Como ocorrem em área com precipitação média anual em torno de 1.800mm, sem estação seca, as culturas não são prejudicadas pela deficiência de água no solo. Uma vez que ocorrem em relevo ondulado, com declives entre 10 e 18%, estão mais sujeitos à erosão que as demais unidades de classe Latosol Roxo.

 

c) Latosol Roxo Eutrófico com A moderado textura argilosa fase floresta tropical perenifólia relevo suave ondulado - Lre1

 

Além das características comuns à classe Latosol Roxo, esses solos são de elevada fertilidade natural, de alta saturação de bases e de baixos teores de alumínio trocável, tratando-se de uma unidade muito homogênea e de grande extensão geográfica.

 

São muito semelhantes aos solos LRd1, mas encontram-se mapeados separadamente, por serem de alta saturação de bases. São normalmente encontrados nos locais de topografia suave ondulada, constituída por colinas de pendentes longas. Têm elevada fertilidade natural, de alta saturação de bases e baixa saturação com alumínio. O horizonte superficial é pobre em fósforo, os teores de potássio e cálcio + magnésio são elevados, os índices de pH são variáveis e os teores de alumínio trocável são predominantemente baixos. O horizonte subsuperficial é também deficiente em fósforo, e os teores de potássio e cálcio + magnésio variam de médios a altos. Os índices de pH são variáveis e os teores de alumínio trocável são predominantemente baixos.

 

As culturas não são prejudicadas nem pela deficiência nem pelo excesso de água no solo, e são pouco suscetíveis à erosão, devido aos declives suaves e às condições físicas do solo muito favoráveis. Os danos manifestam-se somente após uso agrícola prolongado. A erosão pode ser facilmente controlada.

 

II. Terra Roxa Estruturada

 

Compreende solos com horizonte B textural, não hidromórficos, com argila de baixa capacidade de troca de cátions, derivados de rochas eruptivas básicas e com baixa relação textural (B/A). São profundos, de coloração vermelho escuro acinzentado ou bruno avermelhado escuro. Caracterizam-se ainda por serem argilosos, bem drenados e por apresentarem seqüência de horizontes A, B e C.

 

A classe textural ao longo do perfil é argila ou muito argiloso. A estrutura do horizonte A é granular média a grande e com grau de desenvolvimento variando de moderado a forte; no horizonte Bt a estrutura é em blocos subangulares, fortemente desenvolvida, e com cerosidade forte e abundante, revestindo os elementos estruturais. Quanto ao grau de consistência, esse solo é duro ou ligeiramente duro quando seco, firme quando úmido e plástico e pegajoso quando molhado. Devido a pequena variação de cor e de textura ao longo do perfil, as transições entre os subhorizontes são graduais ou difusos, sendo difícil a sua identificação.

 

Apresenta ainda as seguintes características, que são comuns também à classe Latosol Roxo:

 

abundância de minerais pesados, muito dos quais atraídos pelo imã;

 

efervescência com água oxigenada, devido aos teores relativamente elevados de manganês e

 

mudança de coloração da superfície dos solos descobertos ou cortes de estradas, de acordo com o ângulo de observação e de incidência dos raios luminosos.

 

A) Terra Roxa Estruturada Eutrófica com A moderado textura argilosa fase floresta tropical perenifólia relevo ondulado - Tre1

 

Além das características comuns, a classe apresenta ainda as seguintes peculiaridades: a) alta saturação de bases (V) no horizonte B (V > 50%, significando ser eutrófico); b) horizonte A moderado e c) baixo teor de alumínio trocável. Variações: solos intermediários para LRe1 e TRe2. São de elevada fertilidade natural, alta saturação de bases e praticamente sem alumínio trocável.

 

O horizonte superficial é em geral moderadamente ácido, deficiente em fósforo e bem suprido de potássio e de cálcio + magnésio. O subsuperficial é moderadamente ácido, deficiente em fósforo bem suprido de cálcio + magnésio e com teores de potássio muito variáveis. Não apresentam problemas nem de deficiência nem de excesso de água para as plantas. No entanto, apesar de suas boas condições físicas, são bastante suscetíveis à erosão, devido ao relevo movimentado.

 

B) Terra Roxa Estruturada Eutrófica com A chernozêmico textura argilosa fase floresta subtropical perenifólia relevo ondulado - Tre2

 

Apresenta todas as características comuns à classe, tal qual o TRe1, do qual se diferencia por apresentar as seguintes peculiaridades, todas elas referentes ao horizonte A que é chernozêmico: a) coloração escura, contrastando com o B que é bruno avermelhado escuro; b) mais de 1 % de matéria orgânica e c) estrutura granular fortemente desenvolvida.

 

C) Terra Roxa Estruturada Eutrófica latossólica com A moderado textura argilosa fase floresta tropical perenifólia relevo suave ondulado - TRe4

 

São os solos mais profundos da classe Terra Roxa Estruturada e caracterizam-se ainda por apresentarem um horizonte B textural não tão bem definido quanto os das demais unidades dessa classe, seguido de um horizonte friável, com características de B latossólico. São válidas também para essa unidade as considerações feitas ao TRe1, salvo no que se refere ao relevo, que é suave ondulado, e nos fatores decorrentes deste, tais como: a) limitações pela suscetibilidade à erosão ligeira, em condições naturais, e nula tanto com melhoramentos simples como intensivos e b) limitações ao uso de implementos agrícolas e nula em todos as condições.

III. Solos Hidromórficos

 

Solos hidromórficos são solos de várzeas, baixadas e fundos de vale. Apresentam como característica principal a presença de lençol freático a baixa profundidade. São solos permanente ou sazonalmente saturados de água. A coloração pálida (branca, amarelada) é típica. Os principais problemas são quanto à capacidade de suporte e à drenagem. São normalmente áreas pouco aproveitáveis.

 

Sob esta denominação foram incluídos os solos: Gley Pouco Húmico, Gley Húmico, Hidromórfico Cinzento e Areias Hidromórficas, que fazem parte da subordem dos Solos Hidromórficos. Possuem características comuns devido à grande influência do lençol freático na superfície ou muito próximo dela, durante longos períodos de tempo. Evidencia-se o excesso d’água no perfil, pelo acúmulo de matéria orgânica no horizonte superior, ou pela presença de cores cinzentas e mosqueadas nos horizontes inferiores, indicando a redução que caracteriza a gleyzação.

 

Os Hidromórficos permanecem inundados grande parte do ano, e sua utilização é limitada pelo excesso d’ água, só podendo ser aproveitados após trabalho de drenagem. Ocorrem em relevo plano, próximo às redes de drenagem, nos vales dos rios e em todas as áreas sujeitas a alagamento e estagnação constante ou periódica.

 

O Gley Húmico apresenta seqüência de horizonte A, Bg, Cg ou A, Cg ou ainda Ag, caracterizando-se pelo horizonte A, que no caso é proeminente. O Gley Pouco Húmico diferencia-se do anterior pelo horizonte A, que é mais delgado e/ou com menor conteúdo de matéria orgânica, ou seja, possui horizonte A moderado. As Areias Hidromórficas apresentam características semelhantes às dos solos acima, diferenciando-se por serem de textura arenosa ao longo do perfil. O Hidromórfico Cinzento caracteriza-se por apresentar seqüência de horizontes A1, A2, Bg e Cg; possui B textural e perfis com horizontes bem diferenciados.

 

São de média a alta fertilidade natural, formados a partir de sedimentos do Quaternário. A vegetação natural é constituída, principalmente, por florestas de várzeas. O relevo plano e mais baixo, além de permitir inundações, causa estagnação de massas de ar frio, com o aparecimento de geadas. Essa classe compreende uma única unidade de mapeamento, a seguir descrita.

 

A) Solos Hidromórficos Gleyzados Indiscriminados fase floresta tropical perenifólia de várzea relevo plano - HG1

 

O relevo é originalmente plano, com material originário de sedimentos areno-argilosos do Quaternário e que apresentam fertilidade natural média a alta. Com relação à disponibilidade de água, evidencia-se o excesso d’água no perfil pelo acúmulo de matéria orgânica no horizonte superior ou pela presença de cores cinzentas e mosqueadas nos horizontes inferiores, indicando a redução que caracteriza a gleyzação. Permanecem inundados grande parte do ano, e sua utilização é limitada pelo excesso d’água (falta de aeração), só podendo ser aproveitados após trabalhos de drenagem.

IV. Associações Encontradas

A) Associação Terra Roxa Estruturada Eutrófica com A moderado textura argilosa fase floresta tropical perenifólia relevo ondulado e Latosol Roxo Eutrófico com A moderado textura argilosa fase floresta tropical perenifólia relevo suave ondulado - TRe5

 

Ambos os componentes já foram descritos separadamente, o primeiro como TRe1 e o segundo como LRe1, e são válidas para essa associação todas as considerações feitas para eles. Do ponto de vista de sua ocorrência dentro da paisagem, pode-se dizer que o TRe1 ocupa normalmente as partes de relevo mais movimentado e predomina sobre o LRe1, que ocupa as partes de relevo mais suave.

 

B) Associação Terra Roxa Estruturada Eutrófica com A moderado textura argilosa fase floresta tropical perenifólia relevo ondulado e Solos Hidromórficos Gleyzados Indiscriminados fase floresta tropical perenifólia de várzea relevo plano - TRe6

 

Ambos os componentes dessa associação já foram descritos anteriormente sob os símbolos de TRe1 e HG1 respectivamente. O primeiro predomina na área e ocupa as partes do relevo mais movimentado, enquanto o segundo ocupa as partes abaciadas dos vales.

 

C) Associação Terra Roxa Estruturada Eutrófica com A chernozêmico textura argilosa pedregosa fase floresta subtropical perenifólia relevo forte ondulado e Solos Litólicos Eutróficos com A chernozêmico textura argilosa pedregosa fase floresta subtropical subperenifólia relevo forte ondulado e montanhoso (substrato rochas eruptivas básicas) e Cambisol Eutrófico com A chernozêmico textura argilosa pedregosa fase floresta subtropical subperenifólia relevo forte ondulado (substrato rochas eruptivas básicas) - Tre8

 

Para o primeiro componente da associação, além das características comuns à classe Terra Roxa Estruturada, são válidas as considerações feitas ao TRe2, do qual diferencia-se por: a) apresentar cobertura vegetal do tipo floresta subtropical perenifólia e b) ocorrer em relevo forte ondulado e apresentar calhaus e matacões tanto interna como superficialmente no perfil.

 

O segundo componente encontra-se descrito dentro da classe dos Solos Litólicos e o terceiro dentro da classe Cambisol. Do ponto de vista de sua ocorrência dentro da paisagem, nota-se que a Terra Roxa Estruturada ocorre nos vales e no terço inferior dos morros, o Litólico ocupa o terço superior e o

 

Cambisol o terço médio. Vale ainda ressaltar que o Cambisol é o que ocupa menor área dentro da Associação, enquanto os outros dois componentes estão em proporções mais ou menos semelhantes, com leve predomínio da Terra Roxa Estruturada.

 

D) Associação Solos Litólicos Eutróficos com A chernozêmico textura argilosa pedregosa fase floresta tropical subperenifólia relevo forte ondulado e montanhoso (substrato rochas eruptivas básicas) e Brunizem Avermelhado raso textura argilosa pedregosa fase floresta tropical subperenifólia relevo forte ondulado - Re1

 

Ambos os componentes já foram descritos, um dentro da classe dos Solos Litólicos e o outro dentro da classe Brunizem Avermelhado. As considerações feitas para um e para outro são válidas para a presente associação, salientando-se que o primeiro ocupa predominantemente os topos e o segundo as meias encostas dos morros e elevações. Cada um desses componentes concorre com área aproximadamente igual, com um leve predomínio, talvez, do primeiro sobre o segundo.

 

E) Associação Solos Litólicos Eutróficos com A chernozêmico textura argilosa pedregosa fase floresta tropical subperenifólia relevo forte ondulado e montanhoso e Brunizem Avermelhado raso textura argilosa pedregosa fase floresta tropical subperenifólia relevo forte ondulado e Terra Roxa Estruturada Eutrófica com A moderado textura argilosa fase floresta tropical perenifólia relevo ondulado - Re2

 

Os três componentes da presente associação também já foram descritos anteriormente e, portanto, são válidas para ela, as considerações feitas para cada um individualmente, bastando acrescentar que o primeiro ocupa os topos, o segundo as meias encostas e o terceiro as encostas inferiores dos morros e elevações. Cada um desses componentes concorre com área aproximadamente igual, com um leve predomínio, talvez, do primeiro sobre os demais.

 

6.2.2.6. Geotecnia

 

Aqui são apresentadas informações relativas ao diagnóstico do comportamento geotécnico dos materiais (solos e rochas) que ocorrem na área do PNI, tratando aspectos de natureza físico-mecânicas e o seu relacionamento frente aos diferentes processos geológicos e geomorfológicos, naturais e induzidos, observados na UC.

 

I. Comportamento dos Materiais e Domínios Geotécnicos

 

A caracterização do comportamento geotécnico dos materiais na área do PNI procurou agrupar as litologias e seus respectivos materiais de alteração, que apresentassem afinidade quanto aos principais aspectos físico-mecânicos e suas respostas às interferências externas, vinculadas às mais variadas formas de atuação.

 

Da análise resultou o Quadro 3, que individualizam cada unidade litoestratigráfica detectada, sendo referenciados parâmetros relacionados à resistência dos esforços, erodibilidade, expansão, entre outros, extraídos do estudo executado por Levis (1988), bem como de diversos projetos de engenharia, nos quais os autores tiveram oportunidade de participar.

 

Quadro 3 - Parâmetros geotécnicos das unidades geológicas do Parque Nacional do Iguaçu

Unidade Litoestratigráfica

Aluviões

Serra Geral

Grau de Deformidade

Alto para argilas

Satisfatório

Fragilidade à Alteração

Alta

Baixa

Fragilidade à Erosão

Alta

Baixa

Resistência à Compressão Simples (Kgf/cm2)

0

1900-2200

Massa Específica Aparente (g/cm3)

1,7

2,8-2,9

Absorção de água

Alta para areias

Baixa

ISC* % (estimado)

4-6

Latossolos Ferralitícos: 10 Basaltos: 08

Expansão % (estimada)

>1

> ou: 1

Fragilidade à Expansão

 

Baixa, localmente moderada

Drenagem Interna

Boa nas areias

Moderada

Porosidade Aparente %

 

10

Potencial para Material de Construção

Areia: uso geral

Agregados para concreto e filtro e enrocamentos

* Índice de Suporte Califórnia (ensaios laboratoriais que quantificam o valor de resistência do solo a esforços induzidos)

 

Mapa 2 - Solos do Parque Nacional do Iguaçu

Ao Quadro citado seguem-se os comentários referentes ao agrupamento das unidades em domínios geotécnicos homogêneos que, basicamente, levam em conta a litologia predominante, sobre a qual diferentes processos se manifestam em função do comportamento dos materiais e da dinâmica do ambiente onde eles estão inseridos.

A. Domínio das Efusivas Vulcânicas

O Domínio das Efusivas Vulcânicas vincula-se diretamente à unidade geológica denominada Serra Geral, pertencente ao Grupo São Bento, ao qual é atribuída idade Mesozóica. O mesmo é composto pelos litotipos vulcânicos, expressos pelos derrames basálticos e de modo restrito por efusivas ácidas a intermediárias.

 

Esse domínio manifesta-se quase que na totalidade da área do Parque e está relacionado diretamente aos solos dominantemente argilosos e ferralíticos, que resultam da evolução pedogenética das litologias que o constituem, os quais serão descritos no item relativo às Coberturas Recentes.

 

A relativa homogeneidade observada para cada derrame basáltico, individualizado do conjunto vulcânico maior, e sua conseqüente isotropia refletem boas características e comportamento geotécnico satisfatório.

 

A predominância de basaltos maciços nos terços inferior e médio de um derrame, capeados por horizontes amigdalo-vesiculares e brechas basálticas no terço superior, podem materializar, entretanto, comportamentos distintos dessas litologias em relação ao conjunto.

 

De modo geral, os valores para massa específica aparente seca variam entre 2,8 e 2,9g/cm3, a resistência à compressão simples em torno de 2.000Kgf/cm2 e as perdas, nos ensaios de ciclagem, próximas a valores de 10%.

 

B. Domínio das Coberturas Recentes

 

Três subdomínios foram concebidos nessa unidade, descritos a seguir.

i. Subdomínio Aluvionar

 

Os materiais inseridos nesse subdomínio refletem a dinâmica fluvial na sua conformação. Sua distribuição na área é restrita, sendo mais expressiva nas proximidades da calha do rio Iguaçu, bem como de seus tributários de maior porte, inseridos na área do PNI, como os rios Floriano e Gonçalves Dias. Na dependência do predomínio entre um e outro caráter textural, podem prevalecer diferentes processos geológico-geomorfológicos. Por exemplo, se em um determinado nível de deposição fluvial ressaltar uma natureza arenosa, existe a tendência dos fenômenos erosivos se manifestarem de modo mais efetivo, conforme observado na foz do rio Macuco.

ii. Subdomínio Coluvionar

 

Além dos corpos de colúvio, inserem-se nesse subdomínio os corpos de talús, os quais, estima-se, ocorrem com maior incidência junto às áreas de relevo de colinas onduladas a fortemente onduladas, localmente escarpadas, observadas na porção nordeste do PNI (Mapa 1). Os colúvios apresentam matriz mais fina, bem como os próprios fragmentos que abrigam, já que os corpos de talús apresentam-se com fragmentos rochosos de dimensões maiores (métricas).

 

Geneticamente, estão associados aos movimentos gravitacionais observados em zonas com elevadas declividades, onde existe a tendência da retirada de materiais sobre o seu acúmulo. Na verdade, o processo de deposição existe temporariamente, já que nas áreas de incidência de processos designados genericamente de escorregamentos, são formados depósitos de sopé, os quais são constantemente retrabalhados e transportados por ação da gravidade e da presença da água, até coalescerem com eventuais depósitos aluvionares em pontos de cotas mais baixas e, consequentemente, de menor energia de transporte.

 

Ambas caracterizam-se pelo mal comportamento geotécnico, quando das intervenções deflagradas por obras de engenharia. A drenagem interna e a resistência aos esforços são baixas, assim como as respostas aos processos erosivos e de movimentos de massa gravitacionais. Estima-se que a maioria dos corpos acima referenciados, principalmente aqueles localizados na porção nordeste do Parque, encontra-se estabilizados segundo ângulos de repouso entre 450 e 600, admitindo-se tal intervalo como sendo o da estabilidade geral para a área.

iii. Subdomínio Residual

 

Esse subdomínio, conforme já mencionado, está intimamente relacionado ao Domínio das Efusivas Vulcânicas, já que os materiais componentes do mesmo evoluíram in loco, isso é, não sofreram nenhum tipo de transporte desde a área-fonte até o local de formação, expressando atualmente um elevado grau no que se refere `a pedogênese, materializando as classes de solo Latosol Vermelho e Terra Roxa Estruturada.

 

Em função da vinculação entre o domínio e o subdomínio retromencionados, a distribuição das coberturas residuais pode ser considerada para toda a área do PNI, recobrindo ou capeando os derrames basálticos já caracterizados. A espessura desse capeamento é bastante variável. Porém, estima-se que as áreas com modelados de relevo de colinas suave onduladas a onduladas, observadas nas porções central e sudoeste do Parque, apresentem as maiores espessuras, da ordem de uma dezena de metros. Em contrapartida, nas porções norte e nordeste do PNI, estima-se que as espessuras apresentem valores abaixo de uma dezena de metros, reduzindo, portanto, a espessura do horizonte B dos solos anteriormente citados.

 

Em termos de índices físicos, os solos mais argilosos são de média a alta compressibilidade, com LL (Limite de Liquidez; o mesmo que ensaios laboratoriais que quantificam os limites de umidade presente no solo) variando entre 55 e 65%, expansibilidade baixa, com valores médios da ordem de 0,5%, que podem localmente aumentar para valores de até 3% em solos relacionados com basaltos vesiculares ou saprolitos.

 

Nos solos mais granulares, com menos do que 35% em peso passando na peneira 200, o LL é em geral inferior a 50%, configurando solos de baixa compressibilidade, boa drenagem interna, expansão baixa e valores de Índice de Suporte Califórnia (ISC) em geral superiores a 10%, para as variedades pedregulhosas.

 

O comportamento geotécnico geral desses materiais é considerado satisfatório, ressaltando-se o fato que, localizadamente, a expansão pode ser expressiva. A resistência a esforços é igualmente boa, entre 1.900 e 2.200Kgf/cm2.. O ISC médio para os solos argilosos é de 10% e para o basalto alterado em torno de 7%, nesse com expansão superior a 1%.

B. Processos Naturais - Situação Atual

 

Das fases climáticas úmidas atuais, além da erosão de caráter fluvial, as épocas anormalmente chuvosas, que se repetem de tempos em tempos, provocam deslizamentos de taludes, a ponto do fenômeno constituir um fator morfogenético considerável na modelagem atual do relevo.

 

As cheias de 1983, por exemplo, desencadearam centenas de escorregamentos de talude em toda a região basáltica, destacando-se aquelas em que as ações tecnogênicas foram mais expressivas. Nessas fases, o carreamento de sólidos para os rios aumenta substancialmente, principalmente naqueles locais onde os solos estão expostos ou precariamente recobertos pelo manto vegetal. Atuam, conjuntamente, processos de natureza erosiva, os quais contribuem para evolução local da paisagem.

 

Os escorregamentos de encostas e taludes artificiais são bastante comuns na região basáltica. O seu controle geológico é bem conhecido. Os mesmos ocorrem principalmente nas acumulações coluviais relativamente espessas, que recobrem os terraços suavemente inclinados.

 

É interessante notar que os escorregamentos de taludes, nessas áreas, estão relacionados com a declividade do terreno e com as espessuras dos solos, bem como ao posicionamento dos contatos de derrame e zonas de circulação sub-horizontal da água. Eles podem variar desde simples escorregamentos do tipo rotacional, que são os mais comuns, a, localmente, verdadeiras corridas de lama, nos eventos de maior intensidade, quando, então, o material praticamente fluidifica.

 

Nas fases de menor rigor pluviométrico, entretanto, nos climas úmidos, como o que vigora atualmente, a cobertura vegetal abundante, juntamente com o caráter argiloso dos solos residuais de basalto, faz com que a erosão de tipo superficial seja pouco acentuada, praticamente inexistindo áreas que possam ser destacadas, por razões puramente geológicas, como especialmente suscetíveis a tais fenômenos. No caso, faz exceção áreas posicionadas entre os Municípios de Céu Azul e Santa Tereza do Oeste, porção norte do Parque, bem como aquelas ao longo da estrada que leva ao rio Gonçalves Dias, porção leste do Parque.

 

Inexistem ravinamentos de grande porte nos terrenos estudados, do tipo que é comum em áreas de rochas areníticas. Quando existem, eles são restritos a pequenas áreas, sem expressão em termos de mecanismo geral de carreamento de sólidos.

i. A Necessidade da Presença da Floresta

 

Os trabalhos de campo (setembro/98) coincidiram com chuvas intensas, quando foi possível comprovar fenômenos erosivos acelerados e intensos em locais desprotegidos. O transporte de sedimentos para os rios torna-se realmente efetivo, aumentando consideravelmente a carga fluvial de partículas em suspensão.

 

Nos locais onde a mata foi eliminada, a erosão laminar é altamente problemática, resultando não raro em ravinamentos nas áreas mais suscetíveis. Nessa hipótese, é preciso que se leve em conta o desequilíbrio entre o escoamento superficial e a infiltração, posto que essa se torna menor pela ausência da vegetação.

 

6.2.2.7. Análise da Fragilidade Ambiental sob Condicionantes do Meio Físico

 

Decorrente das informações levantadas em campo e escritório, elaborou-se uma matriz simplificada de correlação entre alguns parâmetros físicos, os quais, apesar de não relacionados na referida matriz, foram confrontados com outros elementos que constituem o sistema ambiental que abriga o PNI, entre eles a vegetação, a drenagem e até mesmo os fatores climáticos, resultando no quadro 4, o qual sintetiza a avaliação ambiental ao longo do Parque e das áreas vizinhas. Tal metodologia foi baseada nos trabalhos de Ross (1994).

 

Face à disseminação de alguns dados, ressalte-se que a referida avaliação deve ser considerada como uma primeira aproximação, quanto ao desempenho ambiental observado e esperado nos terrenos pertencentes ao PNI.

 

Decorrente das correlações efetuadas entre classes de solos, resistência dos materiais, declividade e relevo, escorregamentos e erodibilidade, resultou um atributo de medida do desempenho ambiental, sob a ótica do meio físico, ao qual designou-se informalmente de fragilidade ambiental.

 

Tal fragilidade foi avaliada para sete áreas distintas do PNI, considerando os critérios anteriormente expostos. A visualização das áreas pode ser feita através do Mapa de Fragilidade Ambiental do Parque Nacional do Iguaçu (Mapa 3).

 

Observando-se o quadro 4, verifica-se que nas áreas com relevo mais acidentado, posicionadas entre os rios Silva Jardim e Floriano, bem como entre o último e o rio Gonçalves Dias, estendendo-se até o limite norte do Parque, entre os Municípios de Céu Azul e Santa Tereza do Oeste, correspondendo à Zona 1 de Fragilidade, prevalecem condições ou respostas ambientais que apontam para uma alta fragilidade ambiental para processos de escorregamentos e processos erosivos.

 

Entre o rio Silva Jardim, estendendo-se para sudoeste, até a altura do rio São João, caracterizando a Zona 2 de Fragilidade, onde prevalecem condições de relevo mais amenas, estimou-se a fragilidade do ambiente como sendo baixa, sendo prudente, entretanto, considerar uma tendência a alta fragilidade nas áreas cuja influência tecnogênica exerça algum tipo de interferência, como ao longo da estrada das Cataratas, trilha do Macuco, estrada do Poço Preto e a própria estrada do Colono.

 

Quadro 4 - Avaliação preliminar do desempenho ambiental do Parque Nacional do Iguaçu

 

Zona

Relevo

@ ISC* %

Declividade

Escorregamento

Erodibilidade

Fragilidade

Norte/Nordeste

1

ond/fond

7,0-10,0

05-20 %

Alto

Alta

Alta

Centro/

Sudoeste

2

sond/ond

10,0

05-10 %

Alto

Baixa

Média

Rio Iguaçu

3

ond/fond

10,0

05-40 %

Médio/Alto

Alta/Muito Alta

Alta/Muito Alta

Rio Gonçalves Dias

4

ond/fond

7,0-10,0

05-20 %

Alto

Alta

Alta

Rio Gonçalves Dias

4A

ond/fond

7,0-10,0

05-30 %

Alto

Alta

Alta/Muito Alta

Rio Floriano

5

ond/fond

7,0-10,0

05-20 %

Alto

Alta

Alta

Rio Silva Jardim

6

ond/fond

7,0-10,0

05-20 %

Alto

Alta

Alta

Céu Azul

7

ond/fond

7,0-10,0

05-20 %

Alto

Alta

Alta/Muito Alta

Limite Sudoeste

8

ond/fond

7,0-10,0

05-20 %

Alto

Alta

Alta

* Índice de Suporte Califórnia. Legenda: SOND - Suave ondulado, OND - ondulado e FOND - forte ondulado.

 

Nesses pontos em particular, observou-se desequilíbrios deflagrados pela apropriação dos recursos locais, expressos ora por escorregamentos localizadamente significativos, ora por fenômenos erosivos localmente marcantes ou por processos de transporte sedimentar fluvial visualmente preocupantes.

 

O rio Iguaçu, que constitui a Zona 3 de Fragilidade, foi considerado como variando entre alta e muito alta para processos erosivos e de escorregamento. No primeiro caso com maior ênfase, já que a energia concentrada ao longo desse sistema ambiental, no segmento considerado, é bastante expressiva, manifestando-se no constante retrabalhamento de eventuais depósitos sedimentares, localizadamente importantes no contexto estratigráfico da área, bem como no contínuo desgaste do substrato basáltico, onde está encaixada sua calha fluvial.

Exemplo marcante de fragilidade localiza-se no ponto de embarque da trilha do Macuco, na margem direita do rio Iguaçu, local onde existe um pequeno depósito de areias grosseiras, sobre o qual foi construído todo o sistema de acesso ao flutuante aí existente, que dá apoio aos barcos que executam incessantes passeios até as Cataratas.

No caso da trilha do Macuco, em função das características locais do relevo, das características dos materiais depositados e da dinâmica do rio, que sempre busca equilibrar as energias disponíveis e os processos resultantes, manifesta-se a fragilidade do micro-ambiente.Tal fragilidade está representada por escorregamento dos taludes junto à margem do rio, vinculado a processos erosivos que descalçam o talude existente, tirando a sua sustentação, deflagrando a ruptura do terreno que, no caso em tela, afetou o citado sistema de acesso (calçadas, escadas e canaletas de drenagem), exigindo intervenções que amenizem e/ou até mesmo eliminem os efeitos da fragilidade.

 

Avaliação semelhante foi aplicada para os rios Floriano, Gonçalves Dias e Silva Jardim, respectivamente Zonas 4, 5 e 6 de Fragilidade, para os quais foi considerada alta a fragilidade ambiental para processos de escorregamentos e erosivos, tanto para as porções mais interiores desses cursos e seus tributários, como para as zonas mais próximas dos limites do Parque.

 

Para o caso em que existam regiões do PNI limítrofes com áreas urbanas e com algum tipo de uso do solo, em especial a agricultura, considerou-se a fragilidade como alta a muito alta, cuja interface coloca em risco a qualidade ambiental do Parque. No caso, as zonas de maior fragilidade, nessa porção, estão materializadas pelas nascentes dos rios Floriano e Gonçalves Dias.

 

Tais nascentes estão expostas às mais variadas formas de interferência tecnogênica, as quais possibilitam a entrada de matéria (solos e águas contaminadas), em valores considerados como altamente prejudiciais ao cenário e ao padrão de qualidade ambiental, observado nas áreas interiores do Parque. Isso resulta em desajustes que refletirão na qualidade das águas, na aceleração de processos erosivos e de assoreamento e na deflagração de novos pontos de rupturas de terreno. As áreas aqui consideradas correspondem às Zonas 4A e 7 de Fragilidade.

 

Finalmente, o limite sudoeste entre o PNI e as demais áreas foram consideradas como sendo de alta fragilidade, configurando a Zona 8 na classificação. A análise para este caso é semelhante àquela feita para as Zonas 4A e 7, considerando-se também a interface entre área preservada e áreas de uso diversificado dos solos.

 

Considerando a análise no âmbito do sistema, observa-se a interação entre os sistemas dos rios Iguaçu, Gonçalves Dias, Floriano e Silva Jardim, o primeiro responsável pela dinâmica regional, os outros, hierarquicamente abaixo e participantes dessa dinâmica, além dos sistemas vegetais, vertente e urbano. Os sistemas fluviais, vertente e vegetais integram e limitam de certa forma o Sistema PNI. Os sistemas urbanos limitam e interferem na estabilidade do último.

 

As áreas de maior interferência foram consideradas nas Zonas de Fragilidade 3, 4A e 7, as quais representam as portas de entrada de matéria e energia do Sistema considerado (Zona 4A e Zona 7), bem como de transferência dessas para o Sistema Fluvial Iguaçu (Zona 3).

Mapa 3 - Avaliação preliminar de fragilidade ambiental (condicionantes do meio físico) do Parque Nacional do Iguaçu

 

Analisada de modo genérico, a interferência imposta pelo Sistema Urbano, vizinho ao PNI, gera energia e matéria que não fazem parte do Sistema PNI ou manifestam-se em quantidades que acabam gerando algum tipo de desequilíbrio, seja na entrada do Sistema, ao longo do mesmo (rio Floriano, Silva Jardim e Gonçalves Dias), seja na zona de transferência no rio Iguaçu.

 

Tais desequilíbrios são atualmente comprovados, principalmente na interface com o Sistema Urbano, como na região do Município de Santa Tereza do Oeste, expressos por processos induzidos de erosão, escorregamentos e assoreamento, além daqueles vinculados à qualidade das águas superficiais e profundas, bem como as interferências sobre os conjuntos vegetais (extração de palmito por exemplo) e da fauna (caça irregular).

 

Esses são exemplos pontuais de interferências que, de alguma maneira, transmitem seus efeitos para o interior do Sistema. Nesse sentido, o detalhamento de áreas no seu interior, para avaliação e comprovação dessas hipóteses, faz-se necessário e vital para a recuperação e a manutenção da qualidade ambiental local.

 

6.2.3. Hidrografia, Hidrobiologia e Qualidade da Água

 

Conforme Vaine (1998), que descreveu a hidrografia para o PNI, a bacia do rio Iguaçu, onde se situa o Parque, tem suas nascentes na Região Metropolitana de Curitiba, percorrendo, desde a vertente oeste da Serra do Mar até a sua foz no rio Paraná, aproximadamente 1.100km.

 

A área da bacia hidrográfica é de cerca de 67.317km2, com 55.048km2 no Estado do Paraná, e 12.269km2 em Santa Catarina. Em 1991, a bacia continha 82 municípios na porção paranaense e uma população de 4.131.000 habitantes.

 

O rio se divide em três trechos, conhecidos por alto, médio e baixo Iguaçu. O trecho superior, com área de 24.200km2, extensão de cerca de 400km e um desnível próximo de 270m, corresponde a 36% da área total da bacia. O principal tributário desse trecho é o rio Negro, afluente da margem esquerda do rio Iguaçu.

 

O trecho médio, com 320km de extensão e desnível de 415m, tem uma área de 30.706km2, representando 46% da área total da bacia. Nesse trecho, o rio Jordão é o principal afluente, desembocando no rio Iguaçu pela sua margem direita.

 

O terceiro trecho tem uma extensão de 95km, desnível de 70m e área de 12.411km2. O principal afluente é o rio Chopim, que é tributário da margem esquerda do Iguaçu. Nesse trecho, pela margem direita, contíguo ao rio, situa-se o Parque Nacional do Iguaçu, que tem como limites naturais a leste e oeste, respectivamente, os rios Gonçalves Dias e São João.

 

A extensa rede de drenagem do PNI é constituída por afluentes da margem direita do rio Iguaçu, cuja a bacia representa o maior complexo hídrico do Estado do Paraná (SUDERHSA, 1997), possuindo suas cabeceiras à montante da UC. Portanto, os rios percorrem dois trechos distintos, sendo influenciados no primeiro trecho por atividades antrópicas. Como singularidade, destaca-se o rio Floriano, cuja bacia hidrográfica de 713km2 está quase totalmente contida dentro dos limites do Parque. Essa característica o distingue como referência de monitoramento do ecossistema regional.

 

Além do rio Floriano, pela sua área e integridade ambiental, destacam-se os rios que drenam grandes áreas agrícolas antes de entrar no Parque (rios São João, do Índio, Represa Grande e Silva Jardim). O rio Benjamim Constant encontra-se em grande parte protegido pelas áreas de floresta, enquanto o rio Gonçalves Dias tem suas nascentes e afluentes da margem esquerda fora do Parque. O córrego Quilômetro Oito, cortado pela estrada do Colono, tem como influência antrópica principal as águas do escoamento superficial dessa estrada, por ocasião de chuvas.

 

O rio Floriano está incluído desde as suas nascentes, ao norte, até onde deságua no rio Iguaçu, ao sul, quase que totalmente dentro do Parque. Nessa bacia não foram identificadas ações antrópicas diretas sobre o rio. Somente ao norte, em algumas áreas próximas às nascentes, há risco do comprometimento da qualidade de água devido as águas de escoamento superficial e de drenagem da BR-277 e de algumas áreas agrícolas próximas, que atingem cinco bacias de captação do Floriano.

 

6.2.3.1. Regime Hidrológico

 

Em altitudes inferiores a 200m, o rio Iguaçu, no seu trecho final, desenvolve-se em terrenos de baixa declividade, assentado exclusivamente sobre rochas basálticas. Prevalecem na região camadas de solos de pequenas profundidades e pouca permeabilidade. Essas características indicam baixa capacidade de armazenamento dos aqüíferos, com uma limitada contribuição da água subterrânea no escoamento dos rios em períodos de estiagem.

 

A pluviosidade da bacia do baixo Iguaçu é superior às demais bacias da vertente oeste da Serra do Mar, disponibilizando um excedente de água mensalmente.

Na caracterização hidrológica do Parque, utilizou-se uma série de dados de chuva, vazão e meteorológicos disponíveis de estações hidrometeorológicas operadas pela Superintendência de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental (SUDERHSA) e Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), no período de 1976 a 1996, conforme pode-se observar no Quadro 5.

Quadro 5 - Estações hidrometeorológicas da região do Parque Nacional do Iguaçu

Código DNAEE*

Nome da Estação

Coordenadas

(Latitude/ Longitude)

Área de Drenagem (km2)

Altitude (m)

Órgão Operador

Período

 

Pluviométrica

02453023

Cascavel

24º 56’ / 53º 26’

-

760

IAPAR1

1976-96

02553009

Céu Azul

25º 08’ / 53º 51’

-

610

SUDERHSA2

1976-96

02553014

Porto Lupion

25º 35’ / 53º 59’

-

350

SUDERHSA

1976-96

02553015

Planalto

25º 42’ / 53º 46’

-

400

IAPAR

1976-96

02553023

Dois de Maio

25º 06’ / 53º 44’

-

650

SUDERHSA

1976-96

02553028

Santa Lúcia

25º 24’ / 53º 34’

-

380

SUDERHSA

1976-96

02553033

Boi Preto

25º 09’ / 53º 37’

-

668

SUDERHSA

1976-96

02554002

Salto Cataratas

25º 41’ / 54º 26’

-

152

SUDERHSA

1976-96

02554005

Matelândia

25º 14’ / 54º 00’

-

535

SUDERHSA

1976-96

02554006

São Miguel do Iguaçu

25º 21’ / 54º 15’

-

307

SUDERHSA

1976-96

02554012

Santa Terezinha

25º 26’ / 54º 24’

-

250

SUDERHSA

1976-96

02554018

Jardinópolis

25º 23’ / 54º 01’

-

400

SUDERHSA

1976-96

 

Fluviométrica

65985000

Estreito do Iguaçu - Rio Iguaçu

25º33’ / 53º46’

62.236

185

SUDERHSA

1968-86

65986000

Estreito do Iguaçu Novo - Rio Iguaçu

25º33’ / 53º51’

63.236

180

SUDERHSA

1986-96

65993000

Salto Cataratas - Rio Iguaçu

25º41’ / 54º26’

67.317

152

SUDERHSA

1942-96

     

Meteorologia

02453023

Cascavel

24º56’ / 53º26’

-

760

IAPAR

1974-93

02553015

Planalto

25º42’ / 53º46’

-

400

IAPAR

1974-93

02554006

São Miguel do Iguaçu

25º21’ / 54º15’

-

307

IAPAR

1974-93

* Departamento Nacional de Águas e Energia

1 Instituto Agronômico do Paraná

2 Superintendência de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental

I. Vazões Médias e Extremas

 

Sendo uma região de grande pluviosidade, verifica-se uma correspondente disponibilidade hídrica na rede de drenagem. Os rios próximos ao Parque, com bacias hidrográficas inferiores a 2.000km2, indicam vazões médias específicas de longo período entre 27 e 30l/s/km2. No rio Iguaçu, no trecho contíguo ao PNI, a vazão é de cerca de 21l/s/km2.

 

Na Figura 35, pode-se observar a variação das vazões médias de longo período do rio Iguaçu, entre o ponto 1, situado à jusante do rio Gonçalves Dias, correspondendo ao posto fluviométrico Estreito do Iguaçu, que drena uma área de 62.236km2, com vazão média de 1.323, 05m3/s, e o ponto 2, situado logo a montante das Cataratas do Iguaçu, com uma área de 67.317km2 e vazão média de 1.413,50m3/s.

 

Quanto às vazões extremas, as máximas e mínimas observadas foram as referentes ao posto fluviométrico de Salto Cataratas (período de 1942 a 1996), na foz do rio Iguaçu. As cheias ao longo do ano ocorrem em mais de 80% entre os meses de abril e outubro, sendo que as maiores registradas foram em julho de 1983, com 35.600m3/s, e maio de 1995, com 27.544m3/s. A vazão de estiagem mais crítica foi a registrada em 1978, com 89,92m3/s.

 

Figura 35 - Vazão média de longo período do baixo rio Iguaçu

 

 

 

 

II. Evapotranspiração

 

A evapotranspiração aqui considerada corresponde à evapotranspiração real. Na área do PNI, as perdas médias anuais por evapotranspiração real são estimadas em cerca de 1.043mm. O Quadro 6 apresenta as perdas médias mensais por evapotranspiração real.

 

Quadro 6 - Evapotranspiração real média mensal (mm) no Parque Nacional do Iguaçu, no período de 1974 a 1993

jan

fev

mar

abr

maio

jun

jul

ago

set

out

nov

dez

Total anual

155.6

129.4

112.0

69.4

46.9

30.3

29.5

37.9

57.4

100.3

124.6

149.5

1.042,8

Legenda:

Fonte: COPEL (1994)

 

III. Balanço Hídrico

 

Utilizando a equação do balanço hídrico simplificado (Volume Armazenado ou VA = zero), correspondente a P = Q + ETR, onde P = Precipitação Média; Q = Deflúvio Médio e ETR = Evapotranspiração Real Média, estimou-se o excedente hídrico médio anual da área do Parque.

 

Sendo P = 1.864,2mm/ano e ETR = 1.042,8mm/ano, o excedente hídrico representado pelo deflúvio médio anual é de cerca de 821mm. O balanço hídrico da área do PNI, apresentando o excedente de água mensal, pode ser observado na Figura 36.

Figura 36- Balanço hídrico do Parque Nacional do Iguaçu

Legenda:

 

6.2.3.2. Hidrobiologia e Qualidade da Água

 

A avaliação da qualidade da água de trechos de rios do PNI foi feita durante os estudos da Avaliação Ecológica Rápida (AER), utilizando macroinvertebrados bentônicos como bioindicadores e valores de parâmetros físicos, químicos e microbiológicos, com os limites estabelecidos pela Resolução Nº 20, de 18 de junho de 1986, do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA), conforme estudos de Pozzobon et alii (1998).

A Resolução CONAMA Nº 20/86 estabelece a classificação das águas no Território Nacional, segundo seus usos preponderantes, e a Portaria SUREHMA Nº 20, de 12 de maio de 1992, enquadra todos os cursos d’água da bacia do rio Iguaçu, de domínio do Estado do Paraná (SEMA, PIAB & GTZ, 1996).

Os cursos d’água situados no PNI, bem como seus formadores fora do seus limites, desde o rio Gonçalves Dias e seus afluentes, situados nos Municípios de Céu Azul, Cascavel e Capitão Leônidas Marques, até o rio São João e seus afluentes, no Municípios de Foz do Iguaçu e Santa Terezinha de Itaipu, foram enquadrados como Classe 1, o que quer dizer que tais águas são apropriadas para o abastecimento doméstico, após tratamento simplificado; à proteção das comunidades aquáticas; à recreação do contato primário; à irrigação de hortaliças e frutas e à criação natural e/ou intensiva (espécies para alimentação humana).

 

Tais informações sobre a qualidade de águas em rios da bacia hidrográfica do rio Iguaçu estão restritas à região metropolitana, reservatórios e ao próprio rio Iguaçu.

A principal atividade econômica desenvolvida nas bacias hidrográficas de rios que nascem na circunvizinhança do PNI é a agropecuária (IBGE, 1998). Segundo informações obtidas junto à Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (SEAB), de setembro de 1998, os municípios do entorno do Parque são predominantemente agrícolas, sendo as culturas de soja e milho as de maior expressão. Tais culturas mecanizadas são intensivas na utilização de diversos tipos de agroquímicos. Destacando-se que nos Municípios de Medianeira, São Miguel do Iguaçu, Santa Terezinha de Itaipu e Foz do Iguaçu são utilizados grandes volumes de herbicidas.

No contexto da AER, dentre os dezessete pontos determinados para a avaliação da qualidade de água, oito pontos foram localizados em rios e córregos protegidos pelas áreas florestais do Parque e os demais em rios sob influência de estradas e áreas com atividades agropecuárias na bacia de drenagem à montante (Anexo 2).

 

O Anexo 3 apresenta os resultados dos parâmetros físicos, químicos, microbiológicos e toxicidade analisados em amostras de água coletadas nos diversos pontos de amostragem. Tendo em vista que alguns desses parâmetros apresentam uma grande variabilidade ao longo do tempo, os valores obtidos durante a AER refletem uma situação pontual e podem não representar as condições médias de qualidade de água dos pontos estudados. Dessa forma, a avaliação do grau de comprometimento da qualidade de água desses rios dependerá de uma série temporal de dados.

Dentre os valores obtidos de parâmetros físicos, químicos e microbiológicos, o pH, o fósforo total e os coliformes fecais apresentaram, em alguns pontos, valores abaixo e acima daqueles indicados pela Resolução Nº 20/86 do CONAMA para rios de Classe 1. Tal situação foi verificada em todos os pontos de coleta, relacionada com um ou mais desses parâmetros, a qual pode ser uma condição natural ou indicar o comprometimento da qualidade de água. Ressalte-se que a presença de coliformes fecais, em diferentes densidades, em áreas sem a influência humana, é comum e está relacionada à fauna silvestre.

 

Em nenhum dos pontos amostrados foi constatada toxicidade aguda para Daphnia magna (Anexo 3).

 

A Tabela 2 e o Quadro 7 apresentam a classificação da qualidade de água, dos diversos pontos de amostragem, a partir da fauna de macroinvertebrados bentônicos, pelo Índice Biological Monitoring Working Party (BMWP’); as ocorrências das famílias, nesse ponto, suas pontuações, segundo o Índice BMWP’, e as respectivas classificações; a ocorrência e a estimativa de abundância dos diversos taxons identificados e lista de ocorrência geral, respectivamente.

 

No total, foram registrados 95 taxons de macroinvertebrados bentônicos, entre sanguessugas; minhocas; caranguejos; moluscos; larvas de insetos, como libélulas, efêmeras, besouros, borrachudos, mosquitos, entre outras; besouros aquáticos e baratas-d’água, dentre os diversos pontos de amostragem, em rios do PNI (Quadro 7 e Anexo 4).

 

Aqueles rios e córregos protegidos por floresta apresentaram características qualitativas óticas naturais, sem alterações significativas em períodos chuvosos (Anexo 2). Os rios e córregos que apresentaram tais condições, foram:

afluentes do rio São João (S01P01 e S01P03);

afluente do rio Silva Jardim (S06P12);

afluentes do rio Floriano (S10P22, S13P28A e S13P28B) e

rio Floriano (S10P21 e S13P29).

 

Em tais pontos de coleta foram observados valores de pH, fósforo total e coliformes fecais maiores e menores daqueles indicados pela Resolução Nº 20/86 do CONAMA para rios de Classe 1. A mesma situação foi verificada em todos os pontos de coleta, e pode estar relacionada com um ou mais desses parâmetros, assim como pode ser considerada natural, tendo em vista o grau de proteção desses rios.

 

Nesses rios, a fauna bentônica é favorecida pelas condições gerais, tais como qualidade de água, substrato, vegetação marginal, sombreamento e a disponibilidade de vários biótopos. Em todos esses pontos foi observada uma maior riqueza de gêneros e famílias de macroinvertebrados bentônicos do que aqueles com influência externa ao Parque.

 

Todas as águas dos pontos de observação localizados em rios e córregos protegidos por floresta do Parque, desde a suas nascentes, foram classificadas como Classe 1, a partir da avaliação biológica da fauna de macroinvertebrados bentônicos, pelo Índice BMWP’. Tais águas são consideradas muito limpas ou não-contaminadas ou não-alteradas de modo sensível e a qualidade de água é considerada boa.

 

Dentre todos os pontos avaliados, os afluentes do rio São João (S01P01 e S01P03), situados na estrada do Poço Preto, e o ponto S08P19A, localizado no córrego Quilômetro Oito, em região a montante da estrada do Colono, apresentaram o maior número de gêneros e famílias de macroinvertebrados bentônicos.

 

Um córrego afluente do rio São João encontra-se protegido, desde as suas nascentes, pela floresta do Parque, e caracterizou-se no ponto de coleta, na estrada do Poço Preto (S01P01), pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 2 - 5m; profundidade de 0,3 - 0,5m; fluxo em alguns trechos calmo e em outros rápido e turbulento; turbidez e cor médias naturais, relativas ao tipo de solos hidromórficos do local; substrato constituído principalmente de areia, argila e folhas caídas; sombreamento forte e pequeno aporte de sedimentos através do escoamento superficial da estrada (Anexo 2).

 

Todos os parâmetros físicos, químicos e microbiológicos analisados, para o córrego acima, apresentaram-se dentro dos limites estabelecidos para águas de Classe 1, com exceção dos parâmetros pH e fósforo total. A violação destes dois parâmetros foi mínima e pode ser considerada como uma situação natural, tendo em vista o grau de proteção do curso d’água.

 

Em relação à avaliação biológica da qualidade de água, esse ponto (S01P01) foi classificado como Classe 1, Boa, sendo de águas muito limpas e não-contaminadas ou não-alteradas de modo sensível (Anexos 7, 8 e 9).

A fauna de macroinvertebrados bentônicos amostrada apresentou um número elevado de gêneros e famílias indicadores de qualidade boa de água. No total foram identificados trinta famílias e 38 taxons. Dentre os quais, destacam-se pela abundância: sanguessugas Hirudinea; caranguejos Trichodactylus sp.; efêmeras Leptohyphes sp. e Thraulodes sp.; libélulas Gomphidae (Odonata); plecópteros Gripopterigydae e Anacroneuria sp. (cf); percevejos-d’água Limnocoris sp. e besouros aquáticos Elminthidae (Anexo 4).

 

Outro ponto de um outro córrego afluente do rio São João (S01P03) foi analisado e encontra-se protegido por trecho de floresta do Parque e caracterizou-se no ponto de coleta, na estrada do Poço Preto, pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 2 - 5m; profundidade de 0,3 - 0,5m; fluxo em alguns trechos calmo e em outros rápido e turbulento; turbidez e cor médias naturais, relativas ao tipo de solos hidromórficos do local; substrato constituído principalmente de pedra, pedregulho grosso, sedimentos finos e folhas caídas; sombreamento forte e pequeno aporte de sedimentos através do escoamento superficial da estrada (Anexo 2).

 

Todos os parâmetros analisados para o afluente estudado atendem aos limites estabelecidos para águas de Classe 1, com exceção dos parâmetros pH, fósforo total e coliformes fecais (Anexos 3 e 5). A violação dos primeiros parâmetros foi mínima, e pode ser considerada como uma situação natural, tendo em vista o grau de proteção deste curso d’água.

 

Em relação a avaliação biológica da qualidade de água, esse ponto (S01P03) foi classificado como Classe 1 (Anexos 7, 8 e 9).

 

Tal ponto apresentou um número elevado de gêneros e famílias de macroinvertebrados bentônicos, indicadores de qualidade de água boa. No total foram identificados 35 famílias e 45 taxons dentre os quais destacam-se pela abundância: sanguessugas Hirudinea; libélulas Libellulidae; plecópteros Anacroneuria sp. (cf); percevejos-d’água Pleidae; besouros aquáticos Elminthidae e Psephenus sp.; tricópteros Smicridea sp. e Chimarra sp. (Anexo 4).

 

Foi identificado, nesse ponto, o gênero Helicopsyche sp., da ordem dos Trichoptera (Anexo 4), registrado anteriormente somente em rios com águas muito limpas da bacia Litorânea (Toniollo et alii, 1998).

 

Um afluente do rio Silva Jardim também foi analisado, sendo que tal córrego se encontra protegido, desde as suas nascentes, por floresta do Parque, e caracterizou-se, no ponto de coleta (S6P12), pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 1 - 2m; profundidade de 0,3 - 0,5m; fluxo calmo; águas transparentes, sem evidências de cor e turbidez; substrato constituído principalmente de sedimentos finos e folhas caídas e sombreamento forte (Anexo 2).

 

Tabela 2 - Classificação da qualidade de água segundo o Índice BMWP’* (Alba - Tercedor, 1996; IAP, 1998), de trechos de cursos d’água amostrados durante a Avaliação Ecológica Rápida (AER) realizada no Parque Nacional do Iguaçu, no período de agosto a setembro de 1998 (Anexos 5 e 6)

 

Código da

Estação

Corpo d’ água

Classe

Qualidade

Valor

Significado

Cor

S01 P01

Córrego afluente do rio São João

1

BOA

169

§ Qualidade boa

§ Águas muito limpas

AZUL (AZ)

S01 P03

Córrego afluente do rio São João

1

BOA

204

§ Qualidade boa

§ Águas muito limpas

AZUL (AZ)

S02 P06

Rio São João

2

ACEITÁVEL

67

§ Qualidade aceitável

§ São evidentes alguns efeitos de contaminação

VERDE(VE)

S04 P09

Rio do Índio

2

ACEITÁVEL

86

§ Qualidade aceitável

§ São evidentes alguns efeitos de contaminação

VERDE (VE)

S05 P11**

Rio Represa Grande

-

-

-

§ -

-

S06 P12

Córrego afluente do rio Silva Jardim

1

BOA

134

§ Qualidade boa

§ Águas não-contaminadas ou não-alteradas de modo sensível

AZUL (AZ)

S06 P14**

Rio Silva Jardim

-

-

-

§ -

-

S07 P15

Rio Benjamim Constant

1

BOA

120

§ Qualidade boa

§ Águas não-contaminadas ou não-alteradas de modo sensível

AZUL (AZ)

S07 P16

Rio Pinheirinho

2

ACEITÁVEL

86

§ Qualidade aceitável

§ São evidentes alguns efeitos de contaminação

VERDE (VE)

S08 P19A

Rio Quilômetro Oito, montante da estrada do Colono

1

BOA

198

§ Qualidade boa

§ Águas muito limpas

AZUL (AZ)

S08 P19B

Rio Quilômetro Oito, jusante da estrada do Colono

1

BOA

124

§ Qualidade boa

§ Águas não-contaminadas ou não-alteradas de modo sensível

AZUL (AZ)

S10 P21**

Rio Floriano (foz), Acima do último salto

-

-

-

-

-

S10 P22

Córrego afluente do rio Floriano (foz)

1

BOA

131

§ Qualidade boa

§ Águas não-contaminadas ou não-alteradas de modo sensível

AZUL (AZ)

S13 P28A

Córrego afluente do rio Floriano, (parte média)

1

BOA

144

§ Qualidade boa

§ Águas não-contaminadas ou não-alteradas de modo sensível

AZUL (AZ)

S13 P28B

Córrego afluente do rio Floriano (parte média)

1

BOA

167

§ Qualidade boa

§ Águas muito limpas

AZUL (AZ)

S13 P29

Rio Floriano (parte média)

1

BOA

141

§ Qualidade boa

§ Águas não-contaminadas ou não-alteradas de modo sensível

AZUL (AZ)

S14 P30

Rio Gonçalves Dias

2

ACEITÁVEL

99

§ Qualidade aceitável

§ São evidentes alguns efeitos de contaminação

VERDE (VE)

Legenda:

* BMWP' - Biological Monitoring Working Party

** Não foi realizada a coleta de macroinvertebrados bentônicos

Valor: Somatória das pontuações das famílias de macroinvertebrados bentônicos identificadas segundo o Índice BMWP’ (Alba - Tercedor, 1996)

Quadro 7 - Lista de ocorrência de macroinvertebrados bentônicos em rios do Parque Nacional do Iguaçu, coletados durante a Avaliação Ecológica Rápida (AER), realizada no período de agosto a setembro de 1998

 

PLATYHELMINTHES

ARTHROPODA

Turbellaria

  

Dugesiidae

Aracnida

Leptophlebiidae

Dugesia sp.

Hydracarina

Thraulodes sp.

  

Thraulodes sp. "b"

MOLLUSCA

Crustacea

Hermanella (Hermanella) sp.

Gastropoda

Decapoda

Needhamella sp.

Não identificados

Trichodactylidae

Massartella sp.

Hydrobiidae

Trichodactylus sp.

Hylister sp.

Potamolithus sp.

Aeglidae

Odonata

Ancylidae

Aegla sp.

Anisoptera

Gundlachia sp.

 

Gomphidae

Planorbidae

Amphipoda

Gomphidae "c"

Drepanotrema sp.

Hyalellidae

Phyllocycla sp.

 

Hyalella sp.

Progomphus sp.

Pelecypoda

 

Aeshnidae

Ampullariidae

Insecta

Libellulidae

Pomacea sp.

Ephemeroptera

Zygoptera

Hyriidae

 

Calopterygidae

Diplodon sp.

Baetidae

Hetaerina sp.

 

Baetodes sp.

Coenagrionidae

Corbicullidae (cf)

Baetodes sp. "b"

Argia sp.

Sphaeriidae

Camelobaetidius sp.

Heteragrion sp. (cf)

Pisidium sp.

Caenidae

Plecoptera

 

Caenis sp.

Perlidae

ANNELIDA

Leptohyphidae

Anacroneuria sp. (cf)

 

Leptohyphes sp. "b"

Grypopterygidae

Oligochaeta

Leptohyphes sp. "c"

Gripopteryx sp.

 

Leptohyphes sp. "d"

Grypopterygidae "a"

Hirudinea

Tricorythodes sp.

 
 

Tricorythodes sp. "a"

 
   

 

Todos os parâmetros analisados para tal curso d’água apresentaram-se dentro dos limites estabelecidos para águas de Classe 1, com exceção do parâmetro fósforo total (Anexos 3 e 5). Essa situação pode ser considerada natural, tendo em vista o grau de proteção desse curso d’água.

 

Em relação à avaliação biológica da qualidade de água, esse ponto (S06P12) também foi classificado como Classe 1 (Anexos 7, 8 e 10).

 

O ponto S06P12 apresentou um total de 23 famílias e 27 taxons de macroinvertebrados bentônicos, dentre as quais alguns gêneros e famílias características de rios com qualidade de água boa. Os grupos mais representativos foram Ephemeroptera e Trichoptera, sendo que os gêneros mais abundantes foram: efêmeras Leptohyphes sp. e Massartella sp. (cf) e tricópteros Smicridea sp. e Phylloicus sp. (Anexo 4).

 

O rio Floriano tem praticamente toda a bacia hidrográfica, desde as nascentes até onde deságua no rio Iguaçu, incluída dentro dos limites do Parque. No ponto de coleta (S10P21), acima do último salto do rio, na sua foz, foi possível observar as seguintes condições fisiográficas: largura > 20m; profundidade >1,0m; fluxo rápido e turbulento; turbidez e cor naturais; sombreamento médio; vestígios de acampamento de caçadores (Anexo 2).

 

Todos os seus parâmetros físicos, químicos e microbiológicos analisados apresentaram-se dentro dos limites estabelecidos para águas de Classe 1, com exceção dos parâmetros fósforo total e coliformes fecais (Anexos 3 e 5). A violação desses dois parâmetros, a exemplo dos anteriores, foi mínima e pode ser considerada como uma situação natural, tendo em vista o grau de proteção desse curso d’água. Nesse ponto, não foi realizada a amostragem de macroinvertebrados bentônicos.

 

Em outro ponto na foz do rio Floriano (S10P22), também protegido por floresta do Parque, caracterizou-se no ponto de coleta, pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 2 - 5m; profundidade de 0,3 - 0,5m; fluxo calmo em alguns trechos e rápido e turbulento em outros; turbidez e cor naturais; substrato constituído principalmente de lajes, pedras e pedregulhos finos; sombreamento forte (Anexo 2).

 

Todos os seus parâmetros analisados (físicos, químicos e microbiológicos) apresentaram-se dentro dos limites estabelecidos para águas de Classe 1, com exceção do parâmetro coliformes fecais (Anexos 3 e 5). Porém, a situação pode ser considerada natural, tendo em vista o grau de proteção desse curso d’água.

 

Em relação à avaliação biológica da qualidade de água, esse ponto também foi classificado, como Classe 1 (Anexos 7, 8 e 11).

 

Esse afluente do rio Floriano (em sua parte média) apresentou um total de 22 famílias e 31 taxons. Os gêneros e famílias mais abundantes são: caranguejo Aegla sp.; efêmeras Baetidae Baetodes sp., Camelobaetidius sp., Leptohyphes sp. e Thraulodes sp. e plecópteros Gripopterygidae (Anexo 4).

 

No Sítio 13, Ponto 28 A, o córrego (afluente do rio Floriano, parte média) encontra-se protegido desde as suas nascentes, pela floresta do Parque, e caracterizou-se no ponto de coleta, pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 2 - 5m; profundidade de 0,1 - 0,3m; fluxo calmo; águas transparentes, sem evidências de cor e turbidez; substrato constituído principalmente de pedregulhos grossos e finos e folhas caídas e sombreamento forte (Anexo 2).

 

Todos os seus parâmetros analisados (físicos, químicos e microbiológicos) apresentaram-se dentro dos limites estabelecidos para águas de Classe 1, com exceção do parâmetro coliformes fecais (Anexos 3 e 5). Essa situação pode ser considerada natural, tendo em vista o grau de proteção desse curso d’água.

 

Em relação à avaliação biológica da qualidade de água, esse ponto também foi classificado como Classe 1 (Anexos 7, 8 e 12).

 

O local (S13P28A) apresentou 24 famílias de macroinvertebrados bentônicos e, dentre os 29 taxons determinados, os mais abundantes foram: planárias Dugesia sp.; caranguejos Aegla sp.; moluscos Potamolithus sp.; efêmeras Leptohyphes sp. e Massartella sp. (cf)); libélulas Libellulidae e Argia sp.; besouros aquáticos Psephenus sp. e tricópteros Smicridea sp. (Anexo 4).

 

Na parte média do rio Floriano, mais uma córrego encontra-se protegido, desde as suas nascentes, por floresta do Parque, e caracterizou-se no ponto de coleta (S13P28B) pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 2 - 5m; profundidade de 0,1 - 0,3m; fluxo calmo; águas transparentes, sem evidências de cor e turbidez; substrato constituído principalmente de pedregulhos grossos e finos e folhas caídas e sombreamento forte (Anexo 2).

 

Nesse ponto de amostragem foi realizada somente a amostragem de macroinvertebrados bentônicos, e a avaliação biológica da qualidade de água indicou o ponto como Classe 1 (Anexos 7, 8 e 12).

 

Naquele ponto, foi determinado um total de 28 famílias e 37 taxons, com os seguintes gêneros e famílias mais abundantes: efêmeras Thraulodes sp. e Massartella sp; libélulas Libellulidae; plecópteros Anacroneuria sp. (cf); besouros aquáticos Psephenus sp. tricópteros Smicridea sp., Triplectides e Phylloicus sp.; larvas de borrachudos Simulium sp. e larvas de mosquitos Chironomidae (Anexo 4).

 

O rio Floriano, porção média, ponto de coleta S13P29, caracterizou-se pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 10 -20m; profundidade 0,5 - 1,0m; fluxo calmo; turbidez e cor naturais, substrato constituído principalmente de lages, pedras, pedregulhos grossos e finos e folhas caídas e sombreamento médio (Anexo 2).

 

Todos os parâmetros analisados apresentaram-se dentro dos limites estabelecidos para águas de Classe 1, com exceção dos parâmetros fósforo total e coliformes fecais (Anexos 3 e 5). A violação destes dois parâmetros foi mínima, e pode ser considerada como uma situação natural, tendo em vista o grau de proteção deste curso d’água, a exemplo dos demais.

 

Em relação à avaliação biológica da qualidade de água, esse ponto também foi classificado como Classe 1 (Anexos 7, 8 e 13).

 

O ponto S13P29 apresentou um total de 25 famílias e 37 taxons, dentre os quais, os mais abundantes foram: moluscos Pomacea sp. e Diplodon sp.; efêmeras Baetidae, Leptohyphes sp. e Trichorythodes sp.; plecópteros Gripopterygidae e Anacroneuria sp. (cf); tricópteros Nectopsyche sp. e larvas de borrachudos Simulium sp. (Anexo 4).

 

Em rios com influência antrópica (estradas e agropecuária), a primeira evidência de alteração da qualidade de água são a cor e a turbidez, típicas de sedimentos em suspensão, oriundos de processos erosivos de solos da bacia de drenagem (Anexo 2). Dentre os pontos estudados, apresentaram essa condição os seguintes corpos d’água:

São João (S02P06);

do Índio (S04P09);

Represa Grande(S05P11)

Silva Jardim (S06P14)

Benjamim Constant (S07P15);

Pinheirinho (S07P16);

Quilômetro Oito - montante e jusante da estrada do Colono (S08P19A e S08P19B) e

Gonçalves Dias (S14P30).

 

A erosão de bacias preservadas geralmente libera pequenas quantidades de material particulado, ao contrário de áreas agrícolas, as quais podem introduzir quantidades substanciais de tais sólidos. Os efeitos dessa introdução sobre os insetos adaptados às águas limpas podem ser bastante sérios. Os organismos podem ser afetados diretamente (alimentação e respiração) ou indiretamente (redução da penetração da luz; soterramentos de superfícies e interstícios do substrato). Além do que, poluentes específicos, associados com os sedimentos, podem criar problemas adicionais àqueles causados pelo material inerte (Resh & Rosenberg, 1984).

 

Segundo ainda tais autores, estudos experimentais têm demonstrado que o primeiro efeito da adição de sedimentos em rios é a deriva dos animais a partir do lugar afetado. Em geral, o efeito de uma entrada prolongada de sedimentos em rios é a redução do número de espécies e da densidade dos animais.

 

Dentre os valores obtidos de parâmetros físicos, químicos e microbiológicos, o fósforo total e coliformes fecais apresentaram, em alguns pontos, valores acima daqueles indicados pela Resolução Nº 20/86 do CONAMA para rios de Classe 1 (Anexos 3 e 5).

 

Em relação aos metais, foram verificados valores superiores aos limites estabelecidos para manganês, nos pontos S04P09 (rio Índio); S05P11 (rio Represa); S07P15 (rio Silva Jardim); S7P16 (córrego Pinheirinho) e S08P19A (córrego Quilômetro Oito, a montante da estrada do Colono), provavelmente associados aos sedimentos em suspensão. No ponto S05P11 (rio Represa Grande) foi verificada, também, a violação mínima do limite estabelecido para mercúrio. O mercúrio é considerado um contaminante ambiental e deve, portanto, ser monitorado.

 

Todos os rios com influência externa ao Parque foram classificados como Classe 2, a partir da avaliação biológica da fauna de macroinvertebrados bentônicos, pelo Índice BMWP’. Tais águas apresentam qualidade de água aceitável, evidenciando alguns efeitos de contaminação. Dentre esses rios constituem exceção o rio Benjamim Constant e o córrego Quilômetro Oito (dentro do Parque), à jusante da estrada, os quais foram classificados como Classe 1.

 

A qualidade de água dos rios Silva Jardim, Represa Grande e Floriano (foz) não foi avaliada quanto a fauna de macroinvertebrados bentônicos.

 

O rio São João tem grande parte de sua bacia hidrográfica (nascentes e afluentes) localizada fora do Parque, onde são desenvolvidas principalmente atividades agropecuárias. No ponto de coleta, na entrada no Parque (S02P06), o rio caracterizou-se pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 10 - 20m; profundidade de 0,5 - 1,0m; fluxo em alguns trechos calmo e em outros rápido e turbulento; turbidez e cor fortes, típicas de sedimentos em suspensão, oriundos de processos erosivos de solos da bacia de drenagem à montante; substrato constituído principalmente de laje, pedra, pedregulhos grosso e fino; sombreamento forte; aporte de sedimentos através do escoamento superficial na bacia de drenagem a montante e lixo nas margens e leito do rio (Anexo 2).

 

Todos os parâmetros analisados apresentaram-se dentro dos limites estabelecidos para águas de Classe 1, com exceção do parâmetro coliformes fecais (Anexos 3 e 5). Os cursos de água que drenam áreas agrícolas, pastagens ou recebem diretamente resíduos provenientes da atividade da suinocultura, normalmente apresentam valores elevados de coliformes fecais, mostrando o comprometimento da qualidade de água.

 

Em relação à avaliação biológica da qualidade de água, esse ponto (S02P06) foi classificado como Classe 2 (Anexos 7, 8 e 14), ou seja, é aceitável, mas são evidentes alguns efeitos de contaminação.

 

O número de organismos e taxons de macroinvertebrados bentônicos coletados no rio São João (S02P06) foi baixo, com 14 famílias e 14 taxons, podendo estar associado, além da qualidade de água, ao tipo de substrato e à vazão do rio (em função das chuvas). Dentre os taxons identificados, foi mais abundante o molusco Potamolithus sp. (Anexo 14).

 

O rio do Índio também tem parte de sua bacia hidrográfica (nascentes e afluentes) localizada fora do Parque, onde são desenvolvidas principalmente atividades agropecuárias. O rio, no ponto de coleta, na entrada no Parque (S04P09), caracterizou-se pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 2-5m; profundidade de 0,5 - 1,0m; fluxo em alguns trechos calmo e em outros rápido e turbulento; turbidez e cor médias, devido a sólidos suspensos e a algas oriundas da parte represada do rio, a montante; processos erosivos nas margens; substrato constituído principalmente de pedra, pedregulhos grosso e fino, argila, sedimentos provenientes de processos erosivos, folhas caídas e musgos; sem sombreamento; aporte de sedimentos da estrada de acesso e margens; aporte de resíduos de origem animal e lixo nas margens e leito do rio (Anexo 2).

 

De acordo com a Resolução Nº 20/86 do CONAMA, todos os parâmetros analisados apresentaram-se dentro dos limites estabelecidos para águas de Classe 1, com exceção do parâmetro manganês, o qual pode estar associado aos sedimentos em suspensão (Anexos 3 e 5).

 

Em relação à avaliação biológica da qualidade de água, esse ponto (S04P09) foi classificado como Classe 2 (Anexos 7, 8 e 14), sendo a qualidade aceitável, mas com evidentes efeitos de contaminação.

 

No rio do Índio (S04P09) foi identificado um total de 16 famílias e 20 taxons de macroinvertebrados bentônicos, sendo os seguintes os taxons mais abundantes: molusco Potamolithus sp.; larvas de borrachudo Simulium sp. e larvas de mosquitos Chironomidae (Anexo 4).

Ainda, o rio Represa Grande tem parte de sua bacia hidrográfica (nascentes e afluentes) localizada fora do Parque, onde também são desenvolvidas principalmente atividades agropecuárias. No ponto de coleta, o rio (S05P11), na entrada do Parque, caracterizou-se pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 10 - 20m; profundidade >1,0m; fluxo rápido; turbidez e cor fortes, típicas de sedimentos em suspensão, oriundos de processos erosivos de solos da bacia de drenagem a montante e processos erosivos nas margens. Segundo Grando Jr. (1998), o substrato é constituído principalmente de lajes e matacões apenas em áreas de maior energia, havendo extensas áreas cobertas por sedimentos finos; pouco sombreamento; aporte de sedimentos através do escoamento superficial na bacia de drenagem a montante e lixo nas margens (Anexo 2).

 

Nesse ponto, dentre os parâmetros físicos, químicos e microbiológicos analisados, apresentaram-se fora dos limites estabelecidos para águas de Classe 1 o fósforo total, o manganês, o mercúrio e coliformes fecais (Anexos 3 e 5). Tais violações podem indicar o comprometimento da qualidade de água nesse ponto. Não foi realizada a amostragem de macroinvertebrados bentônicos no local.

 

O rio Silva Jardim tem grande parte de sua bacia hidrográfica (nascentes e afluentes) localizada fora do Parque, com regiões urbanas e rurais, onde são desenvolvidas principalmente atividades agropecuárias. No ponto de coleta do rio (S06P14), na entrada no Parque, caracterizou-se pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 10 - 20m; profundidade >1,0m; fluxo rápido; turbidez e cor fortes, típicas de sedimentos em suspensão, oriundos de processos erosivos de solos da bacia de drenagem a montante e processos erosivos nas margens.

 

Segundo Grando Jr. (1998), o substrato do rio Silva Jardim, no local estudado, é constituído principalmente de lajes e matacões apenas em áreas de maior energia, havendo extensas áreas cobertas por sedimentos finos; pouco sombreamento; aporte de sedimentos através do escoamento superficial na bacia de drenagem a montante e lixo nas margens do rio (Anexo 2).

 

Todos os parâmetros analisados, obedecendo a Resolução N º 20/86 do CONAMA, apresentaram-se dentro dos limites estabelecidos para águas de Classe 1, com exceção do parâmetro manganês, o qual pode estar associado aos sedimentos em suspensão (Anexos 3 e 5). Conforme já verificado na avaliação fisiográfica, esse ponto sofre o impacto do uso e ocupação do solo da bacia hidrográfica a montante. Nesse ponto, não foi realizada a amostragem de macroinvertebrados bentônicos.

 

O rio Benjamim Constant tem grande parte de sua bacia hidrográfica (nascentes e afluentes da margem esquerda) localizada dentro do Parque. Contudo, em parte de sua bacia hidrográfica são desenvolvidas atividades agropecuárias. Esse rio, no ponto de coleta, dentro do Parque (S07P15), caracterizou-se pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 5 - 10m; profundidade 0,5 - 1,0m; fluxo em alguns trechos calmo e em outros rápido; turbidez e cor fortes, típicas de sedimentos em suspensão oriundos de processos erosivos de solos da bacia de drenagem à montante; processos erosivos nas margens; substrato constituído principalmente por sedimentos finos, folhas e galhos caídos; sombreamento forte e aporte de sedimentos através do escoamento superficial na bacia de drenagem à montante (Anexo 2).

 

No ponto estudado, todos os parâmetros analisados apresentaram-se dentro dos limites estabelecidos para águas de Classe 1 (Anexos 3 e 5). Conforme já verificado na avaliação fisiográfica, esse ponto sofre também o impacto do uso e ocupação do solo, da bacia hidrográfica à montante.

 

Em relação à avaliação biológica da qualidade de água, esse ponto também foi classificado como Classe 1 (Anexos 7, 8 e 15).

 

Tal ponto (S07P15), apesar de apresentar características óticas alteradas, apresentou um número maior de famílias e gêneros do que outros rios que nascem fora do Parque, provavelmente devido a melhores condições de sua preservação. Foram identificados 21 famílias e 25 taxons de macroinvertebrados bentônicos, dentre as quais os taxons mais abundantes foram: efêmeras Baetidade; Leptohyphes sp. e Thraulodes sp. (Anexo 4).

 

O córrego Pinheirinho, afluente da margem direita do rio Benjamim Constant, tem grande parte de sua bacia hidrográfica (nascentes e afluentes) localizada fora do PNI, onde são desenvolvidas atividades agropecuárias. Esse rio, no ponto de coleta (S07P16), entrada no Parque, caracterizou-se pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 5 - 10m; profundidade 0,5 - 1,0m; fluxo em alguns trechos calmo e em outros rápido e turbulentos; turbidez e cor médias, típicas de sedimentos em suspensão, oriundos de processos erosivos de solos da bacia de drenagem à montante; substrato constituído principalmente de lajes, pedras, pedregulhos grossos e finos; sombreamento médio e aporte de sedimentos através do escoamento superficial na bacia de drenagem à montante (Anexo 2).

 

Todos os parâmetros analisados nesse ponto apresentaram-se dentro dos limites estabelecidos para águas de Classe 1 (Anexos 3 e 5). Conforme já verificado na avaliação fisiográfica, esse ponto sofre também o impacto do uso e ocupação do solo da bacia hidrográfica, à montante.

 

Em relação à avaliação biológica da qualidade de água, esse ponto (S07P16) foi classificado como Classe 2 (Anexos 7, 8 e 15). Trata-se, portanto, de mais um curso d’água com qualidade aceitável, mas com evidentes sinais de contaminação.

 

No local foi identificado um total de dezesseis famílias e 23 taxons. Os taxons mais abundantes foram: caranguejo Aegla sp.; efêmeras Camelobetidius sp. e Thraulodes sp. e tricópteros Leptonema sp. (Anexo 4).

 

O córrego Quilômetro Oito, conforme já considerado, tem como influência antrópica a estrada do Colono, principalmente em períodos chuvosos. Durante os trabalhos de campo foi possível observar a entrada de águas do escoamento superficial da estrada, carregada de sedimentos, alterando de modo significativo as características de cor e turbidez das águas nesse e em outros córregos que atravessam a estrada.

 

Comparando-se os valores obtidos da análise de parâmetros físicos, químicos e microbiológicos de amostras de água coletadas a montante e a jusante da estrada é possível constatar as modificações bruscas de qualidade de água que ocorrem a partir da entrada da água do escoamento da estrada. Os valores de cor, turbidez, fósforo total, manganês, cobre e coliformes totais e fecais apresentaram-se significativamente superiores àqueles registrados à montante e aos limites estabelecidos na Resolução Nº 20/86 do CONAMA para águas de Classe 1 (Anexos 3 e 5).

 

Na avaliação biológica da qualidade de água, os dois pontos foram classificados como Classe 1 (Anexos 7, 8 e 16). Entretanto, o número de famílias identificadas à jusante da estrada foi menor daquele encontrado a montante (Anexos 7, 8 e 16).

 

Conforme já apontado anteriormente, o primeiro efeito da adição de sedimentos em rios é a deriva dos animais bentônicos a partir do lugar afetado, podendo haver a redução do número de espécies e da densidade dos animais. Entretanto, a fauna bentônica pode ser recuperada. Quando os sedimentos são levados embora do sistema, pode ocorrer a recolonização do substrato por animais advindos de outras áreas não alteradas à montante. Contudo, é necessário avaliar ao longo do tempo, qual é a capacidade e a amplitude de recomposição da fauna bentônica sujeita a impactos constantes.

 

Os dois pontos de coleta do córrego Quilômetro Oito apresentaram o tricóptero Grumicha sp. Esse gênero havia sido registrado somente em rios de águas limpas da bacia litorânea.

 

O córrego Quilômetro Oito, no ponto S01P19A, localizado à montante da estrada do Colono, caracterizou-se pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 2 - 5m; profundidade 0,5 - 1,0m; fluxo calmo; turbidez e cor naturais; substrato constituído principalmente de sedimentos finos e folhas caídas e entrada de sedimentos próximo à ponte, devido ao escoamento superficial da estrada do Colono (Anexo 2).

 

Todos os parâmetros analisados apresentaram-se dentro dos limites estabelecidos para águas de Classe 1, com exceção do parâmetro coliformes fecais (Anexos 3 e 5). A presença de coliformes fecais em diferentes densidades, em áreas sem a influência humana, é comum e está relacionada à fauna silvestre. Contudo, nesse ponto pode haver, também, a influência temporária ou permanente da estrada do Colono sobre a qualidade de água.

 

Em relação à avaliação biológica da qualidade de água, esse ponto (S08P19A) foi classificado como Classe 1 (Anexos 7, 8 e 16).

 

Esse trecho do córrego Quilômetro Oito apresentou 34 famílias e 44 taxons, e os gêneros mais abundantes foram: o molusco Potamolithus sp.; libélulas Gomphidae, Progomphus sp.; percevejo-d’água Limnocoris sp.; besouros aquáticos Elminthidae e o tricóptero Grumicha sp. (Anexo 4).

 

No mesmo córrego Quilômetro Oito, no ponto S08P19B, localizado à jusante da Estrada do Colono, caracterizou-se pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 2 - 5m; profundidade 0,3 - 0,5m; fluxo em alguns trechos calmo e em outros rápido e turbulentos; turbidez e cor fortes, típicas de sedimentos oriundos da estrada através do escoamento superficial das águas de chuvas e substrato constituído principalmente de pedregulhos grossos, outros sedimentos finos e folhas caídas (Anexo 2).

 

Nesse trecho de rio, foram registrados valores de cor, turbidez, fósforo total, ferro total, manganês, cobre, coliformes totais e fecais, significativamente superiores aos limites propostos na Resolução Nº 20/86 do CONAMA para águas de Classe 1 (Anexos 3 e 5). Tais valores estão associados à entrada de sedimentos e poluentes associados, através do escoamento superficial da estrada.

 

Tal ponto, em relação à avaliação biológica da qualidade de água, foi classificado, também, como Classe 1. Conforme já considerado, essa situação pode ser devida à capacidade de recuperação da fauna bentônica, a partir da recomposição das condições fisiográficas do rio e da deriva de animais oriundos de áreas não-impactadas à montante.

 

Esse rio, no ponto de amostragem localizado abaixo da ponte, foi caracterizado pela presença de 22 famílias e 36 taxons. Os gêneros mais abundantes foram: o molusco Potamolithus sp. (Mollusca); a efêmera Leptohyphes sp.; o plecóptero Anacroneuria sp. (cf); o percevejo-d’água Limnocoris sp. e o tricóptero Grumicha sp. (Anexo 4).

 

O rio Gonçalves Dias, limite leste do Parque, conforme dito, tem grande parte de sua bacia hidrográfica, nascentes e afluentes da margem esquerda, localizada fora do Parque, com regiões urbanas e rurais, onde são desenvolvidas principalmente atividades pecuárias. O rio, no ponto de coleta (S14P30), caracterizou-se pelas seguintes condições fisiográficas: largura de 10 - 20m; profundidade de 0,5 - 1,0m; fluxo em alguns trechos calmo e em outros rápido e turbulentos; evidências de turbidez e cor típicas de sedimentos em suspensão, oriundos de processos erosivos de solos da bacia de drenagem a montante; substrato constituído principalmente de lajes, pedregulhos grossos e finos e folhas caídas; sombreamento médio e aporte de sedimentos através do escoamento superficial na bacia de drenagem à montante (Anexo 2).

 

Todos os parâmetros considerados foram analisados e apresentaram-se dentro dos limites estabelecidos para águas de Classe 1, com exceção dos parâmetros fósforo total e coliformes fecais (Anexos 3 e 5), o que é esperado de águas que drenam áreas de suinocultura.

 

Em relação à avaliação biológica da qualidade de água, esse ponto foi classificado como Classe 2 (Anexos 7, 8 e 13). Assim, mais um curso d’água mostra-se com qualidade aceitável, mas com evidências de contaminação.

 

No rio Gonçalves Dias foi registrado um total de dezoito famílias e 31 taxons, dentre os quais, os mais abundantes foram: a libélula Argia sp.; efêmeras Baetodes sp.; Camelobaetidius sp.; Trichorythodes sp. e Thraulodes sp.; plecóptero Anacroneuria sp. (cf); larvas de borrachudo Simulium sp. e larvas de mosquitos Chironomidae (Anexo 4).

 

6.3. Caracterização dos Ambientes Naturais

6.3.1. Vegetação

Entre os ambientes que compõem o PNI predominam ambientes florestais, testemunhos da riqueza madeireira, característica de toda a região norte e oeste do Estado Paraná. Facilmente identificável em imagens de satélite ou fotografias aéreas do Estado, o Parque é a única mancha verde de tamanho significativo que sobreviveu ao desbravamento da região para abertura de fronteiras agropecuárias e de exploração de madeira, atividades que transformaram o Paraná em um complexo mosaico de diferentes alternativas de uso da terra.

 

Ainda assim, anteriormente à criação do PNI, em 1939, já havia ocupação humana no local e encontravam-se, na atual área protegida, inúmeras fazendas, em especial na porção sudoeste, além de casas de moradores e algumas serrarias. A exploração de madeira, ao contrário do estabelecimento de cultivos agrícolas e pastagens, deixou remanescentes florestais fragmentados por toda a região, causando o quase desaparecimento de algumas espécies mais procuradas em função das propriedades da madeira.

 

Entre elas pode-se citar cabreúva Myrocarpus frondosos, pau-marfim Balfourodendron riedelianum, peroba Aspidosperma polyneuron, ipê-roxo Tabebuia heptaphylla, feijão-cru Lonchocarpus muehlenbergianus e ariticum Rollinia salicifolia, todas na lista de espécies ameaçadas de extinção, além de ipê-amarelo Tabebuia chrysotricha e pinheiro-do-paraná (ou araucária) Araucaria angustifolia, mais ameaçado pela perda de qualidade genética. O jaracatiá Jaracatia spinosa ou mamãozinho, embora não tenha qualidades para aproveitamento madeireiro, também foi amplamente extraído, estando hoje também ameaçado de extinção no Estado (Quadro 8).

 

As formações florestais existentes no Parque diferem com as características de altitude, solos e clima. A parte sul do Parque é mais baixa, com altitudes de 200m no rio Iguaçu, sendo essa área coberta por Floresta Estacional Semidecídua, cujas árvores perdem folhas no inverno. Ao norte, onde as altitudes alcançam mais de 600m, ocorre Floresta Ombrófila Mista, com araucária, ao longo dos vales dos rios, orientados em direção norte-sul. As árvores maiores atingem alturas de 35m, sendo comum encontrar, nas partes melhor conservadas, troncos com mais de um metro de diâmetro.

 

Ao longo dos rios que cortam o Parque, formam-se florestas mais baixas, com 8 a 15m de altura, onde a riqueza de espécies é menor e as árvores são adaptadas a enchentes periódicas, suportando bem a condição de muita umidade. Além das áreas com florestas, existem lagoas formadas por nascentes de rios e banhados formados em áreas sujeitas a inundações de longos períodos. Essa vegetação de tais áreas úmidas, onde predominam capins, arbustos e árvores baixas, são chamadas de Formações Pioneiras de Influência Fluvial e, à medida que os solos se desenvolvem, a vegetação vai mudando e se tornando mais alta e mais complexa.

 

Os estudos da vegetação foram realizados no escopo da AER e estão detalhados em Antonelli-Filho (1999) e Ziller (1998).

6.3.1.1. Caracterização Geral

 

Ocorrem no Parque Nacional do Iguaçu três diferentes formações vegetais, distribuídas de maneira heterogênea, em função de diferenças altitudinais e variações no meio físico, a saber:

Floresta Estacional Semidecídua, subformações: 1) Submontana, até níveis altitudinais de aproximadamente 400m, 2) Montana, acima desse patamar e em transição com Floresta Ombrófila Mista (com araucária ou pinheiro-do-paraná), e Aluvial, ao longo dos cursos d’água, onde o meio físico sofre influência direta de inundações periódicas nas épocas de maiores índices pluviométricos;

 

Floresta Ombrófila Mista, subformação Montana, em transição com Floresta Estacional Semidecídua Montana, em níveis altitudinais acima de 500m, e Aluvial, ao longo dos cursos d’água onde o meio físico sofre influência direta de inundações periódicas nas épocas de maiores índices pluviométricos e

 

Formações Pioneiras de Influência Fluvial, compondo áreas de solos instáveis sujeitos a condições extremas de inundação, em geral sobre solos Hidromórficos, Gleis ou Orgânicos. São áreas mais comumente ocupadas por vegetação herbáceo-arbustiva, sendo freqüentes capinzais compostos por espécies das famílias Cyperaceae e Poaceae.

 

Ocorrem, na área do Parque, misturas dessas fases devido às diferentes atividades antrópicas desenvolvidas no passado. Em quase todos os pontos visitados observaram-se intervenção relativa à exploração madeireira de tempos mais remotos e ação de palmiteiros, caçadores e pescadores.

 

6.3.1.2. Floresta Estacional Semidecídua Submontana e Montana

 

A subformação Submontana da Floresta Estacional Semidecídua cobre a maior parte do PNI, em relevo plano a suave-ondulado, atingindo altitudes máximas de aproximadamente 400m. A partir dessa altitude até mais de 500m, onde passa a ocorrer a Floresta Ombrófila Mista (com araucária), caracteriza-se a subformação Montana, cuja estrutura e composição são altamente semelhantes à da Floresta Submontana. Constituem, ambas, formações florestais de grande porte, com alturas máximas do estrato emergente em 35m e maiores diâmetros à altura do peito (DAP) superiores a um metro. A formação Submontana, de modo geral, pode apresentar maior densidade e porte levemente superior à Montana, em função das condições mais favoráveis do relevo.

 

Quadro 8 - Espécies da Floresta Estacional Semidecídua do Parque Nacional do Iguaçu em risco de extinção (Hatschbach & Ziller, 1995 e Hatschbach, com. pess., 1998)

 

Família

Nome científico/Nome popular

Categoria de ameaça

Acanthaceae

Chaetoclamys psammina Leonard

em perigo

Acanthaceae

Poikilacanthus guillesi (Nees) Lindau

rara

Acanthaceae

Streblacanthus dubiosus (Lindau) V.M.Baum

vulnerável

Achatocarpaceae

Achatocarpus bicornutus Schintz

rara

Annonaceae

Rollinia salicifolia Schlecht. ariticum

em perigo

Apiaceae

Eryngium ekmanii Wolff

em perigo

Apocynaceae

Aspidosperma polyneuron M.Arg. peroba

rara

Araucariaceae

Araucaria angustifolia (Bert.) O.Ktze. pinheiro-do-paraná

rara

Begoniaceae

Begonia iguasuensis Smith & Wassh. begônia

em perigo

Bignoniaceae

Tabebuia heptaphylla (Vell.) Toledo ipê-roxo

rara

Caricaceae

Jacaratia spinosa (Aubl.) DC. jaracatiá

rara

Fabaceae

Centrosema sagittatum (Willd.) Malme

em perigo

Fabaceae

Gleditsia amorphoides (Griseb.) Taubert

em perigo

Fabaceae

Lonchocarpus muehlenbergianus Hassler feijão-cru

rara

Fabaceae

Myrocarpus frondosus Fr. Allem. cabreúva

rara

Orchidaceae

Campylocentrum neglectum (Rchb.f.) Cogn. orquídea

rara

Orchidaceae

Centrogonium schlechterianum Porto & Brade orquídea

rara

Orchidaceae

Oncidium cruciatum Rchb.f. orquídea

rara

Orchidaceae

Sophronites cernua Ldl. orquídea

em perigo

Phytolaccaceae

Trichostigma octandrum (L.) H.Waalter

em perigo

Rutaceae

Balfourodendron riedelianum (Engl.) Engl. pau-marfim

rara

Sapotaceae

Pouteria salicifolia (Spr.) Radlk.

em perigo

Nota: A araucária Araucaria angustifolia foi incluída na lista de espécies ameaçadas em função da depauperação do patrimônio genético, e não pela sua raridade, pois é ainda muito comum nas paisagens do Estado do Paraná. A grande maioria dos pinhais ainda existentes já sofreu exploração dos melhores exemplares.

 

As diferentes fases de desenvolvimento sucessional da Floresta Estacional Semidecídua Submontana e Montana encontradas no PNI, quase sempre resultantes de alteração intensa da floresta primária original e, portanto, misturadas a remanescentes seus em maior ou menor grau, caracterizam-se conforme se segue:

 

fase inicial de floresta - predomina canela-guaicá Ocotea puberula, formando um estrato arbóreo contínuo com altura de 12 a 18m. À medida que a riqueza aumenta, assim como a complexidade estrutural, há mistura com angico-vermelho Parapiptadenia rigida e canela Nectandra sp., praticamente sempre presentes, jerivá Arecastrum romanzoffianum, cedro Cedrela fissilis, miguel-pintado Matayba elaeagnoides, maria-preta Diatenopteryx sorbifolium, baga-de-morcego Guarea cf. macrophylla, canjerana Cabralea canjerana e pessegueiro-bravo Prunus sellowii, entre outras.

 

Eventuais pioneiras associadas são tapiá-graúdo Alchornea sidifolia, tapiá Alchornea triplinervia, crindiúva Trema micrantha e embaúba Cecropia cf. pachystachya. Espécies companheiras de menor porte são rabo-de-bugio Dalbergia frutescens, ingá Inga marginata, figueiras Ficus spp., pata-de-vaca Bauhinia sp. e pau-cincho Sorocea bonplandii.

 

No sub-bosque é característica a presença de criciúma Guadua chacoensis e taquara Merostachys multiramea, ocupando clareiras em meio à vegetação arbustiva composta por Piper gaudichaudianum, urtigão Urera baccifera, Rubiaceae e Melastomataceae, entre outras. Ocorrem ainda em quantidade considerável plantas trepadeiras e, entre a vegetação herbácea, diversas espécies de Pterydophyta em grande profusão, Melastomataceae, Rubiaceae e Apiaceae.

 

As epífitas são representadas por Bromeliaceae, Orchidaceae, Sinningia douglasii, costela-de-adão Monstera adansonii e begônia Begonia subvillosa, essa também de hábito rupícola, junto a Asteraceae, Apiaceae, Commelinaceae, Oxalidaceae e Selaginellaceae. Entre as lianas, é indicadora de áreas alteradas o cipó-de-são-joão Pyrostegia venusta.

 

Nas clareiras formadas em meio à vegetação de maior porte observa-se, mais comumente, fumo-bravo Solanum mauritianum, tapiá-graúdo Alchornea sidifolia, tapiá Alchornea iricurana e embaúba Cecropia cf. pachystachya, associadas a formações de taquara.

 

Entre as áreas avaliadas durante a realização desse estudo, essa fase sucessional foi observada no Sítio 3, Ponto 8, na trilha das Cataratas, que dá acesso às passarelas, onde a vegetação arbórea tem sido removida para possibilitar a visualização do rio Iguaçu. Também encontra-se no Sítio 4, Ponto 10, próximo ao rio do Índio; Sítio 7, Ponto 17, entre o rio Benjamim Constant e o limite do PNI, ao norte, nas proximidades do córrego Pinheirinho, no limite do Parque com a fazenda Poiema; Sítio 10, Ponto 22, próximo à foz do rio Floriano, em uma área muito restrita, e no Sítio 13, Pontos 28 e 29, no médio curso do rio Floriano, em áreas muito exploradas e reduzidas a fases florestais iniciais, intercaladas por taquarais.

 

fase intermediária – estão entre as espécies dominantes maria-preta Diatenopteryx sorbifolium, angico-vermelho Parapiptadenia rigida e canela Nectandra sp. Também comuns, embora menos marcantes, são miguel-pintado Matayba elaeagnoides, canjerana Cabralea canjerana, cedro Cedrela fissilis, louro-branco Bastardiopsis densiflora, guabirova Campomanesia xanthocarpa, jerivá Arecastrum romanzoffianum, cutia-branca Pilocarpus pennatifolius, guamirins, cambuís e araçás (Myrtaceae) e diversas canelas (Lauraceae), entre as quais canela-guaicá Ocotea puberula, típica da fase anterior, ainda em densidade significativa em algumas situações.

 

Espécies ocasionais são alecrim Holocalyx balansae, paineira Chorisia speciosa, jaracatiá Jacaratia spinosa, feijão-cru Lonchocarpus muehlenbergianus, sapuva Machaerium sp., grápia Apuleia leiocarpa, canela-amarela Nectandra megapotamica, aguaí Chrysophyllum gonocarpum, ariticum Rollinia salicifolia, canela Endlicheria paniculata e rabo-de-bugio Dalbergia frutescens, entre outras.

 

O sub-bosque é caracterizado por três tipos dominantes de ocupação. As áreas melhor conservadas, com maior número de remanescentes das florestas primárias, são dominadas por palmito Euterpe edulis e agrupamentos esparsos de xaxim-bravo Cyathea sp., enquanto as áreas mais alteradas, com maior freqüência de clareiras, são dominadas por densos taquarais de criciúma Guadua chacoensis, taquara Merostachys multiramea e, mais ocasionalmente, taquaruçu Bambusa sp.

 

Outra espécie significativa para caracterização do sub-bosque é pau-cincho Sorocea bonplandii, comum em todos os pontos de observação. Como contribuintes à riqueza deve-se citar laranjeira-do-mato Actinostemon concolor que, estando entre as espécies de distribuição homogênea, por vezes domina o sub-bosque no lugar do pau-cincho (Sítio 9, Ponto 20). Outras arbóreas comuns são catiguá Trichilia spp. e baga-de-morcego Guarea kunthiana e G. macrophylla. Diversas espécies de Pterydophyta, como Adiantopsis radiata, Doryopteris nobilis, Blechnum raddianum e Selaginella flexuosa, constituem a principal cobertura herbácea, misturadas a caetê Calathea grandiflora, Manetia sp., Piper gaudichaudianum, Oxalis sp., Apiaceae e Araceae.

 

As epífitas, pouco abundantes na Floresta Estacional, têm distribuição homogênea em todo o Parque e ocorrem preferencialmente nas proximidades de corpos d’água, destacando-se caraguatá Aechmea ornata, orquídea Maxillaria marginata, Sinningia douglasii, Piperaceae, Begoniaceae, Araceae e costela-de-adão Monstera adansonii, além de diversas espécies de lianas.

 

Trata-se da formação predominante nas áreas visitadas e comprova a existência, no passado, de atividades de exploração madeireira seletiva que fizeram regredir as florestas originais a fases sucessionais menos avançadas. Há árvores ocasionais de grande porte, remanescentes da floresta primária.

 

Ocorre igualmente ao longo da estrada do Poço Preto e estende-se pela área da estrada das Cataratas, sendo predominante em toda a porção sudoeste do Parque, onde houve no passado maior concentração de atividades agropecuárias.

 

No ponto de observação do córrego Quilômetro Oito, na estrada do Colono, observou-se uma população razoável, inclusive com indivíduos de DAP superior a 1m, de jaracatiá Jacaratia spinosa, espécie ameaçada de extinção no Estado. Como espécie característica do sub-bosque nesse ponto registrou-se Hennecartia omphalandra, de porte arbustivo.

 

Dentre as áreas avaliadas durante a realização desse estudo, essa fase sucessional é predominante no Sítio 1, Pontos 2 e 4, estrada do Poço Preto; Sítio 6, Pontos 12 e 13, na bacia do rio Silva Jardim, fora das áreas aluviais, e Sítio 8, Ponto 19, na estrada do Colono, onde se destaca a ocorrência de jaracatiá Jacaratia spinosa, espécie ameaçada de extinção no Estado.

 

fase avançada – domina o estrato emergente, de forma geral, peroba Aspidosperma polyneuron, com diâmetros próximos de 1m e alturas de 35m. Dividem esse estrato e o imediatamente abaixo, entre 18 e 25m, árvores de DAP em torno de 60cm e eventuais mais grossas, indicando a retirada dos maiores exemplares no passado.

 

Entre as principais espécies observadas pode-se citar as espécies sob ameaça de extinção pau-marfim Balfourodendron riedelianum, cabreúva Myrocarpus frondosus, feijão-cru Lonchocarpus muehlenbergianus e ariticum Rollinia salicifolia, acompanhadas por cedro Cedrela fissilis, canjerana Cabralea canjerana, paineira Chorisia speciosa, alecrim Holocalyx balansae, canela-amarela Nectandra megapotamica, jacarandá Dalbergia sp., louro-pardo Cordia trichotoma, aguaí Chrysophyllum gonocarpum, sapuva Machaerium sp., jerivá Arecastrum romanzoffianum, carvalho-brasileiro Roupala brasiliensis, grápia Apuleia leiocarpa, figueira-branca Ficus insipida, guabirova Campomanesia xanthocarpa, miguel-pintado Matayba elaeagnoides, cuvatã Cupania vernalis, angico-vermelho Parapiptadenia rigida, caroba Jacaranda micrantha, angico-branco Anadenanthera colubrina, maria-preta Diatenopteryx sorbifolium, pessegueiro-bravo Prunus sellowii e cutia-branca Pilocarpus pennatifolius.

 

No estrato mais baixo são típicas pau-cincho Sorocea bonplandii, palmito Euterpe edulis, vacum Allophylus edulis, baga-de-morcego Guarea kunthiana, canela Endlicheria paniculata, pitanga Eugenia uniflora, erva-d’anta Psychotria sp., leiteiro Sapium glandulatum, catiguá Trichilia spp., jaborandi Piper gaudichaudianum e caetê Calathea grandiflora, entre outras. A presença de taquaras como Guadua chacoensis e Merostachys multiramea é eventual e ocorrem, de forma dispersa, aglomerações de xaxim-bravo Cyathea sp. Entre as epífitas, é eventual a ocorrência de costela-de-adão Monstera adansonii e representantes de Bromeliaceae, Orchidaceae e Araceae, sendo comuns ainda uma gama de plantas trepadeiras, entre as quais Tynnanthus micranthus.

 

Apesar da riqueza elevada, constatou-se em todos os pontos observados a ausência de certas espécies características das florestas primárias, em especial de ipê-roxo Tabebuia heptaphylla, ameaçada de extinção (Hatschbach & Ziller, 1995), observada em apenas um local, no Sítio 11, Ponto 24, no Município de Céu Azul. De forma análoga, é raríssima a ocorrência de xaxim-bugio Dicksonia sellowiana, espécie ameaçada de extinção no Paraná (IBAMA/PR, 1992).

 

Dentre as áreas avaliadas durante a realização desse estudo, essa fase sucessional predomina no Sítio 2, Ponto 5, na bacia do rio São João; no Sítio 11, Ponto 24, que constitui a mais conservada de todas as áreas visitadas, no Município de Céu Azul, ao norte do PNI; e no Sítio 13, Ponto 26, no Município de Matelândia, na altura do médio curso do rio Floriano.

 

6.3.1.3. Floresta Estacional Semidecídua Aluvial

 

Encontra-se desenvolvida ao longo dos cursos d’água que formam vales sujeitos a inundações periódicas, em solos com características de hidromorfia (Hidromórficos, Gleis) ou deposição sedimentar (Aluvial). Trata-se de uma formação florestal mais baixa do que a floresta que recobre as encostas, o que se dá em função das más condições de drenagem, estando em geral o estrato superior entre 8 e 15m de altura. A formação típica apresenta apenas dois estratos, sendo o sub-bosque bastante aberto e a riqueza menor do que as formações desenvolvidas sobre solos mais favoráveis.

 

No PNI, essa formação estende-se ao longo dos cursos d’água de modo geral, sendo muito restrita no caso de rios encaixados onde as cheias apenas esporadicamente extrapolam o leito normal.

 

A espécie mais comumente observada em todas as formações Aluviais do Parque é açoita-cavalo Luehea divaricata, que se distribui de forma homogênea e pode compor quase 50% dos indivíduos arbóreos das margens dos rios, como no caso do rio Floriano, próximo à foz. Alguns cursos d’água apresentam, como espécie preferencial, branquilho Sebastiania commersoniana em agrupamentos praticamente puros, muito embora o açoita-cavalo seja também encontrado.

 

Entre as espécies companheiras típicas podem-se citar jerivá Arecastrum romanzoffianum, guabirova Campomanesia xanthocarpa, miguel-pintado Matayba elaeagnoides, cuvatã Cupania vernalis, diversas espécies de Myrtaceae (cambuís e guamirins), vacum Allophylus edulis e rabo-de-bugio Dalbergia frutescens. A riqueza depende estreitamente das condições do meio físico, aumentando quando o ambiente é menos sujeito à hidromorfia e tendendo à dominância quase absoluta de branquilho e açoita-cavalo quanto maior a freqüência ou a permanência das inundações.

 

Às margens do rio Iguaçu encontra-se uma floresta de maior porte, sendo comumente observadas, além das espécies típicas, grápia Apuleia leiocarpa, ingá Inga uruguensis, farinha-seca cf. Albizzia hassleri, peroba Aspidosperma polyneuron, sarandi Calliandra foliolosa, pau-de-sangue Croton urucurana e embaúba Cecropia cf. pachystachya nas áreas degradadas, visivelmente mais comuns na margem oposta ao Parque, onde a floresta ciliar encontra-se reduzida a faixas estreitas nem sempre contínuas. Também é grande a profusão de plantas trepadeiras, destacando-se Adenocalymna bracteatum, Cratylia intermedia, Chamissoa acuminata e Sapindaceae.

 

Entre as espécies formadoras do sub-bosque são comuns diversas Myrtaceae, vacum Allophylus guaraniticus, laranjeira-do-mato Actinostemon concolor, catiguá Trichilia sp. e eventuais exemplares de palmito Euterpe edulis. Diversas espécies de Pterydophyta, como Selaginella flexuosa, constituem a principal cobertura herbácea junto a caetê Calathea grandiflora, Palicourea marcgravii, Commelina erecta, Dichorisandra hexandra, Tradescantia fluminensis, Oxalidaceae, Apiaceae e Melastomataceae. A arbustiva uvarana Cordyline dracaenoides é muito comum em alguns sítios, como na estrada do Poço Preto, sempre nas imediações de cursos d’água.

 

No rio do Índio observou-se a ocorrência de maricá Mimosa bimucronata em relativa densidade nas áreas sujeitas à inundação quase permanente, formando agrupamentos junto às outras espécies típicas. A espécie ocorre também no Ponto 19, marcado no córrego Quilômetro Oito, na estrada do Colono, e em agrupamento no rio Pinheirinho, em local de surgência de água, circundado por área de uso antrópico junto à floresta ciliar dominada por branquilho Sebastiania commersoniana, acompanhado de açoita-cavalo Luehea divaricata e guabirova Campomanesia xanthocarpa como espécies mais comuns, além de diversas outras Myrtaceae e abundância de lianas.

 

No final da estrada do Poço Preto, na área inundável próxima ao rio Iguaçu (Sítio 1, Ponto 18), ocorre vegetação levemente diferenciada em função do nível elevado que atingem as inundações. As alturas máximas atingem apenas 6 a 8m, e é muito comum nos baixios pasto-de-anta Faramea cyanea. São comuns açoita-cavalo Luehea divaricata, criciúma Guadua chacoensis, embaúba Cecropia cf. pachystachya e ingá Inga marginata, formando densos aglomerados de arvoretas de 1 a 3m de altura e tiririca Scleria panicoides dominando as áreas inundadas durante longos períodos.

 

No sítio estudado próximo à foz do rio Floriano, observam-se a dominância de açoita-cavalo Luehea divaricata e a presença de guabirova Campomanesia xanthocarpa, angico-vermelho Parapiptadenia rigida, grápia Apuleia leiocarpa e guajuvira Patagonula americana, compondo a parte alta da floresta ciliar, integradas às espécies mais comuns. Diversas espécies de Myrtaceae, como pitanga Eugenia uniflora, compõem o sub-bosque e o estrato dominado. São epífitas comuns begônia Begonia subvillosa e jaborandi Piper spp., ambas também rupícolas, Bromeliaceae e Orchidaceae. Entre as Pterydophyta que compõe o sub-bosque é comum Asplenium sp., de hábito rupícola, além de Pteridaceae, Schizaeaceae e Blechnaceae.

 

O ponto visitado no médio curso do rio Floriano mostrou indícios de exploração madeireira em que, possivelmente, o próprio rio era aproveitado para escoar toras até a foz, no rio Iguaçu. Dominam taquarais bastante densos e a principal espécie arbórea é açoita-cavalo Luehea divaricata. No leito do rio observou-se a presença de Sebastiania schottiana var. angustifolia, arvoreta adaptada às corredeiras. Entre as plantas aquáticas que povoam os remansos do rio são comuns aguapé Eicchornia crassipes e Polygonum ferrugineum.

 

Nos paredões rochosos ao longo do rio Iguaçu, na área das Cataratas (Sítio 3, Ponto 8), ocorrem caraguatá Dyckia microcalyx var. ostenii e Mourera aspera agarrada às rochas nos locais mais úmidos. Nas rochas temporariamente submersas na base dos saltos observa-se touças de capim Paspalum lilloi e, nos paredões mais secos, rainha-do-abismo Sinningia sellowii junto a lianas como Malpighiaceae, Asteraceae e Vitaceae, ervas carnívoras como Lentibulariaceae e abundantes musgos e líquens.

 

Nas áreas avaliadas durante a realização desse estudo, essa formação ocorre no Sítio 1, Pontos 1, 3 e 18, na estrada do Poço Preto, sendo a vegetação do último ponto, descrita acima, um pouco diferenciada; Sítio 2, Pontos 6 e 7, na bacia do rio São João; Sítio 3, Ponto 8, que agrega espécies exclusivas das rochas na área das Cataratas; Sítio 4, Ponto 9, rio do Índio, a montante de uma represa artificial; Sítio 5, Ponto 11, ao longo do rio Represa, onde a vegetação encontra-se bastante depauperada e a presença de criciúma Guadua chacoensis é significativa; Sítio 6, Pontos 12 e 13, afluente da margem esquerda do rio Silva Jardim, onde a faixa aluvial é muito restrita em função do pequeno porte dos afluentes observados; Sítio 6, Ponto 14, fora do Parque, bastante degradada e circundada por ocupação agropecuária; Sítio 7, Ponto 15, no rio Benjamin Constant; Sítio 7, Ponto 16, ao longo do rio Pinheirinho; Sítio 8, Ponto 19, no córrego Quilômetro Oito, cortado pela estrada do Colono; Sítio 10, Pontos 21 e 22, próximo à foz do rio Floriano; Sítio 13, Ponto 28, afluentes da margem direita do rio Floriano, e Sítio 13, Ponto 29, no médio curso do mesmo rio.

 

6.3.1.4. Floresta Ombrófila Mista Montana

 

As florestas com Araucaria ocorrem na porção norte do PNI, em transição com a Floresta Estacional Semidecídua, muito embora formem pinhais típicos com poucas espécies caracterizando a mistura. Estendem-se ao longo dos vales dos rios, na maior parte direcionados de norte para sul em relevo com altitudes máximas pouco superiores a 600m, enquanto os topos das cristas, formadas por diques de diabásio, são ocupados pela Floresta Estacional Semidecídua Montana. Essa distribuição pode ser explicada pela subida de correntes de ar frio que vêm do sul e se alojam nos vales, como se observa facilmente da torre de incêndio do PIC, de Céu Azul, em manhãs com nebulosidade.

 

No tocante à Floresta Ombrófila Mista Montana do PNI, as diferentes fases de desenvolvimento sucessional encontradas no PNI são, quase sempre, resultantes de alteração intensa da floresta primária original e, portanto, misturados à mesma. Caracterizam-se conforme se segue:

 

inicial - não foi observada no Parque durante a realização desses trabalhos. Quando ocorre, a espécie dominante é canela-guaicá Ocotea puberula, associada a capororocas Myrsine spp., capororocão Myrsine umbellata e, especialmente no caso de transição com Floresta Estacional Semidecídua Montana, é marcante a formação de taquarais com criciúma Guadua chacoensis e taquara Merostachys multiramea dominando áreas abertas.

 

fase intermediária - em mistura com remanescentes primários – parte dos antigos pinhais do Parque encontra-se reduzidos à fase intermediária, denotada pela elevada densidade de espécies secundárias iniciais e apenas eventuais pinheiros. São espécies características vassourão-branco Piptocarpha angustifolia, vassourão-preto Vernonia discolor, miguel-pintado Matayba elaeagnoides, cuvatã Cupania vernalis, canela-guaicá Ocotea puberula, caúna Ilex theezans, caroba Jacaranda puberula, guabirova Campomanesia xanthocarpa, pitanga Eugenia uniflora, aroeira Schinus therebinthifolius, mamica-de-cadela Zanthoxylum rhoifolium, pessegueiro-bravo Prunus sellowii, erva-mate Ilex paraguariensis, bugreiro Lithraea brasiliensis e outras.

 

Na regeneração natural encontra-se representantes das espécies que compõem a floresta madura, em especial diversas espécies de Lauraceae (canelas) e Myrtaceae (guamirins e cambuís).

 

fase avançada - com exemplares de pinheiro-do-paraná Araucaria angustifolia remanescentes, formando um estrato superior descontínuo e, dependendo do nível de interferência, bastante aberto, com indivíduos de grande porte remanescentes. No estrato dominado sobressaem vassourão-branco Piptocarpha angustifolia, vassourão-preto Vernonia discolor, ambas espécies típicas da fase anterior, pessegueiro-bravo Prunus sellowii e erva-mate Ilex paraguariensis, além de miguel-pintado Matayba elaeagnoides em menor densidade.

 

Outras espécies observadas são mamica-de-cadela Zanthoxylum rhoifolium, canela-guaicá Ocotea puberula, voadeira Ilex dumosa e caúna Ilex theezans. Marcando a transição com Floresta Estacional, observa-se a presença de guajuvira Patagonula americana, maria-preta Diatenopteryx sorbifolium, angico-branco Anadenanthera colubrina e, dominando o sub-bosque, laranjeira-do-mato Actinostemon concolor, junto à densa cobertura de Pterydophyta, como Sellaginela flexuosa, Adiantopsis radiata, Doryopteris nobilis e Blechnum raddianum.

 

Entre as plantas herbáceas observou-se a presença de caetê Calathea grandiflora, trevo Oxalis rhombeo-ovata, jaborandi Piper amalago, caraguatá Platyaechmea distachia var. glaziovii, Apiaceae, Araceae, Commelinaceae e Melastomataceae e, entre as lianas, Passifloraceae e Bignoniaceae. Observa-se também xaxim-bravo Cyathea sp. em grupamentos densos e esporádicos no sub-bosque, locais onde a cobertura herbácea é muito escassa. Entre as epífitas, são comuns Acanthostachys strobilacea, cacto Epiphyllum phyllanthus, Philodendron ochrostemon, a orquídea Maxillaria marginata e, menos comum, a orquídea Miltonia flavescens. As arbustivas urtigão Urera baccifera e uvarana Cordyline dracaenoides são espécies eventuais.

 

Essa formação foi observada nas proximidades do rio Gonçalves Dias, no Município de Santa Tereza (Sítio 14, Ponto 30).

6.3.1.5. Floresta Ombrófila Mista Aluvial

Ocupa faixas ao longo dos cursos d’água, sobre solos sujeitos à inundação periódica, com características de hidromorfia. São fisionomicamente mais baixas do que as florestas circundantes das encostas, atingindo alturas que variam entre 6 e 12m, além de eventuais emergentes maiores. A riqueza de espécies é baixa, havendo dominância de uma ou poucas espécies melhor adaptadas à condição do meio.

 

A Floresta Ombrófila Mista Aluvial constitui áreas de transição com a Floresta Estacional Semidecídua, sendo sua composição de variável riqueza em função das condições do meio. Em vales mais encaixados, onde o nível da água apenas ocasionalmente atinge as margens, as espécies predominantes são as mesmas das formações adjacentes das encostas, pois as faixas de solo sob condições de hidromorfia são restritas.

 

As principais espécies são branquilho Sebastiania commersoniana e açoita-cavalo Luehea divaricata. No sub-bosque é característica a ocorrência de laranjeira-do-mato Actinostemon concolor, vacum Allophylus guaraniticus, uvarana Cordyline dracaenoides, capororocão Myrsine umbellata, vacum Allophylus edulis e grande riqueza de Myrtaceae (cambuís, guamirins e araçás).

 

Essa formação foi observada às margens do rio Gonçalves Dias (Sítio 14, Ponto 30).

6.3.1.6. Formações Pioneiras de Influência Fluvial

Denomina-se Formações Pioneiras as áreas instáveis, de solos em formação ou transformação, onde se iniciam processos de sucessão de comunidades vegetais, caracterizando vegetação de transição cuja fisionomia muda significativamente ao longo do tempo. As Formações Pioneiras de Influência Fluvial ocorrem em áreas ocasionais e quase sempre de pequena extensão, em geral constituídas principalmente por vegetação herbácea e arbustiva e sujeitas a condições adversas de inundação por longos períodos. Formam brejos e várzeas tipicamente dominados por vegetação predominantemente herbácea e arbustiva, com eventuais populações de plantas arbóreas.

 

No PNI, é o caso de meandros abandonados de rios e áreas de nascentes que formam lagoas. Uma espécie arbórea, ingá Inga marginata, é muito comum nas áreas inundadas, formando densos aglomerados. Ocorrem ainda Ludwigia myrtifolia, Ludwigia sericea, branquilho Sebastiania commersoniana e Commelinaceae associadas à vegetação marginal de cambuí Calycorectes riedelianum, açoita-cavalo Luehea divaricata, laranjeira-do-mato Actinostemon concolor, embaúba Cecropia cf. pachystachya e palmito Euterpe edulis.

 

A vegetação herbácea é formada por capinzais de Scleria panicoides, Rhynchospora marisculus, da família Cyperaceae, Andropogon virgatus e A. lateralis, da família Poaceae (IBDF/FBCN, 1981). Plantas aquáticas são eventuais e ocupam, principalmente, áreas de nascentes, onde o nível de inundação é constante.

 

Os locais onde essas formações foram observadas são o Sítio 9, Ponto 20, que constitui um meandro abandonado do rio Iguaçu, formando vasta área inundada com grupamento arbóreo de ingá Inga marginata, dominância herbácea de tiririca Scleria panicoides e eventuais arbustos de Ludwigia myrtifolia e L. sericea, margeados por pau-cincho Sorocea bonplandii, cambuí Calycorectes riedelianum, açoita-cavalo Luehea divaricata e tapiá-graúdo Alchornea sidifolia; Sítio 10, Ponto 23, uma lagoa formada em área de nascente próximo à foz do rio Floriano, onde ocorrem algumas espécies de plantas aquáticas e, na área de inundação períódica, branquilho Sebastiania commersoniana, Commelinaceae, Poaceae e, na margem, açoita-cavalo Luehea divaricata; Sítio 12, Ponto 25, PIC de Céu Azul, antiga área de lazer, onde se observa invasão da exótica maria-sem-vergonha Impatiens sp., e no Sítio 13, Ponto 27, referente a duas lagoas na altura do médio Floriano, que devem constituir nascentes de afluentes do mesmo na margem direita. Em uma dessas lagoas registrou-se a ocorrência de Lemna sp., planta aquática, em grande quantidade cobrindo o espelho d’água.

 

6.3.1.7. Análise dos Pontos de Observação

 

A Floresta Submontana nas imediações da estrada do Poço Preto, no Município de Foz do Iguaçu, que começa atrás da casa do Chefe do Parque (antiga casa de hóspedes) e se estende até o rio Iguaçu, constitui uma floresta explorada pontilhada por eventuais remanescentes arbóreos da floresta original. Há clara dominância de espécies típicas da fase intermediária da Floresta Estacional Semidecídua e alta densidade de palmito no trecho mais próximo ao rio Iguaçu.

 

Essa área é intercalada pela Floresta Estacional Semidecídua Aluvial. Essa floresta ciliar do rio Iguaçu, embora alterada na maior parte, apresenta porte diferenciado, mais alto, enquanto parte dos trechos alagáveis próximos são dominados por vegetação herbácea, arbustiva e arvoretas de 2 a 4m de altura.

 

A floresta ciliar do rio São João, ainda no Município de Foz do Iguaçu, apresenta diferentes níveis de alteração, sendo comum a presença de criciúma em algumas áreas, especialmente na margem direita, externa ao Parque. De modo geral, a extensão do rio dentro do Parque encontra-se bem protegida, com florestas ciliares conservadas. A área de encosta visitada nas proximidades constitui uma floresta primária remanescente com espécies relativamente raras e indivíduos de grande porte formando um estrato emergente descontínuo, porém de elevada riqueza.

 

As cataratas do Iguaçu, ainda no mesmo Município, estão compreendidas em uma área florestal em estado razoável de conservação, alterada por exploração seletiva, fisionomicamente perceptível pela ausência do estrato emergente. Ao longo do caminho turístico que leva à passarela sobre o rio, a vegetação é composta quase que exclusivamente de espécies pioneiras. As rochas expostas ao longo do declive encontram-se na maior parte cobertas de plantas herbáceas, e o sub-bosque herbáceo-arbustivo encontra-se em bom estado de conservação.

 

A floresta ciliar que acompanha o rio do Índio, no Município de São Miguel do Iguaçu, encontra-se bem conservada, sendo formada pelas espécies típicas já descritas. As encostas adjacentes por outro lado, no que diz respeito às áreas próximas ao limite norte do Parque, foram intensamente exploradas e encontram-se reduzidas a uma fase florestal inicial, com dominância de espécies pioneiras.

 

As florestas ciliares do rio Represa Grande, nas proximidades do limite do Parque, encontram-se em péssimo estado de conservação, sendo muito forte a dominância de criciúma Guadua chacoensis, formando densos emaranhados que tendem a sufocar a regeneração natural de espécies arbóreas. Segundo um guarda florestal do PIC de Céu Azul, atualmente aposentado, havia nas proximidades do rio Represa Grande uma serraria instalada dentro do Parque, que foi desativada apenas depois de 1970. Informações de outros policiais atestam que as florestas ciliares do rio encontram-se em melhor estado de conservação à medida que aumenta a distância do limite, com predominância de açoita-cavalo Luehea divaricata e branquilho Sebastiania commersoniana, porém os emaranhados de taquara se fazem sempre presentes.

 

Os pontos visitados na bacia do rio Silva Jardim, no Município de Serranópolis do Iguaçu, caracterizam-se pela dominância de fisionomia florestal com três estratos arbóreos, faltando o estrato emergente e, por conseqüência, as espécies de maior valor madeireiro. As faixas de Floresta Aluvial são restritas e, ao longo dos afluentes, a vegetação típica da floresta ciliar mistura-se à floresta de encosta. Registrou-se como planta especial um exemplar de imbuia Ocotea porosa com cerca de 1m de DAP e 25-30m de altura, espécie típica da Floresta Ombrófila Mista Montana, que não foi observada em meio ao pinhal visitado.

 

Ainda na mesma bacia, situado fora do Parque, no Município de Matelândia, a floresta ciliar está muito degradada em função de atividades agropecuárias nas imediações, prevalecendo açoita-cavalo Luehea divaricata quase como espécie única. Trata-se de um exemplo típico da situação dos rios fora dos limites do PNI, cuja faixa de preservação permanente não é, em absoluto, respeitada pela grande maioria dos proprietários rurais.

A situação da bacia do rio Benjamin Constant, em grande parte protegido pelo Parque, é bastante favorável. O rio é relativamente encaixado, ficando as margens sujeitas a inundações apenas eventuais, de forma que as espécies características da floresta ciliar têm ocorrência restrita e misturam-se à vegetação Submontana, muito embora as alturas das árvores ao longo do rio restrinjam-se a máximas de 12 a 15m.

 

A floresta ciliar do córrego Pinheirinho está em razoável estado de conservação, muito embora a faixa preservada seja inferior à estabelecida pela legislação vigente, ao menos no ponto de observação marcado, localizado fora da área do Parque. A área ao redor observada, basicamente do limite da fazenda Poiema com o Parque até o rio Benjamin Constant e o córrego Pinheirinho, no Município de Matelândia, apresenta indícios de ter sofrido corte raso há 50 anos ou mais, pois constitui uma fase inicial dominada por espécies tipicamente pioneiras colonizadoras de áreas abertas, com uniformidade dos pontos de inversão morfológica (bifurcação das copas), que apontam homogeneidade em seu desenvolvimento.

 

A área de avaliação alocada ao redor da estrada do Colono, compreendida no Município de Serranópolis do Iguaçu, mostra grande efeito de borda e, conseqüentemente, de fragmentação de ambientes, em função da divisão que a estrada representa para o Parque, provocando uma mudança radical nas comunidades vegetais da floresta para as margens da estrada.

 

Registrou-se, na encosta adjacente ao córrego Quilômetro Oito, nessa estrada, a existência de uma população razoável de jaracatiá Jacaratia spinosa, espécie sob ameaça de extinção no Estado do Paraná (Hatschbach & Ziller, 1995), que acrescenta considerável importância ao sítio, especialmente dado que a espécie foi observada apenas de forma esporádica nos outros pontos de observação. A suscetibilidade da área em função da estrada, além do efeito natural de borda, traz riscos da exposição da espécie à exploração direta, por extração, assim como da degradação da área florestal em que se encontra, por exploração indireta de palmito e outras espécies. Em qualquer dos casos, sua perpetuação fica prejudicada, dado que se trata de espécie secundária tardia com exigências de sombra, supridas por uma estrutura florestal desenvolvida, para regenerar-se.

 

O meandro abandonado do rio Iguaçu, situado a oeste da estrada do Colono, também no Município de Serranópolis do Iguaçu, apresenta vegetação circundante em fase intermediária com alta densidade de palmito e eventuais árvores remanescentes da floresta primária. A área inundada é dominada por vegetação graminóide circundando densos agrupamentos de arvoretas de ingá, enquanto as margens são ocupadas por espécies características de áreas aluviais. Pode-se dizer que esse local, como a maior parte dos outros sujeitos a condições hídricas adversas, encontra-se em seu estado original, livre de intervenções antrópicas.

 

As áreas visitadas na proximidade da foz do rio Floriano situam-se logo abaixo do último salto, tendo sido consideradas para observação a extensão das florestas ciliares até o rio Iguaçu. São abundantes plantas trepadeiras e epífitas graças à influência do rio, estando a floresta ciliar em boas condições. As áreas adjacentes de florestas de encosta encontram-se em fase intermediária, com eventuais remanescentes primários.

 

A área ao redor de um dos afluentes da margem esquerda encontra-se fragmentada, com mistura de fases sucessionais iniciais, intermediárias e avançadas, havendo-se observada a ocorrência de indivíduos de pequeno porte de pau-marfim Balfourodendron riedelianum e um trecho de floresta com estrutura bem desenvolvida, onde se registrou a ocorrência de jaracatiá Jacaratia spinosa e de outras espécies características do estrato emergente.

 

Ainda nas proximidades observou-se a flora ocorrente ao redor de uma nascente onde se forma uma lagoa, havendo algumas plantas aquáticas indicadoras de que ao menos parte do local deve ficar inundado de forma permanente. A área em volta estava coberta por vegetação graminóide adaptada à condição hídrica de inundação, havendo ainda alguns indivíduos arbóreos igualmente situados dentro da água, especialmente branquilho Sebastiania commersoniana. A vegetação desse ponto é bastante distinta da observada no meandro abandonado do rio Iguaçu, talvez por influência da pequena extensão da lagoa e da periodicidade da inundação.

 

Ao norte do Parque, no Município de Céu Azul, a aproximadamente 1,5km a oeste da praça de pedágio aí existente, observou-se a área mais conservada de todos os pontos de observação alocados no Parque. Trata-se de uma extensão considerável de floresta primária pouco alterada, tendo sido encontrados dois indivíduos de ipê-roxo Tabebuia heptaphylla com cerca de 60cm de DAP. A densidade de palmito é elevada e a estrutura da floresta não está comprometida, muito embora o estrato emergente seja bastante aberto. Há uma certa dominância de peroba Aspidosperma polyneuron, e a espécie é acompanhada de uma série de outras que denotam a maturidade do ambiente. Algumas clareiras dominadas por taquarais indicam a ocorrência de exploração seletiva leve no passado, porém sem comprometer a capacidade de regeneração natural da área.

 

A área atrás do PIC de Céu Azul, na BR-277, compreende uma fase intermediária análoga à maior parte dos ambientes descritos para o Parque, incluindo uma pequena represa artificialmente construída, cujas imediações eram utilizadas para fins de lazer e educação ambiental. Encontra-se disseminada pelo local a herbácea exótica maria-sem-vergonha Impatiens sp., originária da Ásia, que apresenta ampla capacidade de expansão pelo sub-bosque da floresta, podendo vir a ocupar o lugar de espécies nativas.

 

O sítio considerado nesse estudo como médio curso do rio Floriano, Município de Matelândia, compreende uma extensão de aproximadamente 6,5km de picada no sentido oeste-leste, partindo-se da estrada de contorno (Picada Benjamim) do Parque, no Município de Céu Azul, até se atingir o rio Floriano. Passando o efeito de borda criado pelo limite externo da área florestal, encontra-se alta densidade de palmito, com evidências presentes de exploração intensiva em uma floresta primária alterada. Ocorre grande riqueza de espécies, e a estrutura da floresta não está comprometida, havendo bom potencial regenerativo.

 

A distâncias respectivas de 1 e 3km da estrada, observou-se a existência de duas áreas úmidas (brejos), que se deduziu constituírem nascentes de afluentes da margem direita do rio Floriano. A vegetação circundante é análoga a das florestas ciliares, havendo-se encontrado nas áreas alagadas vegetação herbáceo-arbustiva com eventuais arvoretas e árvores de maior porte, além da presença de plantas aquáticas em uma delas.

 

A vegetação ao longo dos afluentes de pequeno porte da margem direita do rio Floriano não se diferencia das florestas ciliares características, havendo dominância de menor número de espécies quanto maior a condição de adversidade. A mudança nesse ponto de observação se dá na vegetação circundante, profundamente depauperada, onde se formaram densos taquarais e criciumais, em função da abertura de clareiras pela exploração madeireira, supondo-se a possível retirada de toras através do próprio rio Floriano. Não existem os estratos superior e emergente, e predominam espécies caracteristicamente pioneiras ao longo dos três últimos quilômetros de picada, antes do rio Floriano.

 

De forma análoga, as florestas ciliares do rio Floriano, na altura do curso médio, encontram-se depauperadas, com a estrutura comprometida e com grande abundância de criciúma ocupando as margens do rio. Observou-se nesse ponto a ocorrência de Sebastiania schottiana var. angustifolia crescendo no leito do rio, por sobre as pedras que formam corredeiras, pois esses pontos, por serem mais altos, ficam secos nas épocas de estiagem, permitindo a colonização pela espécie.

 

O rio Gonçalves Dias, no Município de Céu Azul, marca o limite leste do Parque Nacional e é margeado, na porção norte, por Floresta Ombrófila Mista, com araucária. Trata-se de uma área explorada, onde o estrato superior, composto exclusivamente por Araucaria angustifolia, foi raleado, enquanto o estrato imediatamente abaixo, composto por espécies também de grande porte, assim como de valor comercial, foi praticamente todo suprimido.

 

Assim sendo, a floresta encontra-se em fase sucessional intermediária, porém com remanescentes primários do pinheiro-do-paraná, alguns com DAP aproximado de 1m e altura de até 35m. O dossel é muito aberto e a riqueza de espécies relativamente baixa, em função da dominância de apenas quatro espécies principais. O sub-bosque natural é interrompido por densos criciumais, que ocuparam as clareiras abertas durante a exploração madeireira, o que dificulta a recuperação natural. Registrou-se nessa área apenas um exemplar de ipê-amarelo Tabebuia chrysotrycha, que deveria ocorrer no estrato abaixo da Araucaria com espécies companheiras como cedro, canjerana, canelas, imbuia e outras, praticamente inexistentes.

 

No Anexo 17 encontram-se as espécies encontradas no Parque Nacional do Iguaçu, mostrando o hábito de cada e a tipologia à qual pertencem.

 

6.3.2. Limnologia - Macrófitas Aquáticas

 

As macrófitas aquáticas são representadas principalmente por algumas espécies de macroalgas e por vegetais superiores que apresentam adaptações morfológicas e fisiológicas ao ambiente aquático ou regiões com solos encharcados. Restringem-se às regiões menos profundas de ecossistemas aquáticos lóticos (correntes), semi-lóticos e lênticos (parados).

 

A denominação "brejo" é aqui utilizada no sentido atribuído no Glossário de Termos Ecológicos (ACIESP, 1997), ou seja, área de solo permanente ou periodicamente saturado d'água, onde se desenvolvem campos e/ou macrófitas aquáticas. Alguns desses ambientes podem ser incluídos no que ficou definido pela Equipe da AER como "Formação Pioneira com Influência Fluvial" (Ziller, 1998, com. pessoal).

 

6.3.2.1. Caracterização dos Ambientes Lênticos

 

A visualização em macro-escala torna-se fundamental em estudos de levantamento realizados em curto período de tempo, por propiciar uma primeira caracterização dos ambientes aquáticos. Priorizou-se no sobrevôo a avaliação da cobertura dos corpos aquáticos pela vegetação aquática, independentemente de seu grupo ecológico, com base na tabela proposta por Gauch (1995).

 

Certamente essa abordagem tem suas limitações, pois nem sempre é possível a visualização das macrófitas submersas, que em parte ocupam áreas somente identificadas através de prospecções diretamente realizadas com embarcações. Em alguns casos, também a identificação da vegetação fica comprometida, em virtude da impossibilidade de analisar-se com maior detalhamento e da baixa altitude.

 

Os trabalhos foram realizados em duas expedições, uma em outubro de 1998 e outra em janeiro de 1999. Na primeira etapa, nove ambientes aquáticos (sete lagoas) foram inspecionadas durante o sobrevôo. Além desses ambientes, outros seis, incluindo uma represa, quatro brejos e um riacho, foram inspecionados somente por via terrestre na primeira expedição.

 

Na segunda expedição de campo, oito áreas úmidas foram visitadas, sendo cinco novas lagoas, um brejo e duas lagoas já vistoriadas no sobrevôo, na primeira expedição (Ilha ou Butu e do Jacaré). Assim, o PNI possui, até o momento, doze lagoas e inúmeros brejos, cujo número final deverá ainda crescer, a partir de mais estudos.

 

A lagoa do Poço Preto (coordenadas 0761774W e 7166620S), trata-se de uma área inundada, aparentando ser um meandro abandonado do rio Iguaçu. A região litorânea desenvolve-se predominantemente na porção de jusante, em relação ao rio. Apresenta-se aparentemente em grau avançado de sucessão temporal, com reduzida região pelágica. A floresta é lentamente substituída por vegetação herbácea em direção da lagoa. Estimou-se um grau 6 de cobertura de macrófitas, correspondendo a uma área entre 8 e 16%, conforme tabela de Gauch (1995).

 

A vegetação aquática é composta predominantemente por espécies emersas. Uma visão mais detalhada indica o predomínio de indivíduos da família Poaceae (gramas e capins). A inspeção por via terrestre não foi possível, pois a enchente do rio Iguaçu inviabilizou o acesso ao local. Observações realizadas a distância confirmaram a presença de Poaceae e Cyperaceae.

 

Uma lagoa foi localizada nas proximidades do rio Apepu (25° 32,19’S e 54° 16,41’W). Também apresenta cobertura moderada de macrófitas aquáticas (32-64%). Além da vegetação emersa, composta provavelmente por Poaceae, esse ambiente é nitidamente colonizado por bancos de macrófitas submersas, que puderam ser visualizadas em função da aparente transparência de suas águas, formando um cinturão na lagoa. A vegetação marginal aparentemente intacta é composta por floresta.

 

A terceira área úmida trata-se da lagoa do Jacaré (25° 32,16’S e 54° 10,36’W). Esse ambiente encontra-se pouco colonizado por macrófitas aquáticas, que cobrem entre 2 e 4% da área total da lagoa. Além da vegetação emersa, bancos escassos de submersas também foram visualizados.

 

A lagoa do Jacaré é na verdade um reservatório que está inserido em uma região que anteriormente foi explorada para fins agrícolas. Os valores de condutividade e pH foram, respectivamente, iguais a 20,3m S/cm e 6,44m S/cm. A profundidade máxima estimada foi de 2m. Parte da mata circundante é secundária, com predomínio de bambus. É interessante notar a presença de paliteiros (colonizados por epífitas), indicando que a vegetação não foi removida antes da formação do reservatório.

 

A sua região pelágica não é colonizada por macrófitas aquáticas, sendo que elas se restringem às margens, com o predomínio de espécies de Poaceae e navalha-de-macaco Rynchospora corimbosa. Cabe destacar a presença do lírio-d’água Nymphaea sp., uma enraizada no sedimento e com folhas flutuantes, que confere grande valor paisagístico aos locais onde ocorre. Além dessas espécies, foram também registradas na lagoa junça Cyperus acicularis, junquinho Eleocharis filiculmis, navalha-de-mico Scleria pterota, Mayaca sellowiana, Ludwigia sulfruticosa, erva-de-bicho Polygonum ferrugineum, erva-de-bicho Polygonum hidropiperoides e botão-de-ouro Xyris lacerata.

 

A lagoa do Jacaré é de difícil acesso, com tempo estimado de caminhada de aproximadamente quatro horas, tendo em vista que a estrada que anteriormente era utilizada como via de acesso a esse ambiente não sofre mais manutenção.

 

A lagoa localizada próxima ao rio Represa Grande (25° 30,40’S e 54° 08,95’W) possui águas aparentemente claras, sendo que não foram visualizados bancos de macrófitas aquáticas nesse ambiente. A vegetação marginal é composta por floresta.

 

Outro ambiente inspecionado foi a lagoa próxima à ilha do Sol ou Pesqueiro (25° 31,02’S e 54° 03,87’W). Esse ambiente encontra-se amplamente colonizado por macrófitas submersas, apresentando também alguns bancos de macrófitas emersas, aparentemente Poaceae (Foto 1). Estimou-se que entre 32 e 64% da área total da lagoa encontram-se cobertos pelos diferentes grupos de macrófitas. O entorno da lagoa é colonizado por floresta.

 

Também foi localizada uma lagoa situada a 1km acima da ilha do Sol (7167786S e 0796147W). Entre 32 e 64% da área dessa lagoa são colonizados por macrófitas aquáticas, sendo a maior parte composta por espécies submersas (Foto 2). Suas águas são aparentemente cristalinas, fato que, associado à vegetação aquática e ao predomínio de florestas em suas margens, confere uma rara beleza cênica a esse ambiente.

 

Foto 1 - Lagoa localizada nas proximidades da ilha do Sol (ou Pesqueiro), evidenciando colonização por vegetação submersa, que aparece como um cinturão de coloração esverdeada. Foto: Sidinei M. Thomaz

Ainda no sobrevôo, avistou-se uma lagoa próxima ao rio Iguaçu (25° 33,86’S e 54° 02,65’W). Considerando-se a inspeção aérea, estimou-se que as macrófitas colonizam entre 16 e 32% da área total desse ambiente. Foram visualizados bancos de macrófitas submersas e, provavelmente, flutuantes e/ou emergentes. Suas águas são consideravelmente claras, predominando floresta em seu entorno.

 

Por via terrestre, somente o entorno alagado da lagoa pôde ser visitado, não sendo possível a localização da região pelágica, onde as macrófitas submersas foram nitidamente visualizadas durante o sobrevôo. Essa área alagada é colonizada por vegetação arbórea-arbustiva. As árvores de pequeno porte e os arbustos colonizam a área alagada e sua densidade é nitidamente inferior à observada na floresta que ocupa o solo seco.

 

Foto 2 - Lagoa do Parque Nacional do Iguaçu. Está a cerca de 1km acima da ilha do Sol (ou Pesqueiro). Ambiente rara beleza cênica, apresenta-se nitidamente colonizado por macrófitas submersas (manchas esbranquiçadas e esverdeadas) e, provavelmente, emergentes (cinturão verde-claro visualizado na parte superior). Foto: Sidinei M. Thomaz

 

Suas águas encontravam-se levemente ácidas (pH = 5,58), e os valores da condutividade elétrica e da alcalinidade total foram de 52,7µS/cm e 412µEq/l, respectivamente. Ficou evidenciado que ocorre amplo contato com o rio Iguaçu, sendo possível detectar-se influxo de água a partir desse rio. Esse fato talvez explique os elevados valores da condutividade elétrica e da alcalinidade total, comparativamente aos demais ambientes amostrados que não recebem influência direta do rio Iguaçu.

 

A presença de vegetação arbórea-arbustiva pode ser considerada um dos fatores que não favorecem o acentuado desenvolvimento de macrófitas aquáticas nessa região. Mesmo assim, foram registradas algumas espécies típicas de regiões alagadas ou solos úmidos, tais como: chapéu-de-couro Echinodorus sp.; junquinho Eleocharis sp.; navalha-de-macaco Rhynchospora cf. corymbosa (L.) Britt. e erva-de-bicho Polygonum cf. acuminatum H.B.K.

 

Deve-se chamar a atenção para a presença de duas espécies de euhidrófitas, ou seja, vegetais que vivem exclusivamente em ambiente aquático, dependendo dele para o seu desenvolvimento e sua reprodução. São elas: Potamogeton sp., uma espécie submersa, e hortelã-do-brejo Heteranthera cf. reniformes Ruiz et Pav., emergente. A última foi registrada em baixa freqüência, sendo encontrada somente em um local nas proximidades da margem.

 

Em levantamentos realizados em outros locais da bacia do rio Paraná, como a planície de inundação de seu trecho superior e o reservatório de Itaipu, localizado nas imediações do PNI, essa espécie não se fez presente (Thomaz et alii, 1998). Também não houve registro dessa espécie em levantamentos realizados em planícies de inundação do alto rio Iguaçu (Silva et alii, 1997).

 

A lagoa da Ilha ou do Butu (25° 05,10’S e 53° 40,37’W) foi mais um ambiente analisado no sobrevôo. Trata-se de pequeno ambiente aquático, distante dos demais, está situado nas imediações do Município de Céu Azul. A cobertura de macrófitas é superior a 64% da área da lagoa. Macrófitas emersas, provavelmente Poaceae, e submersas foram visualizadas.

 

Esse ambiente também apresenta-se nitidamente em estágio avançado de sucessão ecológica, fato evidenciado pela reduzida área ocupada pela região pelágica e intensa cobertura de vegetação emersa, lentamente substituída por florestas no entorno da lagoa.

 

A lagoa da Ilha, na segunda expedição, foi vistoriada por via terrestre. É formada por nascentes de pequenos riachos, apresentando águas cristalinas que podem ser utilizadas para o consumo humano. O menor valor de condutividade elétrica (7,96m S/cm) foi obtido nessa lagoa, sendo o valor de pH igual a 4,75. A vegetação de mata terrestre circundante é bem preservada e como está localizada em região de elevada altitude algumas araucárias foram também observadas.

 

A vegetação emergente predominante é constituída pelo junquinho Eleocharis filiculmis, que coloniza a maior parte da lagoa. Nas regiões da maior profundidade (1m) algumas submersas foram também observadas como a Mayaca sellowiana e o alecrim-da-praia Bulbostylis capillaris. A despeito do pequeno porte da lagoa da Ilha, outras euhidrófitas, além das duas mencionadas anteriormente, foram coletadas: erva-capitão Hydrocotyle umbellata, Eleocharis filiculmis, Eriocaulon sp. e centelha-asiática Centella asiatica. Completam a lista de espécies da lagoa o Cyperus fiburgensis e o falso-alecrim-da-praia Fimbristilis autumnalis.

 

A entrada da trilha que leva à lagoa apresenta as seguintes coordenadas geográficas: 25° 04,36’S e 53° 39,97’W. É interessante notar a pequena ilha localizada no centro da lagoa e sua rara beleza cênica, mas o local é muito frágil (região de nascentes) e de difícil acesso (aproximadamente duas horas e meia de caminhada).

 

Outro ambiente úmido analisado dentro do PNI foi uma das represas do rio São João (25° 35,52’S e 54° 24,17’W). Essa represa, que gerava energia para o Parque, foi visitada somente por via terrestre. A vegetação marginal é composta por floresta e a declividade das margens é pouco acentuada. Trilhas foram observadas nas imediações, evidenciando o fácil acesso a esse ambiente.

 

Suas águas apresentavam-se consideravelmente túrbidas em decorrência de material particulado inorgânico (disco de Secchi = 0,45m). O valor do pH encontrava-se levemente ácido (6,70), e os resultados da condutividade elétrica e alcalinidade total foram de 27,3µS/cm e 217µEq./l, respectivamente.

 

A região superior da represa apresenta-se amplamente colonizada por macrófitas emergentes, predominando o capim Panicum sp1. Estimou-se que a cobertura da represa por macrófita esteja entre 16 e 32% do total.

Além desse taxon, foram ainda registradas em frequëncia moderada Cyperus sp.; junquinho Eleocharis sp.; navalha-de-macaco Rhynchospora cf. corymbosa; Ludwigia sp.; erva-de-bicho Polygonum hydropiperoides e erva-de-bicho Polygonum cf. punctatum.

 

Uma " lagoa " (brejo 1), existente na picada, na altura do curso médio do rio Floriano (0213016S e 7200319W), também foi inspecionado or via terrestre, o mesmo ocorrendo com outra " lagoa" (brejo 2) da picada, discutida a seguir.

 

Na verdade, tais ambientes úmidos são caracterizados pelo acúmulo de uma reduzida lâmina de água, com profundidade inferior a 0,5m, em locais de baixa altitude. Essa água é aparentemente proveniente diretamente do lençol freático e de pequenos córregos. Assim, em virtude da reduzida lâmina de água, ausência de região pelágica e predomínio de vegetação paludícola, podem ser melhor descritos como brejos, não se encaixando na definição clássica de lagoas.

 

O brejo 1 da picada do médio Floriano apresentou água ácida (pH = 5,61) e os menores valores da condutividade elétrica (10,8µS/cm) e alcalinidade total (40µEq./l) dentre todos os ambientes amostrados.

 

Árvores de menor porte que aquelas da floresta e arbustos são encontrados em pequena densidade nas regiões mais rasas e nos alagados marginais. No entanto, domina a vegetação de brejo, tipicamente emergente. Nas partes mais elevadas do centro desse ambiente, dominando a paisagem, aparecem pteridófitas e espécies emergentes típicas de ambientes paludícolas, tais como erva-capitão Hydrocotyle cf. umbellata L.; trapoeraba Commelina sp.; Cyperus sp.; junquinho Eleocharis sp.; navalha-de-macaco Rynchospora cf. corymbosa (L.) Britt.; erva-de-bicho Polygonum cf. acuminatum H.B.K.; lágrima-de-bebê Globifera cf. umbrosa (Walt.) J.F. Gomel e Poaceae 1.

 

As únicas espécies de euhidrófitas registradas nesses ambientes foram Potamogeton sp. (submersa) e lentilha-da-água Lemna cf. minor L., livre-flutuante. Mesmo assim, esses dois taxons foram registrados em baixa densidade em poças de água formadas entre a vegetação emergente acima descrita.

 

Por sua vez, as margens do brejo 2 da picada do médio Floriano (0214796S e 7200794W), que apresentam uma declividade acentuada, também são dominadas por floresta. Algumas árvores de pequeno porte, aparentemente adaptadas a ambiente alagado, também foram registradas em seu entorno.

 

A maior profundidade registrada foi de 0,7m. A água desse brejo é bastante transparente (profundidade do disco de Secchi total), apresentando pH levemente ácido (5,96), condutividade elétrica de 27,9µS/cm e alcalinidade total de 217µEq./l.

O que mais chamou a atenção nesse ambiente foi a ampla cobertura (quase 100%) de lentilha-da-água Lemna cf. minor L., formando um tapete flutuante sobre o brejo.

Além dessa espécie, foram ainda registradas em abundância de baixa a moderada outros taxons que colonizam ambientes aquáticos ou encharcados, como a erva-capitão Hydrocotile cf. umbellata L.; a navalha-de-macaco Rhynchospora cf. corimbosa (L.) Britt.; o Cyperus sp.; o junquinho Eleocharis sp.; o capim Panicum sp.2; Poaceae 1 e Poaceae 2. A emergente Commelina sp. foi registrada em elevada abundância.

 

O brejo Três Amigos (25° 35,53’S e 54° 24,18’W) apresenta características fisiográficas semelhantes ao brejo 2 da picada do médio Floriano, com reduzida profundidade e bastante transparente (profundidade do disco de Secchi total, em um local onde a profundidade era de 0,5m). Esse brejo é amplamente colonizado por vegetação arbórea-arbustiva, aparentemente adaptada ao alagamento, não apresentando região pelágica, fato pelo qual também decidiu-se caracterizá-lo como brejo.

 

O brejo Três Amigos apresenta beleza própria, decorrente do conjunto da vegetação arbórea alagada. Apresenta fácil acesso pela mata, por onde pode ser atingido a partir da estrada que conecta a atual moradia do Chefe do Parque à lagoa Poço Preto, em caminhada inferior a quinze minutos. Esse ambiente apresentou a maior acidez dentre todos os amostrados (pH = 5,41). Baixos valores de condutividade elétrica (11,7µS/cm) e alcalinidade total (100µEq./l) também foram registrados.

 

Além da vegetação arbórea-arbustiva, destacam-se espécies herbáceas tipicamente paludícolas, tais como: erva-capitão Hydrocotyle cf. umbellata L.; alecrim-da-praia Bulbostylis cf. capillaris (L.) C.B. Clarke; Cyperus sp.; junquinho Eleocharis sp.; navalha-de-macaco Rhynchospora cf. corymbosa (L.) Britt.; Poaceae 1 e Commelina sp. Os dois últimos taxons são os dominantes.

 

Um riacho também foi inspecionado nas imediações da estrada que liga a casa do Chefe do Parque à lagoa Poço Preto, sendo o ponto de amostragem situado nas proximidades da primeira ponte. Com profundidade reduzida (inferior a 0,3m) e grande transparência (profundidade do disco de Secchi total), possui águas levemente ácidas (pH = 6,66), e os valores da condutividade elétrica e alcalinidade total foram de 19µS/cm e 162µEq./l, respectivamente.

 

Somente um reduzido banco de macrófitas submersas (área inferior a 0,5m2) foi registrado. O banco era colonizado por Potamogeton sp. e cf. Hypericum. A presença dessas espécies demonstra o potencial desse rio em ser colonizado pela vegetação submersa, mas a presença de vegetação ciliar consideravelmente densa provavelmente restringe a presença dessas macrófitas nas áreas mais abertas, nas imediações da estrada. Esse fato pode ser atribuído à redução da luminosidade provocada pela vegetação arbórea, que tem sido utilizada como uma estratégia no manejo da vegetação submersa em riachos e canais (Seagrave, 1988).

 

O rio Floriano não foi visitado durante o levantamento das macrófitas aquáticas, mas um exemplar de Ottelia cf. brasiliense, um gênero de macrófita submersa, foi coletado pela equipe que realizou o trabalho com a ictiofauna da AER.

 

Na segunda etapa dos trabalhos, em janeiro de 1999, foi verificada a lagoa Encantada (25° 33,45’S e 54° 02,37’W), cuja profundidade máxima foi estimada em 1,90m, sem declive muito acentuado. Os valores de pH, alcalinidade e condutividade foram 5,5; 25,2m S/cm e 181m Eq./L, respectivamente. A vegetação marginal é bem conservada e os limites da lagoa podem ser facilmente reconhecidos (Foto 3).

 

Sete espécies foram registradas nessa lagoa: trapoeraba Commelina nudiflora, navalha-de-mico Scleria pterota, utriculária Utricularia sp., Ludwigia sp., erva-de-bicho Polygonum hidropiperoides, Panicum sp. e uma espécie de Poaceae não identificada.

 

A característica marcante da vegetação aquática da lagoa Encantada é a dominância de espécies emergentes. De fato, a baixa declividade pode explicar, em parte, o elevado grau de colonização por gramíneas (capim-navalha), sendo que a profundidade máxima de ocorrência dessas foi aproximadamente igual a 1,5m. Dentre os taxons que foram coletados, é importante ressaltar a presença de utriculária, única submersa, que foi observada numa profundidade aproximada de 1,5m, com flores amarelas de rara beleza, é carnívora.

 

Foto 3 - Vista parcial da lagoa Encantada no Parque Nacional do Iguaçu. Notar a predominância de Poaceae. Foto: Lourdes M. Ferreira

 

A mudança conspícua das espécies (Poaceae, Polygonaceae, Cyperaceae no solo hidromórfico, seguidas por outras Poaceae, e utriculária em 1,50m, com Poaceae até aproximadamente 1,70m) ao longo do gradiente de profundidade também é um fato digno de nota. Em locais com profundidades superiores a 1,70m, não se registrou na lagoa Encantada a presença de espécies submersas.

 

A importância da lagoa como habitat para aves aquáticas foi evidenciada pela presença de um jaçanã que, considerando o comportamento agressivo, estava defendendo o seu território.

 

Na ilha do Cavalo (ou Kór, conforme indicado por um guia local) foram encontradas três lagoas. Essas lagoas foram batizadas, para efeito do presente relatório, com os nomes Kór 1 (25° 33,36’S e 53° 54,11’W), Kór 2 (25° 33,29’S e 53° 45,16’W) e Kór 3 (25° 33,27’S e 53° 45,16’W). Além dessas lagoas, uma área úmida (um brejo), que passou a ser denominado Kór 4 (25° 33,24’S e 53° 45,19’W), também foi avaliado.

 

Para as três lagoas citadas acima, os seguintes valores de condutividade elétrica foram obtidos: 20,5m S/cm; 13,3m S/cm e 22,3m S/cm, respectivamente. Os valores de pH foram, respectivamente, 5,9; 5,7 e 5,2 e os de alcalinidade iguais a 25µEq./L; 30µEq./L e 50µEq./L, respectivamente. No brejo (Kór 4) foi observado o maior valor de condutividade elétrica (34,9m S/cm), sendo o valor de pH igual a 5,5 e a alcalinidade igual a 174µEq./L.

 

As três lagoas localizam-se em depressões com baixa declividade, são pouco profundas (< 0,4m)e durante os trabalhos de campo apresentavam blooms de algas com coloração avermelhada, na lagoa do Kór 1, e esverdeada, nas lagoas do Kór 1 e 2 (provavelmente Microcystis). Devido o uso da ilha para a criação de gado, a vegetação (terrestre, de ambientes de transição e aquática) está bastante degradada. Somente o ambiente de brejo (Kór 4) apresenta, em seus limites terrestres, trechos com mata.

 

Nas lagoas, foram somente registrados Polygonum sp. e erva-de-bicho Polygonum hydropiperoides, sendo que na lagoa do Kór 3 foi coletada a única espécie de euhidrófita: lentilha-da-água Lemna. O brejo da ilha do Cavalo apresentou maior riqueza de espécies de macrófitas, pois, além das duas espécies de Polygonum mencionadas, registrou-se também trapoeraba Commelina nudiflora, Murdannia sp. (uma outra eudrófita), junça Cyperus entrerianus, junquinho Eleocharis filiculmis, navalha-de-mico Scleria pterota e Ludwigia sulfruticosa.

 

Outro fato interessante de ser apontado para a lagoa do Kór 3 é a sua coloração escura, que contrasta fortemente com os locais onde ocorrem os blooms de algas. Essa coloração é típica de ambientes ricos em compostos orgânicos dissolvidos altamente refratários, resultantes da decomposição incompleta da vegetação terrestre e aquática, denominados compostos húmicos. Esses compostos conferem características peculiares aos ambientes onde ocorrem em altas concentrações, tais como redução da penetração de luz, que pode limitar o desenvolvimento de macrófitas submersas, e decréscimo das concentrações de bicarbonato e dos valores do pH. De fato, a maior acidez (5,2) foi observada nesse ambiente (Foto 4).

 

Os ambientes da ilha do Cavalo (Kór) são facilmente alcançados através do Município de Capanema. Apresentam elevado grau de influência antrópica, como desmatamento, pisoteio das margens ocasionado pelo gado e eutrofização, provavelmente decorrente do carreamento do estrume pelos ventos e chuvas. A presença de um brejo, em um adiantado estágio de sucessão, permite uma discussão comparativa com os outros ambientes aquáticos da ilha que ainda são bastante diferenciados do ambiente terrestre mas que durante o processo de sucessão se tornarão também, muito provavelmente, ambientes alagadiços, mais parecidos com brejos do que com lagos ou lagoas. A presença de jaçanãs atesta novamente a importância dessas lagoas para a manutenção da fauna silvestre.

 

Foto 4 - Vista parcial da lagoa do Kór 3, na ilha do Cavalo, no Parque Nacional do Iguaçu. Notar a coloração escura da água e o bloom de algas ao fundo. Foto: Luis M. Bini

 

A lagoa dos Patos estava, no momento da visita, com uma pequena quantidade de água. No entanto, de acordo com um morador local, a lagoa pode apresentar uma grande quantidade de água em outras épocas do ano. Os valores de condutividade, pH e alcalinidade foram, respectivamente, iguais a 24,3m S/cm, 4,56 e 30µEq./L. A lagoa como um todo estava colonizada por Panicum e Cyperaceae, ambas em estágio avançado de senescência. De acordo com o guia local, o aguapé Eichhornia crassipes já foi observado em períodos de maior volume de água. É interessante notar também a grande quantidade de material em decomposição que está presente em toda área ocupada pela lagoa.

 

A lagoa dos Patos é de grande porte se comparada com as outras lagoas visitadas. A entrada da trilha que dá acesso a essa lagoa pelo rio Iguaçu foi georeferenciada com o objetivo de facilitar visitas futuras (25° 33,30’S e 54° 04,84’W). O tempo de caminhada foi de aproximadamente vinte minutos. Dada a proximidade com o rio Iguaçu e a dinâmica acentuada de ambientes temporários, seria interessante visitar a lagoa dos Patos em outras épocas do ano.

 

6.3.2.2. Considerações Gerais sobre os Taxons Registrados

 

Na primeira etapa de campo, foram registrados vinte taxons pertencentes a treze famílias. Dentre eles, somente seis (Potamogegon, Hypericum, Lemna cf. minor, Heteranthera cf. reniformes, Bulbostylis cf. capillaris e Ottelia sp.) podem ser considerados euhidrófitas. Os demais treze taxons são representados por organismos que colonizam ambientes aquáticos, paludícolas, solos hidromórficos ou mesmo solos secos.

 

Na segunda expedição, mais 26 espécies de macrófitas aquáticas ou que habitam ambientes úmidos foram registradas, elevando para 36 o total de espécies catalogadas no PNI, em 34 taxons (Anexo 18). Quatorze espécies foram registradas na segunda expedição, que ainda não haviam sido observadas no primeiro levantamento.

 

O número atual de espécies catalogadas para o Parque ainda pode ser considerado baixo, se comparado com outros levantamentos realizados na bacia do rio Iguaçu (Silva et alii, 1997 e Thomaz et alii, 1998).

 

Tendo em vista o grande número de espécies (14 no total) que foram adicionadas ao levantamento realizado em outubro de 1998, é possível dizer que o número de espécies de macrófitas aquáticas com ocorrência no PNI é bem maior que o observado atualmente.

 

A figura 37 ilustra a relação entre o esforço de coleta (número de visitas) e número acumulado de espécies registradas para o Parque. Se a taxa de registro de novas ocorrëncias de espécies for constante, estima-se que a riqueza de espécies de macrófitas aquáticas para o PNI seja aproximadamente igual a 50. É necessário ressaltar que essa estimativa é bastante conservadora, tendo em vista o grande número de ambientes aquáticos no Parque e os diferentes ciclos reprodutivos das espécies. Por exemplo, se pelo menos duas espécies, não observadas nos dois levantamentos realizados, forem registradas na lagoa do Poço Preto, na loga próxima ao rio Apepu e nas duas lagoas próximas à ilha do Sol, o número total de espécies já seria igual a 42 (considerando dois novos registros para cada lagoa).

 

Os dados limnológicos básicos obtidos nas duas expedições, nos ambientes pesquisados, confirmaram a tendência de que os ambientes aquáticos do PNI parecem caracterizar-se por baixos valores de condutividade elétrica (que representa a quantidade de íons da água) e alcalididade total (que reflete a concentração de cátions, como o cálcio e o magnésio, e íons tamponantes, como o bicarbonato) e pela relativa acidez das águas. A reduzida concentração de íons deve indicar que os ambientes aquáticos pesquisados ainda encontram-se em estado relativamente bem conservados.

 

Dentre todos os taxons encontrados na primeira expedição, as Cyperaceae Cyperus spp.; o junquinho Eleocharis sp.; a navalha-de-macaco Rynchospora cf. corymbosa e as Poaceae foram os que ocorreram em uma maior número de ambientes. Os representantes da última família estiveram sempre presentes em elevada abundância e freqüência, o mesmo ocorrendo com a trapoeraba Commelina sp. nos brejos 1 e 2 da picada do médio Floriano e no brejo Três Amigos.

 

Figura 37 - Relação entre o esforço de coleta e o número de taxons de macrófitas aquáticas estimadas para o Parque Nacional do Iguaçu. Os círculos cheios indicam os valores observados, enquanto que os vazios são pontos estimados se a taxa de novas espécies identificadas for igual a metade do número de espécies observadas no período imediatamente anterior

 

 

Dos taxons registrados, o alecrim-da-praia Bulbostylis cf. capillaris e o hortelã-do-brejo Heteranthera cf. reniformes ocorreram em baixa freqüência. A primeira foi registrada somente em dois locais do brejo Três Amigos, e para a última registrou-se somente um pequeno estande próximo à margem da lagoa próxima ao rio Iguaçu. Assim, dentro da escala espacial considerada, essas duas espécies de euhidrófitas podem ser consideradas raras.

 

Dentre os taxons registrados, Lemna cf. minor e Potamogeton sp. podem ser consideradas aquelas que apresentam o maior potencial de infestação de ecossistemas aquáticos, de acordo com o levantamento realizado por Fernandez et alii (1990) para as Américas Central e do Sul.

 

Segundo esses autores, o crescimento excessivo desses dois gêneros tem causado problemas em rios, riachos, lagos, lagoas, brejos, canais de irrigação e reservatórios. Em menor grau, têm também sido registrados problemas com o uso múltiplo de ecossistemas aquáticos decorrentes da presença de Heteranthera, Hydrocotyle umbellata e Echinodorus, gêneros encontrados em alguns ambientes do PNI.

 

Kissmann & Groth (1991-1992) também considera os gêneros Polygonum e Ludwigia como potencialmente infestantes em ambientes aquáticos ou alagados.

 

Embora não se tenha registro sobre problemas mais sérios em UC do Brasil, o crescimento excessivo de espécies daninhas pode comprometer a integridade de ambientes aquáticos protegidos. Esse fato foi registrado, por exemplo, no Parque Nacional Kruger, África do Sul, onde, após introdução acidental, Pistia stratiotes cobriu várias lagoas, comprometendo sobremaneira a manutenção da biodiversidade aquática (Cilliers et alii, 1996).

 

Porém, deve-se considerar que as lagoas verdadeiras, visualizadas pelo sobrevôo, aparentemente não apresentam sinais de cobertura excessiva de espécies daninhas. A região pelágica sempre pôde ser visualizada, em alguns casos circundada por reduzidos bancos de macrófitas aparentemente emersas. Bancos de submersas também foram visualizados.

 

Deve-se destacar que em nenhuma lagoa foram observados densos estandes de espécies flutuantes, tais como o aguapé Eicchornia crassipes, Salvinia sp. ou Pistia stratiotes, que podem ser consideradas as principais daninhas. Em caso de ocorrência de infestações por essas espécies, medidas imediatas de manejo devem ser tomadas, pois quando tais macrófitas cobrem totalmente a superfície dos corpos aquáticos, sua biodiversidade fica seriamente comprometida.

 

Os riachos observados no PNI raramente são colonizados por macrófitas aquáticas. Somente um reduzido estande de espécies submersas foi registrado. A preservação da vegetação marginal, bem desenvolvida em todo o Parque, pode ser apontada como a causa da pobreza da vegetação aquática nesses riachos.

 

Em adição aos taxons discutidos, cabe ressaltar que outras espécies com características paludícolas ou aquáticas foram registradas por Silvia Ziller, durante a AER, das formações florestais do Parque, sendo elas: Polygonum ferrugineum, Polygonum hispidum, Eichhornia crassipes, Paspalum lilloi, Ludwigia myrtifolia, Ludwigia sericea e Scleria panicoides.

 

6.3.2.3. Considerações Gerais sobre os Ambientes Aquáticos

 

De acordo com a visão clássica de Odum (1983), os ambientes aquáticos podem ser enquadrados em diferentes estágios de um gradiente sucessional. Assim, são identificados desde ambientes com reduzida cobertura pela vegetação aquática, como a lagoa próxima ao rio Apepu ou a lagoa do Jacaré, até ambientes em final de estágio sucessional, como a lagoa da Ilha (ou do Butu), com um pequeno espelho de água cercado por vegetação emergente. Estágios intermediários, com cobertura moderada pela vegetação emergente, também foram identificados (lagoa Poço Preto, por exemplo).

 

A maioria desses ambientes apresenta rara beleza cênica, conferida pelas águas transparentes, associada aos bancos de macrófitas, nunca em densidade excessiva, e associada à vegetação marginal, composta por florestas bem preservadas.

 

Nos ambientes visitados, algumas variáveis limnológicas foram medidas. Embora os dados obtidos sejam básicos, e úteis apenas para uma caracterização geral das localidades amostradas, indicam algumas características desses ambientes. A importância do pH está diretamente relacionada com a grande influência que essa variável tem sobre as diferentes formas de carbono inorgânico presentes na água, que representam a matéria-prima para a fotossíntese da vegetação submersa.

 

O gênero Sphagnum, por exemplo, coloniza águas com pH entre 3 e 6 devido a essa limitação (Margalef, 1983), enquanto Myriophyllum spicatum coloniza ambientes com valores entre 4 e 10 por absorver tanto o CO2 como o bicarbonato (Sculthorpe, 1985). Todos os locais estudados, no PNI, apresentaram valores de pH levemente ácidos (5,4 a 6,7) e, nessas condições, são encontrados tanto CO2 livre como bicarbonato na água. Portanto, poucas espécies de macrófitas aquáticas seriam limitadas nessa faixa de variação.

 

A alcalinidade indica a capacidade de tamponamento de um ambiente aquático, ou seja, sua resistência às alterações do pH. De uma forma indireta, essa variável também indica a quantidade das reservas de carbono inorgânico da água.

 

Os baixos valores de alcalinidade obtidos no brejo Três Amigos e no brejo 1 da picada do médio Floriano sugerem que esses são os locais com menor potencialidade de abrigar espécies submersas, visto que essas dependem das fontes de carbono da água. Os demais ambientes apresentaram valores que se encontram na variação apresentada por outros sistemas aquáticos da bacia do rio Paraná (Thomaz et alii, 1997), muitos dos quais com rica vegetação aquática.

 

A condutividade elétrica representa a quantidade de íons da água. Embora possa ser considerada um parâmetro quantitativo e não qualitativo, é bastante utilizado para explicar a distribuição de organismos aquáticos. No reservatório de Itaipu (próximo ao PNI), por exemplo, existe relação positiva entre a presença de espécies flutuantes de macrófitas aquáticas e os valores da condutividade elétrica (Bini et alii, 1998). Essa relação é esperada, pois a vegetação flutuante absorve os nutrientes diretamente da coluna de água.

 

Os valores de condutividade elétrica obtidos nos ambientes amostrados no PNI assemelham-se, em geral, aos menores resultados registrados em diversos corpos aquáticos da bacia do rio Paraná (Thomaz et alii, 1997), o que pode estar relacionado com o considerável grau de preservação dos ambientes aquáticos do Parque. Mais uma vez, cabe destacar o brejo 1 da picada do médio Floriano e o brejo Três Amigos, cujos valores (10,8µS/cm e 11,7µS/cm, respectivamente) são inferiores àqueles encontrados em 334 registros de diferentes ambientes da bacia do rio Paraná (Thomaz et alii, 1997). Assim, dentre os ambientes amostrados, esses dois podem ser considerados os mais pobres quanto à concentração de íons totais.

 

O que mais chamou a atenção durante os trabalhos de levantamento das macrófitas aquáticas foi a presença freqüente de áreas úmidas ou brejos. Esses ambientes alagados são facilmente encontrados nas caminhadas no interior da floresta, indicando que aí ocorrem em grande número. Apesar disso, são dificilmente visualizados durante sobrevôo, devido ao reduzido tamanho ou ao fato de ficarem parcialmente recobertos pela vegetação arbórea-arbustiva.

 

Portanto, juntamente com os riachos e lagoas, os brejos devem ser considerados importantes componentes dessa UC. A importância desses ambientes, cuja principal característica é a presença da vegetação aquática ou paludícola, tem sido enfatizada por vários pesquisadores (Mitsch & Grosselink, 1993; Voltz, 1995 e Esteves, 1998).

 

Cabe ressaltar, no entanto, que as áreas úmidas são ambientes extremamente frágeis e medidas devem ser tomadas quanto ao seu manejo. Assim, novos estudos devem ser conduzidos no Parque, relativos às assembléias de macrófitas aquáticas, objetivando subsidiar melhor qualquer intervenção que aí se pretenda.

 

6.3.3. Fauna

 

6.3.3.1. Avifauna

Em relação à avifauna, poucos foram os estudos realizados na porção sudoeste do Estado do Paraná. No início do século, quando ainda existiam grandes áreas florestadas ao longo do rio Iguaçu, poucos pesquisadores se dispuseram a estudar a região, e aqueles que o fizeram eram estrangeiros, na sua maioria.

 

No início do século os trabalhos mais importantes foram realizados por dois pesquisadores poloneses. O primeiro, Tadeusz Chrostowski (1912), coletou, nos anos de 1910 e 1911, em várias localidades da região, destacando-se Vera Guarany, Marechal Mallet, rio dos Índios e rio Ivahy. Retorna à região, nos anos de 1921 a 1924, para compor, juntamente com o Dr. Tadeusz Jaczewski (1925), uma expedição científica com o objetivo de coletar material zoológico para o Museu Polonês de História Natural. Chegaram à Cidade de Foz do Iguaçu em março de 1923, onde realizaram várias excursões pelas localidades vizinhas. Deles é o registro relativo à abundância de certas espécies, hoje extremamente raras, como a jacutinga Pipile jacutinga e o pato-mergulhão Mergus octosetaceus (Sztolcman, 1926).

 

Em 1928 a Dra. Emilie Snethlage visitou Foz do Iguaçu, coletando algum material que está depositado no Museu Nacional do Rio de Janeiro. O coletor alemão Emil Kampfer que, entre 1926 e 1930, fez grandes coleções de aves em todo o Brasil, visitou Foz do Iguaçu por volta do ano de 1930, sendo o material coletado depositado no American Museum of Natural History of New York (Sick, 1997).

 

Com citações específicas para essa UC, além das obras de cunho geral (IBDF/FBCN, 1981; IBAMA, 1989b e Pádua & Coimbra-Filho, 1979), algumas listagens e guias (Cavalcanti & Bóçon, 1994 e Mähler Jr., 1993), bem como resumos de congressos, encontros de pesquisadores e clubes de observadores de aves (Scherer-Neto et alii, 1989 e Scherer-Neto et alii, 1991), pouco foi publicado sobre a avifauna do PNI.

 

Estudos com aves, realizados em áreas próximas ao PNI, deverão ser utilizados como referência ou possibilidade de ocorrência (Crespo, 1982; SPVS, 1993a e 1993b; Pérez & Colmán, 1995 e Humbeck & Avalos, 1995).

 

De maior amplitude (ämbito regional), mas com informações pertinentes ao PNI, pode-se contar com Scherer-Neto & Straube (1995) e Lange & Jablonsky (1981).

 

Para efeito da revisão deste PM, tem-se os trabalhos de Bóçon et alii (1998) e de Antonelli-Filho, sendo que o último foi realizado no escopo da AER (Antonelli-Filho, 1998).

 

A ordenação sistemática, a nomenclatura científica e vernacular segue, no caso das aves, o disposto por Sick (1997), com apoio em Willis & Oniki (1991) em alguns casos, onde o nome vernacular possa suscitar dúvidas.

A definição do status de cada espécie foi baseada nas seguintes obras e documentos: Sick & Teixeira (1979); IBAMA (1989a, 1997); Bernardes et alii (1990); Collar et alii (1992); Groombridge (1993); Paraná/Secretaria de Estado do Meio Ambiente (1995) e Sick (1997).

I. Caracterização Geral

O PNI, localizado no sudoeste do Estado do Paraná, situa-se no extremo oeste do domínio dos Planaltos das Araucárias, a leste do domínio do Chaco e ao sul da penetração do domínio Tropical Atlântico, através do rio Paraná e também da penetração do domínio do Cerrado do Brasil Central. Reconhecidos por Ab’Saber (1977b) ao considerar os grandes domínios paisagísticos e macroecológicos do Brasil, esses domínios são definidos por feições morfoclimáticas de grande extensão e pelos principais quadros de vegetação. Ajudam a entender a distribuição da flora e da fauna se analisados sob a ótica de suas sucessivas expansões e retrações forçadas pela instável paleoclimatologia dos tempos quaternários.

 

Conforme apontado, a região onde se encontra o Parque pode ser considerada como uma importante faixa de transição entre domínios morfoclimáticos (atuais). Sua importância assume uma magnitude maior se for considerado que essa região se constituiu em um importante representante do domínio natural referente a "... florestas tropicais, áreas refúgios de matas e brejos de encostas e serras úmidas... " há 13.000-18.000 anos, em uma primeira aproximação, segundo Ab’Saber (1977a).

 

Tal caráter de transição explica a presença de um expressivo número de espécies da avifauna associadas às florestas da vertente Atlântica, como a jacutinga Pipile jacutinga, a jandaia Aratinga auricapilla, o surucuá-de-peito-azul Trogon surrucura, o tucano-de-bico-verde Ramphastos dicolorus, o flautim Schiffornis virescens e a saíra-sete-cores Tangara seledon, somente para citar alguns exemplos. A presença do grimpeirinho Leptasthenura setaria atesta a influência do domínio dos Planaltos das Araucárias, enquanto o tucanuçu Ramphastos toco e o arapaçu-do-cerrado Lepidocolaptes angustirostris representam exemplos de aves típicas do Cerrado.

 

Em termos gerais, a avifauna pode ser caracterizada como sendo subtropical com alguma influência atlântica e certos elementos andino-patagônicos. Entretanto, deve-se ter patente a semelhança da fauna ocorrente nas formações florestais estacionais semidecíduas com as da floresta ombrófila mista, no PNI, uma vez que, embora haja a formação de pinhais, a transição entre as duas formações não é caracterizada pela presença de muitas espécies que a evidenciem. Antes da composição florística, é a estrutural que mais define os fatores limitantes à presença de determinados componentes faunísticos.

 

Quanto à riqueza de aves para o Parque dispõe-se dos seguintes números:

Bóçon et alii (1998) registraram 200 espécies de aves como resultado dos trabalhos de campo; com as espécies citadas na bibliografia (Cavalcante & Bóçon, 1994 e Scherer-Neto et alii, 1989), esse número eleva-se a 348 espécies, embora algumas ocorrências devam ser revistas, (Anexo 19);

Antonelli-Filho (1998), durante os trabalhos de campo da AER, constatou a ocorrência de 177 espécie de aves, três das quais observadas pela primeira vez no PNI, quais sejam: o gavião-pomba-grande Leucopternis polionota, o gavião-de-dorso-branco Buteo leucorrhous e o maçarico-pintado Actitis macularia;

para a área de influência da UHE de Salto Caxias (aproximadamente a 30 km do Parque), foram relacionadas 236 espécies de aves (SPVS, 1993b) e

para os Refúgios Biológicos de Bela Vista e Santa Helena, às margens do lago da UHE de Itaipu, foram registradas 280 espécies de aves (SPVS 1993a).

 

II. Caracterização dos Locais Pesquisados

 

Na área da estrada do Poço Preto e imediações, a presença de várias espécies de aves florestais, com um alto grau de especialização, indica a possibilidade de o sítio abrigar remanescentes com um bom nível de conservação. A presença da tovaca-campainha Chamaeza campanisona e da papa-taoca-do-sul Pyriglena leucoptera no sub-bosque e do caneleiro-castanho Pachyramphus castaneus nos estratos intermediários e no superior, além de outros insetívoros tipicamente florestais como o limpa-folha-de-testa-canela Philydor rufus, o arapaçu-de-cabeça-cinza Sittasomus griseicapillus, a borboletinha Phylloscartes ventralis e a maria-da-copa Myiopagis caniceps demonstram tratar-se de uma formação florestal bem estruturada, apesar de sua maior parte ser considerada estágio intermediário de floresta (capoeirão).

 

O número considerável de epífitas justifica a presença de espécies que procuram insetos em bromélias, orquídeas e samambaias como o bico-virado-miúdo Xenops minutus e Philydor spp. Nesse sítio foram verificadas inúmeras espécies consumidoras de palmito como a tiriba-de-testa-vermelha Pyrrhura frontalis, a maitaca-verde Pionus maximiliani, o surucuá-de-barriga-amarela Trogon rufus, o sabiá-de-cabeça-cinza Turdus leucomelas e o sanhaço-cinza Thraupis sayaca. Ainda, tem-se predadores alados como o gavião-pombo-grande Leucopternis polionota e o gavião-de-dorso-branco Buteo leucorrhous.

 

Nos alagados próximos ao rio Iguaçu (Ponto 18), pode ser verificada a presença de aves paludícolas como a saracura-do-mato Aramides saracura e o corocoró Mesembrinibis cayennensis. A floresta ciliar ao rio Iguaçu, de maior porte que o restante do sítio, localiza-se perto de uma área de grande adensamento de palmito. Outras espécies consumidoras desse recurso foram observadas nesse ponto: tucano-de-bico-verde Ramphastos dicolorus, surucuá-de-peito-azul Trogon surrucura, araçari-poca Selenidera maculirostris, duas espécies de sabiás, o poca Turdus amaurochalinus e o coleira Turdus albicollis.

 

Na formação ciliar ao rio São João, as espécies típicas de ambientes lóticos, como o martim-pescador-pequeno Chloroceryle americana e o pia-cobra Geothlypis aequinoctialis compartilham dessa formação com espécies das áreas abertas, pastagens e culturas externas ao Parque. Pelo menos vinte espécies de aves provenientes desses ambientes freqüentam a área marginal do rio São João.

 

A vegetação da encosta do vale do rio São João, apesar de remanescente da vegetação nativa e portadora de boa riqueza específica, encontra-se fragilizada devido à ação de palmiteiros e caçadores, conforme atestam as trilhas encontradas e indícios de corte recente de palmito. Espécies de porte, consumidoras dos frutos do palmito Euterpe edulis, como o jacupemba Penelope superciliaris e a pomba-galega Columba cayennensis foram observadas no local.

 

A estrutura avifaunística no Sítio 3, vicinal às Cataratas, apesar da proximidade com áreas urbanizadas, mostra-se pouca alterada no que diz respeito aos diversos níveis tróficos. Foi evidenciada aí a presença de diversos gaviões como, por exemplo, o gavião-carijó Buteo magnirostris.

 

Uma espécie de andorinhão (Apodidae) foi avistada nas proximidades das Cataratas. Trata-se do taperuçu-velho Cypseloides senex cujo habitat exclusivo resume-se ao paredão rochoso das Cataratas e do espaço aéreo onde busca os insetos para a sua alimentação.

 

Consumidores primários, naturalmente ariscos e de hábitos retraídos, cuja presença raramente é constatada em áreas abertas, são vistos nesse sítio com certa freqüência, em espaços mais devassados como, por exemplo, na borda da floresta ao longo da estrada de acesso que liga a portaria às Cataratas.

 

Nessa situação, foi observado um grupo de quatro jacupembas Penelope superciliaris, a primeira atravessando a estrada, o que nos alerta para o risco de atropelamento, uma vez que não foi verificado qualquer controle de velocidade ou fiscalização para tal, e um grupo de jacupembas caminhando pela borda da mata próxima ao prédio da Administração. Nesse mesmo local, digna de nota é uma colônia de guaxes Cacicus haemorrhous, instalada em uma palmeira nos jardins. Essa tolerância à proximidade humana demonstrada por certas espécies florestais deve-se, sem dúvida, à proteção que é conferida à fauna nesse sítio.

 

Espécies exóticas e domésticas, como o pardal Passer domesticus e a pomba-doméstica Columba livia, dentre outras, alheias aos ambientes naturais do Parque, têm nesse sítio, bem como no entorno do Parque, ambientes propícios à sua fixação em razão dos ambientes urbanizados ou antrópicos neles localizados. Entretanto, a sua ocorrência em terreno do Parque deve ser evitada e, uma vez constatada, providências urgentes devem ser tomadas para a sua completa erradicação.

 

Às margens do rio do Índio (Sítio 4, Pontos 9 e 10) a formação ciliar encontra-se bem conservada no interior do Parque e alterada próximo à borda, onde forma ecótono com ambientes antrópicos significativos, como um represamento à montante da sua divisa. Nesse ponto não existe a estrada de contorno do Parque, não havendo portanto um rápido acesso da fiscalização. Foi destruída uma espera ("trepeiro") para caça na divisa onde o rio entra no Parque.

 

Utilizam-se dessa vegetação de bordadura várias espécies típicas de ambientes abertos ou semi-florestais, como os capões de mato e as reduzidas reservas legais isoladas, onde são vistos com certa freqüência o inhambu-chintã Crypturellus parvirostris, a pomba-asa-branca Columba picazuro, o gavião-carijó Buteo magnirostris, a rolinha-roxa Columbina talpacoti e a rolinha-picuí Columbina picui que, quando presentes no interior de ambientes florestais, podem ser consideradas como indicadoras de alterações estruturais ou de áreas de borda depauperadas, devido a alterações microclimáticas pela vizinhança de ambientes abertos (efeito de borda).

 

Nas encostas do vale do rio do Índio (Ponto 10), onde foi verificada a presença de espécies pioneiras, indicando um estado sucessional inicial de floresta, devido à exploração madeireira no passado, não foram encontradas espécies especialistas típicas, à exceção do pica-pau-rei Campephilus robustus, espécie ameaçada de extinção, habitante de formações florestais mais estruturadas, que foi avistada em setor de vegetação de maior porte, na área pesquisada.

 

Das espécies florestais só foram encontradas aquelas de menor valência ecológica (não especialistas) como o sabiá-poca Turdus amaurochalinus, a alma-de-gato Piaya cayana, a maria-assobiadeira Sirystes sibilator, o beija-flor balança-rabo-de-garganta-rajada Phaethornis eurynome, entre outras.

 

No Sítio 5, o rio Represa Grande, antes de entrar no Parque, tem a sua margem direita uma tênue linha de vegetação separando-o de uma plantação de trigo. Devido ao estado de alteração da vegetação ciliar no interior do Parque nesse local, poucas espécies foram verificadas, além das espécies típicas de ambientes lóticos e áreas marginais, como o martim-pescador-verde Chloroceryle amazona, o curutié Certhiaxis cinnamomea, o pula-pula-ribeirinho Phaeothlypis rivularis, e o guache Cacicus haemorrhous, que apesar de freqüentar diversos outros ambientes, mostra uma predileção pela utilização de árvores situadas na beira dos rios, para formar suas colônias reprodutivas.

 

Seus ninhos alongados e em forma de bolsa pendurada na ponta de galhos sobre o rio são construídos próximos uns aos outros. Dessa forma, conseguem uma maior proteção ao ataque de predadores, em especial dos tucanos - principalmente o tucano-de-bico-verde Ramphastos dicolorus e eventualmente o tucanuçu Ramphastos toco, especialistas em capturar os filhotes do guache dentro do ninho-bolsa, utilizando seus consideráveis bicos.

 

Apesar da ausência do estrato emergente, formado pelas espécies vegetais de maior porte exploradas no passado pelo seu valor madeireiro, na área referente aos afluentes do rio Silva Jardim, Sítio 6 (Pontos 12 e 13), a fauna de aves apresenta-se razoavelmente bem estruturada.

 

A presença de espécies mais especializadas, ocupantes do nível do chão da floresta, como os frugívoros/onívoros uru Odontophorus capueira e o inhambu-guaçu Crypturellus obsoletus, os habitantes especialistas do sub-bosque, como a insetívora borralhara-assubiadora Mackenziana leachii; as insetívoras dos estratos intermediários, como os arapaçus-grandes Dendrocolaptes platyrostris e o cabeçudo Leptopogon amaurocephalus; e as de estratos intermediários e superior (copa), como o chororozinho-de-asa-ruiva Herpsilochmus rufomarginatus, são excelentes indicadoras de uma razoável qualidade do ambiente florestal.

 

Espécies frugívoras, "quase" especialistas, como o pavão-do-mato Pyroderus scutatus (ameaçado de extinção), as tiribas-de-testa-vermelha Pyrrhura frontalis e as maitacas-verdes Pionus maximiliani corroboram a análise anterior com o apoio da presença de espécies carnívoras como o falcão-caburé Micrastur ruficollis, um pequeno gavião florestal habitante do sub-bosque.

 

Tal floresta só não está totalmente estruturada, no que diz respeito à sua fauna de aves, por não possuir um estrato emergente e, portanto, ter alguns fatores de aproximação como o fotoperíodo, ou definitivo como a disponibilidade alimentar, de forma a inibir a ocorrência de certas espécies mais exigentes como o macuco Tinamus solitarius, que não foi aí constatado. Além do que, esse sítio encontra-se sob pressão de caça, atividade evidenciada pela presença de inúmeras picadas de caçadores (uma delas bem recente e em utilização).

 

Corroborando o disposto pela área temática relativa à vegetação, a fauna de aves está razoavelmente estruturada nas proximidades das margens do rio Benjamim Constant, apresentando espécies indicadoras de razoável qualidade de ambientes florestais, como as exigentes aves insetívoras florestais, o barranqueiro-de-olho-branco Automolus leucophthalmus, o arapaçu-de-garganta-branca Xiphocolaptes albicollis, a papa-taoca-do-sul Pyriglena leucoptera e o flautim-verde Schiffornis virescens.

 

Dentre as espécies de maior porte, e em sua maioria objeto de caça, foram encontradas nas proximidades do rio Benjamim Constant o jacuguaçu Penelope obscura (ameaçada de extinção), o uru Odontophorus capueira, o inhambu-guaçu Crypturellus obsoletus e a juriti-piranga Geotrygon montana. Ao afastar-se da margem do rio (Ponto 15), no interior do Parque, no sentido de sua borda (Ponto 17), a floresta muda, sendo substituída pela formação em início de desenvolvimento, e com ela sua fauna, que passa a apresentar um número maior de espécies generalistas florestais, como a gralha-picaça Cyanocorax chrysops, o sabiá-poca Turdus amaurochalinus, o trinca-ferro-de-asa-verde Saltator similis e o bem-te-vi-verdadeiro Pitangus sulphuratus, esse último podendo ser considerado como espécie colonizadora e freqüentadora de ambientes mais abertos, mesmo que em clareiras de porte razoável em ambiente florestal.

 

Mais próximo da borda, como nas proximidades do córrego Pinheirinho (Ponto16), encontram-se espécies típicas de ambientes abertos e de origem antrópica (pastagens e culturas), que freqüentam e se utilizam, com uma certa assiduidade, das formações florestais ocorrentes no Parque. Nessa categoria podem ser citados o gavião-carrapateiro Milvago chimachima, o pássaro-preto Gnorimopsar chopi, o tico-tico-rei-vermelho Coryphospingus cucullatus, o joão-teneném Synallaxis spixi, o gurundi Tachyphonus coronatus e a pomba-asa-branca Columba picazuro.

 

Na estrada do Colono (Sítio 8, Ponto 19), conforme analisado anteriormente nesse item, a área de estudo definida por esse ponto de observação apresentou dois tipos de comunidades de aves. A primeira é constituída por espécies essencialmente florestais, como a choca-da-mata Thamnophilus caerulescens, a juruva-verde Baryphthengus ruficapillus, a papa-taoca-do-sul Pyriglena leucoptera, o inhambu-guaçu Crypturellus obsoletus e a tovaca-campainha Chamaeza campanisona, que sofrem os efeitos da fragmentação de habitat, evidenciados pela estrada em si, somada ao efeito de alteração de borda verificado. A segunda comunidade de espécies é constituída pelas espécies de ambientes abertos, colonizadoras da vegetação alterada da borda da estrada, já citadas.

 

Além dos sistemas de florestas, identificou-se no Sítio 9, no rio Iguaçu, foi verificada a ocorrência das seguintes espécies: o biguá Phalacrocorax brasilianus, a garça-branca-grande Casmerodius albus, o socó-boi Tigrisoma lineatum, o corocoró Mesembrinibis cayennensis, o gavião-caramujeiro Rostrhamus sociabilis e o trinta-réis-grande Phaetusa simplex. Na área do meandro foi evidenciada a presença da saracura-do-mato Aramides saracura, a andorinha-do-rio Tachycineta albiventer, o martim-pescador-verde Chloroceryle amazona e o curutié Certhiaxis cinnamomea.

 

A formação mais interessante nesse sítio, sob o ponto de vista da ornitologia, trata-se sem dúvida de uma área florestal encharcada, próxima ao meandro, com uma grande densidade de palmito Euterpe edulis e presença de outras palmeiras como o jerivá Arecastrum romanzoffianum, onde foi verificada a ocorrência de várias espécies de Psittacidae como o papagaio-curau Amazona aestiva (dois indivíduos observados em vôo, avistados do barco), o periquitão-maracanã Aratinga leucophthalmus (doze indivíduos em vôo, avistados do barco e três no local), periquito-de-encontro-amarelo Brotogeris chiriri (seis indivíduos, um casal em atividade pré-reprodutiva), a maitaca-verde Pionus maximiliani (32 indivíduos em três grupos de oito, onze e treze) e o cuiu-cuiu Pionopsitta pileata (três indivíduos voando). Outro achado importante foi o de um ninho com dois filhotes (ninhegos) de Columbidae, provavelmente de juriti Leptotila sp.

 

Nas proximidades da foz do rio Floriano, até a região do último salto (Sítio 10, Pontos 21, 22 e 23), deve ser feita menção à fauna associada ao ambiente lótico do trecho final do rio Floriano (da sua foz ao último salto). A fauna de aves referente a esse ambiente é formada por espécies essencialmente piscívoras/animalívoras, com espécies herbívoras/granívoras.

 

Foram constatadas as seguintes espécies de regime alimentar essencialmente piscívoro: o biguatinga Anhinga anhinga, o biguá Phalacrocorax brasilianus, o socó-grande Ardea cocoi, o socozinho Butorides striatus, o socó-boi Tigrisoma lineatum e o martim-pescador-grande Ceryle torquata. Em relação às espécies herbívoras/granívoras, encontra-se o pato-do-mato Cairina moschata e a ananai Amazonetta brasiliensis. Outras espécies verificadas para o rio Iguaçu, nas proximidades da foz do rio Floriano, apresentam regimes alimentares distintos, como o gavião-caramujeiro Rostrhamus sociabilis, que se alimenta essencialmente de caramujos, e as insetívoras andorinha-do-rio Tachycineta albiventer e o maçarico-pintado Actitis macularia, essa última migratória.

 

Os ambientes florestais do baixo Floriano pouco diferem dos razoavelmente estruturados, relatados anteriormente, com a ressalva de que um maior número de cipós, lianas e epífitas pode representar um certo acréscimo na densidade das espécies insetívoras, em função da maior disponibilidade de microambientes para abrigar insetos. Como indicadores de boa integridade ambiental podem ser citados o falcão-caburé Micrastur ruficollis, o chorozinho-de-asa-ruiva Herpsilochmus rufomarginatus e o tiê-da-mata Habia rubica.

 

Menção especial deve ser feita ao grande número de evidências de atividades de caça nesse sítio. Encontrou-se indicativos de dois acampamentos: na margem esquerda do rio: um balaio, uma lona plástica e alguns utensílios de cozinha, enquanto na margem direita, pedaços de corda amarradas em algumas árvores e restos de uma fogueira. Além das evidências dos acampamentos, foram encontrados um barco escondido com remo novo e um crânio de veado-mateiro Mazama americana, esse último não podendo ser associado a atividade cinegética por não apresentar indícios corroborantes.

 

Na parte norte do Parque em Céu Azul (km 627 da BR-277), área do Sítio 11 (Ponto 24), a floresta estacional semidecídua montana primária encontra-se pouco alterada, sendo a área mais conservada de todas analisadas. Essa apresenta uma elevada densidade de palmito Euterpe edulis, o que confere à área importância para a avifauna, pois das 25 prováveis espécies de aves consumidoras de palmito, com ocorrência para o Parque, nove foram verificadas para esse sítio. Algumas dessas espécies são consideradas excelentes indicadoras de integridade ambiental como o macuco Tinamus solitarius, aqui em densidade considerável, pois foram efetuados três contatos auditivos (vocalizações quase simultâneas em diferentes direções) e um contato visual, e o tiê-da-mata Habia rubica.

 

Outras espécies consumidoras de palmito encontradas nesse sítio são: inhambu-guaçu Crypturellus obsoletus, o jacuguaçu Penelope obscura, o cuiu-cuiu Pionopsitta pileata, o surucuá-de-peito-azul Trogon surrucura, o araçari-castanho Pteroglossus castanotis, o tucano-de-bico-verde Ramphastos dicolorus e o pavó (pavão-do-mato) Pyroderus scutatus. Outras espécies boas indicadoras, já citadas para outros pontos bem conservados, também foram verificadas para esse sítio, como o gavião-caburé Micrastur ruficollis, o arapaçu-grande Dendrocolaptes platyrostris e a borralhara-assobiadora Mackenziaena leachii.

 

No Sítio 12 (Ponto 25), que constitui a represa atrás do PIC em Céu Azul, o tipo de formação intermediária de floresta, também conhecido como capoeirão, aí existente, mostra uma estrutura avifaunística relativamente bem representada, desde que em contato com áreas de vegetação primária. Devido à proximidade da borda do Parque, foram detectadas algumas espécies de ambientes abertos e urbanizados (proximidade à área urbana e à BR-277), como o sabiá-laranjeira Turdus rufiventris, o tico-tico Zonotrichia capensis, o canário-da-terra Sicalis flaveola, em pequeno bando de oito indivíduos, e a rolinha-roxa Columbina talpacoti.

 

A vegetação dos dois primeiros trechos do Sítio 13 (Pontos 26, 27, 28 e 29), excetuando-se a área onde ocorre o efeito de borda, apresenta riqueza e estrutura suficientes para abrigar avifauna das mais representativas para o Parque. O primeiro trecho (Ponto 26) encontra-se menos conservado que o segundo, mas mesmo assim apresenta uma boa densidade de palmito e, portanto, condições para a ocorrência de sua fauna associada.

 

Como boas espécies indicadoras de integridade ambiental foram observadas nesse ponto o uru Odontophorus capueira e o barranqueiro-de-olho-branco Automolus leucophthalmus. Também foi avistado um indivíduo adulto, em vôo rasante sobre a floresta, do raro gavião-pega-macaco Spizaetus tyrannus, uma das maiores aves predadoras do Brasil. Sua presença evidencia a importância do sítio para uma análise mais aprofundada e como área- testemunho, uma vez que inúmeras outras espécies de interesse para a conservação a ela estão associadas, como, por exemplo, suas presas de porte, primatas, Cracidae, marsupiais etc.

 

À semelhança do Ponto 24, a avifauna apresenta-se nesse ponto bem estruturada, com a presença das diversas categorias tróficas. Devido ao roubo de palmito, algumas espécies consumidoras têm sua presença menos evidenciada do que, por exemplo, no vizinho Ponto 27, onde o palmito encontra-se um pouco menos explorado.

 

O Ponto 27, situado entre as duas lagoas, mostra-se como um dos mais importantes para a avifauna observada durante os trabalho da AER. Das espécies consideradas indicadoras de integridade ambiental, muitas já citadas para outras áreas, foi evidenciada a presença de nada menos que treze espécies, um número bastante elevado se comparado com os demais pontos de observação, com destaque especial para a borralhara-preta Mackenziaena severa, habitante das brenhas mais sombrias e fechadas. Nesse sítio foi efetuado um importante contato com a extremamente rara e criticamente ameaçada jacutinga Pipile jacutinga, quando um casal, ostentando plumagem e coloração da barbela indicativa do período pré-reprodutivo, foi avistado forrageando os coquinhos do palmito Euterpe edulis.

 

A presença da exigente e altamente especialista jacutinga Pipile jacutinga indica a elevada importância para a preservação desse sítio. Outras duas espécies de aves ameaçadas de extinção foram verificadas nesse ponto, sendo elas o macuco Tinamus solitarius e o pavó Pyroderus scutatus e a jaguatirica. Próxima à segunda lagoa, foi verificada atividade reprodutiva do araçari-castanho Pteroglossus castanotis.

 

Os demais pontos desse sítio (Pontos 28 e 29), devido ao elevado grau de degradação verificado, não apresentam uma avifauna comparável aos pontos anteriores. A vegetação não apresenta os estratos superior e emergente, e predominam espécies vegetais caracteristicamente pioneiras. Não se encontram muitas espécies de aves florestais, muito menos as especialistas consideradas indicadoras de integridade ambiental. Entretanto, muitas espécies habitantes de ambientes abertos, conhecidas como colonizadoras, passam a ser encontradas, como uma espécie de guaracava Elaenia sp., o risadinha Camptostoma obsoletum, o joão-teneném Synallaxis spixi, a maria-viuvinha Colonia colonus, o nei-nei Megarynchus pitangua e o tico-tico-rei-vermelho Coryphospingus cucullatus.

 

No rio Gonçalves Dias (Sítio 14, Ponto 30), verificou-se que as espécies de aves, em sua maioria, já se apresentaram na floresta estacional semidecídua. Duas, porém, foram encontradas somente nesse ponto. Uma delas, o grimpeiro Leptasthenura setaria, que está intimamente associada às formações do pinheiro-do-paraná Araucaria angustifolia, onde percorre a copa, pesquisando insetos e outros artrópodes no emaranhado de suas grimpas. A outra espécie, o cisqueiro Clibanornis dendrocolaptoides, embora não seja necessariamente uma ave ligada ao pinheiro-do-paraná, é encontrada com certa freqüência nessa formação. Essa última é uma espécie ameaçada de extinção.

 

III. Comentários sobre as Espécies Importantes para a Conservação da Biodiversidade

A. Espécies Ameaçadas de Extinção, Raras ou Vulneráveis

Nesse item comenta-se sobre algumas espécies consideradas ameaçadas de extinção, raras ou vulneráveis. Para tanto buscou-se determinar o status de cada espécie com base em Sick & Teixeira (1979); IBAMA (1989a, 1997); Bernardes et alii (1990); Collar et alii (1992); Groombridge (1993); Fonseca et alii (1994); Paraná/Secretaria de Estado do Meio Ambiente (1995); Sick (1997). Comenta-se sobre espécies verificadas durante os trabalhos de campo e também sobre aquelas citadas na bibliografia, considerando-se alguns casos como passíveis de confirmação.

 

Tinamus solitarius macuco (Ave-Tinamidae) - listada como ameaçada de extinção pelo IBAMA (1989a) e por Bernardes et alii (1990), o macuco ainda pode ser encontrado nas áreas mais preservadas do Parque. Foi constatado em Floresta Estacional Semidecidual primária alterada, e em uma oportunidade foi observado na trilha do Poço Preto (Sítio 1, Ponto 2), 660m para o interior do Parque, próximo ao km 627 da BR-277 (Sítio 11, Ponto 24) e na picada do rio Floriano (Sítio 13, Ponto 27). Sofre pressão de caça no PNI e vizinhanças.

 

Tigrisoma fasciatum socó-boi-escuro (Ave-Ardeidae) - apontado como ocorrente na área do Parque por Mähler Jr. (1993) e Cavalcante & Bóçon (1994), essa ave considerada extremamente rara, além de muito pouco conhecida.

 

Leptodon cayanensis gavião-de-cabeça-cinza (Ave-Accipitridae) - apontado para o Parque por Cavalcante & Bóçon (1994) é considerada por Bernardes et alii (1990) como espécie muito pouco conhecida e provavelmente ameaçada de extinção.

 

Leucopternis polionota gavião-pomba-grande (Ave-Accipitridae) - observada pela primeira vez no PNI, durante a AER (Sítio 1, Ponto 4: trilha do Poço Preto). Listada pelo IBAMA (1989a) como ameaçada de extinção, vem sido vista com mais freqüência nos levantamentos. Seu status merece uma revisão.

 

Harpia harpyja gavião-real (Ave-Accipitridae) - citada por Scherer-Neto et alii (1989), entretanto sua ocorrência merece confirmação nos dias atuais. Relacionada pelo IBAMA (1989a) e por Bernardes et alii (1990) como ameaçada de extinção e considerada por Collar et alii (1992) como próximo da ameaça.

Spizaetus ornatus inhapacamim (Ave-Accipitridae) - citada por Scherer-Neto et alii (1989), atualmente a sua ocorrência merece confirmação. Relacionada pelo IBAMA (1989a) e por Bernardes et alii (1990) como ameaçada de extinção e considerada por Collar et alii (1992) como próximo da ameaça.

Spizaetus tyrannus gavião-pega-macaco (Ave-Accipitridae) - observado no Sítio 13, Ponto 26 (picada do rio Floriano). Predador de grande porte, é considerado como espécie vulnerável devido à drástica redução de seu habitat. Tem poucos registros para o Estado do Paraná.

 

Falco deiroleucos falcão-de-peito-vermelho (Ave-Falconidae) - citada por Cavalcante & Bóçon (1994), é espécie listada pelo IBAMA (1989a) e por Bernardes et alii (1990) como ameaçada de extinção e por Collar et alii (1992) como próxima da ameaça.

 

Falco peregrinus falcão-peregrino (Ave-Falconidae) - citada por Scherer-Neto et alii (1989), é considerada espécie ameaçada de extinção por vários autores (vide espécies migratórias).

 

Sarcorhamphus papa urubu-rei (Ave-Cathartidae) - citada por Mähler (1993) e Cavalcante & Bóçon (1994) e observada recentemente por Bóçon et alii (1998), é considerada espécie naturalmente rara.

 

Pipile jacutinga jacutinga (Ave-Cracidae) - citada por Scherer-Neto et alii (1989) e Cavalcante & Bóçon (1994), pôde ser verificada a sua ocorrência no Sítio 13 Ponto 27 (picada do rio Floriano) durante os trabalhos da AER. Sua presença no Parque é, sem dúvida nenhuma, uma das mais importantes constatações feitas durante a AER. Por um lado, devido à extrema raridade dessa ave, até certo ponto causada pela redução no estoque do palmito Euterpe edulis, por ação predatória e ilegal, e das Lauraceae (de forma geral) devido à ação madeireira no passado, de cujos frutos se alimenta, e por outro lado pela sua importância como indicadora de integridade ambiental.

 

Sua ocorrência está intimamente associada a remanescentes da Floresta Primária Nativa, mesmo que com algum grau de alteração. Como fato preocupante deve-se chamar a atenção para que, no âmbito das pesquisas de campo, não foram detectadas outras áreas, à semelhante da citada, com aparentes condições de oferecer suporte à sobrevivência desta espécie, uma vez que é objeto também de caça furtiva.

Penelope obscura bronzina jacuguaçu (Ave-Cracidae) - citada por Mähler (1993), em Cavalcante & Bóçon (1994) e foi constatada por Bóçon et alii (1998). Considerada ameaçada de extinção pelo IBAMA (1989a) em sua forma subespecífica. Sofre pressão de caça no PNI e vizinhanças.

 

Aramides ypecaha saracuraçu (Ave-Rallidae) - citada por Mähler (1993) e em Cavalcante & Bóçon (1994), essa saracura é considerada rara na natureza, com poucos registros de ocorrência.

 

Claravis godefrida pararu (Ave-Columbidae) - citada por Scherer-Neto et alii (1989), sua presença no Parque carece de maiores esforços para a confirmação. É considerada como espécie ameaçada pelo IBAMA (1989a) e por Bernardes et alii (1990) e extremamente rara por Collar et alii (1992).

 

Propyrrhura maracana ararinha (Ave-Psittacidae) - citada por Scherer-Neto et alii (1989), esse Psittacidae torna-se cada vez mais raro; merece portanto esforços de busca e de confirmação de ocorrência. É considerada como espécie próxima da ameaça por Collar et alii (1992).

 

Aratinga auricapilla jandaia (Ave-Psittacidae) - citada por Cavalcante & Bóçon (1994), é considerada espécie rara para o Estado do Paraná (Paraná/Secretaria de Estado do Meio Ambiente, 1995).

 

Pionopsitta pileata cuiu-cuiu (Ave-Psittacidae) - observada em várias ocasiões durante os trabalhos da AER, parece ser uma espécie comum para o PNI. Entretanto, merece mais estudos para a exata definição de seu status. Sugere-se ser considerada ao menos uma espécie vulnerável, frente à destruição sistemática de seu habitat (formações florestais com preferência por floresta ombrófila mista e floresta ombrófila sensu lato).

 

Amazona vinacea papagaio-de-peito-roxo (Ave-Psittacidae) - citada por Scherer-Neto et alii (1989), é considerada ameaçada de extinção pelo IBAMA (1989a), por Bernardes et alii (1990) e Collar et alii (1992); devem ser despendidos esforços de busca sazonais desta espécie na UC de forma a ter sua ocorrência comprovada ou descartada para a área.

 

Dryocopus galeatus pica-pau-de-cara-amarela (Ave-Picidae) - citada por Mähler (1993) e em Cavalcante & Bóçon (1994), é considerada ameaçada de extinção pelo IBAMA (1989a), por Bernardes et alii (1990) e Collar et alii (1992) e extremamente rara por Paraná/Secretaria de Estado do Meio Ambiente (1995), com poucos registros no nordeste e noroeste do Estado; devem ser desenvolvidos esforços para novas constatações desse Picidae no PNI, bem como para consolidar/confirmar sua ocorrência no Parque.

 

Campephilus robustus pica-pau-rei (Ave-Picidae) - observado durante os trabalhos da AER (Sítio 4, Ponto 10: divisor da margem direita do rio do Índio) e em outras três localidades por Bóçon et alii (1998), essa ave está relacionada como ameaçada de extinção pelo IBAMA (1989a), por Bernardes et alii (1990) e por Collar et alii (1992) e associado, por Sick (1997), às formações de araucária Araucaria angustifolia e nos ecótonos formados com floresta semidecídua (mista) e raro em áreas de outro domínio.

 

Clibanornis dendrocolaptoides cisqueiro (Ave-Furnariidae) - observado na margem direita do rio Gonçalves Dias, 9km ao sul de Santa Tereza do Oeste (Sítio 14, Ponto 30), é considerado ameaçado de extinção pelo IBAMA (1989a) e por Bernardes et alii (1990) e praticamente ameaçado por Collar et alii (1992). Observado em Floresta ombrófila mista.

 

Phylloscartes eximius barbudinho (Ave-Tyrannidae) - citado para o Parque por Mähler (1993), e em Cavalcante & Bóçon (1994), é considerado próximo da ameaça por Collar et alii (1992), contudo merece confirmação, uma vez que sua citação não referencia qual a forma de contato, e é uma espécie de difícil determinação.

 

Phylloscartes paulistus borboletinha (Ave-Tyrannidae) - mesmas considerações da espécie anterior, com a ressalva de que considerada ameaçada de extinção por Collar et alii (1992) e raro por Paraná/Secretaria de Estado do Meio Ambiente (1995).

 

Phibalura flavirostris tesourinha-da-mata (Ave-Cotingidae) - citada para o Parque por Mähler (1993) e em Cavalcante & Bóçon (1994), é considerada ameaçada de extinção pelo IBAMA (1989a) e por Bernardes et alii (1990) e próximo da ameaça por Collar et alii (1992),

 

Pyroderus scutatus pavão-do-mato (Ave-Cotingidae) - observado em várias oportunidades durante os trabalhos da AER (Sítio 6, Ponto 12; Sítio 11, Ponto 24 e Sítio 13, Ponto 27), é uma espécie listada pelo IBAMA (1989a) como ameaçada de extinção e

 

Procnias nudicollis araponga (Ave-Cotingidae) - citada para o Parque por Mähler (1993), por Cavalcante & Bóçon (1994) e por Scherer-Neto et alii (1989) e considerada próxima da ameaça por Collar et alii (1992). Não tem sido contatada ultimamente (Bóçon et alii, 1998 e AER).

B. Espécies Endêmicas

 

Durante os estudos de campo, foram identificadas duas espécies de Furnariidae que podem ser consideradas endêmicas para a região "Paraná Center", definida por Cracraft (1985), ao subdividir a região zoogeográfica neotropical em diversas zonas de endemismos. Segundo esse autor, a região que engloba as Florestas Ombrófilas Mistas (matas de araucária) pode ser considerada como um centro de endemismo ao qual denominou de "Paraná Center". São as seguintes espécies que podem ser consideradas endêmicas, sob a ótica de Cracraft:

 

Leptasthenura setaria grimpeirinho (Ave-Furnariidae) - apontada para a região leste do Parque por Bóçon et alii (1998), foi observada durante os trabalhos da AER para a região situada à margem direita do rio Gonçalves Dias. Essa espécie pode ser associada à araucária Araucaria angustifolia, conforme apontado por Sick (1997), e

 

Clibanornis dendrocolaptoides cisqueiro (Ave-Furnariidae) - já suficientemente analisada no item anterior (espécie 21).

C. Espécies migratórias

Apesar de estarem comumente arrolados sob essa caracterização, espécies que apresentam diversos tipos de movimentos populacionais sazonais, nesse estudo consideramos somente as espécies migratórias típicas, cujo deslocamento caracteriza-se pela periodicidade e movimentação de populações inteiras entre duas áreas. São elas:

 

Falco peregrinus falcão-peregrino (Ave-Falconidae) - citada para o Parque por Scherer-Neto et alii (1989) e para Foz do Iguaçu por Sick (1997), um exemplar anilhado em 18 de agosto (anilhamentos efetuados entre 1973 e 1985) em Yukon, Canadá próximo ao círculo polar, foi recuperado em 25 de dezembro do mesmo ano em Foz do Iguaçu, Paraná.

 

Tringa flavipes maçarico-de-perna-amarela (Ave-Scolopacidae) - citada para o Parque por Scherer-Neto et alii (1989), desloca-se do norte da América do Norte até o sul da América do Sul, distribui-se por todo o Brasil, onde chega no final do inverno austral.

 

Actitis macularia maçarico-pintado (Ave-Scolopacidae) - citada pela primeira vez para o Parque pela AER (setembro/1998), acompanha a anterior quanto aos períodos de deslocamentos e áreas de origem, entretanto ocupam ambientes distintos, Tringa flavipes ocupa as praias abertas e lamacentas de lagoas e rios, enquanto essa espécie prefere as margens de rios lodosas e pedregosas, com ramos e galhos na linha d’água, onde costuma empoleirar-se para pernoitar.

 

Tyrannus savanna tesoura (Ave-Tyrannidae) - citada para o Parque por Scherer-Neto et alii (1989) e Cavalcante & Bóçon (1994), as tesouras, fora da época reprodutiva, associam-se em bandos que migram em grande altura, confluindo em grande número na Amazônia (agosto).

 

Progne modesta andorinha-do-sul (Ave-Hirundinidae) - citada por Bóçon et alii (1998), reproduz-se do sul da Argentina à Bolívia e inverna na Amazônia ocidental (Sick, 1997). Até a citação de Bóçon et alii (1998), essa espécie era apontada somente para a região do alto rio Negro (julho e setembro), onde vários exemplares foram coletados (Sick, 1977), e

 

Hirundo rustica andorinha-de-bando (Ave-Hirundinidae) - citada por Scherer-Neto et alii (1989), migrante do hemisfério norte, costuma ocorrer periodica-mente em todo o Brasil. Suas migrações estendem-se até a Terra do Fogo.

6.3.3.2. Mastofauna

O conhecimento da mastofauna do Estado do Paraná é, de maneira geral, muito escasso. Para a região oeste do Estado, devem ser citadas as coletas de André Mayer, no período entre 1940 e 1955, com o objetivo de formar o acervo do atual Museu de História Natural, da Prefeitura Municipal de Curitiba (Capão da Imbuia). Considerando-se a similaridade quanto ao aspecto fitogeográfico, deve ser citado também o estudo realizado por Crespo (1982), no Parque Nacional del Iguazú, em Missiones, Argentina.

 

Como o mais importante trabalho na área de estudo dos mamíferos, realizado até o momento para o Parque, tem-se trabalho de Crawshaw Júnior (1995). A importância desse trabalho, além do propósito para o qual foi elaborado, um estudo da ecologia comparada da jaguatirica Leopardus pardalis e da onça-pintada Panthera onca, está no fato de que, pela primeira vez, foi elaborada uma lista de mamíferos para o PNI, com base em observações e coletas sistemáticas.

 

A exemplo dos temas anteriores, a mastofauna também foi objeto de investigação dentro do escopo da AER, tendo os trabalhos de campo sido realizados nos meses de agosto e setembro de 1998.

 

Para efeito da revisão deste PM, os estudos da mastofauna foram realizados na AER, em duas etapas (Antonelli-Filho, 1998 e 1999). Ainda, durante a segunda fase de campo, obteve-se a informação de que estão sendo efetuados estudos com os morcegos no PNI, mas não foi possível a obtenção de informações relativas à essa ordem, em função dos aludidos estudos estarem em fase inicial e ainda indisponíveis. Os resultados dos trabalhos, em termos de espécies, estão retratados no Anexo 20.

Da mesma forma que a avifauna, a mastofauna do PNI não é definida em função das grandes formações vegetais, salvo exceções de algumas espécies mais especializadas, como é o caso do guariba Alouatta fusca. A ocorrência das espécies de mamíferos no Parque está, antes, relacionada, ao fornecimento alimentar, área de vida e estrutura que um determinado ambiente pode oferecer.

I. Caracterização da Mastofauna

 

O caráter de área de transição entre domínios morfoclimáticos (atuais) do PNI, como foi dito no item sobre a avifauna, confere-lhe ainda mais relevância, por guardar testemunhos do domínio natural referente a "... florestas tropicais, áreas refúgios de matas e brejos de encostas e serras úmidas... " de 13.000-18.000 anos, em uma primeira aproximação, segundo Ab’Saber (1977a). Assim, a mastofauna também pode ser caracterizada como sendo subtropical com alguma influência atlântica e certos elementos andino-patagônicos.

 

Quanto à riqueza de mamíferos para o PNI dispõem-se dos seguintes números: 1) são citadas 45 espécies de mamíferos (exceto Chiroptera) no trabalho de Crawshaw Júnior (1995) e 2) foi evidenciada a ocorrência de dezenove espécies de mamíferos durante os trabalhos da AER.

 

Conforme pesquisas de Crawshaw Júnior (1995), a presença da onça-pintada Panthera onca, da jaguatirica Leopardus pardalis e de outros felinos de porte, na abundância apontada por esse pesquisador, sugere uma fauna bem estruturada, onde as teias alimentares são complexas, contando com representantes nos diversos níveis tróficos. Nas proximidades da trilha do Poço Preto também foram encontradas pegadas de jaguatirica Leopardus pardalis.

 

Ao longo da trilha do Poço Preto, área de Floresta Estacional Semidecídua, fase intermediária da floresta, foi avistado o macaco-prego Cebus apella, evidenciando estrutura florestal suficiente para abrigar algumas espécies arborícolas, como a mucura-de-quatro-olhos Philander opossum e o caxinguelê Sciurus aestuans, ambos apontadas por Crawshaw Júnior (1995).

 

Além das espécies de hábitos arborícolas, o sub-bosque bem formado oferece abrigo a alguns mamíferos de maior porte como o veado Mazama sp., cujas pegadas também foram encontradas na trilha do Poço Preto. Esse ambiente, face à existência de várias espécies produtoras de frutos oleosos, como Lauraceae, e de frutos carnosos, como várias espécies de Myrtaceae, formadoras principalmente do estrato intermediário e do sub-bosque, além da existência de vários tubérculos e raízes de Araceae terrestres, favorece a freqüência de porco-do-mato, veados e roedores. No encalço dessas espécies aparecem os seus predadores, os felinos.

 

São espécies freqüentadoras da fase avançada de floresta grandes roedores como a paca Agouti paca e, com maior freqüência, a cutia Dasyprocta azarae, juntamente com espécies de menor porte, mas igualmente exigentes como algumas espécies de ratos Akodon e Oligoryzomys (Crawshaw, 1995).

 

Ainda nessa formação, na fase avançada de floresta, encontram abrigo outros grandes mamíferos, como o cateto (ou caititu) Pecari tajacu, o queixada Tayassu pecari e veados Mazama spp. Atrás de aves, como do uru Odontophorus capueira, inhambu-guaçu Crypturellus obsoletus e macuco Tinamus solitarius, podem ser encontrados predadores de médio porte como a irara Eira barbara, o maracajá Leopardus wiedii e o gato-mourisco Herpailurus yagouaroundi, espécies verificadas por Crawshaw Júnior (1995) para a área do Parque.

 

A formação aluvial, presente próxima aos afluentes do rio São João, recebe a visita da maioria das espécies da formação montana. Freqüentador mais assíduo dessa formação é o mão-pelada Procyon cancrivorus, mamífero associado à presença de água.

 

Nas imediações do rio São João, tem-se mata ciliar com diferentes níveis de alteração na margem fora do Parque e conservada na margem interna. Na encosta do vale ocorre uma Floresta Estacional Semidecídua primária remanescente (Ponto 5). Foram encontrados indícios da presença da capivara Hydrochaeris hydrochaeris no local.

 

Conforme relatos de Apolonio Nelson Rodrigues, funcionário do Parque, e do Soldado Florestal Antônio Ilenich (com. pess., 1998), tem ocorrido ataque de onça-pintada Panthera onca a novilhas, ovelhas e cães em fazendas vizinhas ao Parque. Ainda segundo o Apolonio N. Rodrigues (com. pess., 1998), a possibilidade da escassez de porco-do-mato Pecari tajacu pode ser uma das causas do felino procurar presas domésticas, de mais fácil captura.

 

Nesse sítio foi verificada a existência de trilhas de acesso ao interior do Parque, provavelmente utilizadas por caçadores ou palmiteiros furtivos. No trecho médio do rio, foram encontrados vestígios de um antigo "acampamento" de lontra Lutra longicaudis, ameaçada de extinção (Euclides Grando, com. pess., 1998).

 

A estrutura mastofaunística, na área das Cataratas, apesar da proximidade com áreas urbanizadas, mostra-se pouco alterada no que diz respeito aos diversos níveis tróficos. Foi evidenciada a presença de carnívoros de porte como a jaguatirica Leopardus pardalis, sendo citados para o local (inúmeros relatos de guardas e funcionários) a presença de outros carnívoros de grande porte, como a onça-pintada Panthera onca e a onça-parda Puma concolor.

 

Consumidores primários, naturalmente ariscos e de hábitos retraídos, são vistos nesse sítio, com certa freqüência, até mesmo em espaços como na borda da mata, ao longo da estrada que liga a portaria do Parque às Cataratas. Nessa situação foi observada a cutia Dasyprocta azarae. Essa tolerância à proximidade humana demonstrada por certas espécies florestais deve-se, sem dúvida, à proteção conferida à fauna, nesse sítio.

 

No PNI, ocorre um caso extremo de adaptação de espécies nativas ao convívio humano, beirando o limiar da domesticidade. É o que acontece com uma população do quati Nasua nasua que, através de várias gerações, vem recebendo alimentação dos visitantes, que se encontram próximos às Cataratas. Sem dúvida nenhuma, essa população de quati deve ser alvo de um programa de manejo específico, uma vez que o crescimento populacional, acima do suporte que o ambiente natural lhe confere (contou-se 37 animais em uma área de dispersão reduzida, inferior a 1.000m2), pode provocar pressão sobre outras espécies, como aves, devido à predação aos ovos e filhotes, ou pelo menos devido à interferência que esses mamíferos trepadores podem causar.

 

Espécies exóticas e domésticas como o rato Rattus rattus, o camundongo Mus musculus e o próprio gato-doméstico Felis catus, dentre outras, alheias aos ambientes naturais do Parque, têm nesse sítio, bem como no entorno do Parque, ambientes propícios à sua fixação, em razão dos ambientes urbanizados ou antrópicos neles localizados. Tais ocorrências no Parque devem ser evitadas e, uma vez constatada, providências urgentes devem ser tomadas para a sua completa erradicação.

 

Além dessas espécies exóticas, vários representantes da mastofauna local, por um lado, acabam se beneficiando dos ambientes antrópicos, como as culturas e roças para os veados Mazama spp., o cateto Pecari tajacu e o preá Cavia sp. Por outro lado, são expostos ao consumo de agroquímicos, à caça e à perseguição. Outro grupo que freqüenta esses ambientes são predadores, como o cachorro-do-mato Cerdocyon thous e o furão Galictis cuja, e espécies generalistas, como o gambá Didelphis albiventris, que acabam se acostumando a predar pequenas criações, ovos, frutos, restos de comida e lixo dispostos pelos humanos.

 

Próximo ao rio do Índio (Sítio 4, Ponto 10), interior do Parque, próximo à divisa, foi encontrada uma ossada de anta, não muito velha (devido à presença de moscas), com um afundamento na região frontal do crânio. Os indícios encontrados permitem a hipótese do animal ter sido abatido por caçadores pelas seguintes razões: 1) acesso difícil ao local pela fiscalização, por ausência de estrada; 2) a espera (trepeiro) estava facilmente à vista; não havia qualquer preocupação em que a mesma tivesse que estar ocultada ou desativada, o que também indica falta de fiscalização rotineira na área, e 3) a ossada tinha sido deixada na borda do Parque, sem cuidados para ocultá-la.

 

Às margens do rio do Índio, a formação ciliar encontra-se bem conservada no interior do Parque, e alterada próxima à borda, onde forma ecótono com ambientes antrópicos significativos, como um represamento à montante da divisa com o Parque.

 

No Sítio 5, ao longo do rio Represa Grande (Ponto 11), antes da sua entrada no Parque, tem a sua margem direita uma tênue linha de vegetação separando-o de uma plantação de trigo. Também nesse, cenário foram encontradas várias pegadas de capivara Hydrochaeris hydrochaeris, de indivíduos em diferentes fases de crescimento, em visita ao trigal.

 

Sobre e sob as pegadas de capivara foram encontradas algumas de felino de grande porte que, pelo posicionamento espaçado e formato elipsóide dos dedos, bem como pelo formato decididamente triangular da almofada intermediária da pata posterior direita, foi identificado como sendo uma onça-parda Puma concolor. Foram citadas, por moradores locais, ocorrências de ataques a cachorros domésticos por felinos sem, contudo, se identificar a espécie, ataques que teriam ocorrido na semana anterior à verificação das pegadas.

 

Em áreas dos afluentes do rio Silva Jardim (Sítio 6, Pontos 12 e 13), em Floresta Estacional Semidecídua Submontana com três estratos arbóreos, faltando o estrato emergente, com a formação aluvial bem estreita e misturando-se, na encosta com a submontana, apesar da ausência do estrato emergente, formado pelas espécies vegetais de maior porte, exploradas no passado pelo seu valor madeireiro, foi constatado um grupo de guariba Alouatta fusca, ameaçado de extinção (IBAMA, 1989a), evidenciado através de sua vocalização grupal. Tal fato confere ao ambiente analisado um grau de destaque, em comparação à área dos rios do Índio e Represa Grande.

 

Tal sítio também encontra-se sob pressão de caça, atividade evidenciada pela presença de inúmeras picadas de caçadores (uma delas bem recente e com sinais de utilização).

 

No Sítio 7, região definida pelos rios Benjamim e pelo córrego Pinheirinho, na margem do rio Benjamim Constant, ocorre a Floresta Estacional Semidecídua Montana com formações aluviais restrita, devido ao encaixamento do rio, em fase de sucessão intermediária para avançada (Ponto 15). Entre o rio Benjamim Constant e a borda do Parque a vegetação original parece ter sido submetida a corte raso, pois apresenta-se em fase inicial de floresta, dominada por espécies tipicamente pioneiras colonizadoras de áreas abertas (Ponto 17).

 

Entretanto, às margens do córrego Pinheirinho, a formação ciliar apresenta-se bem conservada no interior do Parque e, em seu entorno, abaixo dos padrões exigidos em lei para se constituir em área de preservação permanente (Ponto 16).

 

Corroborando o disposto pela área temática relativa à vegetação, a fauna de mamíferos apresenta-se razoavelmente estruturada nas proximidades das margens do rio Benjamim Constant, apresentando espécies indicadoras de razoável qualidade de ambientes florestais, como a lontra Lutra longicaudis (ameaçada de extinção).

 

Nesse sítio foram observadas e percorridas picadas de caçadores, bem como encontrado um buraco de tatu escavado por cão e com marcas de facão na terra, evidenciando atividades cinegéticas ou, pelo menos, de perseguição.

 

Além dos sistemas florestais, identificou-se dois tipos de áreas úmidas, um lótico, representado pelo rio Iguaçu, afluentes e sangas de pequeno porte, e o segundo essencialmente lêntico, formando ecótono com um ambiente paludícola característico, o meandro abandonado do rio. Na área do meandro foi evidenciada a presença da capivara Hydrochaeris hydrochaeris (fezes).

 

Ainda nessa porção do Parque, em área de floresta Ombrófila Mista Montana, podem ser encontradas muitas das espécies de mamíferos que ocorrem na Floresta Estacional. A presença da araucária Araucaria angustifolia, como espécie dominante, proporciona uma significativa fonte alimentar para inúmeros mamíferos, que a ela acorrem quando da maturação dos pinhões. Assim, tem-se desde pequenos roedores, como paca Agouti paca, cutia Dasyprocta azarae, tapiti Sylvilagus brasiliensis e até espécies onívoras, como o quati Nasua nasua.

 

Muitas são as espécies que se alimentam dos frutos da araucária(veja item 5.4. A Avaliação Ecológica Rápida e os Ambientes do Parque Nacional do Iguaçu). Algumas, como o ouriço-cacheiro Coendou prehensilis e a cuíca-lanosa Caluromys lanatus, demonstram uma certa preferência por essa formação.

 

Nas proximidades da foz do rio Floriano, até a região do último salto, há Floresta Estacional Semidecídua Aluvial (ciliar) em boas condições. As áreas adjacentes de florestas de encosta encontram-se em estágio intermediário de floresta, com eventuais remanescentes primários (Ponto 21); formações ciliares de um afluente do rio Floriano da margem esquerda (Ponto 22), fragmentadas, com mistura de estágios sucessionais iniciais, intermediários e remanescentes primários; formação ocorrente ao redor de uma nascente, onde se forma uma lagoa (Ponto 23).

 

Antes dos ambientes florestais referidos aos pontos de observação, deve ser feita menção à fauna associada ao ambiente lótico do trecho final do rio Floriano (da sua foz ao último salto). A fauna de mamíferos referida para esse ambiente é formada por espécies essencialmente piscívoras/animalívoras, com espécies herbívoras/ granívoras. A riqueza de espécies piscívoras observada está relacionada à riqueza ictiólogica presumida para o rio Floriano. Foi constatada a lontra Lutra longicaudis, espécie de regime alimentar essencialmente piscívoro (Euclides Grando, com. pess., 1998), podendo-se supor uma ictiofauna variada.

 

Outra espécie dependente dos ambientes lóticos é a ariranha Pteronura brasiliensis, que apesar de não ter sido evidenciada nos trabalhos de campo, é citada para a região por Crawshaw Júnior (1995), com base em depoimento de guardas-parques argentinos.

 

Ainda associadas a esses ambientes, e com possibilidade de ocorrência para o baixo rio Iguaçu, Olrog & Lucero (1980) relacionam duas espécies de morcegos piscívoros do gênero Noctilio spp.

 

Os ambientes florestais do baixo Floriano pouco diferem dos razoavelmente estruturados, relatados anteriormente, com a ressalva que um maior número de cipós, lianas e epífitas pode representar um certo acréscimo na densidade das espécies insetívoras, em função da maior disponibilidade de microambientes para abrigar insetos. Como espécies dignas de referência para essa região devem ser citados o tapiti Sylvilagus brasiliensis, cuja presença foi evidenciada pela localização de sua toca, por pêlos e por fezes encontrados nas proximidades.

 

Menção especial deve ser feita ao grande número de evidências de atividades de caça nesse sítio. Existiam evidências de dois acampamentos no local; um na margem esquerda do rio, onde havia um balaio, uma lona plástica e alguns utensílios de cozinha, e outro na margem direita, com pedaços de corda amarradas em algumas árvores e restos de uma fogueira. Além das evidências dos acampamentos, foram encontrados um barco escondido com remo novo e um crânio de veado-mateiro Mazama americana, esse último não podendo ser associado a atividade cinegética, por não apresentar indícios corroborantes.

 

Muitas coleções de água podem formar ambientes tipicamente paludícolas, caracterizados por compreender elementos com suprimento ininterrupto de água, porém com profusão de vegetação de suporte aquático-terrestre. Esses ambientes são utilizados por algumas espécies de roedores e de marsupiais bastante adaptados a eles. Embora não tenha sido verificada a ocorrência de roedores e marsupiais nesses ambientes durante os trabalhos de campo, em função da exiguidade de tempo, Crawshaw Júnior (1995) cita para essas formações duas espécies de roedores, o rato-d’água Nectomys squamipes e o rato-do-brejo Holochilus brasiliensis. Essas espécies podem ser relacionadas ao terceiro grupo de espécies dos ambientes úmidos.

 

Na área do PIC em Céu Azul, ocorre Floresta Estacional Semidecídua, estágio sucessional intermediário de floresta, incluindo uma pequena represa artificialmente construída, cujas imediações eram utilizadas para fins de lazer e educação ambiental (Sítio 12, Ponto 25).

 

A exemplo dos demais pontos onde predomina esse tipo de formação intermediária de floresta, também conhecido como capoeirão, pode-se encontrar uma estrutura mastofaunística, relativamente bem representada, desde que em contato com áreas de vegetação primária. Devido à proximidade da borda do Parque, foram detectadas algumas espécies de ambientes abertos e urbanizados (a área urbana e a BR-277). Foram verificados indícios (fezes) do rato Rattus rattus, próximo à construção do Posto. Trata-se de uma espécie exótica e sinantrópica, que pode causar algum dano à fauna nativa, quando em número elevado.

 

Ainda, foi encontrado um gambá Didelphis albiventris atropelado a cerca de 4km do PIC, no sentido Céu Azul/Cascavel.

 

O Ponto 27, situado entre as duas áreas úmidas localizadas no ínicio da trilha para o médio rio Floriano, mostrou uma constatação incomum, um contato visual a curta distância com um cachorro-do-mato Cerdocyon thous.

 

II. Comentários sobre as Espécies Importantes para a Conservação da Biodiversidade

A. Espécies Ameaçadas de Extinção, Raras ou Vulneráveis

Os comentários sobre o status de algumas espécies estão baseados em IBAMA (1989a, 1997); Bernardes et alii (1990); Groombridge (1993); Fonseca et alii (1994) e Paraná/Secretaria de Estado do Meio Ambiente (1995). Os dados desse item referem-se às observações de campo e à bibliografia, considerando-se alguns casos como passíveis de confirmação.

 

Agouti paca paca (Mammalia-Agoutidae) - citada para o Parque por Crawshaw Júnior (1995), é considerada como espécie rara em Paraná/Secretaria de Estado do Meio Ambiente (1995) e por constatação feita através de entrevistas durante a AER. Sofre pressão de caça no PNI e vizinhanças.

 

Tayassu pecari queixada e Pecari tajacu cateto (Mammalia-Tayassuidae) - citados para o Parque por Crawshaw Júnior (1995). As duas espécies, representantes da família no Brasil, eram apontadas como abundantes no PNI por vários funcionários mais antigos e guardas florestais. Conta-se, inclusive, de invasões a centros urbanos periféricos como nos Municípios de Céu Azul e Santa Tereza do Oeste, por varas de mais de uma centena de porcos (João Iraci da Silva & Apolonio N. Rodrigues, com. pess., 1998).

 

Entretanto, nos últimos anos, ambas as espécies vêm apresentando um aparente e acentuado declínio em suas populações, sugerindo as mais variadas hipóteses: (a) os porcos atravessaram o rio Iguaçu para o lado Argentino, fato citado por vários policiais florestais (Soldado Volmir Gresele & Sargento Sandro R. Zorzan, entre outros, com. pess., 1998), que acreditam que (b) os porcos se deslocaram para a parte central do Parque (Apolonio N. Rodrigues, com. pess., 1998).

 

A verdade é que todos os relatos são unânimes em afirmar que esses animais quase não são mais vistos, fato preocupante pois, seja qual for a razão, e a elas soma-se a pressão de caça, tanto do queixada quanto do cateto. Tais espécies são consideradas presas preferenciais da onça-pintada Panthera onca, perfazendo aproximadamente 75% da biomassa encontrada nas fezes desse carnívoro (Crawshaw, 1995). Uma vez escasseando a sua principal fonte alimentar, nada mais natural aumentarem os ataques desses felinos a presas domésticas (bezerros, novilhas, cães, ovelhas etc.), conforme apontado por vários dos informantes já citados.

 

Dessa forma, seria indicado um manejo específico para tal questão, a exemplo do monitoramento que vem sendo desenvolvido com seu predador, a onça-pintada. O queixada Tayassu pecari é tida como rara e com as populações em declínio no Estado do Paraná (Paraná/Secretaria de Estado do Meio Ambiente, 1995).

 

Tapirus terrestris anta (Mammalia-Tapiridae) - citada por Crawshaw Júnior (1995) para o Parque e considerada rara e com as populações em declínio para o Estado (Paraná/Secretaria de Estado do Meio Ambiente, 1995). Como foi dito antes, foi encontrada uma ossada de anta, abatida a relativamente pouco tempo (conforme depreendido pela presença de moscas - Muscidae - e mutucas - Tabanidae - que ainda eram atraídas pêlos ossos, ou melhor, por restos orgânicos aderidos aos ossos), no Sítio 4, Ponto 10 (divisor de águas, margem direita do rio do Índio). O crânio apresentava um afundamento na região frontal da ordem de 10cm na direção radial em relação à curvatura da testa, indicando um trauma proveniente de um choque mecânico com um objeto roliço, dificilmente provocado por causas naturais, o que leva a crer em ação de caçadores ilegais.

 

Próximo à área (Ponto 9), foi encontrado um girau suspenso (espécie de plataforma feita de galhos suspensa em uma árvore para alojar um caçador na espera da caça - também chamado de trepeiro) na margem direita do rio do Índio, próximo a uma represa, em propriedade particular, à montante do ponto onde o rio adentra o Parque. Na mesma área onde a ossada foi encontrada, verificou-se uma intensa e recente ação de corte de palmito Euterpe edulis denunciada pelas folhas ainda verdes das palmeiras derrubadas. Nesse sítio não existe a estrada de contorno ao Parque, o que dificulta a ação da fiscalização e facilita a ação do palmiteiro e do caçador.

 

Alouatta fusca guariba (Mammalia-Cebidae) - apontado para o Parque por Crawshaw Júnior (1995) e evidenciada a sua presença, durante a AER, através de um contato auditivo com um grupo vocalizando em área de Floresta Estacional Semidecídua, em um afluente do rio Silva Jardim (Sítio 6, Ponto 12). É considerada espécie ameaçada de extinção pelo IBAMA (1989a) e por Paraná/Secretaria de Estado do Meio Ambiente (1995) e vulnerável pela classificação da UICN (Groombridge, 1993 e Fonseca et alii, 1994). Indica-se como procedimento estratégico a realização de pesquisas sobre a dinâmica populacional, para a identificação das causas de sua raridade ou ausência ao longo de grandes extensões (Fonseca et alii, 1994), bem como para definição do status da população existente no PNI.

 

Speothos venaticus cachorro-vinagre ou cachorro-do-mato-vinagre (Mammalia-Canidae) - citado para o Parque por Crawshaw Júnior (1995), com base em uma única evidência obtida através do resultado da chromatografia realizada em fezes (pêlo identificado pelos métodos de diferenciação da cutícula e medula). Considerado ameaçado de extinção pelo IBAMA (1989a) e insuficientemente conhecida pela classificação da UICN (Groombridge, 1993) e outros (Fonseca et alii, 1994 e Paraná/Secretaria de Estado do Meio Ambiente, 1995).

 

Lutra longicaudis lontra (Mammalia-Mustelidae) - foram encontrados vários indícios (tocas, pegadas e marcas de unha e fezes) dessa espécie na foz e em afluente do rio Floriano (Sítio 10, Ponto 22) durante os trabalhos da AER.

 

Também é citada por Crawshaw Júnior (1995) e em IBDF/FBCN (1981), como L. platensis. É espécie listada como ameaçada de extinção pelo IBAMA (1989a), vulnerável pela UICN (Groombridge, 1993) e por Fonseca et alii (1994). Deve ser dada especial atenção para os efeitos decorrentes do regime de liberação e retenção de água provocado pelo funcionamento e operação da UHE de Salto Caxias, uma vez que são necessários para a sobrevivência dessa espécie ambientes suficientes para a formação de tocas e refúgios na beira da água.

 

Apesar de ser considerada a possibilidade de ocorrência dessa espécie em pequenos cursos d’água, onde as características fisico-químicas permitam a manutenção de bentos, utilizados como principal recurso alimentar (SPVS, 1993b), fica indicada a necessidade de se monitorar os principais sítios e as atividades reprodutivas da espécie, em razão das alterações instantâneas e imediatas, próprias da operação de uma UHE, muito distinta do regime natural e sazonal de cheias e vazantes.

 

Pteronura brasiliensis ariranha (Mammalia-Mustelidae) - citada por Crawshaw Júnior (1995), com base em relatos de policiais florestais do PNI e também para o Parque Nacional del Iguazú, na Argentina. Considerada ameaçada de extinção pelo IBAMA (1989a) e vulnerável pela UICN (Groombridge, 1993) e por Fonseca et alii (1994). Trata-se de uma espécie que merece ter avaliada a sua ocorrência no PNI, com a estimativa de suas populações na região. Uma vez que o aproveitamento hídrico para fins de geração de energia elétrica, nas bacias do rios Iguaçu e Paraná, é intenso, com certeza afeta a distribuição das populações dessa espécie de grande mobilidade. Para maiores informações sobre populações isoladas deve-se consultar Chehébar (1990).

 

Panthera onca onça-pintada e Leopardus pardalis jaguatirica (Mammalia-Felidae) - apesar do importante estudo de Crawshaw Júnior (1995) com tais espécies e de suas indicações específicas de manejo e monitoramento, alerta-se para o fato da necessidade de maiores informações a respeito de suas principais fontes alimentares e sobre a capacidade de suporte do ambiente para a manutenção de toda a teia alimentar encabeçada pelos grandes carnívoros, incluindo-se nesse tema os grandes gaviões.

 

Somente com essas informações poderiam ser apontadas eficientes medidas de manejo, como o enriquecimento, o adensamento e a recuperação das formações florestais necessárias para a manutenção de toda a estrutura faunística, a formação de "corredores" e uma estratégia de conservação e manejo consoante e cooperativa entre o Brasil e países vizinhos na região.

 

Corroborando a necessidade de uma estratégia conjunta de proteção aos recursos biológicos, sobressai a continuidade da Floresta Estacional Semidecídua, desde a Argentina, com seu Parque del Iguazú e os remanescentes florestais da província de Missiones, até o PNI no Brasil. Seriam inúmeras as vantagens em se adotar medidas de conservação conjunta (Brasil/Argentina), uma vez que se considera o PNI, em concordância com Crawshaw Júnior (1995), não dissociado das áreas preservadas do país vizinho.

 

Seria interessante que os responsáveis pela conservação dos dois países se sentassem à mesma mesa para discutir os problemas de manejo dos respectivos Parques, sob o aspecto regional. Preferencialmente, poderiam ser incluídas nessa discussão as UC da região do lago de Itaipu, com a recuperação dos Refúgios Biológicos da Itaipu Binacional, no lado brasileiro, e as bem preservadas Reservas de Limoy e Itabó, do lado paraguaio. Entende-se que, a longo prazo, somente um sistema e uma estratégia conjunta de conservação, que englobe uma área maior que a de influência de uma UC, permitirão a sobrevivência dos grandes predadores.

 

Cite-se que durante os trabalhos de campo da AER foram observados vestígios da presença da jaguatirica Leopardus pardalis, pegadas, na área das lagoas internas acessadas através da picada aberta para o médio curso do rio Floriano (Sítio 13, Ponto 27).

 

Ambas as espécies, a onça-pintada e a jaguatirica, são consideradas como ameaçadas de extinção pelo IBAMA (1989a).

 

Puma concolor onça-parda (Mammalia-Felidae) - apontada para o Parque por Crawshaw Júnior (1995) e constatada a sua presença durante a AER, através de pegadas junto com pegadas de capivara Hydrochaeris hydrochaeris, em área próxima à margem do rio Represa Grande (Sítio 5, Ponto 11). A onça-parda é apontada como ameaçada de extinção pelo IBAMA (1989a). Devido ao hábito de freqüentar também áreas abertas, os comentários feitos para as espécies anteriores podem também ser aqui aplicados, sem prejuízo para essa espécie.

 

Leopardus wiedii gato-maracajá (Mammalia-Felidae) - estudada e monitorada por Crawshaw Júnior (1995) durante dezoito meses, no PNI, apresentou uma área de vida variando de 15,9km2 a 43,2km2. É considerada como ameaçada de extinção pelo IBAMA (1989a) e como insuficientemente conhecida pela classificação da IUCN (Groombridge, 1993) e por Fonseca et alii (1994).

 

6.3.3.3 - Herpetofauna

 

A fauna de anfíbios e répteis do Estado do Paraná vem sendo estudada desde 1983, apesar de trabalhos sistemáticos terem sido realizados durante quinze anos, principalmente na região leste do Estado, bacia do rio Iguaçu e região metropolitana de Curitiba. Contudo, muitas outras áreas importantes do Estado nunca foram alvo de qualquer tipo de estudo.

 

No PNI, praticamente quase nenhum estudo foi realizado, envolvendo herpetofauna. Na literatura especializada encontram-se apenas as referências de Bertha Lutz (Lutz, 1973), onde são relatadas algumas espécies de anfíbios observadas na área do Poço Preto, e de Heyer (1979 e 1994), onde são analisados exemplares procedentes do PNI, mas sem maiores comentários.

 

Em áreas próximas ao PNI estão sendo realizados os estudos ambientais da UHE de Salto Caxias, no rio Iguaçu. Tem-se dados também da província de Missiones, na Argentina, onde diversos trabalhos com anfíbios e répteis vêm sendo realizados (Acosta et alii 1994; Carrizo, 1991 e Giraldo & Abranson, 1994), a partir dos quais pode-se indicar algumas espécies de provável ocorrência para o Parque.

 

Para obtenção da listagem sistemática e informações de distribuição e habitat, foram consultadas a coleção herpetológica do Museu de História Natural Capão da lmbuía, de Curitiba, e a coleção de anfíbios do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, além da bibliografia.

 

Durante os trabalhos de campo, por ocasião da AER, foram encontradas doze espécies dentro da área do PNI, pertencentes a três famílias mais comuns nas comunidades de anfíbios anuros neotropicais, quais sejam, pererecas Hylidae, sapos Bufonidae e rãs Leptodactylidae (Segalla, 1998).

 

Na área do Poço Preto predomina a Floresta Estacional Semidecídua Submontana, sendo que as áreas mais baixas, próximas ao rio Iguaçu, sofrem contínuas inundações, formando, assim, uma diversidade de ambientes propícios para o desenvolvimento da batracofauna. Foi observada aí a maior riqueza de espécies de anfíbios. Foi constatada visualmente a presença da rã foi-gol-não-foi Physalaemus cuvieri (Foto 5), que vocalizava em dois ambientes distintos, em poças na beira da estrada (essas formadas pelas valetas de drenagem), onde havia um número maior de indivíduos do que nas poças no interior da mata, originadas de antigos meandros do rio.

 

Tal rã ainda foi observada na região do médio rio Floriano. É uma espécie pequena, terrícola, de distribuição muito ampla na América do Sul. Possui grande tolerância ecológica, podendo ser encontrada em áreas abertas e florestais.

 

Também em poças em trechos do Poço Preto, estavam em atividade machos da perereca Scinax berthae, espécie já conhecida para o Parque (Lutz, 1973). Ela ocorre no sul do Brasil, Argentina e Uruguai. No Estado do Paraná está sempre associada a áreas florestadas.

 

Na margem do maior dos córregos do Ponto 3, no Poço Preto, foi identificada a vocalização da perereca verde Aplastodiscus perviridis, sendo encontrada ainda na pequena represa artificial do PIC de Céu Azul. Distribui-se no centro, sudeste e parte do sul do Brasil e nordeste da Argentina. Está associada a ambientes de água permanente, geralmente corrente, na orla ou interior da mata, ocupando vegetação de altura entre 0,5 a 4m.

 

Foto 5 - Foi-gol-não-foi Physalaemus cuvieri, rã registrada para o Parque Nacional do Iguaçu, durante os trabalhos da Avaliação Ecológica Rápida (AER). Foto: Magno V. Segalla

 

Ainda em um córrego menor, adjacente a esse último do Poço Preto, foi coletado um exemplar da perereca-rajada Hyla caingua (Foto 6), vocalizando sobre a vegetação baixa. Sua distribuição é conhecida para o nordeste da Argentina e Paraguai. Reproduz-se em córregos permanentes, de curso lento, dentro da mata e em banhados com vegetação herbácea.

 

Na margem do córrego maior no Poço Preto, foi coletado um exemplar da rã Leptodactylus ocellatus. Trata-se de rã terrícola e de tamanho grande (de 90 a 120mm). É um predador importante de artrópodes e pequenos vertebrados. Tem distribuição ampla, porém associada sempre a áreas abertas. Foi registrada, ainda, entre o rio Benjamim Constant e a borda do Parque (Ponto 15) e na foz do rio Floriano, próximo ao último salto.

 

Foto 6 - Perereca-rajada Hyla caingua, registrada para o Parque Nacional do Iguaçu, durante a Avaliação Ecológica Rápida (AER). Foto: Magno V. Segalla

Outra espécie encontrada no Poço Preto foi a perereca-grande-das-árvores Osteocephalus Iangsdorffii (Foto 7). Hilídeo de grande porte, podendo a fêmea alcançar 99mm, é um predador notável de outras espécies de anfíbios e pequenos vertebrados. Distribui-se pela Mata Atlântica, da Bahia à Santa Catarina, e nas áreas mais baixas e úmidas da Floresta Estacional, no oeste do Paraná, e província de Missiones, na Argentina. Também foi registrada na estrada de acesso às Cataratas, na altura das instalações do Macuco Safari.

 

Foto 7 - Perereca-grande-das-árvores Osteocephalus Iangsdorffii, do Parque Nacional do Iguaçu. Foto: Magno V. Segalla

 

Da mesma forma que o ponto anterior, a trilha do Poço Preto demonstrou características excelentes para a reprodução de anfíbios, pois apresentava-se constantemente inundado, principalmente no período de maior atividade do grupo. Aí são observadas áreas abertas, onde predominam a vegetação baixa, junto à água, e áreas com cobertura vegetal, variando de 5 a 8m de altura, que também são inundadas por períodos variáveis, formando, assim, poças temporárias com acúmulo de matéria orgânica, onde formas larvais (girinos) de várias espécies de anfíbios podem completar a metamorfose.

 

No local foram encontradas a rã foi-gol-não-foi Physalaemus cuvieri e a perereca Scinax berthae, sendo identificada uma vocalização da perereca-das-casas Scinax fuscovarius, coletado um exemplar da ranzinha-de-toca Leptodactylus mistacynus (Foto 8) e exemplares da perereca-anã HyIa nana (Foto 9).

 

A perereca-das-casas tem tamanho médio (de 40 a 60mm), e é muito comum em áreas naturais e alteradas, abertas e fechadas. Sua reprodução acontece em poças temporárias ou permanentes, e tem ampla distribuição. Foi registrada, ainda, na bacia do rio do Índio próximo ao rio Benjamim Constant (Ponto 15) e na foz do rio Floriano, próximo ao último salto (Ponto 23). Já a ranzinha-de-toca é de hábitos terrícolas, de tamanho médio (30 a 40mm) e deposita suas desovas em tocas escavadas no barro, próximo a corpos d'água permanentes ou temporários, onde se desenvolvem os girinos. Ocorre em áreas abertas e florestais das regiões temperadas da América do Sul. Também foi registrada no Ponto 22, do Sítio 10, foz do rio Floriano. Nesse último Ponto, foi identificada a partir do desenvolvimento de um girino coletado e cujo desenvolvimento foi acompanhado em laboratório.

 

Foto 8 - Ranzinha-de-toca Leptodactylus mistacynus coletada no Parque Nacional do Iguaçu, durante os trabalhos da Avaliação Ecológica Rápida (AER). Foto: Magno V. Segalla

 

Por sua vez, a perereca-anã é muito pequena (de 10 a 18mm) e reproduz-se em poças permanentes ou temporárias. É muito semelhante à Hyla sanborni, com a qual pode ocorrer simpatricamente no PNI. É muito abundante em áreas abertas e costuma ocorrer em altas densidades. Além do Ponto 18, do Sítio 1, foi registrada na primeira represa à jusante no rio São João.

 

Na bacia do rio do Índio, dentro da área do PNI, não foi constatada a presença de anfíbios e répteis. Porém, em áreas de entorno, na margem do rio do Índio, foi coletado um exemplar da perereca-das-casas Scinax fuscovarius, e em poças temporárias encontradas evidências de reprodução (posturas) de duas espécies: a rã Leptodactylus ocellatus e a perereca Hyla sp.

 

Nas áreas abertas ao redor do PNI, foram observadas diversas formações com acúmulo de água, decorrente de processos antrópicos, como represamentos de corpos d'água, escavações para retirada de terra, construção de estradas etc. Diversas espécies de anfíbios utilizam tais locais durante o período reprodutivo, permanecendo o restante do ano em áreas florestadas dentro do Parque.

 

Foto 9 - Perereca-anã HyIa nana do Parque Nacional do Iguaçu, registrada nos trabalhos da Avaliação Ecológica Rápida (AER). Foto: Magno V. Segalla

Por sua vez, um afluente da margem esquerda do rio Silva Jardim (Ponto 13, Sítio 6) é ambiente de provável ocorrência de espécies de hábito predominantemente terrícola, em decorrência da escassez de corpos d'água temporários. Aí foram encontrados um exemplar do sapo Bufo crucifer, em atividade, e girinos de Leptodactylidae, típicos de água corrente.

 

Tal sapo é de hábitos terrestres, possui tamanho médio (de 70 a 90mm), e é muito comum em toda a sua área de distribuição, que é associada ao Domínio Florestal Atlântico. Ocorre em áreas florestadas, porém, resiste bem ás ações antrópicas, desde que subsistam áreas de floresta e capoeira.

 

Em um meandro abandonado do rio Pinheirinho (Ponto 15, Sítio 7) foram observadas desovas de rãs Leptodactylidae, provavelmente da rã Leptodactylus ocellatus, e vocalizações da perereca Scinax sp.

 

Em um meandro abandonado do rio Iguaçu, (Sitio 9, Ponto 20) foram coletados girinos mantidos em aquário até completarem a metamorfose, sendo identificados como perereca-verde Aplastodiscus perviridis. Um dos indivíduos apresentou uma anomalia congênita em um dos olhos (Foto 10). Anomalias como essa têm sido observadas com freqüência em populações de anfíbios que vivem em áreas com altos índices de poluentes na água.

 

Em um subafluente do rio Floriano, em sua foz (Ponto 22, Sítio 10), foram coletados girinos de três espécies distintas de rã Leptodactylidae, também mantidos em aquários, não foi possível a identificação, pois os girinos não sobreviveram.

 

Ainda na foz do rio Floriano (Ponto 23, Sítio 10), há uma lagoa, distante 100m da margem de um afluente do rio Floriano, onde foi constatada a presença da rã Leptodactylus ocellatus (oviposição e vocalização) e da perereca Scinax sp. vocalização). Também foram coletados girinos de rã Leptodactylidae, mas não foi possível a identificação nem em nível genérico, por ser a morfologia desconhecida. Em afluente dessa lagoa forma-se uma poça menor, com características ambientais diferentes, devido à cobertura vegetal, que ocasiona no fundo grande acúmulo de detritos. No local foram coletados, ainda, girinos que, mantidos em cativeiro, completaram a metamorfose e foram identificados como perereca-da-mata Hyla semiguttata.

 

Foto 10 - Perereca-verde Aplastodiscus perviridis, mostrando anomalia congênita no olho, encontrada no Parque Nacional do Iguaçu, durante os trabalhos da Avaliação Ecológica Rápida (AER). Foto: Magno V. Segalla

A perereca-da-mata tem sua distribuição associada em áreas abertas elevadas, no Domínio Florestal Atlântico. Tem tamanho médio e ocorre em ambientes florestais, nas proximidades de pequenos corpos d água, onde as larvas se desenvolvem.

 

No represamento de córrego em área alterada com capoeirão, no PIC de Céu Azul (Sítio 12, Ponto 25), foi constatada a presença de um grupo da perereca-verde Aplastodiscus perviridis vocalizando.

 

Na mata da região do médio rio Floriano, próximo à picada Benjamim (Ponto 27, Sítio 1) há dois brejos, onde se constatou, através de vocalização, a presença de uma população da rã foi-gol-não-foi Physalaernus cuvieri.

 

Já no Ponto 28, do mesmo Sítio, em um córrego, foi coletado um girino. Mantido em aquário até completar a metamorfose, não foi possível a identificação nem em nível de família, devido ser a morfologia desconhecida.

 

Além dos pontos escolhidos para a AER, procurou-se observar a atividade de anfíbios em outras áreas dentro e fora do PNI. Uma dessas áreas, dentro do Parque, foram duas represas no rio São João, onde foram coletados exemplares da perereca-anã HyIa nana e da rã Leptodactylus ocellatus, além da constatação auditiva de perereca-de-pontos-brancos HyIa albopunctata.

 

A perereca-de-pontos-brancos ocorre no centro e sudeste do Brasil, nordeste da Argentina e leste do Paraguai. Ocupa variados tipos de ambiente, desde corpos d'água permanentes, junto à mata, até poças temporárias e permanentes em áreas abertas. Encontra-se junto à água, sobre a vegetação, a menos de 1m do solo.

 

Uma das áreas visitadas no entorno foi a estrada de acesso ao PNI, onde se pôde confirmar a atividade reprodutiva do sapo-curum Bufo aff paracnemis, da perereca-pequena Hyla minuta e da perereca-de-pontos-brancos Hyla albopunctata. O sapo é de grande porte (de 180 a 210mm) e é semelhante em aparência e vocalização ao sapo Bufo ictericus, com o qual é muitas vezes confundido. Alimenta-se principalmente de insetos e pequenos vertebrados.

 

Com relação aos répteis, no PIC do Céu Azul, no represamento dentro de um capoeirão, foi observada uma caninana Spilotes pullatus. Já no Ponto 21, do Sítio 10, foi observado o cágado Phrynops williansi, no rio Floriano, próximo à foz, e no rio Iguaçu, próximo à estrada do Colono.

 

A caninana tem ampla distribuição, ocorrendo desde o sul do México à Argentina. No Brasil aparece associada a diversos ambientes com diferentes características fitofisionômicas, desde formações florestais densas até formações abertas, como a Caatinga e o Cerrado. No PNI foi encontrada associada às matas de galeria da Floresta Estacional. Já o cágado citado foi recentemente descrito e pouco se sabe da sua biologia. Modificações na sua mandíbula indicam que pode esmagar moluscos. Distribui-se no sul do Brasil e Uruguai.

 

Na revisão bibliográfica feita, apenas três referências citam o PNI no que se refere a anfíbios. Bertha Lutz (Lutz, 1973) cita o sapo-ferreiro HyIa faber, que é uma perereca, a perereca-anã HyIa nana, as pererecas Phrynohyas venulosa, Scinax berthae e Scinax fuscovarius; Heyer (1979) cita a rã-pimenta Leptodactylus Iabirinthicus e Heyer (1994) cita a ranzinha Leptodactylus podicipinus.

 

O sapo-ferreiro é uma das maiores espécies de perereca Hylidae. Os adultos são predadores muito diversificados, que consomem artrópodes e até anfíbios de menor porte. Trata-se de uma espécie muito comum ao longo de sua distribuição. Ocorre tanto em áreas alteradas, quanto em preservadas, desde que exista vegetação arbustiva ou arbórea próxima aos sítios de reprodução (poças temporárias ou permanentes). Os machos constróem "panelas" rasas na beira dos charcos, onde são depositadas as desovas e os girinos completam as primeiras fases do desenvolvimento.

 

A perereca P. venulosa tem porte médio (de 40 a 60mm) e apresenta como principais características duplo saco vocal e a liberação de abundante secreção cutânea, quando ameaçada por predadores. Tal secreção é irritante para narinas e olhos humanos. Lutz (1973) faz o seguinte comentário: "no Parque Nacional Brasileiro, nas Cataratas do Iguaçu, no Poço Preto, na divisa com a Argentina, onde a água inunda a floresta em um metro de profundidade, três enormes machos são extremamente grandes e apresentam membros muito ornados".

 

A rã-pimenta é de grande porte (185mm ou mais) e alimenta-se de serpentes, pequenos anfíbios (inclusive venenosos, como Bufo sp.) e aves. As secreções são muito ativas e variadas, irritantes para narinas e olhos humanos, daí o seu nome comum. Está sempre associada à água. Distribui-se da Argentina (Missiones), Bolívia, Brasil, Paraguai à Venezuela.

 

Já a ranzinha L. podicipinus tem tamanho médio, habitando tipicamente áreas abertas. Em geral está associada a banhados com vegetação flutuante, na bacia do rio Paraná, podendo ser dispersada, quando há enchentes. Deposita sua desova em ninho de espuma em solo encharcado, na beira dos banhados, onde habita. Sua provável distribuição no PNI seria nas áreas mais baixas.

 

Diversos trabalhos realizados na província de Missiones, Argentina, alguns inclusive no Parque Nacional del Iguazú, serviram para aumentar a lista de espécies com provável ocorrência para o PNI. Os estudos ambientais realizados para a construção da usina de Salto Caxias, dado à sua proximidade com o PNI, também contribuíram para o presente trabalho.

 

O sapinho-preto-de-barriga-vermelha Melanophryniscus tumifrons distribui-se no sul do Brasil e província de Missiones, na Argentina, principalmente em áreas de floresta de araucária. É de pequeno porte (de 15 a 25mm) e hábitos fossoriais. Exemplares da espécie foram encontrados no resgate de fauna da UHE de Salto Caxias, no rio Iguaçu. Assim, espera-se sua ocorrência para o PNI.

 

A única espécie exótica de anfíbio considerada, a rã-touro Rana catesbeiana, foi citada para a localidade de Três Barras (Segalla, 1993), distante cerca de 40km do PNI. A criação de R. catesbeiana em condições inadequadas de instalação pode causar a fuga de exemplares adultos e girinos, que posteriormente estabelecerão populações com grande sucesso reprodutivo e capacidade de expansão graças à ausência de predadores naturais.

 

Os machos de tal espécie medem, aproximadamente, 180mm e as fêmeas 200mm, sendo que os girinos podem alcançar de 152 a 178mm. São aquáticos e requerem uma fonte permanente de água, preferencialmente com vegetação. Apresentam comportamento predatório voraz, atacam qualquer animal que se aproxime, inclusive da própria espécie. No seu habitat natural, na América do Norte, é a espécie dominante em habitats aquáticos permanentes (Bury & Whelan, 1984). Tal espécie apresenta ameaças para o Parque.

 

Ainda, entre as pererecas da família Hylidae, tem-se a perereca-pequena Hyla minuta. É uma perereca de pequeno tamanho, extremamente comum e associada a áreas abertas, estejam esas alteradas ou preservadas. De ampla distribuição na América do Sul cisandina. A perereca Hyla sanborni é de tamanho muito pequeno (de 10 a 15mm) e muito semelhante de Hyla nana, que parece substitui-la nas regiões mais frias. Espera-se a ocorrência dessa espécie em áreas abertas de maior altitude no PNI.

 

Uma última Hylidae, que ocorreria no PNI, seria a rã-macaco Phyllomedusa tetraploidea, de áreas florestadas ou abertas, desde que exista vegetação arbórea ou arbustiva próxima das poças, onde ocorre o desenvolvimento da fase larvária. As espécies do gênero reproduzem-se em poças temporárias ou permanentes, depositando suas desovas em ninhos construídos nas folhas de galhos suspensos sobre a água. No momento do nascimento, os girinos caem na água, onde completam o desenvolvimento.

 

Na família Leptodactylidae, pode-se citar outras duas espécies de rãs. A rã-chorona Physalaemus gracilis que, embora superficialmente semelhante à P. cuvieri, pode ser diferenciada facilmente dessa espécie através da vocalização. Os hábitos reprodutivos são semelhantes aos de P. cuvieri. Espera-se sua ocorrência para as áreas mais altas do PNI. A segunda espécie, a ranzinha Proceratophrys avelinoi, é típica de áreas florestadas, onde habita na serapilheira, apresentando hábitos fossoriais. As desovas e girinos desenvolvem-se em poças na floresta ou em áreas abertas.

 

Da família das pererecas Microhylidae, é possível a ocorrência de, pelo menos, uma representante. Trata-se da ranzinha-de-barriga-amarela Elachistocleis ovalis. É uma espécie de pequeno sapo fossorial, encontrado tanto em áreas florestadas, quanto abertas. A espécie reproduz-se em poças temporárias, e os girinos apresentam a peculiaridade de se alimentar filtrando partículas na água, diferentemente dos das outras espécies encontradas, que são raspadores de matérias vegetais. Exemplares da espécie foram encontrados nos estudos ambientais da UHE de Salto Caxias, no rio Iguaçu, próximo ao PNI.

 

Entre as cecílias, anfíbios sem patas (Ordem Gymnophiona), tem-se, na família Caecilidae, a cecília ou cobra-cega Siphonops sp. Esse é o gênero de maior probabilidade de ocorrência na área do PNI. A sistemática das cecílias sul-americanas permanece confusa, e muitas espécies ainda devem ser descritas, motivo pelo qual não foi feita uma atribuição específica. São anfíbios ápodos (sem patas), de corpo serpentiforme e hábitos fossoriais. São típicos de ambientes florestais, onde habitam na serapilheira úmida.

 

Com relação aos répteis, a listagem de espécies para a composição do Anexo 22 foi cedida por Sérgio Augusto Abraão Morato (Pesquisador Associado) e Júlio César de Moura-Leite (Curador da coleção herpetológica), ambos do Museu de História Natural do Capão da Imbuia.

 

Da ordem Crocodilia, família Alligatoridae, o jacaré-de-papo-amarelo Caiman latirostris distribui-se no sul e sudeste do Brasil, norte da Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai. É encontrado associado aos afluentes do rio Iguaçu, preferindo rios com correnteza fraca, remansos e lagoas, sempre próximos a floresta densa. Sua alimentação é especializada em moluscos, mas também outros invertebrados e vertebrados pequenos (peixes, anfíbios e aves). É importante no controle de moluscos, sobretudo em espécies vetores de parasitas, como os encontrados no gado. Na área do Parque, a Equipe de Planejamento observou um jacaré, na maior das lagoas da ilha do Cavalo, devendo ser esse o jacaré-de-papo-amarelo Caiman latirostris e vários indivíduos do teiú Tupinambis merianae em outras áreas (Cataratas).

 

Na classificação da IUCN última revisão, o C. latirostris foi considerado espécie ameaçada de baixo risco, pois com a diminuição da caça nas duas últimas décadas e a dificuldade em encontrá-los, as populações provavelmente voltaram a crescer. Porém, existem ainda ameaças piores para a espécie, como a destruição do habitat por desmatamentos, projetos hidroelétricos, como Salto Caxias, no rio Iguaçu, a poucos quilômetros do PNI, e a poluição vinda dos centros urbanos pelos rios.

 

Da família dos Teiidae, o teiú (ou tiú) Tupinambis merianae ocorre em todo o Brasil (exceto na Floresta Amazônica), na Argentina, no Paraguai e no Uruguai. Trata-se de lagarto de grandes proporções, podendo alcançar 1000mm de comprimento em machos adultos. De alimentação variada, sua dieta inclui invertebrados, pequenos vertebrados, vegetais, ovos e animais em decomposição. Ocorre, principalmente, na borda de florestas e em áreas abertas, sendo comum em locais antropizados, onde procura resto de alimentos.

 

Ainda quanto aos répteis, além do que já foi citado, pode-se esperar o que se segue, como provável ocorrência para o PNI. Foram identificadas 41 espécies de serpentes, oito de lagartos, quatro de anfisbenas, três de quelônios e uma de jacaré, divididas em três ordens e quinze famílias, sendo que dessas duas foram registradas durante a AER, 39 são consideradas de ocorrência certa, oito de ocorrência provável e oito de ocorrência incerta.

 

Na área do PNI, as espécies de répteis ocupam basicamente quatro ambientes:

ambientes lacustres e palustres - doze espécies devem aí ocorrer, dentro do Parque, sendo as principais: o cágado-pescoço-de-cobra Hydromedusa tectifera, o jacaré-de-papo-amarelo Caiman latirostris, as cobras-d'água Helicops infrataeniatus e Liophis miliaris, a jararacuçu-do-brejo Mastigodryas bifossatus e a cobra-espada Thamnodynastes strigatus;

 

rios e ambientes ripários - dezessete espécies devem ocorrer nesses ambientes dentro do Parque, sendo as principais: o cágado-pescoço-de-cobra Hydromedusa tectifera, o cágado Phrynops williamsi, o jacaré-do-papo-amarelo Caiman latirostris, o calango Tropidurus torquatus, a jararaca Bothrops moojeni, a cobra-lisa Liophis poecylogyrus e a cobra-espada Tomodon dorsatus;.

 

ambientes florestais - 34 espécies devem ocorrer em áreas de floresta dentro do Parque, sendo as principais: as cobras-cegas Amphisbaena prunicolor e Leposternon microcephalum, as cobras-cipó Chironius bicarinatus, Chironius exoletus e Leptophis ahaetulla, as muçuranas Clelia plumbea e a Pseudoboa haasi, a dormideira Dipsas indica, a Echinanthera cyanopleura, a caninana Spilotes pullatus, a coral-verdadeira Micrurus corallinus, a coral-falsa Eythrolamprus aesculapii, a jararacuçu Bothrops jararacussu e a jararaca-pintada Bothrops neuwiedi e

 

ambientes abertos primários do PNI ou alterados de entorno - 28 espécies devem ocorrer em ambientes abertos dentro do Parque e no entorno, sendo as principais: a coral-falsa Oxyrhopus guibei, a cobra-verde Phylodryas aestivus, as dormideiras Sibynomorphus mikanii e Sibynomorphus ventrimaculatus, a jararaca Bothrops jararaca e a cascavel Crotalus durissus.

 

Foram consideradas quatro espécies como indicadoras por terem distribuição restrita a ambiente florestal de grande extensão, sendo elas: a cobra-cipó Chironius exoletus, a muçurana Cleila plumbea, a dormideira Imantodes cenchoa e a caninana Spilotes pullatus.

 

Apenas três espécies foram consideradas como ameaçadas; o jacaré-de-papo-amarelo Caiman Iatirostris, a muçurana Clelia plumbea e a dormideira Imantodes cenchoa.

 

A lagartixa-de-parede Hemidactylus mabouia foi a única espécie exótica de répteis constatada para o PNI.

 

Entre os citados e ainda não comentados anteriormente, tem-se na ordem dos Testudines, da família dos Chelidae, o cágado-pescoço-de-cobra Hydromedusa tectifera. Ocorre do Estado de São Paulo até o Rio Grande do Sul, no Brasil, e na Argentina, Paraguai e Uruguai. Tal espécie vive em lagoas e rios de pouca correnteza, tendo preferência por ambientes com vegetação aquática. Nas épocas mais frias, pode hibernar, enterrando-se em fundo lodoso. É carnívora e come caracóis, insetos aquáticos, peixes e anfíbios.

 

O calango Tropidurus torquatus, (ordem Squamata, subordem Sauria, família Tropiduridae) ocorre em todo o Brasil (exceto na região amazônica), Argentina; no Paraguai e Uruguai. Encontrado principalmente nas áreas abertas naturais e alteradas, tem hábitos diurnos e heliófilos. No PNI pode ser encontrado nas encostas rochosas ao redor das Cataratas. A dieta básica inclui uma grande variedade de artrópodes.

 

Da família dos Scincidae, tem-se a lagartixa Mabuya frenata, que ocorre no centro e na parte sul do Brasil, na Bolívia, no Paraguai e na Argentina. Vive junto ao solo, ocasionalmente subindo em árvores. De hábitos heliófilos, procura áreas abertas no interior da floresta. Alimenta-se principalmente de invertebrados.

 

Na família Anguidae, ocorre a cobra-de-vidro Ophiodes striatus. Lagarto com os membros posteriores atrofiados e anteriores ausentes, mede de 200 a 350mm de comprimento e possui hábitos fossoriais. Vive em áreas úmidas na serapilheira, principalmente em áreas que são periodicamente alagadas. Alimenta-se de pequenos invertebrados. Ocorre em quase todo o Brasil, Argentina e Uruguai.

 

Entre os Gekkonidae tem-se a lagartixa-de-parede Hemidactylus mabouia. Espécie provavelmente introduzida na América Latina através de navios negreiros, ocorre na África, Madagascar, México, Caribe e América do Sul, sendo que no Brasil é encontrada em todas as regiões. É bastante comum em casas, estando sempre associada a ambientes antrópicos. De hábitos predominantemente noturnos, alimenta-se de pequenos invertebrados.

 

Na família dos Gymnophthalmidae, tem-se a lagartixa Pantodactylus schreibersii De tamanho pequeno (60 a 100mm), ocorre no sul e sudeste do Brasil, na Argentina, no Paraguai, no Uruguai, na Bolívia e no Peru. Predominante em áreas abertas, vive no meio da serapilheira e em vegetação baixa, junto à floresta.

 

Na subordem Amphisbaenia, família Amphisbaenidae, ocorre a cobra-cega Amphisbaena sp. Réptil ápodo, as anfisbenas possuem hábitos fossoriais, são cavadoras, os olhos são cobertos por uma membrana e não possuem pálpebras. Vivem em solos argilosos e úmidos, alimentando-se de larvas de lepidópteros, cupins, formigas e outros invertebrados.

 

Na subordem Serpentes, família Anomalepididae, tem-se outra cobra-cega, a Liotyphlops beui. Espécie registrada desde os Estados do Espírito Santo e de Mato Grosso até o Estado do Rio Grande do Sul e sul do Paraguai. No PNI, é encontrada em todos os tipos vegetacionais florestados.

 

Entre os Colubridae, tem-se a cobra-cipó Chironius bicarinatus. Espécie distribuída desde o Estado da Bahia até o nordeste e leste da Argentina e Uruguai. No PNI, ocorre em todos os tipos de ambientes, tanto florestais quanto abertos.

 

Outra cobra-cipó da mesma família, que pode ser encontrada no PNI, é a Chironius exoletus. De ampla distribuição, ocorre desde a América Central até regiões amazônicas do Equador, da Colômbia, do Peru, da Bolívia e do Brasil. Ocorre também na região atlântica, desde o nordeste do Brasil até o Estado de Santa Catarina, estendendo-se a oeste até a província de Missiones, na Argentina. É encontrada associada às matas de galeria da Floresta Estacional.

 

Tem-se, ainda, a muçurana Cleila clelia. A esse taxon de cobra correspondem os exemplares associados a Cleila clelia plumbea. Trata-se de uma espécie de ampla distribuição, ocorrendo desde a América Central até o extremo nordeste do Rio Grande do Sul. No PNI, encontra-se associada às matas de galeria das formações de Floresta Estacional.

 

com relação à dormideira Dipsas indica, na área de estudo, ocorreria a cobra D. indica bucephala, distribuída pelo sudeste do Brasil e pela província de Missiones, na Argentina, e associada às matas de galeria constituídas pela Floresta Estacional das bacias dos rios Paraná e Uruguai.

 

Outra cobra que ocorre no PNI é a Echinanthera cyanopleura. É espécie conhecida desde o centro do Espírito Santo e sudeste de Minas Gerais até o sudeste do Rio Grande do Sul. No PNI ocorre em toda a área compreendida pela Floresta de Araucária.

 

A coral-falsa Erythrolamprus aesculapii é espécie distribuída desde a região central dos Estados de Mato Grosso e Goiás até a Bahia e extremo nordeste de Santa Catarina, Paraguai e província de Missiones, na Argentina. Pode ser encontrada em áreas compreendidas pela Floresta Estacional no PNI.

 

A cobra-d'água Helicops infrataeniatus tem sido encontrada em ambientes aquáticos lênticos, principalmente banhados, associados a formações campestres. Todas as espécies desse gênero caracterizam-se por apresentar hábitos aquáticos.

 

Outra cobra-d'água de ocorrência no PNI é a Liophis miliaris. Espécie de ampla distribuição, ocorre das Guianas e oeste da Amazônia até o centro da Argentina. No PNI, encontra-se amplamente distribuída por todos os tipos de ambientes.

 

Espécie de ampla distribuição, a cobra-lisa Liophis poecilogyrus ocorre desde o oeste da Guiana e sudeste da Venezuela até a Bolívia, nordeste e sul do Brasil, Uruguai e sul da Argentina. Na área de estudo, aparece associada às matas ciliares constituídas pela Floresta Estacional.

 

A jararacuçu-do-brejo Mastigodryas bifossatus distribui-se desde a Venezuela e Colômbia até a Bolívia, Paraguai, nordeste da Argentina e sul do Brasil, atingindo até o Uruguai, habitando o interior de formações florestadas como ambientes de sua ocorrência no Pantanal e em regiões amazônicas, respectivamente. Tem provável ocorrência no PNI.

 

A falsa-coral Oxyrhopus guibei pode ser encontrada desde o Brasil Central até a Bolívia, Paraguai e até o noroeste do Estado do Paraná. Aparece também em áreas compreendidas pela Floresta Estacional, ocorrendo principalmente em áreas alteradas por ação antrópica (Sazima & Abe, 1991 e Sazima & Haddad, 1992).

 

A cobra-verde Philodryas aestivus distribui-se desde a Bolívia e Paraguai até o Uruguai e centro-leste da Argentina e, no Brasil, desde o Estado de Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, ocorrendo em todos os tipos vegetacionais. Já a cobra-verde Philodryas olfersii ocorre desde o nordeste do Brasil até as Guianas, Colômbia e Venezuela, e desde o leste do Peru até Bolívia, Paraguai, norte da Argentina e Uruguai. No PNI, ocorre associada às matas de galeria compreendidas pela Floresta Estacional, sendo inclusive encontrada em áreas alteradas por ação antrópica (Sazíma & Haddad, 1992).

 

Outra espécie de muçurana do PNI é a Pseudoboa haasi. Espécie distribuída desde as áreas altas do Planalto no Rio Grande do Sul até o Estado do Rio de Janeiro; ocorre em toda a área compreendida pela Floresta de Araucária, desde a província de Missiones, na Argentina, até as vertentes orientais da Serra do Mar, em área de Floresta Atlântica.

 

Duas outras dormideiras ocorreriam no PNI. A Sibynomorphus mikanii distribui-se do Maranhão, no Brasil, até o Paraguai e Província de Missiones Argentina. Na área de estudo, ocorre na região da Floresta Estacional. A Sibynomorphus ventrimaculatus distribui-se desde a região central do Mato Grosso do Sul, no Brasil, até o centro da Argentina, a oeste do rio Paraná, e ao sul do rio Paranapanema, desde a região central do Paraná até o Uruguai. Na área de estudo, aparece associada às áreas abertas.

 

Já a cobra-espada Thamnodynastes strigatus ocorre na Floresta de Araucária e na Floresta Estacional dentro do PNI. Outra espécie de cobra-espada, a Tomodon dorsatus, distribui-se desde o Rio de Janeiro até o Rio Grande do Sul, Paraguai e Noroeste da Argentina e, no PNI, ocorre em todos os ambientes florestados.

 

Em relação ao primeiro Plano de Manejo do PNI (IBDF/FBCN, 1981), são citadas as seguintes espécies de serpentes: cascavel Crotalus durissus, coral-verdadeira Micrurus corallinus, jararacuçu Bothrops jararacussu, jararaca Bothrops jararaca e cotiara Bothrops cotiara que, provavelmente, foi identificada erroneamente no lugar de jararaca-pintada Bothrops neuwiedi.

 

A coral-verdadeira tem sua distribuição na Mata Atlântica, do litoral da Bahia ao nordeste do Rio Grande do Sul, ocorrendo, ainda, no nordeste da Argentina e no Paraguai. No PNI está associada às matas ciliares, constituídas pela Floresta Estacional dos afluentes das bacias dos rios Paraná e Uruguai.

 

A jararacuçu ocorre do Rio de Janeiro ao nordeste do Rio Grande do Sul, nordeste da Argentina, sudeste da Bolívia e leste do Paraguai. No PNI também está associada às matas ciliares da Floresta Estacional, nos vales dos afluentes dos rios Paraná e Uruguai. A jararaca, por sua vez, ocorre do sul da Bahia ao norte do Rio Grande do Sul, oeste de Mato Grosso do Sul, sul do Paraguai e nordeste da Argentina, ocorrendo em todos os tipos de ambientes.

 

A jararaca-pintada possui diversas subespécies. No PNI ocorreria na forma de B. n. diporus, e estaria relacionada às áreas revestidas pela Floresta Estacional das bacias dos rios Paraná e Uruguai, junto às matas ciliares de seus afluentes. A cascavel ocorre da América Central às formações abertas da América do Sul, desde a Colômbia, Venezuela e Guianas, norte e nordeste do Brasil até a Bolívia, Uruguai e centro da Argentina. No PNI ocorre associada às formações abertas.

 

Nos Anexos 21 e 22 estão listadas as espécies de anfíbios e répteis, respectivamente, para o PNI.

 

6.3.3.4. Ictiofauna

 

Os rios que percorrem o PNI pertencem à bacia hidrográfica do rio Iguaçu, sendo afluentes da sua margem direita. À exceção do rio São João, o qual forma os limites do Parque em seu extremo oeste, todos os outros tributários deságuam no rio Iguaçu, a montante das Cataratas. Segundo Severi & Cordeiro (1994) e Garavello et alii (1997), as cataratas do Iguaçu são responsáveis pelo isolamento geográfico da fauna ictíica do Iguaçu com relação à do rio Paraná.

 

Tal isolamento ocorrido durante o Terciário, aliado a outros fatores ambientais e geológicos ainda não devidamente esclarecidos, teria propiciado uma notável peculiaridade da fauna ictíica do Iguaçu. Alguns grupos muito bem representados na bacia do Paraná como um todo, como é o caso das famílias Anostonidae (piavas), Serrasalmidae (piranhas) e Prochilodontidae (curimbatás), são ausentes nos rios da bacia do Iguaçu. A ausência de espécies migradoras e de grande porte, abundantes no rio Paraná, tais como curimbatá Prochilodus scrofa, pintado Pseudoplatystoma coruscans e dourado Salminus maxillosus, é também uma característica própria do Iguaçu.

 

Contudo, mais do que a ausência dos grupos acima citados, a existência de um grande número de espécies endêmicas de peixes no rio Iguaçu caracteriza essa bacia. Autores como Severi & Cordeiro (1994) e Garavello et alii (1997) têm atentado para esse fato, relacionando não só espécies como também gêneros exclusivos dessa região. Desses mesmos trabalhos pode-se deduzir que pelo menos a metade das espécies relacionadas para a bacia seja endêmica, sendo as restantes comuns às bacias adjacentes ou amplamente distribuídas na Região Neotropical.

 

Não há estudos específicos visando investigar o status de conservação das espécies de peixes da bacia do Iguaçu. Contudo, pode-se inferir que muitas espécies estejam em franco processo de declínio populacional, em função das drásticas alterações ambientais promovidas na bacia pela implementação de projetos hidrelétricos.

 

Praticamente todo o curso do rio Iguaçu, a montante do PNI até o Município de União da Vitória, originalmente rico em saltos e corredeiras, encontra-se descaracterizado em função dos represamentos, fato que representa uma significativa redução de ambientes não só ao longo do rio como também em seus tributários. Tal situação criou também condições para que fossem realizadas ações de povoamento dos reservatórios com espécies não-nativas, um perigo para a assembléia de peixes autóctones.

 

Assim, a situação apresentada reforça a importância do PNI como mantenedor de significativa área remanescente e representativa dos ambientes aquáticos e da fauna ictíica original do rio Iguaçu.

 

O PNI comporta corpos d’água singulares, tais como lagoas situadas no interior da floresta, áreas baixas marginais ao rio Iguaçu, que recebem suas águas durante eventos de cheia, e o rio Floriano, cuja bacia hidrográfica provavelmente seja a única a estar quase que totalmente protegida por formações florestais na bacia do rio Iguaçu. Nenhum desses ambientes foi ainda investigado quanto à composição taxonômica ou aspectos de ecologia da fauna de peixes.

 

Não existiam, até o momento, informações a respeito da fauna ictíica do PNI. Trabalhos de descrição de espécies foram produzidos na primeira metade desse século por Ellis (1911), Haseman (1911a, b, c), Gosline (1947), Eigenmann (1911, 1921 e 1927), com material procedente de rios dessa bacia. Informações mais recentes, ainda não publicadas, tratam de levantamentos realizados em áreas a montante do Parque, produzidas durante estudos de impacto ambiental e programas ambientais relacionados às UHE instaladas na Bacia.

 

A investigação da riqueza de espécies no rio Iguaçu e afluentes, particularmente na área do Parque, é dificultada pela precariedade dos estudos taxonômicos em alguns grupos, como é o caso dos gêneros Astyanax, os lambaris, e Trichomycterus, os candirus. Contudo, a partir dos levantamentos citados e dos trabalhos de Severi & Cordeiro (1994), que revisam as citações feitas para a bacia do Iguaçu, e Garavello et alii (1997), que disponibilizam uma lista de espécies coletadas na região da UHE de Segredo, pode-se presumir que não menos do que cinqüenta espécies ocorram no PNI, havendo ainda a possibilidade da ocorrência de espécies só registradas até o momento nas cabeceiras do Iguaçu.

 

Das 69 espécies citadas por esses autores, quatro são exóticas, dezesseis comuns a outras regiões brasileiras e 39 têm distribuição conhecida apenas para a bacia do Iguaçu, muitas já reconhecidas como endêmicas desse sistema.

 

Espécies da família Trichomycteridae freqüentemente habitam pequenos cursos d’água de regiões de cabeceira e, por tal motivo, podem estar mais sujeitas a fenômenos de especiação localizados. É provável que as espécies do gênero Trichomycterus citadas aqui tenham distribuição restrita dentro da bacia do rio Iguaçu e que haja outras formas ainda por serem descritas para os tributários situados no PNI.

 

Finalmente, é importante ressaltar que algumas espécies exóticas como o bagre-africano Clarias gariepinus, cuja presença na região já foi detectada por vários moradores, também não se encontram citadas para o PNI (Anexo 23).

 

Algumas espécies como Astyanax sp. A. H. maxillaris, H. melanura, H. taurocephalus, G. melanopleura, M. microlepis, R. morerai, T. davisi, C. carnegiei, P. maculatus e S. marmoratus foram até o momento registradas apenas no trecho superior do rio Iguaçu, sendo pouco provável a sua presença no PNI.

 

Os trabalhos de ictiofauna também foram feitos dentro da AER no PNI, o que exigiu algumas adaptações, quanto aos métodos utilizados para as espécies ictíicas (Grando Jr., 1998). As fases de campo não permitiram a permanência em cada ponto de amostragem por mais de oito horas. A impossibilidade de retorno a tais pontos em dias subseqüentes também representou uma limitação, já que a exposição de redes durante a noite e revisão dessas pela manhã aumentam em muito o número de espécies registradas durante os levantamentos. Isso é particularmente perceptível entre os Siluriforme, os bagres e cascudos, os quais são ativos principalmente no período noturno.

 

Os dados de campo para avaliação da fauna de peixes do PNI foram obtidos através das coletas diurnas realizadas em rios e áreas alagadiças. Foram investigados dois afluentes da margem esquerda do rio São João, rio São João, rio do Índio, rio Represa Grande, rio Benjamim Constant, rio Pinheirinho, rio Quilômetro Oito, área alagadiça na margem do rio Iguaçu, rio Floriano (abaixo do último salto), afluente da margem esquerda do rio Floriano, afluente da margem direita do rio Floriano em seu curso médio e rio Floriano em seu curso médio.

 

É importante atentar para a condição verificada no rio Quilômetro Oito, no ponto em que esse cruza a Estrada do Colono. Durante situação de chuva intensa, ocorre o carreamento dos solos expostos para o estabelecimento da estrada, de modo que, a poucos metros à montante, o rio permaneceu como um rio de águas claras, enquanto no mesmo momento o trecho à jusante tomou as características de rios de águas escuras. Tal impacto tem vários efeitos sobre o desenvolvimento da biota aquática.

 

A análise do material ictiológico proveniente do PNI permitiu o registro de dezoito espécies, relacionadas para cada ponto amostral no Anexo 23.

 

A listagem da ictiofauna obtida representa, certamente, apenas uma parcela das espécies componentes da assembléia de peixes do Parque. Como não houve coleta noturna, há uma subestimativa do número de espécies, especialmente dos bagres e cascudos Siluriformes. Entrevistas com moradores locais e pescadores indicaram a presença de outras espécies que não foram encontradas durante os trabalhos de campo da AER.

 

Conforme esperado, não foram registradas espécies de grande porte, valor comercial ou migratórias. Entre as registradas destacam-se o bagre Pariolius sp. e o cascudinho Microlepidogaster sp., ambos encontrados apenas nos rios Quilômetro Oito e Floriano, além de Trichomycterus sp., registrado em um dos afluentes do rio São João. Tais formas provavelmente representam espécies ainda não descritas para a bacia do rio Iguaçu.

 

Percebe-se, no caso do PNI, que os rios que apresentam maior riqueza de espécies não foram aqueles de maior dimensão ou de maior ordem, mas sim os rios de águas claras, os quais devem representar a situação original da maioria dos rios da região.

 

O córrego Quilômetro Oito foi o que apresentou maior riqueza de espécies, seguido de um dos afluentes do rio São João e o rio Floriano. A área alagada na margem do rio Iguaçu também mostrou-se relativamente rica, com cinco espécies. No último caso, a riqueza pode ser explicada pelo aporte de espécies, principalmente de indivíduos jovens, provenientes do rio Iguaçu durante as cheias e que permanecem no local.

 

Algumas espécies foram encontradas somente no rio Floriano, sendo elas: o lambari Bryconamericus sp. e o canivete Characidium sp., freqüentemente associados a corredeiras, e o saicanga Oligosarcus longirostris, espécie piscívora. O Floriano, por suas características de conservação e porte, deverá ser o de maior riqueza de espécies no PNI, merecendo investigações mais aprofundadas.

 

6.3.3.5. Entomofauna

 

O PNI tem cobertura vegetal classificada, basicamente, como sendo do tipo Floresta Estacional Semidecídua e Floresta Ombrófila Mista, o que significa que a sua entomofauna, por conseqüência, é muito semelhante dentro de toda sua área de abrangência, ou seja, semelhante ao menos à entomofauna do Estado de São Paulo e a do norte da Argentina, na província de Missiones, suas áreas adjacentes.

 

Praticamente não existem levantamentos faunísticos específicos e completos dentro da área do PNI, nem mesmo para a parte oeste do Estado do Paraná. O Plano de Manejo do Parque Nacional do Iguaçu (IBDF/FBCN, 1981) não menciona insetos. O único documento abrangente, ao menos no título e não-publicado (Côrtes et alii, [1991]), não nos fornece subsídios julgados suficientes, uma vez que todo o estudo ou inventário está baseado na coleta em quatorze subestações localizadas na margem esquerda da extremidade do reservatório da UHE Itaipu com um total de 906 exemplares de insetos coletados, pertencentes a nove ordens e 63 famílias, dos quais foram identificados setenta gêneros e 85 espécies. Esses números estão obviamente muito aquém do real, consequentemente insuficientes para qualquer avaliação ecológica em termos entomológicos.

 

Mielke (1968) publicou uma lista contendo 106 espécies de Hesperiidae (Lepidoptera) como ocorrendo no Parque. Consolim et alii ([1995]) publicaram uma lista de Diptera - Culicidae do lago de Itaipu, próximo do PNI, em que listam a existência de 66 espécies, distribuídas em quatorze gêneros. Outros trabalhos sobre a entomofauna do Paraná só abordam aspectos sistemáticos sobre os Coleoptera da família Elateridae (Miyasaki, 1985), de composições taxonômicas das diversas ordens de insetos (Marinoni & Dutra, 1993), das famílias de Coleoptera, sem falar de espécies (Marinoni & Dutra 1998), e de Lepidoptera das famílias Ctenuchidae (Marinoni & Dutra, 1996) e Saturniidae (Marinoni et alii, 1997) da parte centro-leste do Estado.

 

Todas as informações sobre o oeste do Estado do Paraná estão diluídas em provavelmente mais de quinhentas publicações dispersas pelo mundo. Lamas et alii (1995) publicaram uma lista de todas as referências sobre Lepidoptera neotropical, o que totaliza mais de 10.000 espécies.

 

Para uma AER no campo da entomologia, no entanto, as espécies da ordem Lepidoptera, isto é, as borboletas e mariposas, são os insetos mais utilizados como indicadores em levantamentos, determinação de prioridades, planejamento e administração de reservas naturais, pois são fáceis de se encontrar e avaliar (Brown Jr., 1992), razão dessa avaliação só estar baseada praticamente nesses insetos (Mielke, 1998).

 

I. Caracterização da Lepidopterofauna

 

Os resultados do levantamento lepidopterológico realizado durante os trabalhos de campo estão no Anexo 24, onde também estão incluídos os dados secundários sobre outras espécies. Os comentários feitos a seguir baseiam-se principalmente nesses resultados, que não podem ser considerados como conclusivos. Para um levantamento completo, seriam necessárias muitas visitas ao Parque durante alguns anos, em todas as estações do ano, nos mais diferentes ambientes e nos mais diferentes horários, justamente para verificar a presença de todas as espécies. O período melhor para identificar os lepidópteros seria entre dezembro e março, quando a maioria das espécies está na fase de adulto, enquanto que no período entre o fim do outono e o início da primavera, as populações são muito pequenas ou inexistentes. Nesse período os lepidópteros encontram-se em fase de larva ou pupa.

II. Riqueza de Espécies

 

Em todo o mundo são conhecidas 146.277 espécies de Lepidoptera, mas o número estimado é de 255.000. São conhecidas 46.313 espécies para a região neotropical, mas espera-se 90.000. Logo, faltam 43.687 espécies a serem descritas (Heppner, 1991), números esses certamente inexatos, porque não existem revisões sistemáticas de todos os grupos, e a cada ano muitas espécies são descritas, mas também outras são consideradas sinônimas, principalmente nas regiões oriental e neotropical. Brown Jr. (1996) diz que no Brasil há 25.016 espécies de Lepidoptera, destas, 3.601 são borboletas e as demais mariposas, mas estima que haja um total de 40.000 espécies.

 

Nesse levantamento foram identificadas 257 espécies de borboletas e sete espécies de mariposas (Sphingidae e Saturniidae), em um total de 264 espécies. Comparando-se tal número com o trabalho de Mielke & Casagrande (1998) sobre a riqueza de borboletas do Parque Estadual do Morro do Diabo, Teodoro Sampaio, Estado de São Paulo, inserido na mesma formação fitogeográfica do PNI, e onde são mencionadas 426 espécies, já se verifica um número bem maior.

 

Tal número está também aquém do esperado se comparado com a riqueza de outras localidades bem trabalhadas do sul do Brasil, como Serra do Japi (Jundiaí, São Paulo), com 662 espécies (Brown Jr., Departamento de Zoologia da Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, 1992); Campinas (São Paulo), com 618 espécies (Brown Jr., 1998, com. pess.); Santos (São Paulo), com 502 espécies (Brown Jr., 1998, com. pess.); Curitiba (Paraná), com 541 espécies (Mielke, 1995), e Joinville (Santa Catarina), com 753 espécies (C. Mielke, Universidade Federal do Paraná, 1998, com. pess.).

 

No entanto Hugo Chaves (1995, com. pess.), da Delegação Técnica Regional do Nordeste Argentino (DTRNEA), registrou para a província argentina de Missiones, adjacente ao PNI, o número de 790 espécies de borboletas, enquanto Hayward (1973) diz ter 827 na mesma província. Dessa forma, considerar um número de setecentas espécies para todo o Parque parece bastante razoável, pois tem que ser observado também que a província de Missiones é bem maior e possui grandes áreas de campos naturais com uma fauna toda peculiar.

 

III. Lepidópteros Ameaçados de Extinção no Estado do Paraná, que ocorrem no Parque Nacional do Iguaçu (Casagrande & Mielke, 1992 e Casagrande & Mielke, 1995)

 

Narope cyllarus (Papilionoidea, Nymphalidae, Brassolinae). O único exemplar visto em fevereiro de 1968 foi na casa onde mora o atual Chefe do Parque. Infelizmente não foi possível capturá-lo para ter o documento. É uma espécie crepuscular muito rara, talvez por se desconhecer os seus hábitos. Ocorre ainda no Estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina.

 

Alesa prema (Papilionoidea, Riodinidae, Riodininae). O único exemplar conhecido do oeste do Paraná foi coletado em janeiro de 1980 na casa do Sr. Dirceu Lopes, então médico aposentado do Parque, a uns 4km à esquerda da entrada do mesmo. É uma espécie rara, no entanto, como muitas outras espécies de populações baixas, freqüenta os topos dos morros, quando existem, onde pode ser vista ocasionalmente. É conhecida ainda da Cidade de Guaíra (onde existia o Parque Nacional das Sete Quedas, extinto para a construção da UHE de Itaipu), no Paraná, e nos Estados de São Paulo, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

 

Passova passova practa (Hesperioidea, Hesperiidae, Pyrrhopyginae). O único exemplar conhecido de Foz do Iguaçu foi coletado em 1950 sem mais detalhes. É uma espécie muito rara e só poucos exemplares são conhecidos. Nada se conhece do seu comportamento. Embora a espécie, com seis subespécies, tenha uma distribuição ampla, ocorrendo na Venezuela, Colômbia, Guiana Francesa, Peru, Bolívia, Amazonas e Pará, a subespécie em questão é conhecida apenas de poucos exemplares do Mato Grosso, Goiás, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul.

 

Pyrrhopyge ruficauda (Hesperioidea, Hesperiidae, Pyrrhopyginae). É uma espécie muito rara e somente alguns anos atrás descobriu-se um topo de morro em Joinville, Santa Catarina, onde ocorre anualmente durante um período de quinze dias. Isto talvez justifique ser chamada de espécie muito rara. Ainda, ocorre no Paraná, em Morretes (Alto da Serra) e Londrina, e na província de Missiones, Argentina, de onde foi descrita. Assim sendo, certamente ocorre no Parque, nada mais que uma amostra da antiga floresta contínua entre os seus pontos de distribuição geográfica.

IV. Outras Espécies mais Notáveis

 

Prepona eugenes diluta (Papilionoidea, Nymphalidae, Charaxinae). É uma espécie escassa, provavelmente porque é de difícil visualização, pois voa no dossel das árvores bem altas. Os machos dificilmente podem ser vistos em iscas de animais podres ou excrementos de mamíferos. As fêmeas só são atraídas por frutas podres. Ocorre ainda em Teodoro Sampaio, São Paulo, Londrina, Paraná, e no Paraguai.

 

Synpalamides rubrophalaris (Castnioidea, Castniidae, Castniinae). Embora seja considerada uma família de mariposas, a maioria das espécies desta família voa durante o dia e nas horas mais quentes, como faz esta espécie, uma vez por ano, por uns quinze dias, exatamente nas árvores entre a estrada de asfalto e a barranca do rio Iguaçu, logo após o Hotel das Cataratas, isto é, em uma faixa de uns 50m de largura. Não foi encontrada em outro lugar dentro do Parque no período da coleta que se realizou durante os trabalhos de campo no final de 1966. O local do tipo da espécie é Bahia, provavelmente um erro, e o seu sinônimo, Castnia gorgonia, foi descrito de Presidente Wenceslau, São Paulo. Talvez seja esse local (Sítio 3, Ponto 8) o único lugar onde essa espécie ainda ocorre, pois das matas ao longo do rio Paraná pouco ou nada sobrou.

 

V. Análise da Riqueza de Espécies em Relação às Formações Vegetais

 

De acordo com a parte do relatório sobre as diferentes formações vegetais existentes no Parque, pode-se fazer alguns comentários das composições taxonômicas dos lepidópteros (Anexo 24). Para uma apreciação comparativa das espécies identificadas nas formações florestais, foram eliminadas as que só tiveram uma presença de um ou dois indivíduos, pois o método utilizado geralmente não permitiu muito tempo em um só lugar, e um número baixo levaria fatalmente a erros grosseiros. Dessa maneira, toda a comparação é feita com as espécies das quais se identificou no mínimo três exemplares em algum dos pontos. O número cinco no Anexo 24 indica que foram identificados cinco ou mais exemplares, número julgado suficiente para significar ser a espécie em questão comum e ecologicamente significante naquele espaço de tempo.

 

Todo o complexo florístico do Parque compõe-se principalmente de uma grande floresta com vários tipos e estados de conservação, conforme definido em Vegetação, mas no seu entorno os campos abandonados com uma cobertura vegetal de ervas e pequenos arbustos são os componentes principais, além de áreas agrícolas. Em tais campos abandonados e em regeneração florística, ocorre uma série de espécies típicas, geralmente de ampla distribuição geográfica na região neotropical, e que dificilmente está presente em qualquer formação florestal, como:

 

Battus polydamas polydamas, a monarca Danaus plexippus erippus, a tristonho Hermeuptychia hermes, uma das poucas espécies também comuns dentro de florestas e só não presente no Sítio 14, Dryadula phaetusa, violeteira Euptoieta claudia hortensia, Euptoieta hegesia meridiana, olho-de-boi-diurno Junonia evarete, Vanessa braziliensis, Chioides catillus catillus, xadrezinho Pyrgus communis orcynoides, xadrezinho Pyrgus orleus orcus, Urbanus teleus, Urbanus simplicius, Pompeius pompeius, Vehilius inca e Wallengrenia premnas.

 

Todas as demais espécies identificadas são típicas de formações florestais, embora muitas espécies tenham sido vistas na periferia do Parque, pois é aí, devido às condições de insolação e à existência de areias expostas ao sol nas beiras de córregos, às vezes com presença de urina de algum mamífero, que as borboletas são mais fáceis de serem vistas, principalmente os machos. As clareiras dentro da mata também são importantes pontos de observação. Nelas os machos disputam o território para eventualmente conseguirem copular com uma fêmea que por ali passa.

 

Seguem-se algumas das espécies observadas por tipos de formação florestal, registradas durante os trabalhos de campo da AER:

 

Floresta Estacional Semidecídua, subformação Submontana: estão incluídos os sítios e os pontos com altitudes abaixo de 400m, ou seja, a grande parte oeste do Parque; e também estão incluídas as Formações Pioneiras de Influência Fluvial, pois essas partes muito pequenas não tiveram nenhuma influência na distribuição dos lepidópteros. Entre as espécies dominantes tem-se: viúva-caixão Heraclides androgeus laodocus, pequeno-caixão Heraclides astyalus astyalus, viuvinha Heraclides hectorides, vidro-no-ar Protesilaus stenodesmus, pequeno-vitral Dircenna dero celtina, Episcada hymenaea hymenaea, pequena-bandeira-espanhola Mechanitis lysimnia lysimnia, Opsiphanes quiteria meridionalis, capitão-do-mato, Morpho helenor paulista, Godartiana muscosa, tristonho Hermeuptychia hermes, louco Praepedaliodes phanias, alemã Anartia amathea roeselia, Hypanartia bella, Ortilia dicoma, coração Adelpha ampla mincia, coração Adelpha phylaca goyama, coração Adelpha syma, bico-do-diabo Biblis hyperia nectanabis, cruzeiro-do-sul Callicore hydaspes, borboleta-oitenta Callicore pygas thamyras, oitenta-e-oito Diaethria clymena janeira, assenta-pau Hamadryas epinome, borboleta-oitenta Paulogramma pyracmon, finge-folha Memphis moruus stheno, canoa-rosa Zaretis itys itylus, telão-de-seda Achlyodes mithridates thraso, Thespieus dalman, Tirynthia conflua, Xeniades orchamus orchamus e Zenis jebus jebus.

 

Floresta Estacional Semidecídua, subformação Montana: estão incluídos os sítios e os pontos com altitudes entre 400 e 600m, ou seja, grande parte leste do Parque, e também estão incluídas as Formações Pioneiras de Influência Fluvial, que não tiveram nenhuma influência na distribuição dos lepidópteros. Entre as espécies dominantes tem-se: gema-de-ovo Phoebis argante argante, Phoebis neocypris neocypris, floco-de-neve Pseudopieris nehemia nehemia, transparente Episcada hymenaea hymenaea, Hypothyris euclea nina, Forsterinaria necys, Forsterinaria quantius, borboleta-palha Actinote carycina, Chlosyne lacinia saundersi, Hypanartia lethe, Orthilia velica durnfordi, Tegosa claudina, Diaethria candrena, Epiphile huebneri, Astraptes aulestes, Epargyreus clavicornis clavicornis, Heliopetes laviana libra, Heliopetes ochroleuca, Urbanus proteus proteus, Phemiades pohli pohli, Psoralis stacara, Quinta locutia, Thespieus lutetia e Vacerra caniola elva.

 

Floresta Ombrófila Mista: estão incluídos os sítios e os pontos com altitudes entre 600 e 800m, ou seja, a parte norte do Parque. As espécies dominantes foram: viuvinha Heraclides hectorides, gema-de-ovo Phoebis argante argante, Phoebis neocypris neocypris, transparente Episcada hymenaea hymenaea, Hypothyris euclea nina, Pseudoscada erruca, capitão-do-mato Morpho helenor paulista, Eteona tisphone, Forsterinaria necys, Forsterinaria quantius, tristonho Hermeuptychia hermes, Praepedaliodes phanias, borboleta-palha Actinote carycina, Hypanartia lethe, Ortilia velica durnfordi, Diaethria candrena, Epiphile huebneri, Psoralis stacara e Xeniades orchamus orchamus.

 

Entre as 88 espécies dominantes dentro das três formações florestais do Parque tem-se que, dessas, 22 só ocorreram em uma formação florestal; 28, em duas formações florestais e 38, em três formações florestais, fato que faz concluir, ao menos nas condições em que foi feito o levantamento, que não há grandes diferenças do ponto de vista lepidopterológico entre as três formações vegetais.

 

Algumas dessas espécies são bastante comuns, como Forsterinaria necys, Forsterinaria quantius, Praepedaliodes phanias e Splendeuptychia libitina, que indicam a presença de várias espécies de taquaras de cujas folhas se alimentam suas larvas. Outras espécies, como as dos gêneros Heraclides, Protesilaus, Glutophrissa, Aphrissa, Eurema, Phoebis, Pyrisitia, Rhabdodryas, Hypanartia, Diaethria, Ortilia, Eresia, Callicore, Eunica, Marpesia, Temenis, Doxocopa, Chalodeta, Lasaia, Achlyodes, Antigonus, Camptopleura, Ebrietas, Epargyreus, Helias, Heliopetes, Mylon, Nisoniades, Pellicia, Phocides, Polygonus, Polythrix, Proteides, Pyrgus, Staphylus, Niconiades, Nyctelius, Phemiades, Pyrhopygopsis, Quasimellana, Thespieus, Tirynthia e outros não presentes na ocasião são muito comuns nas areias úmidas da beira dos rios, principalmente se algum animal por ali urinou.

 

A presença de todas as espécies observadas de Nymphalidae, Ithomiinae, indica mata íntegra e bastante úmida, com a presença de Apocynaceae e Solanaceae, das quais a maioria de suas lagartas se alimenta. Outras espécies, como as de Opsiphanes, Adelpha, Memphis, Zaretis, Prepona, Archaeoprepona etc. são muito comuns em carniças ou frutas podres. Notórias são as grandes quantidades de Pieridae dos gêneros Aphrissa, Phoebis e Rhabdodryas, que voam ao longo da estrada das Cataratas no verão, fato que demonstra a integridade do ambiente, ao menos para as borboletas.

 

VI. Considerações sobre o Parque

 

Do ponto de vista lepidopterológico, o Parque, apesar de alguma perturbação, encontra-se muito bem preservado. O atual levantamento não foi o esperado. No entanto, alguns anos atrás foi muito produtivo e como nada mudou em termos de cobertura vegetal, não há motivos de se suspeitar que a fauna lepidopterológica tenha sido atingida.

 

De modo geral, os pontos amostrados não sugerem pressão sobre a entomofauna, pois a composição da fauna de Lepidoptera é a mesma que se apresenta nas regiões próximas e já inventariadas, como Parque Estadual do Morro do Diabo e a província de Missiones, ou seja, provavelmente a natural para este tipo de ambiente. Mesmo nas suas áreas de entorno não foi verificada uma diminuição de sua fauna entomológica durante os trabalhos de campo. Isso foi confirmado pelo grande número de espécies presentes na beira do PNI, parte sempre ensolarada, onde as borboletas podem ser visualizadas com facilidade.

 

Se o Parque for mantido como está, não se vê possibilidade de diminuição da fauna de insetos. Mesmo nas áreas onde é permitida a visitação pública, a presença das borboletas é enorme. Isso deve-se ao fato de algumas espécies gostarem de áreas abertas, onde se alimentam de sais minerais dissolvidos em areias úmidas, e de onde retiram o néctar de flores de suas preferências, inclusive de muitas flores ornamentais introduzidas, como a maria-sem-vergonha (Impatiens, Balsaminaceae), o hibiscus e a laranjeira.

 

Embora não existam estudos sobre áreas necessárias para a sobrevivência de populações de insetos brasileiros, é fácil de se acreditar que o Parque seja suficiente para manter as populações nele existentes.

 

VII. Considerações sobre Outros Insetos

 

Somente uma espécie exótica foi verificada nas duas expedições de campo. É Lagria villosa, um besouro preto chamado capixabinha, idiamin ou bicho-capixaba, uma espécie de Coleoptera da família Lagriidae, proveniente da África, inicialmente encontrado no Estado do Espírito Santo e agora muito comum em todo o sul do Brasil, inclusive muito freqüente em toda a orla do Parque. Ataca abacaxi, bananeira, cafeeiro, cana-de-açúcar, feijoeiro, milho, soja, sorgo e trigo (Buzzi, 1994).

 

De outras viagens ao PNI, feitas nos meses de verão, pode-se dizer que a sua fauna de Odonata, Coleoptera, Diptera, Hymenoptera, Neuroptera, Trichoptera, Ephemeroptera é bastante diversa e rica, necessitando urgentemente ser investigada. Notórias são as quantidades de mutucas (Tabanidae - Diptera) nos meses de novembro e dezembro, assim como os borrachudos e mosquitinhos-pólvora (Simulidae - Diptera) nas áreas úmidas e próximas aos rios.

 

Côrtes et alii (1991) fizeram um levantamento da entomofauna da UHE Itaipu, área próxima e certamente semelhante ao PNI. Infelizmente, há poucos dados disponibilizados. Segundo tal documento, há três espécies de Odonata, cinco espécies de Orthoptera, uma espécie de Dermaptera, quatorze espécies de Hemiptera, duas espécies de Homoptera, 31 espécies de Coleoptera, seis espécies de Diptera, seis espécies de Hymenoptera e 56 espécies de Lepidoptera (51 espécies de borboletas e cinco espécies de mariposas). De tal lista, a única borboleta que não foi observada no PNI é Caligo eurylochus brasiliensis (ou Caligo eurilochus).

 

6.4 - A Avaliação Ecológica Rápida no Processo da Caracterização dos Ambientes Naturais do Parque Nacional do Iguaçu

 

Os levantamentos para a caracterização de ambientes naturais do PNI foram feitos, com algumas exceções, utilizando-se uma metodologia desenvolvida pela The Nature Conservancy (TNC), uma ONG ambientalista dos EUA, para apoiar o seu Programa de Ciências para a América Latina (Sobrevilla & Bath, 1992). A metodologia, denominada Avaliação Ecológica Rápida (AER), foi originalmente desenhada com o objetivo de identificar eficientemente áreas prioritárias para a conservação.

 

No caso da revisão do PM do PNI, o objetivo principal da AER foi idealizado para, em primeira prioridade, produzir dados primários, visando uma caracterização ambiental mais precisa dos ecossistemas existentes no Parque. Nesse sentido, buscou-se incluir áreas temáticas que pudessem definir uma unidade ambiental de estudo (como o caso da vegetação) e cujos dados pudessem, ao mesmo tempo, caracterizar ambientalmente o Parque e servir de indicadores (como anfíbios, borboletas, peixes etc.) para situações mais abrangentes ou sobre os quais nada se dispusesse, nem mesmo na bibliografia. Esse foi, especialmente, o caso das lagoas e outras áreas úmidas do PNI, que jamais tinham sido objeto de investigação e têm valor único não somente para o Parque, mas para todo o oeste do Estado do Paraná.

 

Assim, a AER do PNI trabalhou com as seguintes áreas temáticas: (1) avifauna, (2) entomologia (praticamente só lepidopterologia), (3) herpetologia (anfíbios e répteis), (4) ictiofauna, (5) mastofauna, (6) limnologia (hidrobiologia e qualidade da água) e (7) componentes de geoprocessamento e de Sistema de Informação Geográfica (SIG). Resultados por área temática encontram-se nos relatórios parciais de Agudelo (1998), Antonelli-Filho (1998), Grando Jr. (1998), Mielke (1998), Pozzobon et alii (1998), Segalla (1998) e Ziller (1998). Ainda, tem-se o relatório da AER, consolidado por Antonelli-Filho (1999), a partir dos relatórios parciais, integrados em um documento único, interpretado.

 

Ainda no PNI, em segunda prioridade, como prevê a metodologia, a AER procurou levantar situações de ameaça e/ou pressão sobre o Parque como caça, apanha e/ou coleta de fauna, pesca, desmatamento, extração de madeira, possibilidades da ocorrência de incêndios, focos de poluição, uso público indevido, entre outras. Tais dados socioeconômicos são imprescindíveis para uma AER. Para algumas situações, usou-se o recurso de entrevistas com os funcionários do PNI, com a Polícia Florestal que lá atua e com moradores do entorno.

 

Os trabalhos de campo foram realizados nos meses de agosto e setembro de 1998, onde foram amostrados trinta pontos de observação, em quatorze sítios distintos, buscando-se amostrar os diferentes ambientes e fáceis vegetais que ocorrem na área do PNI (Tabela 3).

 

Além das informações obtidas nos pontos estudados, foram consideradas aquelas obtidas durante os deslocamentos ou quando um aspecto relevante se apresentava, como a observação de uma espécie ameaçada de extinção ou indícios de reprodução, como rituais de acasalamento, nidificação etc.

 

A primeira fase de campo desenvolveu-se na porção sudoeste da UC considerando os seguintes sítios de amostragem:

 

sítio 1 (pontos 1, 2, 3, 4 e 18) - estrada do Poço Preto;

sítio 2 (pontos 5, 6, e 7) - bacia do rio São João;

sítio 3 (ponto 8) área das Cataratas, incluindo a estrada e a trilha de acesso às passarelas;

sítio 4 (pontos 9 e 10) - bacia do rio do Índio;

sítio 5 (ponto 11) - rio Represa Grande;

sítio 6 (pontos 12 e 13) - afluente da margem esquerda do rio Silva Jardim;

sítio 6 (ponto 14) - ponte sobre o rio Silva Jardim, em área bastante degradada, fora do PNI;

sítio 7 (ponto 15 e 17) - entre o rio Benjamim Constant e a borda do PNI e

sítio 7 (ponto 16) - no rio Pinheirinho (afluente do rio Benjamim Constant).

 

A segunda fase de campo foi realizada nas porções central, sudeste e norte da UC, com ênfase no rio Floriano (foz, nascente e médio curso), que foi considerado uma das maiores prioridade para análise, por ser um dos poucos rios (de médio porte, no Estado do Paraná) cuja bacia de contribuição se encontra inserida em sua quase totalidade dentro de uma UC. Os sítios definidos nessa fase foram:

 

sítio 8 (ponto 19) - estrada do Colono;

sítio 9 (ponto 20) - meandro abandonado do rio Iguaçu;

sítio 10 (pontos 21, 22 e 23) - foz do rio Floriano até o último salto e áreas adjacentes;

sítio 11 (ponto 24) - na porção norte do PNI (início no km 627 da BR-277);

sítio 12 (ponto 25) - na represa artificial atrás do PIC de Céu Azul;

sítio 13 (pontos 26, 27, 28 e 29) - da borda da UC até o médio curso do rio Floriano (aproximadamente 6,5km de trilha) e

sítio 14 (ponto 30) - nas proximidades do rio Gonçalves Dias.

 

Para cada ambiente identificado nos sítios, foi realizada uma caracterização florística e estrutural, fundamentada na ocorrência de espécies vegetais dominantes. Buscou-se ressaltar a existência de espécies ameaçadas de extinção, em perigo ou raras. Esse procedimento embasou uma definição dos tipos ambientais existentes no PNI.

 

As informações provenientes da análise da vegetação foram correlacionadas à fauna ocorrente e às características do meio físico, através da montagem de um SIG, no intuito de gerar uma caracterização ambiental interdisciplinar como resultado final da Avaliação Ecológica Rápida.

 

A todos os dados básicos foram anexados os resultados das diferentes áreas temáticas, na forma de tabelas, e todas essas informações foram integradas no SIG ARCVIEW (software utilizado para a confecção do SIG). O componente de SIG da AER tem por objetivo integrar, em uma única plataforma de análise, os dados cartográficos e temáticos existentes sobre a área de estudo.

 

As principais tarefas do componente de SIG foram as de integrar e espacializar as informações existentes sobre o PNI, de forma a possibilitar uma visão mais completa dos trabalhos da AER, propor uma interpretação multidisciplinar dos resultados obtidos em cada área temática, ilustrar algumas das principais recomendações e propor usos alternativos do SIG no contexto do PNI, como o de facilitar a divulgação de informações referentes ao Parque.

 

Entende-se que o SIG teve os seguintes objetivos principais, dentro da AER do PNI:

 

fornecer a cartografia básica para a realização dos trabalhos, ao facilitar a escolha dos sítios e pontos e permitir a extrapolação dos dados de campo;

 

compilar os dados obtidos em campo, através da criação de um banco de dados, na forma de tabelas temáticas, que resumem as observações e as conclusões de campo;

 

possibilitar a análise dos dados, na forma de sua categorização e seu agrupamento, e como suporte espacial, para fazer indicações preliminares sobre um possível zoneamento do Parque e

 

facilitar a divulgação da importância do Parque, disponibilizando a consulta do banco de dados, através da Rede Mundial de Computadores (INTERNET) e/ou em um centro de informática, que seria colocado à disposição dos visitantes.

Tabela 3 - Localização dos pontos de observação da avaliação Ecológica Rápida (AER), em coordenadas geográficas, no Parque Nacional do Iguaçu e entorno

Identificação (1)

Ponto

X (2)

Y (3)

S01P01

1

-54.4484

-25.6222

S01P02

2

-54.4463

-25.6215

S01P03

3

-54.4304

-25.6122

S01P04

4

-54.433

-25.6131

S02P05

5

-54.4134

-25.5442

S02P06

6

-54.4247

-25.5469

S02P07

7

-54.4354

-25.5802

S03P08

8

-54.4383

-25.6836

S04P09

9

-54.2708

-25.5228

S04P10

10

-54.2761

-25.5273

S05P11

11

-54.1235

-25.4592

S06P12

12

-53.937

-25.4443

S06P13

13

-53.9285

-25.4518

S06P14

14

-53.934

-25.3859

S07P15

15

-53.874

-25.386

S07P16

16

-53.9051

-25.4227

S07P17

17

-53.8817

-25.386

S01P18

18

-54.3937

-25.5947

S08P19

19

-54.0266

-25.521

S09P20

20

-54.0521

-25.5777

S10P21

21

-53.7867

-25.512

S10P22

22

-53.779

-25.5069

S10P23

23

-53.7823

-25.5074

S11P24

24

-53.7685

-25.1115

S12P25

25

-53.8423

-25.1549

S13P26

26

-53.857

-25.2817

S13P27

27

-53.8498

-25.286

S13P28

28

-53.8098

-25.2742

S13P29

29

-53.8092

-25.2723

S14P30

30

-53.6585

-25.1372

Legenda: (1) identificação do ponto e do sítio de estudo/amostragem; (2) longitude; (3) latitude; S10P21= Sítio 10, Ponto 21; o sinal (-) na longitude indica estar esta a oeste de Greenwich e o sinal (-) na latitude indica estar ao sul do Equador. Coordenadas obtidas pelo Global Position System (GPS), modelo Garmim 12XL

 

6.4.1. Caracterização Ambiental - Síntese dos Resultados da Avaliação Ecológica Rápida

 

Os animais distribuem-se, naturalmente, pelos diversos ambientes constituintes das formações vegetais, segundo fatores ambientais (de aproximação e definitivos). Entre os fatores tem-se a disponibilidade alimentar, a estrutura para nidificação e formação de tocas e abrigos, a estrutura para proteção, o favorecimento ao acasalamento e demais componentes sociais e o fotoperíodo, entre outros condicionantes que favorecem ou inibem a permanência ou a freqüência das espécies em um determinado ambiente.

 

Além dos fatores externos, a ocorrência dos animais é determinada em função das exigências inerentes a cada espécie, tanto de ordem alimentar, quanto de proteção ou sensibilidade. Existem espécies, as generalistas, com preferências de alimentação e de habitat amplas, que podem ocorrer em toda a área de distribuição de uma determinada formação vegetal, independentemente do nível de integridade ou do estado sucessional que as diversas parcelas dessa formação possuam, e podem mesmo ocorrer em diferentes formações vegetacionais. Entretanto, existem aquelas espécies com uso restrito de habitat e recursos, consideradas como uma espécie especialista em um determinado ambiente muito específico. As especialistas, normalmente, são consideradas excelentes indicadoras da integridade de uma determinada formação vegetal.

 

Dessa forma, é necessário que sejam considerados os distintos ambientes e fases sucessionais das formações ocorrentes no PNI, dados a seguir e que foram propostos para essa AER (com as respectivas siglas), bem como aqueles tipos ambientais ocorrentes na área de entorno e aqueles isentos de vegetação de porte.

 

As definições e descrições das formações vegetais ocorrentes no PNI são aquelas apontadas por Ziller (1998), com base no Projeto RADAMBRASIL (IBGE, 1992), quais sejam:

 

Floresta Estacional Semidecídua (fes);

 

Floresta Ombrófila Mista (fom);

 

Formações Pioneiras de Influência Fluvial (fpif) e

 

Formações Abertas (fa), que compreendem todas as formações vegetais abertas de origem antrópica ou natural, de crescimento inferior ao estágio inicial de floresta.

 

Na presente avaliação, entende-se por ambientes as modificações ou fácies dentro de um biótopo, de valor fisiográfico menor, constituindo subdivisões dos sistemas ecológicos maiores, e podendo ocorrer em diferentes freqüências segundo o grau de heterogeneidade e alteração do biótopo (Crespo, 1982).

Como pode ser visto nas áreas temáticas dos estudos (vegetação, avifauna etc.), objetivando uniformizar a terminologia para as demais áreas temáticas, tem-se o seguinte detalhamento dos tipos ambientais considerados:

 

Fase Inicial de Floresta (Fi) - de baixa riqueza florística, com um estrato arbóreo normalmente homogêneo, com elevado grau de dominância de uma ou poucas espécies, tipicamente pioneiras heliófilas, e sub-bosque herbáceo-arbustivo;

 

Fase intermediária de Floresta (Fm) - com dois estratos arbóreos definidos, além do sub-bosque herbáceo-arbustivo. Ainda existe dominância de poucas espécies, embora o número delas seja superior à do estágio anterior. São ainda comuns espécies pioneiras e destacam-se as secundárias iniciais, algumas das quais permanecem na formação em estágios avançados;

 

Fase Avançada de Floresta (floresta primária - Fp ou secundária - Fs) - com três estratos arbóreos definidos, além do sub-bosque herbáceo-arbustivo. O número de espécies é significativamente superior que nos estágios anteriores e, quando existe dominância de alguma espécie, ela ocorre nos estratos dominados. O estrato superior apresenta grande número de espécies, em geral de valor econômico, distribuídas de forma esparsa e em baixas densidades. Uma floresta é denominada secundária após corte raso e regeneração natural, com recuperação da complexidade florístico-estrutural original;

 

Ambiente Urbano ou Urbanizado (Ur) - caracterizado por interferência humana permanente ou de longa duração, como moradias, estradas, obras de arte etc.;

 

Culturas (Cl) - constituído por toda a classe de plantações (à exceção dos plantios e enriquecimento heterogêneo com vegetação nativa);

 

Pastagens (Pa) - em sua grande maioria constituída por campos antrópicos (formados ou cultivados);

 

Lótico (Lo) - compreende as coleções de águas de alta energia, incluindo superfícies líquidas sem presença de vegetação ou quando muito com vegetação tipicamente aquática, de regime essencialmente lótico. São os corpos d’água dos rios, córregos, riachos, cachoeiras, saltos etc. No que se refere à fauna ictíica, ainda são reconhecidos algumas subdivisões dos ambientes lóticos à saber, conforme propriedades óticas da água e fluxo;

 

rios de águas claras (Loc) - ambientes que intercalam trechos de fluxo turbulento e laminar, transportando pequena quantidade de partículas sólidas, não se percebendo alterações abruptas da coloração da água em dias chuvosos, evidenciando boa situação de suas margens e dos solos adjacentes com relação a cobertura vegetal; poucos sedimentos de origem alóctone em suspensão, conferindo às águas uma tonalidade acinzentada por influência dos solos Hidromórficos e leito composto predominantemente de lajes, matacões e sedimentos grosseiros e

 

rios de águas escuras (Loe) - ambientes que intercalam trechos de fluxo turbulento e laminar, transportando grandes quantidades de partículas sólidas; permanecem boa parte do tempo com a água escurecida por sedimentos de origem alóctone, havendo substancial incorporação dos sedimentos em dias chuvosos; água com coloração marrom por influência do carreamento dos solos da região para o interior dos rios e leito composto por lajes e matacões apenas em áreas de maior energia, havendo extensas áreas cobertas por sedimentos finos;

 

Lêntico (Le) - compreende as coleções de águas de baixa energia, incluindo superfícies líquidas sem presença de vegetação ou quando muito com vegetação tipicamente aquática, de regime essencialmente lêntico; são os corpos d’água das lagoas, represas artificiais e meandros abandonados e alagados;

 

Paludícola (Pl) - (orla ribeirinha e brejos) compreende elementos com suprimento ininterrupto de água, porém com profusão de vegetação de suporte aquático-terrestre e

 

Áreas alagadiças (Aa) - ambientes periodicamente inundados por cheias do rio Iguaçu, nos quais o fluxo da água em nenhum momento torna-se turbulento; águas de cor clara, devido à decantação dos sedimentos, e leito preenchido basicamente por material vegetal em decomposição.

 

As diversas formações vegetais, bem como os ambientes e fases sucessionais ocorrentes nos diversos sítios e pontos de observação constam da Tabela 4.

 

Os rios que percorrem o PNI pertencem à bacia hidrográfica do rio Iguaçu, sendo afluentes da sua margem direita. À exceção do rio São João, o qual forma os limites do Parque em seu extremo oeste, todos os outros tributários deságuam no rio Iguaçu, à montante das Cataratas.

 

O PNI também comporta corpos d’água singulares tais como: lagoas situadas no interior da floresta; áreas baixas, marginais ao rio Iguaçu, que recebem as suas águas durante eventos de cheia, e o rio Floriano, cuja bacia hidrográfica provavelmente seja a única a estar protegida em praticamente a sua totalidade por formações florestais na bacia do rio Iguaçu.

 

Entre os corpos d'água investigados no PNI, tem-se que são rios de águas claras os afluentes do rio São João (S01P01 e S01P03), na trilha do Poço, rio Quilômetro Oito, afluente da margem direita do rio Floriano (S10p22), córrego afluente da margem esquerda do rio Floriano (S13P28) e rio Floriano. Entre os rios de água escura, citam-se os rios São João, do Índio, Represa Grande, Benjamim Constant, Pinheirinho, Silva Jardim e Gonçalves Dias.

 

Tabela 4 - Ocorrência das formações vegetacionais, ambientes e fases sucessionais nos diversos sítios e pontos de observação analisados pela Avaliação Ecológica Rápida, no Parque Nacional do Iguaçu

 

Sítios e pontos

Nome do sítio/ponto

Vegetação

Ambientes e/ou fases sucessionais

S01P01-S01P03

estrada do Poço Preto

fesa

Fm-Fi x Loc

S01P02-S01P04

estrada do Poço Preto

fess

Fm

S01P18

Poço Preto

fesa

Fm-Fi x Lo-Le-Pl x Aa

S02P05

bacia do rio São João, divisor

fesm

Fp

S02P06-S02P07

bacia do rio São João, margem

fesa

Fm-Fi x Loe-Cl

S03P08

trilha e estrada das Cataratas

fesm

Fs-Fm-Fi-Ur x Lo-Ur

S04P09

rio do Índio - à jusante de uma represa

fesa

Fs-Fm-Fi x Loe - Le-Cl-Ur

S04P10

rio do Índio, divisor da bacia

fesm

Fi

S05P11

ao longo do rio Represa Grande

fesa

Fi x Loe

S06P12-S06P13

afluente da margem esquerda do rio Silva Jardim

fesa

Fm x Loc

S06P12

borda/afluente do rio Silva Jardim

fesm

Fm x Cl

S06P13

afluente/afluente do rio Silva Jardim

fesm

Fm

S06P14

ponte sobre o rio Silva Jardim, externo

fa

Cl x Loe

S07P15

rio Benjamim Constant

fesa

Fs-Fm x Loe

S07P16

ao longo do rio Pinheirinho

fesa

Fm-Fi x Loe

S07P17

entre a borda e o rio Benjamim Constant

fesm

Fi

S08P19

estrada do Colono

fesm

FmxUr, FmxLo, LoxUr - Loc, Loe

S09P20

lagoa (meandro abandonado) do rio Iguaçu

fpif

Fi-Pl-Le

S10P21-S10P22

próximo à foz do rio Floriano

fesa

Fp-Fm-Fi x Loc

S10P22

foz do rio Floriano em área restrita

fesm

Fm

S10P23

lagoa (surgência de nascente) próxima à foz do rio Floriano

fpif

Le x Fm

S11P24

Município de Céu Azul, parte norte

fesm

Fp

S12P25

represa atrás do Posto da Polícia Florestal, em Céu Azul, parte norte

fpif

Le

S13P26

picada do médio curso do rio Floriano, entre a borda e o primeiro brejo

fesm-fpif

Fp

S13P27

picada do médio curso do rio Floriano, entre os dois brejos

fesm-fpif

Fp x Le

S13P28

picada do médio curso do rio Floriano, nos afluentes da margem direita

fesm-fpif

Fi x Loc

S13P29

médio curso do rio Floriano

fesm-fpif

Fi x Loc

S13P30

proximidades do rio Gonçalves Dias

fomm-foma

Fm-Fs-Fp x Loe

Legenda para vegetação: fes - Floresta Estacional Semidecídua (todas as subformações): fess - Submontana e Montana; fesa – Aluvial; fom – Floresta Ombrófila Mista (todas as subformações); fesm - Floresta Estacional Semidecídua Montana; fomm – Montana; foma - Aluvial; fpif – Formações Pioneiras de Influência Fluvial; fa - formações abertas.

 

Legenda para os ambientes e fases sucessionais: Fp - floresta primária; Fs - floresta secundária; Fm - estágio intermediário de floresta; Fi - estágio inicial de floresta; Pa - pastagem, campo antrópico; Cl - cultura, área agrícola; Ur - ambiente urbano ou urbanizado; Lo - ambiente lótico; Loc - lótico de águas claras; Loe - lótico de águas escuras; Le - ambiente lêntico; Aa - áreas alagadiças; Pl - ambiente paludícola; a possibilidade de formação de ecótonos é indicada pela letra x isolada (sem hífen).

 

É importante atentar para a condição verificada no córrego Quilômetro Oito, no ponto em que ele cruza a estrada do Colono. Durante situação de chuva intensa, ocorre o carreamento dos solos expostos para o estabelecimento da estrada, de modo que, a poucos metros, à montante, o córrego permaneceu como um curso de águas claras, enquanto, no mesmo momento, o trecho à jusante tomou as características descritas para rios de águas escuras. Tal impacto tem vários efeitos sobre o desenvolvimento da biota aquática e está discutido com maior profundidade nesse trabalho.

 

Durante sobrevôo (na AER), constatou-se cinco ambientes de lagoa situados no interior da floresta do PNI. Tais ambientes lênticos, diferentemente do descrito para áreas alagadas da margem do rio Iguaçu, não sofrem invasão pelas águas do rio, apresentando coloração peculiar e farto desenvolvimento de vegetação aquática (macrófitas). Devido a dificuldades encontradas para alcançá-los por terra, tais ambientes não foram investigados em relação a sua fauna ictíica. Para maiores detalhes e número final das lagoas do PNI, consulte o item 5.3.2. Limnologia - Macrófitas Aquáticas.

 

Até o momento, dispõe-se dos seguintes dados acerca da riqueza de espécies animais para o PNI:

nos levantamentos efetuados, durante a AER, Mielke (1998) identificou 257 espécies de borboletas e 7 espécies de mariposas (Sphingidae e Saturniidae), em um total de 264 espécies;

 

Grando Jr. (1998) coletou 18 espécies de peixes no PNI, durante os trabalhos da AER;

 

durante os trabalhos da AER, foram registradas 12 espécies de anfíbios para o PNI, por Segalla (1998);

 

Bóçon et alii (1998) registraram 200 espécies de aves como resultado dos trabalhos de campo; com as espécies citadas na bibliografia (Cavalcanti & Bóçon, 1994; Scherer-Neto et alii, 1989) esse número eleva-se a 348 espécies (embora algumas ocorrências devam ser revistas);

 

Antonelli-Filho (1998) constatou, durante os trabalhos de campo da AER, a ocorrência de 177 espécies de aves, três das quais observadas pela primeira vez para o PNI, que são o gavião-pomba-grande Leucopternis polionota, o gavião-de-dorso-branco Buteo leucorrhous e o maçarico-pintado Actitis macularia;

 

são citadas 45 espécies de mamíferos (exceto morcegos Chiroptera) por Crawshaw Júnior (1995), com ocorrência para o PNI, e

 

Antonelli-Filho (1998) indiciou a ocorrência de 19 espécies de mamíferos para o PNI, durante os trabalhos da AER.

 

6.4.2. Integração dos Dados Temáticos no SIG

 

Para efeito do SIG, os dados relativos a todas as áreas temáticas foram organizados na forma de uma tabela, estruturada em ambiente de banco de dados (ACCESS .mdb), contendo diferentes campos, conforme especificado a seguir.

Os dados de herpetofauna, ictiofauna e lepidópteros foram tratados de forma mais geral na sua inclusão no SIG. Sendo assim, as tabelas constam, como nos demais casos, de referências dos sítios e pontos, coordenadas e dados gerais das espécies coletadas e observadas.

Em herpetofauna, as espécies coletadas são mencionadas e agrupadas em relação a cada ponto. Para os lepidópteros, as espécies coletadas, raras e o número de espécies (riqueza) por ponto são mencionadas em diferentes campos.

No caso da avifauna, da ictiofauna, da qualidade da água e da vegetação, foi feita uma categorização dos pontos de coleta, em relação ao estado de conservação dos recursos, sendo os campos determinados como: (1) categoria e (2) classe. Com tais campos objetiva-se outorgar um "peso" ou categoria a cada ponto, de cada área temática, para possibilitar a análise interdisciplinar dos dados. As categorias e as classes variam de 1 a 4 ou 5 e de excelente a ruim, respectivamente.

 

6.4.3. Integração dos Dados de Hidrobiologia e Qualidade da Água

De acordo com a metodologia usada para a análise e a caracterização da qualidade de água dos pontos estudados, foram trabalhadas as seguintes variáveis:

 

parâmetros físicos, químicos e microbiológicos (Resolução N º 20/86 do CONAMA);

 

parâmetro de toxicidade e

 

comunidade de macroinvertebrados bentônicos, aplicando-se o Índice Biológico BMWP’.

 

Os índices foram incluídos na tabela temática do SIG, dando como resultado cinco categorias/classes de qualidade da água que foram também consideradas, quais sejam: excelente, boa, boa/ruim, regular, ruim.

 

A tabela temática relativa à qualidade de água é composta pelos seguintes campos: (1) código; (2) sítio; (3) curso d’água; (4) local; (5) latitude; (6) longitude; (7) município; (8) altitude; (9) data da coleta; (10) hora da coleta; (11) condições do tempo; (12) largura; (13) profundidade; (14) correnteza; (15) turbidez; (16) cor da água; (17) odor; (19) substrato; (20) habitat; (21) sombreamento; (22) indicação da presença de lixo no leito; (23) indicação da presença de lixo na margem; (24) observações; (25) classe do índice BMWP’; (26) qualidade da água; (27) significado; (28) taxons de macroinvertebrados; 29) categoria e (30) classe.

 

O Mapa 4 apresenta os pontos amostrais, indicando a qualidade da água avaliada durante os trabalhos da AER.

 

6.4.4. Integração dos Dados da Ictiofauna

 

Nessa área temática, foi feita a categorização/classificação dos pontos de coleta como sendo: excelente, boa, regular e ruim. Para efeitos do SIG, a tabela contém os seguintes campos: (1) sítio; (2) ponto; (3) latitude; (4) longitude; (5) espécies; (6) local; (7) categoria do ponto e (8) classificação do curso d’água em relação à ictiologia.

 

Como resultado dessa classificação, os diversos pontos amostrais pesquisados podem ser hierarquizados conforme ilustrado no Mapa 5.

 

6.4.5. Integração dos Dados de Vegetação

 

O propósito inicial era o de se extrapolar espacialmente os dados de vegetação da AER, usando-se as informações sobre vegetação e uso do solo fornecidas pela SEMA. Porém, a análise foi impossibilitada em razão dos problemas apresentados, tanto nas imagens de satélite, quanto nos mapas temáticos digitalizados, sem que isso inviabilizasse a interpretação dos dados obtidos em campo. As recomendações para que se possa atingir os propósitos iniciais estão comentados adiante.

 

 

Mapa 1

Mapa 2

Para efeitos do SIG, os dados de vegetação foram organizados na forma de uma tabela estruturada com os seguintes campos: 1) código de sítio e ponto; 2) ponto; 3) coordenada X (longitude); 4) coordenada Y (latitude); 5) formação vegetal; 6) subformação; 7) fase sucessional; 8) espécies dominantes; 9) altura máxima; 10) altitude; 11) referência; 12) município e 13) espécie em extinção.

 

Em seguida, anexou-se campos referentes à categorização/classificação de cada ponto, em relação ao seu estado de conservação, sendo eles: excelente, boa, regular, ruim e péssima (Mapa 6).

 

6.4.6. Integração dos Dados da Entomofauna

 

Os dados de campo da área temática da entomofauna foram tratados de forma mais geral na sua inclusão no SIG, e a tabela está estruturada com os seguintes campos: 1) referências de sítios e pontos; 2) coordenadas; 3) espécies coletadas; 4) espécies raras e 5) número de espécies por ponto.

 

Tal descrição geral foi considerada informativa, sendo que no relatório temático do SIG (Agudelo, 1998) constam maiores detalhes sobre essa área. O Mapa 7 aponta os locais de coleta da entomofauna.

 

6.4.7. Integração dos Dados de Herpetofauna

 

Os dados de campo da área de herpetofauna foram tratados de forma mais geral na sua inclusão no SIG. A tabela correspondente à essa área temática foi estruturada com os seguintes campos: 1) referências de sítios e pontos; 2) coordenadas e 3) espécies coletadas.

 

A descrição aqui apresentada é geral e é informativa no caso do SIG, sendo que maiores detalhes podem ser obtidos no relatório temático de herpetofauna. O Mapa 8 aponta os locais onde foram coletadas as diversas espécies de anfíbios e as duas espécies de répteis.

 

6.4.8. Integração dos Dados da Avifauna

 

Em relação ao estudo realizado sobre aves e mamíferos do Parque, os dados foram incluídos no SIG seguindo-se a mesma metodologia anterior. Para efeitos do SIG, os dados concernentes à avifauna foram organizados com os mesmos campos relativos à vegetação, e que foram anexados somente para complementar as informações.

No caso, segue-se uma hierarquização das informações do mais geral para o mais específico, sendo os campos: 1) código de sitio e ponto; 2) ponto; 3) coordenada X (longitude); 4) coordenada Y (latitude); 5) altitude; 6) referência; 7) município; 8) formação vegetal; 9) subformação; 10) fase sucessional; 11) espécies ocorrentes; 12) nomes vulgares; 13) espécies ameaçadas de extinção; 14) espécies raras; 15) espécies exóticas; 16) espécies migratórias e 17) espécies endêmicas.

 

Em seguida, foram anexados campos referentes à categorização/classificação de cada ponto, em relação ao seu estado de conservação, sendo elas: excelente, boa, regular e ruim. A categorização dos pontos amostrados permite uma caracterização quanto à integridade ambiental, segundo uma análise baseada na avifauna ocorrente. A caracterização pode ser vista no Mapa 9.

Mapa 3

Mapa 4

Mapa 5

Mapa 6

6.4.9 - Integração dos Dados de Mamíferos

 

Os dados relativos à mastofauna foram incluídos no SIG seguindo-se a mesma metodologia adotada para as demais áreas temáticas, tendo-se os seguintes campos na tabela: (1) código de sitio e ponto; (2) ponto; (3) coordenada X (longitude); (4) coordenada Y (latitude); (5) altitude; (6) referência; (7) município; (8) formação vegetal; (9) subformação; (10) fase sucessional; (11) espécies ocorrentes; (12) nomes vulgares; (13) espécies ameaçadas de extinção; (14) espécies raras; (15) espécies exóticas; (16) espécies migratórias e (17) espécies endêmicas.

 

O Mapa 10 ilustra os pontos e as respectivas espécies, onde foram verificados mamíferos ameaçados de extinção ou localmente raros.

6.4.10. Avaliação dos Resultados da Avaliação Ecológica Rápida (AER)

 

A análise conjunta dos trinta pontos de observação fornece elementos suficientes para considerar que praticamente toda a área do PNI sofreu intervenção antrópica. Provavelmente, em boa parte antes da criação da UC, em 1939. Na porção sudoeste são ainda visíveis demarcações de fazendas, em especial de áreas de pastagens, onde a vegetação foi totalmente suprimida e encontra-se, atualmente, em fase inicial de recuperação.

 

Em sua porção norte, melhor conservada, a ocupação foi, aparentemente, menos intensa, havendo entretanto áreas sujeitas a incêndios florestais. Os incêndios definiram uma área no extremo norte, nas vizinhanças da BR-277, onde houve dominação de vegetação de baixo porte, dominada pelo jerivá Arecastrum romanzoffianum e a criciúma Guadua chacoensis. A espécie imprime à vegetação do local fisionomia diferenciada do restante da UC, estando a área depauperada no que se compara à formação original, em função dos efeitos causados pelo fogo, que tende a acidificar o solo e limitar, por conseqüência, o desenvolvimento de espécies mais sensíveis.

 

As florestas encontram-se, de modo geral, reduzidas a fases intermediárias de desenvolvimento, em certas áreas com predominância de espécies secundárias iniciais e pioneiras misturadas a remanescentes de grande porte da floresta original e, em outras, estão menos alteradas, com maior riqueza de espécies e estrutura florestal mais complexa, ainda caracterizando a formação típica, muito embora as espécies de maior valor comercial tenham ocorrência restrita ou estejam ausentes.

 

Identificam-se, à grosso modo, dois tipos de ações antrópicas que atuaram antes da criação do PNI sobre suas florestas, e que foram, de certo modo, as principais responsáveis pelos atuais padrões estruturais.

 

O primeiro tipo foi caracterizado por uma atividade mais intensiva, inclusive com a implantação de fazendas, onde pastos e lavouras eram formados após o corte raso da vegetação nativa. Após a criação da UC, várias propriedades rurais foram desapropriadas e deixadas à regeneração natural. Hoje, as áreas apresentam, ainda, uma vegetação em estágio inicial de regeneração.

 

Vários pontos analisados apresentam evidências desse tipo de atividade, como pode ser verificado na encosta e no divisor do vale do rio do Índio (Sítio 4, Ponto 10), em área vizinha ao Poço Preto (Sítio 1, Ponto 18), ao longo do rio Represa Grande (Sítio 5, Ponto 11), entre a borda e o rio Benjamim Constant (Sítio 7, Ponto 17) e várias outras menores, formando mosaico com outros estágios sucessionais.

 

Mapa 7

O trecho entre a sanga Boqueirão, a sudoeste, e o rio Represa Grande foi ocupado por inúmeras fazendas, claramente visíveis nas fotografias aéreas de 1980, havendo algumas áreas onde a floresta foi totalmente suprimida para fins agropastoris. Essas áreas encontram-se atualmente em fases iniciais de regeneração, havendo algumas ainda tomadas por vegetação herbácea, como no caso da fazenda Saliné, localizada ao longo do córrego Santa Luzia, no Município de Foz do Iguaçu, próximo à Sede do Parque.

No caso, mesmo havendo a regeneração florestal em níveis mais avançados, até a formação de uma floresta secundária, se não houver contato com um remanescente primário, certos componentes da fauna, principalmente certas espécies especialistas, não ocorrerão naquele ambiente, mesmo que haja condições para a sua existência.

 

Nesse grupo enquadram-se certas aves da família Formicariidae como a borralhara-preta Mackenziaena severa, encontrada na picada do médio curso do rio Floriano, em sua parte mais preservada, e da trovoada-carijó Drymophila malura, na parte norte do Parque, na altura do km 627 da BR-277, ambas verificadas somente nas áreas melhores preservadas. Espécies como essas dificilmente poderão ser encontradas em florestas secundárias, mesmo com o porte e a estrutura de uma primária, caso a formação secundária esteja isolada.

 

O segundo tipo de ação anterior à formação da UC, responsável por vários dos atuais aspectos da estrutura de sua vegetação, foi a ação madeireira seletiva, que ocorreu no passado, causa da redução das florestas originais em toda a região. Tal ação foi responsável pela predominância de comunidades florestais pouco mais desenvolvidas, onde houve exploração madeireira seletiva, associada a uma mistura de remanescentes primários com estrutura de fases sucessionais intermediárias e densos taquarais.

 

Até mesmo nas imediações do rio Floriano, cuja quase totalidade da área de influência de sua bacia hidrográfica está situada dentro da UC (algumas pequenas áreas da bacia de captação de cinco de suas nascentes situam-se fora do Parque), constatou-se a existência remota de exploração madeireira. Na incursão realizada a um ponto no médio curso do rio, observou-se a presença de taquarais em elevadas densidades e a dominância, em alguns locais, de espécies pioneiras e, principalmente, secundárias tardias, compondo um mosaico de ambientes distintos. As margens do rio encontram-se, no local, cobertas por taquarais e remanescentes da floresta ciliar original, enquanto que nas proximidades da foz estão em bom estado de conservação.

As porções mais a leste e a norte contêm áreas em melhor estado de conservação, compondo-se de fragmentos em fases distintas de regeneração e remanescentes primários pouco ou muito alterados. As formações melhor conservadas são, de modo geral, aquelas sob influência de rios ou áreas com surgência de água (Florestas Aluviais e Formações Pioneiras de Influência Fluvial), onde, devido às características intrínsecas, a exploração madeireira não constituiu atrativo.

Nesse caso, mesmo com ação intensa, mas com um razoável número de remanescentes da formação primária, algumas espécies florestais, menos exigentes em termos ambientais, poderão permanecer em estágios de regeneração menos avançados. Dentro de uma mesma família de aves (Tinamidae) podem ser citados dois exemplos de espécies ocorrentes no PNI, que ilustram bem a diferenciação entre ocupantes de formações primárias e secundárias. Como espécie de maior tolerância tem-se o inhambu-guaçu Crypturellus obsoletus, cuja presença foi evidenciada nos mais distintos ambientes florestais, mesmo em níveis sucessionais de início de floresta (capoeira). Entretanto, dificilmente seria encontrado em formação secundária isolada.

 

Por outro lado, tem-se, na mesma família, uma outra espécie, o macuco Tinamus solitarius, mais exigente quanto ao padrão estrutural da floresta (excelente bioindicadora), não sendo encontrado em florestas onde o grau de alteração tenha sido suficiente para descaracterizá-la. No PNI o macuco teve sua presença evidenciada nas áreas melhor preservadas (Sítio 11, ponto 24 e Sítio 13, Ponto 27), sob o ponto de vista da vegetação.

 

Em nível subsequente de conservação surgem as áreas com formações florestais em estágios intermediário e avançado de floresta, onde pode ser encontrada uma fauna bem estruturada, no sentido da manutenção de redes alimentares funcionais, onde assume importância a verificação da presença de espécies representativas dos diversos níveis tróficos. Dessa forma, com base em constatações de campo, uma primeira aproximação pode ser tentada, considerando a região da estrada do Poço Preto, correspondente ao divisor da bacia do rio São João, a região da foz do rio Floriano, afluentes do rio Silva Jardim, e o rio Benjamim Constant.

 

Entre as espécies indicadoras de qualidade ambiental destacam-se, como indicadores vegetais, as seguintes: ipê-roxo Tabebuia heptaphylla, canafístula Peltophorum dubium, jequitibá Cariniana legalis, ipê-amarelo Tabebuia chrysotrycha, xaxim-bugio Dicksonia sellowiana e as consideradas sob ameaça de extinção, como cabreúva Myrocarpus frondosus, peroba Aspidosperma polyneuron, pau-marfim Balfourodendron riedelianum, jaracatiá Jacaratia spinosa, ariticum Rollinia salicifolia e feijão-cru Lonchocarpus muehlenbergianus, das quais foram observados raros exemplares durante os trabalhos de campo. Coberturas contínuas do pinheiro-do-paraná Araucaria angustifolia podem igualmente servir como indicadoras de integridade ambiental.

 

Com base na análise da avifauna, é possível ter determinadas espécies como bons indicadores de integridade, para os ambientes florestais, que ocorrem preferencialmente em remanescentes de florestas primárias, admitindo-se certo nível de alteração, mas desde que não tenha sua estrutura sido alterada ou eliminada uma ou mais espécies-chave, como, por exemplo, o palmito Euterpe edulis. Como habitat único de interesse para a avifauna deve ser citado o meandro abandonado do rio Iguaçu (Sítio 9), não só no que se refere à área úmida, mas, e principalmente, em relação à área encharcada, com predominância de palmeiras (palmito E. edulis e jerivá Arecastrum romanzoffianum).

 

Como espécies indicadoras para os remanescentes de florestas primárias devem ser arroladas espécies muito exigentes como o macuco Tinamus solitarius, a jacutinga Pipile jacutinga, o macuru Nonnula rubecula, os grandes arapaçus Xiphocolaptes albicollis e Dendrocolaptes platyrostris e a borralhara-preta Mackenziaena severa. Com tal indicação, pode-se relacionar como áreas bem preservadas, incluindo remanescentes de formações primárias, duas áreas em especial: uma correspondente ao Sítio 11, parte norte, no Município de Céu Azul, na direção do km 627 da BR-277, e outra área correspondente aos Pontos 26 e 27, do Sítio 13, na picada do médio rio Floriano.

 

Dada a carência de estudos sobre a biologia dos peixes na região, torna-se temerário apontar espécies indicadoras de qualidade dos ambientes aquáticos, baseado em representantes dessa classe. Portanto, as relações quanto à conservação da ictiofauna norteiam-se principalmente com relação à riqueza de espécies de cada ponto. Percebe-se, no caso do PNI, que os rios que apresentaram maior riqueza de espécies não foram aqueles de maior dimensão ou de maior ordem, mas sim os rios de águas claras, os quais devem representar a situação original da maioria dos rios da região.

 

Portanto, a riqueza de espécies encontradas em um curso d’água não serve como parâmetro único para se estabelecer o seu grau de conservação. Devem ser consideradas também as dimensões do curso d’água em estudo e a sua posição com relação a todo o sistema hidrográfico.

 

Apesar da fauna ictíica, da bacia do rio Iguaçu, ainda não estar suficientemente conhecida para poder ter representantes como indicadores de qualidade ambiental, a qualidade das águas dos cursos d’água foi determinada através da análise de parâmetros físicos, químicos e microbiológicos.

 

De modo geral, a análise dos pontos amostrados não indicaram haver pressão sobre a entomofauna, pois a composição da fauna de Lepidoptera é a mesma que se apresenta nas regiões próximas e já inventariadas, conforme é discutido no item sobre os insetos.

 

Em praticamente todos os locais pesquisados, excetuando-se a proximidade das Cataratas e a estrada do Poço Preto, mas sim em sua proximidade com o rio Iguaçu, foram evidenciadas atividades de caça. Havia evidências diretas, como a presença de trepeiros, vestígios de acampamentos, resto de anta abatida etc., ou indiretas, como presença de picadas e trilhas marcadas, mas não por policiais florestais ou funcionários da UC.

 

A fragmentação de habitats proporcionada pela estrada do Colono também pode ser considerada como fator de pressão exercida sobre aves florestais e mamíferos, além do que sua presença favorece a penetração de agentes agressivos, a aves e mamíferos, como caçadores e animais domésticos (gatos, cães e porcos), conforme analisado adiante. O risco de atropelamento da fauna também deve ser considerado.

 

A falta de proteção da floresta ciliar, na maioria dos rios que drenam para o PNI, permite a entrada de agrotóxicos no Parque, que podem atingir aves e mamíferos de forma direta, pela simples ingestão ou, indiretamente, através do efeito da bioacumulação, através da teias e cadeias tróficas.

 

6.4.11. Resultados da Análise das Imagens Landsat TM

 

A análise visual das imagens de satélite Landsat TM disponíveis, como apoio cartográfico à Avaliação Ecológica Rápida, junto às fotografias aéreas, serviu como base para a definição de pontos de observação, em função da distribuição das diferentes formações vegetais do PNI. Procurou-se, com base nessas informações, cobrir a variedade existente, visando caracterizar os diferentes ambientes e obter uma visão abrangente da situação de conservação.

 

As diferenças altitudinais, de cotas mais baixas, próximas de 200m, na parte sul, e mais elevadas, em torno de 600m, ao norte, acarretam variações na distribuição das formações vegetais. A distribuição da Floresta Estacional Semidecídua é limitada a altitudes de cerca de 600m, cota próxima da qual forma-se área de transição com a Floresta Ombrófila Mista.

 

As cristas do relevo, pontos mais elevados, transparecem nas imagens de satélite em tons mais claros do que as florestas mais densas, situadas sobre relevo mais suave. Estão situadas na porção norte da UC e são formadas por diques de diabásio, mais resistentes ao intemperismo do que o material adjacente, o basalto, a partir do qual se originaram solos profundos altamente intemperizados. Por conseqüência, encontram-se, nesses topos dissecados, ocupados pela subformação Montana da Floresta Estacional Semidecídua, florestas mais abertas, situadas sobre solos com grande quantidade de rochas expostas e pedras soltas.

 

Em tons ainda mais claros, percebe-se a existência de clareiras na vegetação florestal, assim como as lagoas, brejos e os meandros abandonados de rios, ocupados por vegetação herbácea adaptada ou plantas aquáticas (macrófitas).

 

A Floresta Ombrófila Mista Montana, com araucária, que aparece nas imagens em tons mais escuros do que a Floresta Estacional, estende-se nas altitudes próximas de 600m, ao norte, ao longo dos vales de alguns rios orientados de norte para sul. Não ocupam os topos dissecados dos diques, provavelmente em função da subida de massas de ar frio oriundas do sul, que se encaixam nos vales e não ultrapassam os topos mais altos no extremo norte da UC, conforme observado em horário matutino da torre de incêndio do PIC de Céu Azul e por observações da Equipe de Planejamento durante sobrevôo em janeiro de 1999.

6.4.12. Categorização dos Dados no SIG

 

Conforme dito anteriormente, para que as diversas áreas temáticas pudessem contribuir de forma consistente, tiveram seus dados temáticos categorizados, uma vez incorporados no SIG, de forma a possibilitar uma análise inicial. Dessa forma, foram definidas cinco categorias representativas da integridade ambiental, segundo a análise desenvolvida por área temática, onde os diversos ambientes, através da sua representatividade nos pontos de observação, foram classificados em relação a sua constituição e valência para cada tema estudado em: 1) excelente; 2) bom; 3) regular; 4) ruim e 5) péssimo.

 

Os dados, assim organizados, referem-se às condições de preservação, integridade e riqueza de espécies observadas em cada ponto. O método facilita a interpretação dos dados em cada ponto e permite fazer uma associação entre eles.

 

6.4.12.1. Análise da Categorização Interdisciplinar das Áreas Temáticas

 

Para facilitar a interpretação dos dados de acordo com a sua categorização, os resultados foram agrupados e tabulados em três áreas temáticas:

vegetação;

 

fauna terrestre e semi-aquática, incluindo avifauna, mastofauna, herpetofauna e lepidopterofauna e

 

hidrobiologia e qualidade de água: incluindo ictiofauna, macroinvertebrados bentônicos e fatores físicos, químicos e microbiológicos.

 

Esse agrupamento permitiu atribuir pesos iguais a cada grupo, ao invés de ser a cada tema, separadamente. No caso, a vegetação, a fauna e o meio aquático são considerados como tendo "peso" ou importância equivalente na análise.

 

Na Tabela 5 é apresentada uma síntese da categorização dos pontos de observação, em função dos grupos e áreas temáticas já citado.

 

6.4.12.2. Interpretação dos Dados de Aves e Mamíferos

 

Os dados da avifauna e da mastofauna, relativos à categorização por ponto, foram plotados em um mesmo gráfico para sua interpretação. A maioria dos pontos analisados (sob a óptica da fauna), tanto para avifauna como para mastofauna, foi classificada como pertencendo às categorias Classe 2: BOA e Classe 3: REGULAR. Dentre os pontos de fauna, existem ainda quatro pontos categorizados como sendo Classe 1: EXCELENTE. Somente 01 ponto de observação (Ponto 15, rio Benjamim Constant) foi classificado como sendo Classe 4: RUIM (Gráfico1).

 

Tais resultados indicam que a maioria dos pontos observados apresenta boas condições de conservação em relação à fauna. Porém, a classificação REGULAR de vários pontos indica que se observou freqüentes sinais de interferência ou distúrbio, onde, provavelmente, apareceu algum sinal de não-idoneidade. Esse estudo, mesmo sendo generalizado, já aponta para a necessidade de se realizar estudos mais aprofundados no Parque. A variação da análise entre as áreas temáticas referentes à avifauna e à mastofauna pode ser apreciada no Gráfico 1.

 

Tabela 5 - Categorização dos pontos de observação através da avaliação das diversas áreas temáticas, realizada no escopo da Avaliação Ecológica Rápida (AER) e dentro de um Sistema de Informações Geográficas (SIG) para o Parque Nacional do Iguaçu

 

Pontos

Aves

Mamíferos

Insetos

Vegetação

Peixes

Água

Média

Água

Média

Fauna

Média

Vegetação

1

3

3

2

2

1

1

1

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6.4.12.3. Interpretação dos Dados de Vegetação

 

Os dados de vegetação foram analisados, considerando-se que a mesma deveria ser um parâmetro básico, no qual outras áreas temáticas devem se apoiar e, portanto, fundamental na avaliação do estado de conservação dos ecossistemas. Sendo assim, os dados foram plotados e avaliados independentemente dos outros (considerando-se somente esse tema), assegurando-se que o tema vegetação, constitui-se, de per si, um grupo temático na avaliação interdisciplinar das categorias.

 

Na análise dos dados observou-se que a maior parte dos pontos foi classificada como sendo CLASSE 2: BOA e CLASSE 3: REGULAR. Somente um ponto (Ponto 24, Céu Azul) foi categorizado como sendo CLASSE 1: EXCELENTE. Quanto a pontos deficitários, em relação à conservação da vegetação, identificou-se sete pontos categorizados como CLASSE 4: RUIM e dois como CLASSE 5: PÉSSIMA.

 

Esses resultados, mesmo que ainda gerais, mostram que apesar dos ambientes florísticos do Parque se encontrarem relativamente bem preservados, observam-se áreas de degradação significativa. De forma similar, salienta-se que apesar de serem relativamente poucos os pontos de observação que foram categorizados como em PÉSSIMO estado de conservação (dois pontos), existe somente um ponto categorizado como EXCELENTE. As três categorias restantes distribuem-se de forma eqüitativa entre os demais. Isto pode ser interpretado como indicador de que a maior parte dos ambientes se encontra fragmentada, formando um mosaico.

 

Recomenda-se que estudos mais aprofundados sobre a localização, a extensão e a natureza dos mosaicos sejam executados para se entender melhor a natureza e a evolução dos distúrbios florísticos observados. A equivalência das três categorias intermediárias pode ser observada no Gráfico 2.

 

Gráfico 1 - Categorização da fauna de aves e mamíferos do Parque Nacional do Iguaçu, no escopo de um Sistema de Informações Geográficas (SIG), resultado da Avaliação Ecológica rápida (AER)

 

 

Categorias:

1 - Excelente 2 - Boa

3 - Regular 4 - Ruim

5 - Péssima

   

 

6.4.12.4. Interpretação dos Dados do Meio Aquático

 

Os dados relativos ao meio aquático (qualidade d’água e ictiofauna) foram plotados em um único gráfico e analisados simultaneamente. A estratégia permite a visualização da possível correlação entre estas duas áreas temáticas, de forma similar ao se analisar os dados de fauna.

 

Muitos pontos de coleta não coincidem, observou-se que, na análise geral, a maioria dos pontos para as duas áreas foi categorizada como pertencendo às CLASSES 1: EXCELENTE e 2: BOA. Quatro pontos, para os dois temas, foram categorizados como sendo CLASSE 3: REGULAR e cinco pontos como CLASSE 4: RUIM (Gráfico 3). A diferente categorização de tais pontos está homogeneamente distribuída em toda a área do Parque, indicando que não existem setores específicos, onde se possa assumir que o meio aquático apresenta características similares.

 

Ao ser avaliada a correlação existente entre as duas áreas temáticas analisadas, pode-se concluir, em primeira instância, que em alguns pontos foram observados distúrbios (CLASSES REGULAR e RUIM) no meio aquático, que se refletem tanto na qualidade da água como na fauna aquática. Os Pontos são: 06, 09, 11 e 16, todos localizados em diferentes áreas do Parque.

 

Gráfico 2 - Categorização dos dados de vegetação do Parque nacional do Iguaçu, no escopo de um sistema de informações Geográficas (SIG), resultado da Avaliação Ecológica Rápida (AER)

 

Categorias: 1-Excelente; 2-Boa; 3-Regular; 4-Ruim; 5-Péssima

 

Igual número de pontos classificados como categoria EXCELENTE apresentaram correlação, sendo esses os Pontos 01, 03, 22 e 28, situados nas bacias dos rios São João e Floriano. Porém, outros pontos de coleta nas mesmas bacias não apresentaram resultados iguais.

 

Tais resultados devem ser interpretados com cautela, já que o meio aquático não é estático e, portanto, se modifica constantemente. Observações em um determinado ponto podem mudar de acordo com uma série de fatores, como correnteza e chuva.

 

Sendo a área de estudo uma UC, assume-se que tanto os ecossistemas terrestres como aquáticos deveriam apresentar boas, se não ótimas, condições de preservação. Porém, observa-se que muitos pontos apresentam alterações no meio aquático. Em vista do anterior, sugere-se concentrar a interpretação dessa categorização nos pontos onde foram verificados distúrbios na qualidade d’água e na fauna aquática. Como esses pontos estão localizados em toda a área do Parque, conclui-se que fatores externos estão, no momento, afetando trechos dos cursos d’água no interior do Parque e que medidas preventivas devem ser tomadas a respeito. Assim, recomenda-se estudos mais detalhados sobre a extensão e as causas especificas de tais distúrbios.

 

Nesse contexto, o SIG pode vir a ser usado para simular mais detalhadamente a origem, a localização, a extensão e a natureza dos distúrbios, contribuindo de forma significativa para o entendimento dos fatores externos que estejam afetando a bacias hidrográficas do Parque.

 

Gráfico 3 - Categorização do meio aquático do Parque Nacional do Iguaçu, no escopo de um Sistema de Informações Geográficas (SIG), resultado da Avaliação Ecológica Rápida (AER)

 

Categoria: 1-Excelente; 2-Boa; 3-Regular; 4-Ruim; 5-Péssima

 

 

6.4.13. Interpretação Interdisciplinar das Categorias

 

Calculou-se uma média das categorias dos grupos mencionadas anteriormente, de forma a se ter uma visão integrada da categorização dos dados temáticos obtidos para cada ponto. Os resultados foram plotados em um único gráfico (Gráfico 4).

 

Os resultados desse tipo de análise devem ser interpretados com cautela, devido à natureza pontual da AER. No entanto, considera-se que os resultados obtidos são elucidativos e vão de encontro às recomendações sugeridas em diversos pontos do PM, subsidiando-o.

 

A maior parte dos pontos, de acordo com a sua média, foi categorizada como pertencendo à CLASSE 2: BOA e à CLASSE 3: REGULAR. Isso indica que, apesar das ações antrópicas, interferências e distúrbios na maioria dos pontos, a fauna e os ambientes florestais se encontram em relativo bom estado de conservação, no entanto, requerendo maiores cuidados quanto à sua conservação e à tomada de medidas de apoio para a sua recuperação.

 

As médias relativas ao meio aquático também apresentam correlação em relação às anteriores. Porém, no meio aquático observa-se que existe uma série de pontos localizados mais nos extremos da classificação, ou seja, na CLASSE 1: EXCELENTE e na CLASSE 4: RUIM. Esses resultados indicam que nem sempre a qualidade do meio aquático reflete as condições de preservação do meio florestal e faunístico.

 

Gráfico 4 - Análise interdisciplinar dos dados resultados da Avaliação Ecológica Rápida (AER) do Parque Nacional do Iguaçu, no escopo de um Sistema de Informações Geográficas (SIG)

Categoria: 1-Excelente 2-Bom 3-Regular 4-Ruim 5-Péssima

 

 

6.4.14. Considerações Finais dos Resultados

 

O PNI é, indubitavelmente, o único remanescente significativo de Floresta Estacional Semidecídua no Estado do Paraná e, ainda, o mais importante remanescente no País. Trata-se, ao menos, da maior área da formação legalmente assegurada como UC. Apesar de haver sofrido intervenções antrópicas, principalmente de exploração madeireira, anteriores à criação do PNI, em 1939, apresentando atualmente um mosaico de ambientes em diferentes estágios de desenvolvimento, representa de forma significativa as subformações Submontana, Montana e Aluvial, da Floresta Estacional Semidecídua, assim como sua transição para Floresta Ombrófila Mista, com araucária.

 

A maior pressão antrópica atual sobre a vegetação é o roubo do palmito Euterpe edulis, com conseqüências sobre uma gama de espécies animais que, por sua vez, dependem da constância da produção de sementes da espécie para alimentação. Em relação à fauna, além da exploração do palmito Euterpe edulis, a atividade de caça evidencia-se em praticamente todos os locais pesquisados, mostrando ser uma ação de contumaz pressão sobre a biodiversidade local, em última análise.

 

Outro ponto a ser devidamente considerado é a elevada exposição que os sistemas e comunidades bióticas, ocorrentes no PNI, estão submetidos pela dispersão dos agentes de contaminação, originários da área de entorno. Por ter como uso principal o agrícola, a área de entorno possivelmente detém, em seus terrenos, um alto nível de agrotóxicos. A ausência da proteção da vegetação ciliar transforma os rios que drenam a região do entorno (para o Parque) em vetores potenciais para o transporte desses poluentes para os processos ecológicos e para as comunidades biológicas existentes no PNI.

 

Pode-se relacionar áreas bem preservadas no PNI, incluindo remanescentes de formações primárias, podendo-se, no caso, citar duas áreas em especial: o Sítio 11, parte norte do Município de Céu Azul, na direção do Km 627, da BR-277, e a porção correspondente aos Pontos 26 e 27, do Sítio13, na picada do médio rio Floriano.

 

As áreas mais alteradas encontram-se concentradas na porção sudoeste da UC, no Município de Foz do Iguaçu, faixa mais estreita do PNI, enquanto as áreas de maior integridade estão incorporadas à bacia do rio Floriano, na porção nordeste-sudeste. As áreas degradadas localizadas na bacia do rio Floriano, provavelmente utilizado no passado para escoamento de toras, encontram-se suficientemente interiorizadas e margeadas por vegetação de maior porte para que possam, a médio e longo prazos, recuperar suas características florístico-estruturais.

 

Muito embora não existam estudos detalhados para indicar densidades populacionais específicas, pode-se inferir a suficiência da área como garantia à proteção do recurso ambiental, mesmo considerado-se que a área atual da UC incorpora áreas de uso intensivo no passado, como as propriedades rurais na sua porção sudoeste, desapropriadas para compor o Parque.

 

Constituem exceções, conforme mencionado anteriormente, as populações de algumas espécies muito procuradas pela indústria moveleira, como o ipê-roxo Tabebuia heptaphylla, a canafístula Peltophorum dubium, a cabreúva Myrocarpus frondosus e o pau-marfim Balfourodendron riedelianum, que merecem estudos populacionais e de distribuição natural, visando uma reintrodução e autoperpetuação dentro do PNI.

 

Para a maioria das comunidades de aves e mamíferos observadas, a área do PNI mostra-se suficiente para a sua manutenção. Entretanto, para as espécies essencialmente florestais, é preciso, com uma certa urgência, recuperar as áreas em que as taquaras e criciúmas se fixaram. É aconselhável o enriquecimento da totalidade da área da UC com espécies emergentes, que sofreram ação de corte seletivo no passado. Além do restabelecimento da continuidade do dossel, algumas espécies vegetais, hoje raras no Parque, como o ipê-amarelo Tabebuia chrysothrycha, a cabreúva Myrocarpus frondosus, o ariticum Rollinia salicifolia, o louro-pardo Cordia trichotoma, a canjerana Cabralea canjerana e o pinheiro-do-paraná Araucaria angustifolia e outras pioneiras, utilizadas na recomposição inicial, como a crindiúva Trema micrantha e a canela-guaicá Ocotea puberula, são espécies de interesse para a fauna.

 

6.5. A Fragmentação de Habitats e o Parque Nacional do Iguaçu

 

Devido à inserção do PNI em região extremamente alterada, foi necessário o estudo da fragmentação de habitats, para uma melhor compreensão dos fatores extremos que pressionam seus recursos. Por outro lado, outras forças de fragmentação têm-se imposto à sua dinâmica interna, seja resultado da reabertura de uma estrada no seu interior (estrada do Colono), seja devido a alguns aspectos de ambientes em recuperação (Ferreira, 1998).

 

Entre os quatro principais mecanismos (vórtices) que levam à extinção das espécies, tem-se o que Diamond (1992) chamou de "quarteto diabólico": 1) matança em massa, 2) destruição e fragmentação de habitats, 3) impactos da introdução de espécies e 4) extinções secundárias. No conjunto, a fragmentação de habitats, sozinha, segundo o autor, responde pela metade das recentes extinções de pássaros em todos os continentes e pela maioria das extinções de plantas.

 

Como conseqüência da fragmentação de habitats, tem-se, bem documentada, a extinção de oito das 23 espécies de pássaros da Península da Nova Zelândia, no século passado, e 21 das 62 espécies de pássaros de mata densa da ilha de Java, durante os últimos cinqüenta anos (Diamond, 1992). Agora, os mais recentes alvos da fragmentação de habitats são as ricas florestas tropicais continentais, que deverão desaparecer até a metade do próximo século, se continuarem as atuais taxas de destruição, o que tem provado estar aumentando a cada dia.

 

As florestas tropicais são os ecossistemas terrestres de maior biodiversidade do mundo e, no entanto, têm sido destruídas em ritmo galopante, a uma taxa de 30ha por minuto na Amazônia brasileira, por exemplo (Laurance & Delamônica, 1998). Infelizmente, o desmatamento conduz à fragmentação das florestas tropicais. Assim, seja ao acaso ou não, "ilhas" de vegetação vão sendo formadas e deixadas no meio de uma paisagem totalmente modificada, onde a forma florestal deixa completamente de existir, situação em franca expansão em países tropicais e, claro, na Amazônia brasileira, já que no sul e no sudeste, onde existia outro tipo de floresta tropical, quase nada sobrou.

 

No Estado do Paraná, onde se encontra o PNI, quase toda a cobertura vegetal foi destruída, e o Estado não concorre com tais taxas por não haver mais florestas a serem desmatadas e porque a legislação brasileira, a partir do quase total desaparecimento das florestas e outras formas de vegetação do sudeste e do sul, tem evoluído e se tornado cada vez mais rígida.

 

O oeste do Paraná sofreu um intenso processo de colonização em mais de meio século, e a quase total remoção da cobertura vegetal aumentou em função da agricultura, favorecida pelos solos férteis de terra roxa (Parma et alii, 1996). Em função de tamanha exploração, segundo esses autores, restam apenas 3, 4% da Floresta Estacional Semidecídua, outrora existente em toda a região. Poucos remanescentes ocorrem esparsamente, sendo o mais significativo aquele relativo ao PNI que, sozinho, equivale a 59% desse total (Parma et alii, 1996). Dados mais recentes mostram um quadro ainda mais catastrófico. Campos & Agostinho (1997) afirmam que a cobertura atual do norte e do noroeste do Paraná se restringe a apenas 1% da cobertura florestal original.

 

De qualquer forma, a paisagem predominante hoje, na região, é de extensos campos agricultados e faixas inexpressivas de vegetação, quando existem. Nesse "oceano" desolador, o PNI se sobressai como a única "ilha" ou fragmento para o qual ainda existem chances da proteção de parte dos recursos naturais do que restou da Floresta Estacional Semidecídua.

 

A fragmentação de habitats atua sobre a ecologia de florestas tropicais úmidas em seus diversos aspectos, alterando a diversidade e a riqueza de espécies e a composição das biotas dos fragmentos e mudando processos como a ciclagem de nutrientes e polinização (Laurance et alii, 1997). A dinâmica das florestas também sofre alteração, levando a danos e à mortalidade de árvores e à formação de clareiras no interior da mata, devido a mudanças no microclima e aumento na turbulência dos ventos próximo às bordas da mata.

 

A fragmentação resulta geralmente em uma paisagem constituída de terrenos com remanescentes de vegetação nativa, entremeados por terras agricultadas e outras formas de uso da terra. O parcelamento da terra ocorre sem qualquer preocupação com declividade, drenagem, tipos de vegetação, espécies que aí habitam e clima, por exemplo. Os tipos de solo têm sido um dos únicos fatores considerados em alguns casos, já que é decisivo para os usos que se pretende para a área. Segundo Harris & Scheck (1991), a fragmentação de habitats é a mais séria ameaça para a diversidade biológica e é a primeira causa da atual crise de extinção de espécies.

 

A agricultura tem sido, há séculos, a principal responsável pela modificação contínua dos mais diversos ecossistemas de todos os continentes, exceto da Antártica. O desenvolvimento freqüente das formas de agricultura, seguido da excessiva exploração e uso impróprio dos solos, seja na produção de culturas e pastagem para a pecuária, tem levado à ampliação dos desertos, à acelerada perda de solos, ao assoreamento de cursos d’água e a um caminho sem volta no que se refere à perda da diversidade biológica.

 

A extensiva remoção da vegetação nativa, seja para a agricultura, a pecuária ou a exploração madeireira, tem deixado apenas porções (fragmentos) no meio da paisagem, localizadas em diferentes posições do terreno, diferentes tipos de solos, com diferentes tipos de vegetação e varia quanto à forma, tamanho, grau de isolamento (em relação ao ambiente natural) e situação fundiária, condições importantes quando se considera a necessidade do seu manejo. Segundo Saunders et alii (1991), em praticamente todo o mundo, a conservação das biotas regionais depende inteiramente da manutenção e do manejo desses remanescentes, já que mais nada restou dos ambientes originais, daí porque entender a dinâmica que rege essas "ilhas de vegetação" (Schierholz, 1991).

 

Atualmente tem crescido a preocupação com o manejo e a conservação dos fragmentos, pois tem sido grande o avanço da compreensão das conseqüências biológicas experimentadas por eles. A fragmentação de habitats tem imposto ameaças demográficas às espécies de baixa densidade, e a redução de populações tem sido considerada como uma das maiores ameaças à conservação de espécies terrestres (Dinerstein et alii, 1995).

 

Tais autores enfatizam que ecossistemas fragmentados sofrem, ainda, mais pressão por caça, incêndios advindos das atividades antrópicas, modificações no microclima e invasão de espécies exóticas, por exemplo. Segundo eles, à medida que a fragmentação aumenta, o total da área core diminui, e lembram que estudos feitos e em andamento mostram que fragmentos menores que 100km2 são inadequados para a manutenção de populações viáveis da maioria dos grandes vertebrados. Os autores lembram, ainda, que algumas espécies de aves, árvores e borboletas ocorrem em densidades muito baixas ou têm ocorrência muito localizada e que não seriam protegidos em pequenos fragmentos.

 

No processo de fragmentação, as populações sofrem redução no seu tamanho (insularização), o que pode levar a diferentes problemas genéticos, com conseqüências deletérias. Ainda, como as espécies não têm distribuição homogênea, nem todas estarão representadas no fragmento. Aquelas que necessitam de grandes áreas não sobreviverão. A perda de espécies do topo da cadeia alimentar, por exemplo, pode causar um desequilíbrio nas populações de predadores de sementes, o que vai alterar a composição de espécies de árvores em um fragmento (Bierregaard et alii, 1992).

 

Sabe-se, como resultado da fragmentação, que espécies mais comuns se tornam ainda mais abundantes, as raras se tornam ainda mais raras e, em última instância, a verdadeira natureza da estrutura da vegetação é profundamente modificada. Tal paradoxo levou, no passado, especialistas a acreditarem que a fragmentação poderia aumentar a riqueza de espécies, mas isso já está totalmente combatido, pois, segundo Harris & Scheck (1991), a redução da diversidade biológica natural pode ser percebida através dos seguintes principais mecanismos como:

 

"perda da integridade genética de espécies ou populações que são ‘seqüestradas’ para dentro dos fragmentos";

 

"perda de espécies de interior de mata e de espécies muito restritas a determinados ambientes, que não conseguem existir por muito tempo nos fragmentos";

 

"aumento na abundância de espécies exóticas e comuns, que são características de ambientes alterados" e

 

"quebra de importantes processos ecológicos".

 

Classicamente, as UC são consideradas fragmentos ou "ilhas de vegetação", pois estão cada vez mais circundadas por amplas áreas totalmente desmatadas, ocupadas pela criação de animais domésticos, pela agricultura e, em alguns casos, cercadas até por cidades. Daí porque todo o conhecimento gerado sobre fragmentação de habitats, em maior ou menor escala ou totalmente, aplica-se e deve ser utilizado como bases científicas do manejo e da proteção das UC.

 

Levando-se em conta todas essas considerações, o objetivo do presente item é discutir e apresentar, à luz dos princípios da biologia da conservação e da ecologia de paisagens, os efeitos físicos da fragmentação, as conseqüências biológicas desses efeitos sobre ecossistemas naturais e, dentro do que há disponível a partir de outras experiências, apontar semelhanças no tocante à conservação, à pesquisa e ao manejo dos habitats fragmentados, transportando as situações para o que ocorre no PNI.

 

6.5.1. Características dos Ambientes Fragmentados

 

Há dois grupos de modificações em um ambiente fragmentado: 1) modificações físicas e 2) modificações biogeográficas. Entre as primeiras, tem-se a alteração do microclima dentro e no entorno do fragmento e o isolamento de cada porção (fragmento) em relação às demais em uma determinada paisagem.

 

Todos os remanescentes, incluindo as UC, estão expostos às modificações físicas e biogeográficas (insularização), cuja intensidade dos efeitos pode variar em maior e menor grau, dependendo do tamanho, forma e posição na paisagem de cada fragmento individualmente.

 

6.5.1.1. Microclima

 

A fragmentação dos ecossistemas provoca modificações nos fluxos de energia física na paisagem. Alterações como no fluxo de radiação, vento e água, por exemplo, podem ter importantes efeitos nos fragmentos de vegetação nativa (Saunders et alii, 1991 e Primack, 1993).

 

6.5.1.2. Radiação

 

A radiação solar é absorvida e refletida pelas folhas, especialmente em comunidades florestais e outras formas densas de vegetação. Em situações de florestas intactas, menos de 1% da energia luminosa chega ao solo da mata (Primack, 1993). A densa camada de folhas funciona como uma barreira, mantendo o interior da mata relativamente fresco, úmido e sombreado durante o dia, e reduz o movimento do ar e retém o calor durante a noite.

 

Após a fragmentação, o balanço energético de uma paisagem difere marcadamente de uma completamente natural, especialmente no caso da fragmentação de vegetação densa. A substituição da vegetação nativa por culturas homogêneas, com diferentes arquitetura e fenologia, por exemplo, altera o balanço da radiação solar, aumentando a radiação que chega até a superfície do solo durante o dia, alterando o albedo e aumentando a reflexão da energia durante a noite (Lovejoy et alii, 1986; Saunders et alii, 1991 e Primack, 1993).

 

Segundo tais autores, as condições acima mudam, ainda, de acordo com a época do ano, tipo de cultura e manejo do solo, colheita e alternância feita sobre a cobertura deixada no solo e variação do grau de cobertura da vegetação. Em áreas abertas, a temperatura apresenta grandes amplitudes, mesmo entre a superfície e as camadas superiores do solo, e aumenta a possibilidade de geadas.

 

Assim, tais condições são impostas aos ambientes naturais dos fragmentos, especialmente em suas margens. A temperatura do ar nas bordas também pode aumentar significativamente mais que no interior dos fragmentos florestais. Nesse caso há o favorecimento de algumas espécies, ocorrendo uma grande proliferação de trepadeiras e outras espécies secundárias. Segundo Lovejoy et alii (1986) tal invasão por essas espécies chega a atingir uma faixa de 10 a 25m em volta do fragmento.

 

Espécies tolerantes à sombra, devido ao excesso de radiação, têm sua ocorrência restrita ao interior dos fragmentos, e a localização das espécies em relação à borda vai depender se ela é mais ou menos tolerante à radiação (Laurance & Yensen, 1991). Com o avanço dos estudos, já se sabe que há diferentes grupos de espécies "de borda" e "de interior".

 

A ciclagem de nutrientes também é afetada, no caso, devido ao aumento de temperatura no solo, com conseqüente efeito sobre os microorganismos que aí vivem e sobre o número e a atividade de invertebrados na decomposição da serapilheira e na retenção de umidade do solo. Tais mudanças vão afetar também a disponibilidade de alimento para a fauna de maior porte, direta e indiretamente, pois vão alterar o crescimento e a fenologia das plantas.

 

Saunders et alii (1991) mencionam que o aumento da radiação e a conseqüente dessecação reduzem as oportunidades de forrageamento para algumas espécies, contribuindo para a sua extinção. Tais autores mostram, ainda, que as variações nos padrões de temperatura podem alterar as relações competitivas predador-presa e parasíticas (Kruess & Tscharntke, 1994). Altas temperaturas antecipam a emergência de larvas de insetos, impedindo o ataque de parasitas que dependam de condições mais amenas no solo das matas para emergir, por exemplo, com claro aumento na população dos primeiros e prejuízo dos segundos.

 

6.5.1.3. Vento

 

As copas das árvores em florestas intactas funcionam como barreiras à velocidade do vento, que chega como uma suave brisa no seu interior. Um dos efeitos mais óbvios na fragmentação de habitats é a suscetibilidade dos remanescentes à ação do vento. A ação do vento, dentro da normalidade e que depende da textura da vegetação e da sua estrutura, por exemplo, é importante para o transporte de gases atmosféricos, e o fluxo de gases acima da vegetação é controlado por tais processos.

 

Alterações na velocidade e na força do vento, entre outras condições, podem provocar mudanças físicas, como a queda de folhas e árvores e outros indivíduos menores, e pode aumentar a evapotranspiração, reduzindo a umidade e aumentando a dessecação. A queda prematura de árvores vai influenciar, por sua vez, a estrutura e a sucessão de espécies da mata, provocando a formação artificial de clareiras, que vai aumentar o recrutamento (crescimento) de indivíduos, especialmente daqueles de espécies pioneiras e daqueles que demandam mais luz para seu crescimento (Jordan, 1982, Westoby, 1989 e Whitmore, 1991).

 

Conforme relatam Bierregaard et alii (1992), há diferenças no impacto do vento sobre a massa florestal. Fragmentos de 100ha mostraram mais árvores mortas nas bordas do que na sua área nuclear, enquanto fragmentos de 1 e 10ha mostraram mais mortalidade na área nuclear que os fragmentos de 100ha e a mata contínua. Nas bordas, os danos causados pelo vento e pela queda de outras árvores é maior em uma faixa de 60m. De acordo com Primack (1993), a ação do vento se fez sentir até uma faixa de 500m no interior de floresta úmidas na Austrália.

 

Segundo Saunders et alii (1991), os efeitos do vento também podem resultar na queda prematura de folhas, o que vai aumentar a quantidade da serapilheira, com conseqüente alteração nos habitas da fauna do solo. Os autores também lembram que o vento pode provocar a perda das partes mais moles dos troncos das árvores, reduzindo o substrato de invertebrados que aí vivem. Nesse mesmo artigo, é relatado que a turbulência dos ventos afetou a reprodução de pássaros, que passaram a ter dificuldade para pousar devido à força do vento e ao movimento vigoroso das copas das árvores. Lovejoy et alli (1986) reforçam que no caso dos trabalhos do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF) foi constatado que a fragmentação facilita a entrada de ventos quentes e secos no interior dos remanescentes, provocando a morte de árvores e dificultando a regeneração de outras que requerem ambientes mais úmidos e/ou solos mais continuamente úmidos.

 

O aumento da velocidade do vento também tem outros efeitos como o carregamento de poeira e sementes do exterior para dentro do fragmento. Saunders et alii (1991) relatam um caso do aumento em 40% na deposição de materiais transportados e depositados nas bordas de fragmentos pelo vento. Ainda, tal ação do vento carrega, por longas distâncias, sementes de espécies exóticas para os fragmentos. Outro fator que pode aumentar com o vento é o transporte de insetos e doenças.

 

6.5.1.4. Movimento da Água

 

A fragmentação também altera o regime hidrológico em suas diversas características. A remoção da cobertura vegetal altera a captação da água e a evapotranspiração, o que vai refletir nas condições de umidade do solo. As vias pelas quais a água entra no solo também serão alteradas. A substituição de vegetação florestal (ou mais densa) por pastagem ou por culturas de herbáceas, por exemplo, reduz drasticamente a evapotranspiração e aumenta o fluxo das águas superficiais e subterrâneas, provocando, ainda, maiores escorrimentos superficiais, o que causa e/ou acelera os processos erosivos e o transporte de materiais (nutrientes, solo e agrotóxicos).

 

Toda essa movimentação vai provocar aumento de sedimentos nos cursos d’água, assim como de nutrientes e agrotóxicos. O aumento do lençol freático pode trazer sais aí armazenados à superfície e provocar salinidade, o que refletirá sobre a vegetação dos fragmentos e de terras agricultadas no entorno.

 

Como enfatizam Saunders et alii (1991), todos esses processos podem ser mais drásticos, dependendo da posição ocupada pelo fragmento, seja nos topos ou em vales. No caso, os fragmentos vão sofrer mais perda ou mais deposição de material, dependendo da posição que ocupam no relevo. Se o fragmento ocupa área de deposição, a movimentação da água pode trazer material rico em nutrientes e facilitar o transporte de espécies invasoras e/ou daquelas que necessitam de solo rico para o seu estabelecimento.

 

Ainda no que se refere à água, os fragmentos podem sofrer alteração, dependendo de atividades como irrigação, barramentos e drenagem no seu entorno. Isso, por sua vez, vai modificar as condições de umidade do solo, que podem alterar as taxas de decomposição, os bancos de sementes e habitats para a fauna do solo.

 

6.5.2. Magnitude do Efeito de Borda

 

Por definição, a borda de um fragmento florestal é uma linha, na sua periferia, entre um ambiente florestal e um outro não-florestal. Conforme já dito anteriormente, o efeito de borda é entendido aqui como as mudanças que ocorrem ao longo da margem de um fragmento, causadas pela ruptura abrupta de um ambiente natural, não havendo uma transição entre o fragmento e a então área destruída (Lovejoy et alii, 1986 e Fernandez, 1997). Tais mudanças afetam tanto a forma quanto o funcionamento de um ecossistema isolado (Bierregaard et alii, 1992).

 

Como foi visto anteriormente, uma vez provocado o isolamento, o sub-bosque passa por uma série de modificações no seu microclima. Aumenta a insolação, especialmente cedo na manhã e no final da tarde, e passam a soprar ventos secos e quentes para o interior do fragmento. A umidade do ar e a temperatura (do ar e do solo) também sofrem alterações, tanto pela ação do vento quanto pela insolação, quando se compara o que acontece na borda e no interior. A diminuição de água no solo, próximo à borda, sugere um aumento na evapotranspiração (Bierregaard et alii, 1992). Estudos mostraram que os efeitos de borda se fazem sentir até cerca de 100m da margem para o interior do fragmento (Schierholz, 1991) na Amazônia brasileira, e até 500m em floresta na Austrália (Primack, 1993).

 

Segundo Lovejoy et alii (1986) e Schierholz (1991), a umidade variou entre 5% (pela manhã cedo) e 20% (ao meio dia), entre a borda e 100m para o interior do fragmento. A temperatura variou em até 5, 5° C em um gradiente de 100m entre a borda e o interior, em um fragmento de 100ha. Sabe-se que em remanescentes de 10ha e menores, toda a área é afetada. Segundo os autores, todas essas alterações explicariam a alta mortalidade de árvores ocorridas nos fragmentos de 1 e 10ha. Com o tempo, o crescimento de vegetação secundária ameniza a insolação e funciona como uma barreira contra o vento, melhorando então a umidade e a temperatura.

 

É importante observar que se o efeito de borda alcança tal profundidade, estendendo-se até 100m para o interior do fragmento, considerando-se que seu formato é quadrado, as áreas pequenas (1ha) sofrem falência total dos ecossistemas, ficando, portanto, completamente comprometidas; as de 10ha têm 95% de sua área comprometida, sofrendo também falência total, e as de 100ha têm 10% de comprometimento da sua área (Schierholz, 1991).

 

Resultados do PDBFF mostram que as variações na ecologia dos solos, provocadas pelas mudanças no microclima, também explicariam a alta mortalidade das árvores. Ainda, foi observada uma acentuada queda de folhas das árvores, que estaria associada à perda de nutrientes. A intensa profusão de espécies invasoras e tolerantes à alta luminosidade já foi discutida anteriormente.

 

No PDBFF foram levantadas as espécies da vegetação, e constatou-se que a riqueza de espécies (número de espécies) é muito alta, mas com uma baixa densidade. Segundo Schierholz (1991), das 65 espécies da família Annonaceae encontradas em 65ha, 65% tinham um único exemplar por hectare ou menos. Tais resultados são importantíssimos quando se considera o tamanho de uma área a ser protegida, significando dizer que se forem criadas reservas de 10ha, haverá somente um único indivíduo de uma determinada espécie, e quando esse morrer, a espécie ficará localmente extinta.

 

Como já foi dito, a alteração da radiação que chega nas bordas acarreta uma rápida proliferação de espécies de trepadeiras, lianas e outras de crescimento secundário em todo o perímetro do fragmento. Como conseqüência, vai haver um impacto negativo sobre os animais. Pode aumentar a predação de ninhos, por exemplo, já que fica facilitado o acesso de predadores no local (Fernandez, 1997). O recrutamento (crescimento) de espécies pioneiras como a embaúba Cecropia spp. aumentou em uma faixa de até 10m da borda para o interior, enquanto o aumento da serapilheira aumentou dramaticamente até uma faixa de 50m, logo após a formação da borda (Bierregaard et alii, 1992).

 

Por outro lado, a comunidade de plantas dos estratos inferiores também ressente-se do efeito de borda. Bierregaard et alii (1992) comentam que a palmeira Astrocaryum sociale, do sub-bosque, é muito menos comum em bordas de cinco a oito anos de idade que em áreas sem perturbações e que é menos vigorosa nas clareiras que no sub-bosque sem perturbações. Além de insetos, alguns vertebrados também podem se beneficiar das bordas de um fragmento, conforme observaram Stouffer & Bierregaard (1995a).

 

Tão logo a fragmentação ocorre, começa uma grande variação na composição e na densidade de algumas espécies, como foi observado em pássaros do sub-bosque no PDBFF. Eram capturados mais indivíduos e mais espécies na borda que no interior do fragmento (Lovejoy et alii, 1986 e Schierholz, 1991). Tais autores comentam que ocorre um aumento significativo nas populações de pássaros logo após o isolamento, sendo maior a "invasão" de pássaros nas reservas de 1ha que nas de 10ha. Outro resultado obtido é que os pássaros invasores buscam os lugares mais escuros da mata (Schierholz, 1991), e os residentes levam desvantagens em relação àqueles que aí chegam para se refugiar. Os residentes despenderiam muita energia para defender seus territórios contra os "invasores", aumentando a mortalidade ou ocorrendo o abandono do fragmento.

 

Como resultado geral, Stouffer & Bierregaard (1995b) observaram que a fragmentação provoca uma dramática redução na abundância (número de indivíduos) e na riqueza (número de espécies) de pássaros insetívoros, mesmo que os fragmentos estejam a distâncias entre 70 e 650m da floresta contínua, sendo que os pássaros que seguem as formigas são os primeiros a serem perdidos. Apesar de forragear em grandes áreas na mata, tais pássaros relutam em cruzar áreas abertas.

 

Os autores afirmam que, quando completamente isolados, fragmentos de 1 ou 10ha não suportam mais que um ou dois pares de pássaros do sub-bosque, mesmo que sejam dos mais comuns. Assim, a extinção é inevitável. Outro resultado interessante dos autores é que pássaros que vivem em grupos mistos desagregam-se logo após o isolamento do fragmento de 1ha. No caso de 10ha, isso ocorre no segundo ano após o isolamento, e eles evitam as bordas, tendo seus territórios muito reduzidos. Espécies de pássaros que vivem nas árvores e são solitários também sofrem redução, mas menos drástica que os de grupos mistos, e continuam a declinar mesmo nove anos após a fragmentação.

 

Outra interdependência e possível explicação para o abandono do fragmento observadas é o desaparecimento de algumas espécies de pássaros que se alimentam de insetos que se movimentam com a passagem de formigas-correição. Com a diminuição das formigas, os pássaros não teriam mais alimento suficiente para a sua sobrevivência, daí porque se retirariam do local.

 

No caso de borboletas, tem-se que logo após a fragmentação houve uma diminuição de espécies do sub-bosque, mas em um ano, ao contrário dos pássaros e das formigas-correição, tal número aumentou, chegando a ser maior que antes do isolamento (Lovejoy et alii, 1986 e Schierholz, 1991). O que acontece é que espécies de borboletas heliófilas invadem o fragmento, ocupando o perímetro dos fragmentos que contêm mais luz, portanto, mais próximo às bordas, e podem ser encontradas até 300m no seu interior.

 

Entretanto, o aumento da riqueza de espécies de borboletas não é um fator positivo, pois as borboletas recém-chegadas, adaptadas à maior luminosidade, com mais densidade, acabam por desalojar as espécies de distribuição mais esparsa, com necessidades alimentares mais especializadas, que são típicas das florestas. No caso de vertebrados de maior porte, como os primatas, parece existir uma mistura do efeito de dois fatores - borda e área - e esses também sofrem estresses resultantes do isolamento do seu habitat (Lovejoy et alii, 1986 e Schierholz, 1991).

 

Outra conseqüência do efeito de borda é que os fragmentos ficam mais suscetíveis ao fogo. A baixa umidade, maiores temperaturas e aumento dos ventos tornam o fogo mais provável (Primack, 1993). O fogo pode atingir os fragmentos vindo de incêndios dos campos agricultados contíguos, que são queimados periodicamente. A suscetibilidade aumenta com o acúmulo de matéria morta nas bordas dos fragmentos, como árvores, galhos e folhas mortos ou derrubados pela ação dos ventos. Primack (1993) cita o caso da queimada de milhares de hectares de floresta tropical úmida de Borneo, Indonésia, durante um período mais seco ocorrido em 1982 e 1983, devida a uma combinação de fatores como fragmentação da mata para agricultura e exploração seletiva de madeira, acumulação de material da exploração e fogos antrópicos, o que tornou a situação mais dramática.

 

6.5.3. Isolamento do Fragmento

 

Tem sido unanimidade que a fragmentação ambiental provoca uma redução na área dos habitats disponíveis, fazendo com que haja um aumento da densidade da fauna sobrevivente e que os habitats que ficam são secionados, sofrendo isolamento em diferentes graus. O tempo de isolamento, a distância entre os fragmentos e o grau de conexão entre eles são fatores determinantes nas respostas bióticas para a fragmentação.

 

6.5.4. Tempo de Isolamento

 

Logo após o isolamento (fragmentação), a tendência principal é um número excessivo de espécies, além do que o ambiente seria capaz de manter, e algumas espécies são perdidas à medida que as mudanças, devido à fragmentação, vão tomando lugar. Tal processo, denominado acomodação das espécies (species relaxation), é considerado como uma conseqüência inevitável da fragmentação e do isolamento (perda de continuidade, de contato, entre o fragmento e o ambiente original contínuo), o que é baseado nas predições de biogeografia de ilhas (MacArthur & Wilson, 1967). Tal tema trata da insularização, relação entre colonização e extinção em ilhas, mas que foi transportado para fragmentação de habitats, e tem sido continuamente testado (Wilcox, 1980).

 

A acomodação das espécies, entretanto, está relacionada a mudanças físicas ocorridas e às respectivas respostas bióticas e difere entre os taxons. As extinções mais rápidas ocorrem entre as espécies que dependem inteiramente de vegetação nativa, daquelas que dependem de amplos territórios e daquelas que ocorrem em baixas densidades (Saunders et alii, 1991). Ainda segundo os autores, a resposta individual de cada espécie à fragmentação depende do comportamento de dispersão e demografia. Caso algumas populações sejam muito pequenas para serem viáveis, é possível que persistam pela longevidade dos indivíduos.

 

Portanto, a simples presença de espécies em um fragmento não é indicativo de sua continuidade lá. São necessários o sucesso reprodutivo e a capacidade de recrutamento. Assim, em termos de manejo, é preciso verificar a estrutura etária das espécies existentes, para identificar aquelas mais vulneráveis e direcionar as intervenções, visando minimizar potenciais perdas futuras de espécies.

 

Por outro lado, o simples número de espécies não é indicativo da qualidade do fragmento. É necessário considerar a composição das espécies, pois um fragmento perde espécies logo após o seu isolamento, o que continua por certo tempo, mas ganha espécies invasoras e habitantes de borda, capazes de se estabelecer em ambientes alterados e fragmentados.

 

6.5.5. Distância entre Fragmentos

 

A capacidade de uma espécie colonizar um remanescente depende da distância entre fragmentos com vegetação nativa e entre eles e áreas originais. Isso porque a colonização depende do modo de dispersão das espécies. Por exemplo, é mais fácil espécies que sofrem dispersão pelo vento alcançar os fragmentos que outras.

 

Entretanto, outros fatores físicos e bióticos, como disponibilidade de nutrientes e interações competitivas, intervêm no sucesso da colonização pelas espécies. Os animais possuem capacidade de locomoção, mas podem não atravessar barreiras físicas.

 

Uma estrada com qualquer tipo de tráfego ou mesmo um campo agricultado pode representar uma barreira intransponível para algumas espécies, especialmente as de menor porte, como pássaros ou os invertebrados. Assim, a permanência dessas espécies em um fragmento vai depender inteiramente da manutenção de habitats capazes de suportar um número suficiente de indivíduos que, por sua vez, suportarão o risco de extinção (Saunders et alii, 1991).

 

Resultados do PDBFF indicam que uma faixa de apenas 80m é uma forte barreira aos movimentos de insetos e mamíferos e para a maioria das espécies de pássaros do sub-bosque, quando isolados em um fragmento (Bierregaard et alii, 1992). Ainda foi constatado em um estudo com pássaros insetívoros que uma faixa de 100m, isolando um fragmento de uma floresta contínua, conduz a uma rápida perda de espécies (Stouffer & Bierregaard, 1995b).

 

6.5.6. Conexão entre Fragmentos e o Papel dos Corredores

 

Propostos originalmente para ligarem áreas protegidas isoladas, os corredores são faixas de terra/cobertura vegetal que permitiriam o movimento de animais entre duas áreas protegidas, potencialmente facilitando o fluxo genético, assim como a dispersão e a colonização de novos sítios. A despeito disso, Primack (1993) acredita que os corredores seriam mais efetivos na proteção das rotas de espécies migratórias.

 

Para Harris & Scheck (1991), os corredores (chamados de corredores de dispersão da fauna) são faixas lineares da paisagem natural ou restaurada que conecta duas ou mais áreas de habitat semelhante, que funciona tanto para a movimentação de indivíduos, quanto para o fluxo genético entre fauna e flora nativas.

 

Os chamados corredores naturais podem ocorrer em paisagens não fragmentadas ou podem ser deixados após a fragmentação (incluem córregos, rios, vegetação ciliar e faixas de vegetação poupadas, cumes de montanhas e outros), que facilitam a movimentação da fauna. Existem outras classificações de corredores, como corredores remanescentes, aqueles deixados durante a remoção ou perturbação de uma paisagem (e incluem os corredores naturais), e os corredores culturais, criados artificialmente com alguma função utilitária, como linhas de transmissão, faixas de servidão em estradas etc. (Rocha, 1994).

 

A conexão (ligação) entre os remanescentes ou entre um desses e o ambiente natural é um dos fatores que influenciam a dinâmica biológica dos fragmentos. É importante a maneira com que os fragmentos mantêm ligação com as áreas adjacentes, assim como o papel que os corredores têm nesses casos. Essa tem sido uma discussão ardente no âmbito da biologia da conservação, apesar de não haver se esgotado o estudo da questão (Simberloff et alii, 1992).

 

Para algumas espécies, que ficaram isoladas em algum fragmento, não é possível cruzar espaços abertos, seja para procurar alimento, seja para acasalamento, quando a fragmentação interrompeu tais possibilidades. Aquelas, sujeitas a esses impedimentos, são referidas como espécies "seqüestradas", que acabam por sofrer diferentes pressões rumo à extinção. Portanto, os efeitos sobre populações seqüestradas serão sentidos quando a distância entre elas é maior que a capacidade de dispersão normal dos indivíduos (Harris & Scheck, 1991). Daí porque corredores têm sido considerados como uma possibilidade para amenizar a situação (Simberloff et alii, 1992). Sem mencionar os corredores, Laurance & Gascon (1997) discutem a importância da conectividade entre os fragmentos.

 

Corredores têm sido vistos como uma das maneiras de diminuir os impactos negativos nos fragmentos, pois favoreceriam os movimentos bióticos, configurariam áreas extras de forrageamento, serviriam como áreas de refúgio durante eventos de distúrbios, além de servirem para enriquecer a qualidade paisagística de um ambiente (Harris & Scheck, 1991 e Saunders et alii, 1991).

 

Alguns estudos apontam para o benefício dos corredores, favorecendo a movimentação de, pelo menos, algumas espécies da biota local. No entanto, apesar da grande aceitação que têm, outros estudos apontam na direção oposta, mostrando que os corredores funcionam como barreiras para muitas espécies, facilitam a dispersão de doenças, pestes, incêndios, facilitam e servem de vias de acumulação de materiais carregados pelo vento, aumentam a predação e outros distúrbios. Ainda, teria um alto custo manter longas faixas de fragmentos lineares, com altos efeitos de borda. Entretanto, há de se considerar que o mérito dos corredores pode variar dependendo de sua largura e composição na paisagem, por exemplo, do lugar em que se encontra e da(s) espécie (s) em questão, além do valor estético que têm em uma paisagem.

 

No caso de se considerar o papel dos corredores para amenizar os impactos negativos da fragmentação, é preciso que mais estudos sejam conduzidos, ao mesmo tempo que é válido, se possível, estabelecê-los para promover a movimentação biótica.

 

Considerando a extrema fragmentação de habitats no oeste do Estado do Paraná, Campos & Agostinho (1997) propõem o estabelecimento de um corredor, o que chamaram de "corredor de fluxo de biodiversidade do rio Paraná", ligando parte do rio (200km), suas ilhas e áreas de suas margens e do lago da UHE de Itaipu. A idéia é que o corredor em questão ligaria diversas UC existentes na região, desde a Estação Ecológica de Caiuá, em São Paulo, passando (sentido do norte para o sul) pelo Parque Nacional de Ilha Grande, lago de Itaipu e seus refúgios (Santa Helena e Bela Vista) até chegar no PNI.

 

6.5.7. Entorno dos Fragmentos

 

O tipo de paisagem que circunda um fragmento é de fundamental importância, refletindo claramente nas modificações pelas quais esse passa a experimentar. Quando o entorno de um fragmento tem a sua cobertura vegetal removida, o fragmento se torna a única área com habitats "disponíveis" para a biota que foi desalojada.

 

Estudos no PDBFF mostram que espécies com capacidade para se moverem tendem a procurar abrigo no fragmento deixado, provocando um aumento rápido de espécies e indivíduos, levando à supersaturação do ambiente. Tal saturação altera as relações de competição e predação, aumentando-as, o que vai alterar as taxas de fecundidade que, potencialmente, podem levar ao colapso populacional. A disponibilidade de recursos também é afetada, pois passa a haver uma excessiva exploração deles.

 

Além da chegada das espécies nativas, o fragmento também é invadido por espécies que se beneficiam de situações como essas - são as exóticas, as menos exigentes, as oportunistas de toda ordem e mesmo espécies migratórias que podem ser beneficiadas pelas novas condições causadas pela fragmentação no entorno. Diferentes comunidades respondem de diferentes maneiras à fragmentação, sendo mais ou menos suscetíveis.

 

Em alguns casos, a invasão pode ocorrer somente nas bordas, mas o interior do fragmento pode ser invadido por espécies dispersadas pelo vento ou por animais. Existem casos em que sementes trazidas em fezes podem se estabelecer no interior do fragmento. Os animais saem do fragmento para se alimentarem no entorno, nas áreas degradadas, e retornam ao fragmento, onde têm seu ninho, pouso ou simplesmente abrigo, por exemplo, e ali defecam, contribuindo para a dispersão de espécies indesejadas.

 

As espécies que chegam aos fragmentos vão concorrer com as locais na busca, na obtenção e no uso de alimentos, na disponibilidade de locais para abrigo e ninhos, vão alterar o balanço energético e o regime de fogo e inibir a regeneração das espécies de ocorrência natural. Há casos em que danos na folhagem e nos troncos chegam ao extremo, causando até a morte de árvores por predação excessiva (Saunders et alii, 1991).

 

6.5.8. Influências Modificadoras e Correlatas da Fragmentação

 

6.5.8.1. Tamanho do Fragmento

 

O tamanho de um fragmento afeta comunidades de animais, e já se tem conhecimento de que, quanto menor for o fragmento, maiores serão as influências de fatores externos sobre esse, que acaba sendo regido pelas forças externas. Na experiência do PDBFF, resultados com besouros, aves e primatas confirmam tal premissa, indicando que o tamanho do fragmento influencia tanto o número de espécies, como o tamanho das populações, em alguns casos (Bierregaard et alii, 1992).

 

Nesse caso, os efeitos de borda são de suma importância. Como os grandes fragmentos têm uma área core (central) maior, as conseqüências dos efeitos de borda acabam por se fazerem sentir menos, e os efeitos de borda são tão maiores, quanto maior for a degradação do entorno do fragmento. Os efeitos de bordas atualmente são considerados prejudiciais, conforme mostram diversos estudos (veja Laurance & Yensen, 1991 e outros aqui já citados), mas até bem pouco tempo havia um ponto de vista de alguns especialistas que considerava margens e ecótonos como benéficos (Saunders et alii, 1991). Mais adiante os efeitos de borda são, ainda, discutidos, além do que já foi apresentado anteriormente.

 

No artigo de Bierregaard et alii (1992), são narrados os resultados obtidos com o recrutamento (crescimento) de árvores. O recrutamento nos fragmentos de 10ha é maior em classes com pequenos DAP (de 10 a 15cm) e menor na área nuclear do fragmento de 100ha.

 

Segundo Saunders et alii (1991), aqui entraria um outro conceito que já foi objeto de muitos estudos e discussões da biologia da conservação. Trata-se de se saber que tamanho mínimo um ecossistema deveria ter para manter e preservar sua diversidade de espécies e sua composição de espécies características, mas para o qual ainda não se tem resposta. O PDBFF começou com essa busca e acabou por responder a muito mais e a buscar mais conhecimento para outras questões que afligem os conservacionistas que manejam os recursos naturais, como o efeito de borda, já discutido aqui.

 

6.5.8.2. Tamanho do Fragmento e SLOSS

 

Áreas maiores possuem habitats mais diversificados. Dentro de tal entendimento, aqui, mais uma vez, é preciso citar outra tradicional discussão da biologia da conservação, que tem como base, ainda, o modelo de equilíbrio insular, já citado (Wilcox, 1980). No contexto, foram formulados quatro princípios básicos, objetivando maximizar a riqueza de espécies em áreas protegidas, e que podem ser aplicados a fragmentos, que seriam:

 

uma única reserva (ou fragmento) grande é melhor que várias pequenas de área total equivalente (SLOSS);

 

a forma de uma reserva (ou fragmento) deve ser compacta, pois quanto mais irregular o formato, menor será o número de espécies;

 

é melhor ter reservas (fragmentos) agrupadas que distantes uma da outra e

 

reservas (fragmentos) conectadas por corredores ecológicos são melhores que reservas (fragmentos) isoladas, sem conexão.

 

Os princípios 2 e 3 são bem aceitos pela comunidade científica e conservacionista, enquanto o 1 e o 4 ainda são motivo de muitas polêmicas (Fernandez, 1997). Devido a tantas discussões, foi criada, em inglês, a sigla SLOSS (Single Large or Several Small), que significa uma "única grande ou várias pequenas", para designar a polêmica.

 

6.5.8.3. Forma do Fragmento

 

Conforme já foi dito, quanto mais compacta e regular for a forma de um fragmento, maior será a riqueza de espécies aí encontradas. Entretanto, para Laurance & Yensen (1991) e para Saunders et alii (1991), a forma importa somente no caso de fragmentos pequenos. A forma determina a área nuclear e as margens de um perímetro. Para áreas longas e estreitas, há mais margens e, consequentemente, mais efeito de borda que em áreas quadradas ou redondas.

 

Por outro lado, áreas longas e estreitas, dependendo da sua orientação no terreno, podem abarcar mais variações ambientais que uma área quadrada ou redonda em ambientes similares. Como a fragmentação ocorre ao acaso na maioria das vezes, o mais importante é saber como manejar os fragmentos, independentemente da sua forma, para diminuir o impacto das interferências externas.

 

6.5.8.4. Posição do Fragmento na Paisagem

 

A posição que um fragmento ocupa em um terreno influencia todos os fatores já discutidos aqui anteriormente. A geomorfologia, os solos e a própria vegetação influenciam a estrutura e a composição das espécies vegetais em um determinado ambiente, assim como vão influenciar, de modo significativo, os processos após a fragmentação. Tais processos vão ser influenciados pela condição do terreno, no tocante ao regime hidrológico.

 

Ainda, a posição no terreno determina os movimentos de transporte, seja na perda ou na deposição de materiais (solo, nutrientes, sementes etc.). Tal dinâmica interfere nos processos do estabelecimento de espécies (nativas ou exóticas) nos fragmentos, refletindo na composição de espécies, assim como na fixação de árvores no solo, que ficam mais suscetíveis à queda, quando há perda de solo, por exemplo.

 

6.5.9. Tamanho Mínimo de uma População e Extinção

 

O tamanho do fragmento determina o tamanho das populações, potencialmente. Por outro lado, os números de indivíduos de determinada espécie que um fragmento irá suportar depende tanto do tamanho dos indivíduos quanto dos seus requerimentos. Mas já se sabe que quanto maior for o fragmento, maior a probabilidade das populações serem maiores e com maior capacidade de resistirem à extinção. A manutenção de uma determinada população também tem outras faces. Quanto mais tempo de vida se espera e se considera, maior deve ser a população para garantir a sua continuidade e, consequentemente, a sobrevivência da espécie. Fatores como ciclo vital e taxa de crescimento da população devem ser ainda considerados.

 

A questão do tamanho mínimo de uma população também tem sido exaustivamente discutida na literatura (Reed et alii, 1986; Murphy et alii, 1990; Ryman & Laikre, 1991; Smith & McDougal, 1991; Haig et alii, 1993; Primack, 1993 e Fernandez, 1997;), e ainda não se tem uma resposta definitiva para o caso. A análise para se chegar ao tamanho mínimo de uma população, conhecida como Análise da Viabilidade de Populações (AVP), é uma extensão das análises demográficas e procura determinar se uma espécie tem habilidade de persistir em um determinado ambiente.

 

Tentativas têm sido feitas, mesmo no Brasil, no caso de algumas espécies dos micos-leões Leontopithecus spp., utilizando-se de muita modelagem matemática e cujos resultados têm influenciado nas medidas de manejo das espécies. A primeira AVP feita para o Brasil foi para o mico-leão-dourado Leontopithecus rosalia (Seal et alii, 1990), utilizando-se o aplicativo VORTEX.

 

Sabendo-se que populações pequenas são mais vulneráveis à extinção, a partir da AVP, chegou-se ao conceito de População Mínima Viável (PMV), definido como o tamanho mínimo que uma população deve ter para garantir que sobreviva em um determinado espaço de tempo (Primack, 1993). Para se chegar a tal conceito, foram desenvolvidos alguns tipos de modelagem matemática, a AVP, que prediz estatisticamente o risco de extinção de uma determinada população de organismos.

 

Uma população mínima viável para uma determinada espécie, em um determinado habitat, seria a menor população isolada que tem 99% ou 95% de chance de sobreviver por cem anos, a despeito de previsíveis efeitos demográficos, ambientais, genéticos e catástrofes naturais. A AVP é considerada uma ferramenta útil porque dificilmente as populações podem ser monitoradas no campo e porque permite a avaliação dos efeitos da fragmentação sobre uma determinada população.

 

6.5.10. Fragmentação e Metapopulações

 

O conceito de metapopulação é relativamente recente na literatura (desde 1970) e refere-se, em termos bem simplificados, a uma população de populações (Hanski & Gilpin, 1991). População não é um conceito estático, mas pode ser definida como uma reunião de indivíduos que interagem entre si em uma determinada escala de tempo. Por sua vez, metapopulação é um conjunto de populações interagindo entre si, dentro de uma escala de tempo finita. O conceito está ligado à dinâmica de colonização/extinção de novas populações. Para Fernandez (1997), uma metapopulação é um conjunto de populações que mantêm conexão através de indivíduos que se movem entre elas.

 

A fragmentação cria situações em que populações ocupam espaços disponíveis, aumentam de tamanho e são extintas localmente, e assim acontece que espécies se dispersam de um sítio disponível para outro. Espécies em habitats efêmeros e espécies com amplas flutuações em tamanho caracterizam-se por formarem configuração variada de populações temporárias são referidas como metapopulação. A fragmentação causa ruptura em populações com distribuição espacial outrora contínua, levando-as a uma "interação" de metapopulação (Hanski & Gilpin, 1991).

 

Uma metapopulação típica possui uma população core (nuclear), com um número relativamente estável, e várias áreas-satélites com populações flutuantes (Ehrlich & Murphy, 1987; Murphy et alii, 1990 e Primack, 1993). Tais populações das áreas-satélites podem vir a se tornar localmente extintas em períodos desfavoráveis, mas tão logo as condições se tornam mais favoráveis, os satélites são recolonizadas por migrações a partir da área core. Como essa dinâmica é irregular, as populações, em geral em pequenos números, estão sujeitas a fatores genéticos, como depressão de endocruzamento (inbreeding) e deriva gênica (genetic drift) (Ehrlich & Murphy, 1987; Primack, 1993 e Fernandez, 1997).

 

6.5.11. Perda da Variabilidade Genética

 

A principal questão permanece de qualquer modo, já que existem muitas implicações genéticas em torno do assunto. Populações maiores tendem a ter maiores níveis de heterozigose que populações pequenas e isoladas. Atualmente é corrente a idéia de que a heterozigose é benéfica e a homozigose é maléfica para as populações.

 

Algumas espécies podem sofrer drásticas e temporárias reduções nas suas populações devido a eventos demográficos ou ambientais - o fenômeno chamado "efeito bottleneck" (efeito gargalo). Tais espécies tornam-se mais suscetíveis às perdas em heterozigose, com conseqüente perda da habilidade para adaptar-se às situações de mudança. Devido a muito do que já foi aqui discutido, espécies isoladas em fragmentos estariam, portanto, sujeitas ao efeito bottleneck, devido a um repentino decréscimo populacional que a fragmentação pode causar.

 

Impostas a uma reduzida população, as espécies ficam sujeitas: 1) ao endocruzamento, que aumenta a homozigose, 2) à depressão de endocruzamento ou depressão por cruzamento consangüíneo (inbreeding depression), que manifesta os efeitos deletérios do endocruzamento, e 3) à deriva gênica, que se refere a flutuações nas freqüências dos alelos, conduzindo à homozigose ou à fixação de alelos deletérios na população (Hartl, 1988). Segundo Fernandez (1997), todas estes fatores compõem o que se denomina aleatoriedade genética que, por sua vez, refere-se à perda da variabilidade genética que ocorre em populações pequenas e isoladas e que é dos processos responsáveis pela extinção local de espécies.

 

As conseqüências do endocruzamento são mais pronunciadas nos processos da reprodução das espécies, mas também pode refletir no baixo peso, no retardamento do crescimento, na diminuição da taxa de sobrevivência e na redução do sucesso reprodutivo dos indivíduos (Smith & McDougal, 1991 e Harris & Scheck, 1991).

 

As relações entre espécie e área também são consideradas no caso do tamanho do fragmento e da sustentação de espécies no ambiente. Espécies que necessitam de áreas amplas ou que necessitam de uma combinação de diferentes habitats tendem a requerer somente grandes áreas para sobreviver, enquanto que organismos com populações menores, ocorrências mais restritas e que requerem habitats menos complexos podem sobreviver em fragmentos menores (Saunders et alii, 1991). Porém, todas as espécies acabam sendo afetadas pela ruptura das condições físicas dos ecossistemas, causada pela fragmentação.

 

6.5.12. Outros Aspectos da Dinâmica dos Fragmentos

 

Em todo o mundo, pesquisadores de diversas áreas têm buscado avidamente respostas para as muitas questões que envolvem a dinâmica biológica que ocorre em fragmentos no momento do isolamento e nos anos subseqüentes. Resultado de tal esforço é o PDBF, que há quase vinte anos (desde 1979) vem sendo conduzido pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e pela Smithsonian Institution, dos EUA.

 

Como resultado geral, os estudos têm mostrado que a fragmentação de habitats altera profundamente a dinâmica florestal e que fragmentos menores que 100ha são seriamente afetados. Nos primeiros cinco e dez anos após a ruptura da floresta, são perdidos de 15% a 35% de biomassa aérea, ou seja, troncos, galhos e folhas (Laurance & Delamônica, 1998).

 

Aqueles autores relatam que, quando os fragmentos são entremeados por pastagens, os danos são maiores em relação à ação dos ventos, e há mais perda de espécies, quando comparados àqueles cercados por capoeiras, por exemplo.

 

A fragmentação de florestas na Amazônia central altera a distribuição de pequenos mamíferos, no que se refere à abundância, à riqueza e à biomassa, o que, por sua vez, conduz a mudanças nos padrões de predação de sementes, plântulas, artrópodes e ninhos de aves (Malcolm, 1997). Enquanto os pássaros insetívoros declinam drasticamente, o autor observou que ocorre o contrário com pequenos mamíferos, o que poderia ser explicado por uma melhor resposta ou "pré-adaptação" desses a ambientes secundários.

 

Resultado interessante sobre fragmentação foi obtido por Laurance et alii (1997). Trabalhando com alterações de ganho e perda de biomassa vegetal, os autores concluíram que a dinâmica e a biomassa de florestas tropicais fragmentadas estão sendo profundamente alteradas. Fazendo simulações matemáticas, os autores chegam a dados que indicam que fragmentos menores que 400ha, em paisagens antropogênicas, perdem biomassa, sinalizando constituírem-se em fontes de emissão de gases que provocam o efeito estufa.

 

Com relação aos invertebrados, sabe-se que a fragmentação altera a abundância e a riqueza de espécies e modifica as interações entre os insetos e outros organismos (Didham et alii, 1996). Também no caso dos insetos, estudos já mostram que o efeito de borda é um dos principais responsáveis pelas mudanças nos níveis populacionais. Os autores apontam que a diminuição na polinização é resultado da diminuição de insetos polinizadores e, indiretamente, pela alteração no seu comportamento e padrão de vôo. Em conseqüência, a diminuição da polinização pode levar a uma menor variabilidade genética das plantas e no número dessas, causando depressão de endocruzamento e mudanças de longo prazo na estabilidade das populações ilhadas.

 

Didham e seus colegas citam que a fragmentação pode influenciar a herbivoria, pois altera as comunidades de herbívoros, assim como seus predadores e parasitóides, o que, em última instância, causa complexas interações em variados níveis tróficos (Kruess & Tscharntke, 1994).

 

Paisagens fragmentadas geralmente são dominadas por espécies exóticas e aquelas mais abundantes, em prejuízo das espécies nativas e de interior da mata. As espécies mais tolerantes à perturbação ou que ocorrem nas margens acabam se tornando mais abundantes e reduzem os habitats das espécies de interior, com as quais competem, predam e/ou parasitam.

 

Avaliando o impacto da fragmentação sobre a regeneração de florestas, Benitez-Malvido (1998) constatou que a densidade de plântulas diminui significativamente nos fragmentos quando estes foram comparados à mata intacta. A autora também detectou que tais densidades são menores nos cantos que nos centros dos fragmentos e aumentam à medida que se vai da borda para o interior. Ficou, mais uma vez, constatado que os efeitos de borda afetam mais as plântulas que o efeito do tamanho da área.

 

De acordo com essa autora, a explicação para a diminuição de plântulas pode ser devida à perda de polinizadores e dispersores de sementes, o que diminui o contigente de sementes na vegetação. A queda prematura de árvores também contribui para diminuir a produção de sementes. Como a fragmentação altera a composição e a densidade de algumas espécies da fauna, mudanças no número de herbívoros também alteram a composição, a estrutura e a diversidade de plântulas nas florestas tropicais.

 

Também as alterações na quantidade de luz que entra nos fragmentos, na temperatura e na umidade podem provocar alterações nas possibilidades de germinação das sementes, especialmente daquelas tolerantes à sombra. O excesso de serapilheira, especialmente nas bordas, também pode alterar a germinação.

 

A fragmentação de habitats ocorre em função de atividades antrópicas. Consequentemente, as populações silvestres, especialmente da fauna, ficam mais próximas dos animais domésticos, suscetíveis às doenças, para as quais possuem pouca resistência (Primack, 1993), e à ataques e à predação.

 

6.5.13. Estradas como Agentes de Fragmentação

 

Além do desmatamento para a agricultura e a pecuária e o aproveitamento de madeiras, já mencionados, as estradas também promovem a fragmentação de habitats e mantêm-se como agentes perturbadores das relações naturais entre as espécies e o meio onde vivem, seja nos fragmentos ou não.

 

Conforme foi visto ao longo do presente documento, uma estrada, seja qual for o nível de sua pavimentação e outras características de construção, causa fortes efeitos de borda entre fragmentos e torna-se uma barreira aos movimentos da fauna e à dispersão de plantas, barreira que, às vezes, pode ser até intransponível para algumas espécies. Muito do que foi discutido anteriormente aqui sobre o isolamento de fragmentos e suas conseqüências se aplica no caso de estradas, que funcionam como intensificadoras dos efeitos da fragmentação.

 

As estradas, além de intensificarem o efeito de borda para os fragmentos, facilitam a movimentação de espécies de predadores, especialmente os mais cosmopolitas, facilitando a disseminação de espécies exóticas, doenças, fogo e poluentes de toda ordem.

 

Conforme Harris & Scheck (1991), as estradas funcionam como barreiras para a fauna, pois interferem na intensidade luminosa, velocidade do vento, temperatura, umidade, taxa de evaporação e nível de ruído.

 

Em um estudo sobre a estrada do Colono, no PNI (Rocha, 1997), Sérgio B. Rocha, funcionário da Diretoria de Unidades de Conservação e Vida Silvestre DIREC/IBAMA, discute, com propriedade, os mais variados impactos de estradas sobre ambientes naturais, passando pela fragmentação e outras questões. Decidiu-se incorporar aqui inúmeras de suas contribuições que, quando procedentes, estarão entre aspas.

 

"Os distúrbios começam com o desmatamento inicial requerido pela estrada...o processo resulta na perturbação mecânica dos solos...Perturbações similares ocorrem com a adição de serviços, elevação do leito e a manutenção da estrada... No processo de controle da vegetação nas faixas de servidão/domínio, pesticidas químicos são comumente empregados, afetando não só as espécies-alvo, mas todos os organismos das áreas próximas" (Rocha, 1997).

 

Com relação ao efeito de borda (radiação, temperatura, umidade, vento, sucessão de plantas etc.), já bastante discutido aqui, tem-se a acrescentar que no caso de uma estrada, cortando o PNI ao meio, os efeitos serão irradiados nos dois lados da estrada em direção aos dois fragmentos que passaram a existir, ampliando a sua ação negativa.

 

Ainda considerando Rocha (1997), as estradas "são áreas de captação de água, que freqüentemente é desviada do leito para a vegetação lateral por um sistema de drenagem aberto, resultando em maior umidade no solo do que o esperado nessas áreas...Em outras áreas, a vegetação pode necessitar de um fluxo lento do lençol de água pelo ambiente, para permitir a sua absorção, e o desvio da água pela estrutura da estrada freqüentemente resulta em deterioração desse tipo de comunidade...Erosão também é outro problema comum associado com a drenagem das estradas e as conseqüências são locais, com a perda de solo e desestabilização das encostas, e regionais, com a sedimentação de rios e riachos."

 

"Outros efeitos das estradas incluem os poluentes que vêm dos escapamentos dos veículos. Poluentes que vão de gases até metais pesados, como o chumbo, demarcam a faixa de domínio e causam efeitos diretos e indiretos nos organismos. Estudos mostram que níveis de chumbo, tanto na atmosfera quanto no solo, elevam-se muito acima daqueles normalmente encontrados, diminuindo à medida que se afasta da estrada". Tais estudos apontam que as evidências de acúmulo desses poluentes em plantas e animais e seu impacto na biota ao longo das estradas já é bem documentado para um grande número de espécies (Harris & Scheck, 1991). "Em estradas de terra, em climas áridos ou semi-áridos ou lugares com uma longa estação seca, o pó levantado pelo movimento dos veículos ao longo da estrada pode reduzir a habilidade das plantas para realizar a fotossíntese e acarretar sua morte em períodos de seca prolongada" (Rocha, 1997).

 

A interação entre estradas e as espécies tem sido do interesse dos conservacionistas há mais de sessenta anos, quase o mesmo tempo em que os veículos se tornaram armas tão poderosas, capazes de matar e ferir as espécies silvestres (Schullery, 1987) e chegarem a impactar e ameaçar as populações.

 

As estradas são necessárias e têm sido vistas, ao longo de séculos, como prioritárias, acima de qualquer outro esforço de desenvolvimento e qualidade de vida, como representam a conservação dos recursos da biodiversidade e os serviços que podem prestar à humanidade. Embora sejam raros os estudos que mostram o impacto das estradas sobre a fauna silvestre, por exemplo, é possível encontrar alguma estatística sobre o assunto, mas sempre em experiências de outros países.

 

Segundo dados do início da década de 90, as estradas eram construídas a uma velocidade de 6km por dia, entre os anos de 40 e 90 (Harris & Scheck, 1991), no Estado da Flórida (EUA). As estradas representam uma importante força na mortalidade da fauna, seja dentro ou fora das UC.

 

Para Rocha (1997), as estradas afetam "os padrões de atividade dos animais, bem como suas densidades populacionais. Alguns predadores oportunisticamente percorrem as margens das rodovias e outros habitats lineares à procura de presas vulneráveis e carniça. Isso não apenas leva a problemas sérios para os próprios predadores como esses efeitos permeiam as áreas naturais adjacentes por pelo menos um quilômetro. Vertebrados com ampla área de ocorrência disseminam sementes de espécies exóticas, que colonizam as margens das rodovias por uma imensa área da paisagem natural. As estradas afetam populações de animais silvestres simplesmente por possibilitarem o acesso de pessoas a uma determinada área".

 

Outro exemplo citado por Rocha (1997) refere-se ao caso de as estradas servirem para a disseminação de doenças. "Algumas doenças comuns de animais domésticos, como gatos e cachorros, são letais para a fauna silvestre, como é o caso da cinomose, que foi a causa de mortalidade de leões no Parque Nacional do Serenguetti, na África. A doença foi introduzida em Serenguetti pelos cães que transitavam pela área com seus donos. Essa mesma doença afeta as populações silvestres de lobos e raposas na Europa".

 

A cinomose, doença virótica, contagiosa, também ataca raposas e o lobo-guará no Brasil (Hospital Veterinário São Bernardo, Brasília, com. pess., 1998). "Na região PNI foi identificada uma doença de gatos domésticos que pode ter efeitos sérios sobre as populações silvestres de felinos do Parque. Doenças humanas, como a tuberculose, a hepatite B e a gripe também atingem os animais silvestres e podem ser fatais...muitas doenças ainda são desconhecidas e mesmo aquelas já estudadas não têm rastreamento epidemiológico capaz de informar as vias de transmissão. Tal fato, associado aos casos que já se conhecem, alerta para a necessidade de se evitar o trânsito em áreas protegidas. Doenças para populações isoladas podem funcionar como catástrofes capazes de extinguir ou inviabilizar demográfica ou geneticamente populações inteiras" (Rocha, 1997).

 

6.5.14. A Fragmentação e as Unidades de Conservação - O Caso do Parque Nacional do Iguaçu

 

Com o acelerado processo de fragmentação em todos os continentes e, especialmente, no Brasil, fica cada vez mais premente a necessidade de se conhecer e manejar adequadamente as UC, pois pouco restará além desses fragmentos ou ilhas de vegetação.

 

Assim, tudo que foi apresentado e discutido aqui aplica-se às UC e seu entorno, sendo a base científica da sua sustentação e a garantia que terão asseguradas as razões de sua criação. A fragmentação leva à perda das espécies e as UC, fragmentos que são, têm sua biodiversidade ameaçada. Compreender, portanto, o que acontece em um ambiente antes e após a fragmentação é importante, ainda, para direcionar as novas UC que serão criadas com bases científicas sobre o seu tamanho, sua forma, influência do entorno e outras características da sua organização.

 

À medida que as conseqüências da fragmentação forem entendidas, novas ferramentas vão sendo acrescentadas ao manejo das UC sobre a sua viabilidade e a sobrevivência de suas espécies a longo prazo, por exemplo.

 

As UC sofrem o processo de insularização. Em um primeiro momento, perdem espécies pela redução de seus habitats, à medida que a cobertura vegetal à sua volta vai sendo removida, caso ainda exista, e todo o sistema vai se reduzindo. Em um outro momento, atua a insularização que significa que a UC detém apenas uma porção de um ambiente antes contínuo e vai sofrendo extinções locais das espécies, até se "acomodar" naquilo que a área possa, então, comportar, a partir das conseqüências da fragmentação, intensamente explicadas aqui. Como se viu, áreas maiores comportarão mais espécies, e a qualidade dos ambientes do entorno vai influenciar diretamente esse número.

 

Em termos de tamanho, o PNI é razoável, mas sua longa faixa de borda (no perímetro seco) e a perda total da cobertura vegetal do entorno certamente diminuem, em muito, a sua efetividade. Ainda, outras formas de degradação direta, como a intensa caça indiscriminada que lá ocorre, a retirada clandestina e furtiva de espécies nobres de madeira e do palmito, por exemplo, e a existência de estradas (com todo impacto) no seu interior só agravam a situação. Outro ponto frágil existente no Parque refere-se à sua forma, estreita na porção centro-sul, que sofre ainda mais o impacto dos efeitos de borda.

 

Ainda, a poluição trazida pelos cursos d’água, que drenam do exterior para o interior do Parque, são outras formas de intensificação dos problemas. Assim, existem pequenas fontes de fragmentação dentro do próprio Parque.

 

Fato mais grave é a invasão e a reabertura da estrada do Colono, que separa o Parque, bem ao meio, em dois novos fragmentos. Caso tal estrada seja mantida aberta, nova avaliação será necessária sobre o que mesmo se pretende com o Parque. A análise deverá ser feita à luz dos conhecimentos que a biologia da conservação oferta aos manejadores e tomadores de decisão, o que foi aqui exaustivamente discutido.

 

Mantida a estrada, haverá duas situações distintas de fragmentação a serem administradas e a certeza de que novos cálculos terão que ser feitos sobre a menor efetividade ainda do PNI em proteger o que contém. Com mais essa fonte de degradação, efeitos da fragmentação se instalarão na área como uma verdadeira cascata. Provavelmente comprometendo de modo irreversível toda a porção centro-sul do Parque.

 

Compreendendo toda a extensão dos problemas que a fragmentação traz para uma UC como o PNI, tem-se que sua área efetiva ou nuclear ou core (não a real), para a proteção dos recursos que encerra, fica diminuída, pois perde efetividade nos trechos que sofre com a fragmentação e outras formas de perturbação.

 

Em tal contexto, é preciso, ainda, avaliar em que bases o Parque foi criado, que grupo ou grupos taxonômicos têm prioridade para a conservação, pois é comum as UC serem estabelecidas considerando um conjunto de prioridades. Aí, a partir desses grupos será possível medir com mais precisão os efeitos negativos que o Parque sofre com a fragmentação e que impacto tem isso para a área nuclear de proteção.

 

Como praticamente inexistem ambientes similares ao PNI em seu entorno, fica difícil conceber que haverá interações entre outras áreas e o Parque como, por exemplo, a existência de metapopulações. Porém, pode ser que elas existam, considerando ambientes naturais e fragmentados no interior do próprio Parque. Dependendo do tamanho das espécies que lá existam, pode se esperar, por exemplo, que extinções tenham ocorrido, estejam na iminência de ocorrer ou algumas estariam em curso.

 

Extrapolando-se os resultados obtidos para outras regiões, especialmente o caso do PDBFF, pode-se prever que os seguintes problemas estão em curso (devido ao tempo em que a estrada do Colono já se encontra aberta) e/ou deverão se instalar na área:

 

invasão de plantas nas bordas da mata, nos dois lados da estrada;

 

floresta, de ambos os lados, mais suscetível ao vento como recentemente ocorreu, por três vezes, no PNI, onde o vento derrubou parte da floresta no seu interior;

 

drenagem afetada, com mais sedimentos nos cursos d’água próximos à estrada; conforme observado;

 

represamentos e poluição de cursos cortados pela estrada, o que pode ser maximizado pela topografia;

 

instalação de outros efeitos de borda no local (ambos os lados da estrada), como: a) aquecimento dos ambientes com o aumento da temperatura e maior amplitude térmica (ao longo do dia); b) diminuição da umidade, c) menos água no solo, d) dessecação dos ambientes, e) maior suscetibilidade ao fogo e f) invasão e aumento de espécies invasoras;

 

perda de habitats;

 

redução de populações e

 

maior suscetibilidade das espécies à extinção.

 

Em médio e longo prazos, ainda, efeitos genéticos deletérios, como discutido anteriormente, alteração na polinização e mudança na sucessão e estrutura da mata. A estrada ainda provoca de imediato a poluição do ar, da água e do solo, causa o atropelamento de animais, altera padrões de comportamento entre predador e presa, provoca o isolamento dos animais e dissemina doenças.

 

Em síntese, ocorre o que se denomina a falência dos ecossistemas, especialmente os mais próximos à estrada. É preciso acompanhar o que vem acontecendo no local e procurar atrair pesquisadores para estudo da dinâmica que se instalou no local.

 

Com relação ao entorno, é preciso avaliar os fragmentos que ainda existem, e tentar o envolvimento dos proprietários em uma campanha de proteção desses remanescentes, especialmente os mais próximos dos limites do PNI.

Considerando a ocorrência de grandes predadores no Parque, como a onça-pintada, há de se investigar casos de possíveis processos de endocruzamento e/ou outras formas de manifestações genéticas deletérias, como discutido aqui antes, e se o PNI tem tamanho e recursos suficientes para garantir a sua proteção. Cabe lembrar que a onça-pintada tem um grande significado para essa UC e é objeto de estudos detalhados (Crawshaw, 1995).

 

Hão de se empreender estudos específicos de algumas espécies e promover a sua AVP, para se conhecer se a UC possui populações mínimas viáveis e direcionar o manejo de espécies mais prioritárias, por exemplo. O grau de sucessão da vegetação, em muitas casos secundária, no interior do Parque, e a fenologia, dispersores etc. de algumas espécies demonstrariam a dinâmica florestal como estável ou em insularização.

 

Será necessário que o manejo do PNI seja conduzido envolvendo a recuperação do seu entorno, inclusive tentando diminuir as pressões crescentes advindas daí, que vêm sendo impostas ao Parque nas mais variadas formas de manifestações. Hão de se buscar todas as possibilidades de recuperação do que ainda resta, para incorporar valor ao PNI e não o contrário.

 

Estudando e compreendendo um pouco que seja a fragmentação de habitats, a lição principal que fica, de todo o conhecimento gerado até agora, é que o manejo do PNI não pode ser feito a partir do seu interior, mas antes considerar que, isolado como está, as forças mais importantes (e ameaçadoras) são as que vêm do exterior para dentro da UC e, a partir daí, considerá-lo no contexto de manejo de paisagem.

 

Julgando a velocidade com que o ser humano vem empreendendo na destruição dos ambientes naturais, em um futuro próximo, as UC, resistindo a todas as formas de pressão, consistirão na única maneira de se ter acesso a estudos da história natural, da dinâmica e da conservação de ambientes tropicais, que outrora desafiavam o poder que um organismo vivo pode exercer sobre o outro.

 

6.6. Aspectos Culturais e Históricos

 

As pesquisas de campo da arqueologia, que previam enfoques amostrais em três espaços da UC, foram realizadas em janeiro e abril 1998. Em uma primeira etapa foi trabalhada a área das Cataratas e, em uma segunda, vistoriada a divisa seca do Parque, desde a altura do rio Represinha até o rio Benjamim Constant, incluindo prospecções na mata, claro, em ambos os trechos do PNI.

 

Foram registrados 28 locais contendo indícios relacionados aos períodos pré-histórico e histórico. Amostras de material foram recolhidas para análise no Centro de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da Universidade Federal do Paraná (CEPA/UFPR), em Curitiba (Chmyz & Miguel, 1999).

 

6.6.1. Etno-história da Região do Parque Nacional do Iguaçu

 

As primeiras informações sobre o atual território paranaense devem-se, principalmente, aos espanhóis, já no início do século XVI.

 

Logo após a assinatura do Tratado de Tordesilhas, em 1494*, a Coroa Espanhola enviou expedições exploratórias à área da bacia do rio da Prata. O Tratado designava a região que atualmente compreende o centro-oeste do Estado do Paraná como pertencente ao Reino Espanhol.

 

Para consolidar a posse da terra foram enviadas expedições para o reconhecimento da região. As penetrações foram feitas por terra, a partir da ilha de Santa Catarina, através dos caminhos indígenas, denominados Peabiru, ou subindo pelo rio da Prata.

 

Em fins de 1515, João de Solis deixou a Espanha com o intuito de encontrar a passagem interoceânica localizada por Vespúcio (1502), Gonçalo Coelho (1503-06) e Nuno Manuel e Cristóvão de Haro (1513-14). Nos primeiros meses do ano seguinte, Solis adentrava a bacia do Prata, esclarecendo que não se tratava da passagem interoceânica relatada pelas expedições anteriores. Sua expedição não ultrapassou os limites da atual República do Uruguai. Quando lá desembarcaram foram atacados por índios Guarani, os quais dizimaram grande parte dos integrantes, inclusive Solis.

 

Os remanescentes da expedição, comandados pelo sobrevivente Aleixo Garcia, iniciaram nova aventura por terra no ano de 1521, utilizando-se do sistema de caminhos indígenas Peabiru. A rede de caminhos, partindo de São Vicente, em São Paulo, atravessava todo o território paranaense, no sentido leste-oeste, até o rio Paraná, na altura da foz do rio Piquiri. Saindo do atual território brasileiro, cortava o Chaco paraguaio, chegando aos planaltos peruanos e dali ao Oceano Pacífico.

 

Aleixo Garcia, ajudado por indígenas conhecedores do trajeto, chegou até a serra do Prata (Andes), ali obtendo ouro e prata. Entretanto, quando retornavam em direção à ilha de Santa Catarina, foram atacados por grupos de indígenas, resultando na morte de Garcia e de muitos homens que o acompanhavam. Alguns sobreviventes lograram chegar ao litoral catarinense, levando consigo as riquezas que haviam espoliado.

 

Sebastião Caboto, entusiasmado com as notícias da expedição de Garcia, deixando o litoral pernambucano onde estava assentado, rumou à Santa Catarina, empreendendo viagem, em 1527, em direção ao rio da Prata, fundando na confluência com o rio Carcanhará o porto Sancti Spiritu, local que serviria de base para a exploração da região. Essa primeira povoação teve duração efêmera, sendo destruída pelos indígenas (Colodel, 1988).

 

Durante esse período aconteceram, também, algumas incursões de portugueses atraídos pelos relatos das riquezas daquelas terras. Preocupado com as investidas dos portugueses, o governo espanhol enviou uma expedição com a missão de fundar povoados, assegurando, assim, a posse definitiva do território ao reino espanhol.

 

A expedição partiu da Espanha em 1535 comandada por Pedro Mendoza, fundando o porto de Nuestra Señora Santa Maria del Buen Aires, em 3 de fevereiro de 1536. A partir dessa povoação, subiu o rio da Prata, onde fundou os aglomerados de Corpus Christi e Nuestra Señora de Buena Esperanza. Logo após a fundação desses incipientes povoados, Mendoza veio a falecer em sua viagem de volta à Espanha, deixando no comando João de Ayolas, que também não perdurou, sendo morto junto a outros companheiros por indígenas.

 

Assume, então, Domingos Martinez de Irala que, fugindo dos ataques indígenas, funda o porto de Assunção, em 1537. Esse local desempenhou importante papel na exploração da região pelos aventureiros espanhóis. Irala transfere para o porto as recém-criadas povoações de Buen Aires, Corpus Christi e Buena Esperanza, constantemente ameaçadas pelos ataques indígenas. O povoado recebeu melhoramentos urbanos e esteve sob a legislação espanhola. A partir dessa povoação foram incursionando território adentro, contando com a ajuda de índios Guarani.

 

Informações sobre os grupos indígenas contatados nessa incursão são encontradas no relato de Ulrico Schmidl, membro da expedição (Figura 45).

 

Os Cário ou Guarani habitavam grandes extensões de terra nas margens dos rios Paraguai e Paraná. Eram horticultores, praticavam a pesca e a caça. Os principais alimentos cultivados eram o milho, a mandioca, a batata, entre outros. Faziam coleta de frutas e plantas silvestres e mel em abundância. Utilizavam o algodão e praticavam o canibalismo. Segundo Schmidl: "Esto cários dominan gran território... son gente baja e gruesa y son mas resistentes que las otras naciones. Los hombres tienen en el lábio un agujerito, y por él meten un cristal de un largo como de dos jemes, grueso como el canuto de una pluma, de color amarillo y que en indio se llama parabog" (Schmidl, 1945).

 

Uma das aldeias dos Cário estava rodeada com duas paliçadas de troncos grossos, e em volta haviam trincheiras e fossos profundos com lanças pontiagudas fincadas. Essa estratégia de defesa foi adotada pelos espanhóis para a proteção dos povoados. Os espanhóis empreenderam combate com esses grupos até a sua rendição. Então, estabeleceram relações amistosas e a partir desse fato deram combate a outros grupos indígenas, inimigos também dos Cário.

 

 

Figura 45 - Mapa que acompanha o relato de Ulrico Schmidl na edição de Levin Hulsius, Nuremberg, 1599 (extraído de Maack, 1968)

 

Ulrico Schmidt descreve ainda outras nações de indígenas nas margens do rio Paraná, como os Timbu, Corondá e Quiloaza, todos falantes do mesmo idioma. Viviam da caça e da pesca. Utilizavam canoas feitas de troncos de árvores, podendo abrigar até dezesseis homens, todos devendo remar. Os homens usavam em cada lado do nariz "...una estrellita, hecha de una piedra blanca y azul, y son gente de cuerpo grande y fornido". As mulheres usavam a face pintada com desenhos azuis "...y tapan las vergüenzas com un trapo de algodón; tienen estos indios muchos cueros curtidos de nutria y muchíssimas canoas " (Schmidl, 1945).

 

Os Chaná-Salvaje encontrados nas margens do rio Paraná tinham sua subsistência baseada em pesca, caça e coleta. Não usavam vestimentas. "Es una gente igual a los salteadores que hay por Alemania: roban e asaltan y luego vuelvem a su guarida". Possivelmente habitavam o interior.

 

Os índios Payaguá, segundo Schmidt, foram os responsáveis pela morte de Juan Ayolas e sua comitiva, aliados aos Naperu. A belicosidade dos Payaguá já havia sido conhecida pela expedição de Sebastião Caboto, também atacada pelo grupo. O termo Payaguá parece ter sido utilizado como uma denominação geral para os grupos belicosos que habitavam os rios Paraguai e Paraná, recebendo outras denominações como Cadigue e Agace. Métraux cita-os como sendo piratas que, ao longo desses rios, abordavam as embarcações espanholas com suas longas canoas de imbé e saqueavam as populações que ali habitavam. Schmidt (1949) relata a existência de cemitérios Payaguá em ilhas fluviais.

 

Ulrico relata que os Curé-Maguá e os Agace viviam nas margens do rio Paraguai, onde praticavam a pesca e a caça e fabricavam "vino del algarrobas". Eram altos e robustos. Os homens usavam um "agujerito en la nariz, por allí passan una pluma de papagayo". As mulheres pintavam a face com linhas azuis e usavam desde "el ombligo hasta la rodilla com um trapo de algodón". Os sobreviventes da expedição de Caboto referem-se aos Agace como sendo os mesmos Payaguá (Métraux, 1946).

 

Pelos Maperi, que viviam agrupados em grande número, foram recebidos belicosamente. Os Maperi possuíam grande quantidade de canoas com capacidade para até vinte pessoas. Tais indígenas, possivelmente, mantinham inimizade com outros Tupi-guarani* mesmo antes da chegada dos europeus. A aliança entre espanhóis e os Cário contra essas nações pode corroborar tais relações belicosas entre os nativos.

 

Vestígios arqueológicos de três sítios situados ao norte do Município de Foz do Iguaçu, próximos ao rio Paraná, foram correlacionados com a cultura Payaguá. O material cerâmico dos sítios, a princípio, assemelhava-se muito com outras evidências encontradas na área designadas como Tupi-guarani. A análise laboratorial, entretanto, revelou características próprias, tanto nos antiplásticos utilizados na pasta, como em sua morfologia. As formas e a decoração empregadas são semelhantes àquelas descritas por Max Schmidt, da cerâmica Payaguá. Outra evidência está relacionada aos locais que abrigavam os sítios. Dois deles estavam situados em ilhas, que sofrem inundações pelo menos uma vez por ano, e um à margem do rio Paraná.

 

Dos indígenas remanescentes da cultura Payaguá, da numerosa população que existia na época do contato, restaram, em 1800, cerca de mil nativos e, duas décadas depois não ultrapassavam duzentos. Max Schmidt, em 1941-42, entrevistou os últimos sobreviventes dessa cultura.

 

A semelhança da cerâmica tradição da fase Icaraíma, na qual inserem-se os sítios citados, com caracteres da tradição Tupiguarani**, pode confirmar a relação de miscigenação entre ambos os grupos. Schmidt relata que, entre os Payaguá, eram comuns os casamentos com tribos vizinhas e mesmo com espanhóis, portugueses e paraguaios. A presença de mulheres pertencentes à família Tupi-guarani, levadas como prisioneiras, pode ser mais um indicativo das correspondências evidenciadas entre as duas culturas, na medida em que elas reproduziam o padrão cerâmico de sua tribo.

 

Ainda, aparecem descritos grupos indígenas pertencentes a outras nações como os Surucusi, os quais praticavam a horticultura, eram caçadores e pescavam, além da atividade de coleta. Os homens usavam um disco de madeira do tamanho de uma ficha de dama na orelha e as mulheres usavam no lábio uma pedra de cristal do tamanho de um dedo. Havia mais de uma aldeia.

 

Ulrico Schmidl atuou na área do Prata até princípios da década de cinqüenta, do século XVI. Em sua viagem de retorno à Europa, a maior parte do seu trajeto foi realizada por terra, utilizando-se o Peabiru, com a ajuda de índios Guarani (Figura 46). Partiu de Assunção, subindo os rios Paraguai e Jejuí, continuando por terra até a foz do rio Mondaí. Então, desceu esse rio e prosseguiu acompanhando mais um trecho do rio Paraná, até a localidade de Gingie, no atual território argentino de Missiones. Daí continuaram por terra até o médio rio Uruguai, onde tomaram um ramal que se comunicava com o Peabiru, passando pelo atual território paranaense, para atingir São Vicente, no litoral paulista, em 13 de junho de 1553 (Maack, 1959).

 

Parte do itinerário de Schmidt já havia sido percorrido anteriormente por Alvar Nuñez Cabeza de Vaca (1541-42) e, provavelmente, por Aleixo Garcia (1522-24), os quais utilizaram trechos do Peabiru e de seus ramais, porém no sentido inverso do trajeto de Schmidl (Chmyz & Sauner, 1971).

 

Muito embora, sejam significativas as descrições contidas no relato de Schmidl, as informações não são muito objetivas e a localização exata desses grupos é de difícil reconstituição. É certo que habitavam a região da bacia do Prata, explorando o sistema fluvial e os recursos da densa mata subtropical. Possivelmente, segundo a narração do referido autor, a região continha majoritariamente grupos pertencentes à família lingüística Tupi-guarani.

 

Com a morte de Pedro Mendoza, Carlos V, Imperador do Reino da Espanha, designou Cabeza de Vaca para capitanear o governo de Assunção, o qual iniciou a viagem no começo da década de 1540, em direção à área do Prata. Partindo de Cádiz aportou, primeiramente, em Cananéia, seguindo, então, até São Francisco, ao sul, e aos 29 dias do mês de março de 1941 desembarcou na ilha de Santa Catarina.

 

Da ilha de Santa Catarina, sua expedição seguiu por terra, realizando, assim, a travessia, no sentido leste-oeste do Estado do Paraná, utilizando-se dos caminhos do Peabiru. Segundo Maack (1968):

 

"...Conduzido por índios conhecedores dos caminhos, Cabeza de Vaca deixou a 18 de outubro de 1541 a costa, perto de São Francisco do Sul, com 250 homens e 26 cavalos, para atingir o curso superior do rio Iguaçu, o qual acharam na região de Tindiquera, a atual Araucária, no dia 1º de dezembro de 1541."

 

Desse local teria rumado na direção noroeste, atravessando os Campos Gerais até o curso superior do rio Tibagi, nas vizinhanças de Ponta Grossa. Seguindo para o norte, chegou à região de Abapany, habitada pelos Guarani, tomando o ramal principal do Peabiru no sentido oeste. Transpôs o rio Ivaí, acima do salto Ubá, e daí a escarpa para o terceiro planalto através do vale do rio Pedra Preta. Chegando às nascentes do rio Cantu, sua tropa descansou algum tempo, abandonando o Peabiru em seguida. Teria tomado um ramal do caminho na direção sul, transpondo o alto Piquiri e o rio do Cobre para chegar ao rio Iguaçu, próximo à foz do Cotejipe, em 31 de janeiro de 1542 (Figura 46) (Maack, 1968).

 

A expedição de Cabeza de Vaca foi a primeira a conhecer as cataratas do Iguaçu. Contando, para isso, com a ajuda dos índios que habitavam a região. Segundo o relato, os viajantes passaram por muitas tribos indígenas da nação Guarani:

 

"...Todos los cuales les salían a rescebir a los caminos com muchos bastimentos, mostrando grande placer y contentamiento com su venida, y a los indios principales señores de los pueblos les daba muchos rescates, y, hasta las mujeres viejas y niños salían a ellas a los rescebir, cargados de maíz y batatas,... y antes de llegar com gran trecho a los pueblos por lo habían de passar, alimpiaban y desmontaban los caminos, y bailaban y hacían grandes regocijos de verlos" (Cabeza de Vaca, 1947).

 

Chegando ao rio Iguaçu, foi informado pelos índios, que esse rio se comunicava com o rio Paraná, o qual também era conhecido como rio da Prata. Foram alertados, ainda, que entre os rios Paraná e o Iguaçu foram mortos, pelos grupos indígenas que ali habitavam, os portugueses enviados por Martin Afonso de Souza, para o reconhecimento da região.

 

Temendo a hostilidade dos ditos indígenas, o governador decidiu enviar parte de sua gente a cavalo, e o restante da expedição seguiu pelo rio em canoas adquiridas dos índios para reunirem-se todos no rio Paraná.

 

Aqueles que seguiram pelo rio logo se depararam com as quedas do Iguaçu, obrigando-os a retirar as canoas da água até a passagem daquele trecho:

 

"...E yendo por el dicho río de Iguaçu abajo era la corriente de él tan grande que corrían las canoas por él com mucha furia; y esto causólo que muy cerca de donde se embarcó da el río un salto por unas peñas abajo muy altas, y da el agua en lo bajo de la tierra tan grande golpe que de muy lejos se oye; y la espuma del agua, como cae com tanta fuerza, sube en alto dos lanzas..." (Cabeza de Vaca, 1947).

 

A chegada ao rio Paraná foi realizada a um só tempo, tanto pelos navegadores, como por aqueles que empreenderam a viagem por terra:

 

"...Y en la ribera del río estaban muy gran número de indios de la misma generación de los guaraníes, todos muy emplumados com plumas de papagayos y almagrados, pintados de muchas maneras y colores, y com sus arcos e flechas en las manos hecho um escuadrón de ellos, que era muy placer de los ver" (Cabeza de Vaca,1947).

 

O governo de Cabeza de Vaca não perdurou, devido às disputas internas entre os espanhóis e à instabilidade nas relações com os nativos.

Figura 46 - Esboço do itinerário de Ulrico Schmidt de sua viagem de Assunção à São Vicente, segundo a reconstrução de Maack (1968)

 

Assumindo novamente o comando, após a prisão de Cabeza de Vaca, Irala, para assegurar o domínio espanhol, funda em 1554, o núcleo de Ontiveros. A localização exata do núcleo é ainda incerta, pois como teve curta duração não chegou a se estruturar, e seus vestígios devem se assemelhar aos de uma aldeia indígena. Dois locais com tais características foram encontrados pelas pesquisas desenvolvidas junto ao Projeto Arqueológico Itaipu, no rio Paraná. Um localizava-se ao sul da área, em Foz do Iguaçu e o outro cerca de 6km acima dos extintos saltos das Sete Quedas (Chmyz,1986).

 

Em 1556, sob a determinação de Irala, o capitão Ruy Diaz Melgarejo funda a comunidade espanhola de Cuidad Real, sobre a aldeia indígena de Guairá, sendo elevada à sede da Província do Guairá, em 1600.

 

A última comunidade espanhola fundada no Guairá foi Villa Rica del Spiritu Sancto, na foz do rio Corumbataí com o Ivaí.

 

Durante o processo de ocupação espanhola na região de Guairá, a Igreja Católica esteve presente pela ação da Companhia de Jesus. As comunidades, que foram se formando na área do Prata e marginais ao rio Paraná, tinham no seus quadros administrativos e funcionais alguns setores chamados "reduções organizadas" ou "colônias de naturais". As colônias eram compostas por indígenas, estando sob a jurisdição de um clérigo, ao qual cabia a catequização dos nativos (Colodel, 1988).

 

As divergências entre os religiosos e os espanhóis não tardaram a aparecer, decorrentes, principalmente, dos interesses diversos que nutriam em relação aos indígenas. Para os espanhóis o único interesse era a sua utilização como mão-de-obra.

 

Assim, os missionários da Companhia de Jesus começaram a penetrar o interior, organizando aldeamentos de forma mais sistemática, a partir de 1610, os quais ficaram conhecidos como reduções jesuíticas.

 

É através da Província do Guairá que o domínio espanhol estende-se à região oeste do atual território paranaense. Em menos de duas décadas são formadas mais de dez reduções no oeste do Paraná, tendo o rio Tibagi como limite máximo da expansão (Figura 47).

 

Entre as reduções criadas, a redução de Santa Maria, pela cartografia jesuítica, localizava-se nas imediações das cataratas do Iguaçu, mas seu paradeiro continua desconhecido até o presente.

 

Embora priorizando os Guarani na sua obra catequizadora, os jesuítas tentaram, também, atuar junto aos índios referidos como Guayaná (Guanana ou Guanhanha), Gualacho, Chiqui, Ibituruna, Caaiguá, Cabeludos e Campeiros, na cartografia da época. Culturalmente diversos, esses índios viviam nas proximidades ou mesmo dentro dos territórios dos Guarani. A criação das reduções de Conceição de Nossa Senhora, São Pedro, São Miguel e Santo Antônio, nas margens dos rios Piquiri, Ivaí e Tibagi, dominadas pelos índios não-guarani, não prosperou porque foi estabelecida entre 1626 e 1628, quando se intensificaram as incursões portuguesas.

 

Conforme Meliá (1983), frases registradas pelo jesuíta Antônio Ruiz de Montoya, entre os índios da redução de Conceição de Nossa Senhora dos Gualacho, correspondem à língua hoje conhecida como Kaingáng, da família Jê.

 

Paralelo aos conflitos entre espanhóis e jesuítas, pela disputa do elemento indígena, os portugueses, já no início do século XVII, começaram a organizar expedições, visando o preamento dos nativos e a descoberta de metais preciosos. Mesmo com a desaprovação do governo de São Paulo, as bandeiras paulistas investiram contra os estabelecimentos jesuíticos, os quais sucumbiram em poucos anos. Sob o comando do bandeirante Antonio Raposo Tavares, as reduções do Guairá foram destruídas entre os anos de 1629 e 1632. Os sobreviventes dos ataques dos portugueses fugiram para o interior das matas ou foram transferidos para o território do Paraguai.

 

A movimentação dos bandeirantes no oeste paranaense provocou novos delineamentos políticos e econômicos em toda a região situada na margem esquerda do rio Paraná, a qual passou para o domínio português.

 

Com a desarticulação dos núcleos espanhóis e das reduções jesuíticas a região é abandonada por mais de um século:

 

"...Por muito tempo, após a retirada dos jesuítas e espanhóis, o Guairá permaneceu despovoado. Mais tarde, grupos de índios da família lingüística Jê, vindos do sul, e outros da Tupi-guarani, vindos do oeste, passaram a ocupar os espaços onde são divisados pelos novos exploradores" (Chmyz, 1986).

 

Na segunda metade do século XVIII, os portugueses voltaram a se interessar pela região, enviando expedições militares para o reconhecimento dos "Sertões do Tibagi", que abrangiam o espaço do segundo e terceiro planaltos paranaenses (Figura 48).

 

A conquista da região de Guarapuava, entretanto, foi mais incisiva somente após a instalação da Corte Portuguesa no Brasil, em 1808. As expedições na década de 60 e 70 do século anterior malograram sob as incursões belicosas dos indígenas.

 

A expedição do Tenente Bruno Costa* (1770) não perdurou mais que um mês nos campos de Guarapuava, tendo que retroceder pela falta de alimentos e pela hostilidade dos índios, denominados pela literatura da época como bugres**.

 

Em 10 de novembro de 1771 partiu de Curitiba a expedição chefiada pelo Tenente Afonso Botelho, com o mesmo objetivo de conquistar os campos de Guarapuava, sendo a décima tentativa de estabelecimento português na região oeste, além do Tibagi.

 

Transpondo o último grande obstáculo natural da região, a serra da Esperança, em 6 de dezembro, já nos campos, levantaram a insígnia da conquista, que tombaria pouco mais de um mês depois:

 

"...Levantou-se ali, então, uma grande cruz benta, ao troar de uma salva de artilharia..." (Macedo, 1951).

 

No dia seguinte construíram um rancho e uma capela e no seguinte, dia de Nossa Senhora da Conceição, rezaram a primeira missa naqueles sertões infestados de perigos. Dias depois, assentaram acampamento mais adiante, no local denominado Porto do Rio Jordão.

 

Partiram, então, excursões para o reconhecimento e pesquisa da circunvizinhança contatando os primeiros sinais do nativo aos 16 dias do mês de dezembro.

 

"... e prosseguindo, como fica dito, chegou a um capão de mato, cuja distância ao pôrto será de cinco léguas; ao pé do dito mato se achou ua trilha de gente, e daí a pouco um caminho, que teria um palmo de largo, e bem seguido, e logo assentou com os mais oficiais segui-lo para a parte do sul a ver se encontrava o gentio, (...) Prossegui-se a viagem acompanhados bastantemente dela seguindo o mesmo caminho do gentio, (...) se avistou em um alto um grande rancho de gentio, onde chegando se achou deserto de poucos dias, e nele foram vistas várias alcôfas e cestinhas em que êles têm guardados os seus pobres trastes, e entre êstes foi achada ua simitrunfa, composta de penas não mal tecidas, e ua fita branca trançada à maneira de liga, dous novelos de fio muito bem fiado, panelas, porongos, ou cabaços grandes, e um cheio de mel, (...) E prosseguindo distância de duzentas braças se achou em um capão ua roça de milho, que teria alqueire de planta já apendoado, e continuando o caminho por êle se encontravam vários alojamentos (...) Em distância de três léguas boas se encontrou também outro alojamento de três ranchos grandes, que bem acomodavam cento e cinqüenta pessoas..." (Sampaio e Sousa, 1956).

 

 

Figura 47 - Trecho do mapa das regiões do Paraguai, composto pelo Padre Luís Ernot, em 1632 (extraído de Cardiff, 1936)

Figura 48 - Mapa das expedições militares do século XVIII (extraído de Cardoso & Westphalen, 1981)

Dessa aldeia, que serviu de posto provisório, saíram alguns homens para continuar a busca. O grupo retornou quase sem nenhum apetrecho: um dos homens, João Lopes, voltou "nu só com as ceroulas, e ponche". Foi estabelecido, assim, o primeiro contato com um grupo familiar de índios que colhiam pinhão. Os nativos vendo-os correram, sendo alcançados pelos cavalos, exceto a mulher que desapareceu no capão:

 

"... fazendo-lhe logo ao longe sinais de paz batendo as palmas, com que parou o índio sobressaltado, e em extremo assustado, de que logo o tiraram o tenente um barrete de pisão vermelho... em que duvidou pegar, mas lançando-lho de cima do cavalo o apanhou antes que chegasse à terra, ficando alegre, e muito mais quando o dito tenente despindo ua chimarra de baeta côr-de-rosa lha deu..." (Sampaio e Sousa, 1956).

 

Recolhidos, no abarracamento do rio Jordão, Afonso Botelho e seus companheiros receberam a visita de vários indígenas, os quais mostravam-se amistosos e curiosos. Convidados a visitarem a aldeia, lá chegando, encontravam-se vestidos com as roupas dadas por seus oficiais e, portanto, apaziguados:

 

"...Apeados, que fomos, nos ofereceram com vozes, e acenos o abrigo dos seus pobres ranchos... e para mais os agradar entrou o tenente-coronel em um rancho quase de gatinhas pela pequenez da porta, e logo dous dêles o levaram direito ao fogo, que estava no fim do rancho, e sentando-se êles lhe ofereceram assento, o que fêz em um pedaço de pau, que ali estava, e da mesma sorte lhe ofereceram do pinhão, que se estava assando no fogo..." (Sampaio e Sousa, 1956).

 

As relações com os índios, a princípio amistosas, "...que vinham às barracas da nossa gente, tocando gaitas de tacoáras...", com as incursões mais ao interior e ao prazo de menos de um mês revelaram-se belicosas.

 

"...No dia 8 de janeiro voltou àquele pórto grandíssimo número de gentio, que se averiguou ser de diversas nasções, que confederadas se tinham unido para a traição..." (Sampaio e Sousa, 1956).

 

Sete homens, que se aventuraram a acompanhar o grupo numeroso dos nativos, foi dizimado, tendo sobrevivido apenas o capitão Francisco Carneiro. Sem recursos para resistir na região das investidas dos indígenas e já faltando-lhe mantimentos, Afonso Botelho decide retirar-se, partindo três dias depois.

 

Em fins de 1773, Afonso Botelho comandou nova entrada aos Campos de Guarapuava, erigindo pouco depois a freguesia de Nossa Senhora da Esperança, no local onde haviam ficado alguns dos seus homens quando da retirada de 1772. O estabelecimento visava assegurar o domínio português e impedir qualquer tentativa dos índios em reconquistar o segundo planalto. Situava-se, estrategicamente, ao pé da serra da Esperança, que divide os Campos Gerais de Curitiba e os Campos de Guarapuava.

 

"...aonde com dous dias de viagem podem os índios de Guarapuava chegar..." (Sampaio e Sousa, 1956).

 

Do acampamento, Afonso Botelho despachou um grupo chefiado por Paulo de Almeida aos mesmos locais que haviam erguido os ranchos e as cruzes em 1771. Paulo de Almeida e seu grupo encontraram esses locais abandonados. Prosseguindo em busca dos nativos, encontrou além uma grande aldeia empenhada nas atividades cotidianas. Os indígenas ao avistarem o grupo, esconderam-se todos nos capões próximos.

 

Os portugueses, ao entrarem na aldeia, não acharam mais que as panelas ao fogo. Assentaram acampamento nas imediações da aldeia, dela nada saqueando e sim deixando-lhes "muitas prendas".

 

Aos poucos os índios foram retornando, mas na primeira tentativa em ganhar mais um palmo daqueles campos, [resolvendo] "... o comandante ir pôr um sinal na parte até onde podia chegar... ", viu-se completamente cercado pelos nativos que cresciam em número e lhes faziam acenos, "... que demonstravam o que se lhes não entenderia de palavra, e por êles se percebeu perfeitamente diziam que voltassem para trás... Todos vinham armados em guerra, o que só se distingue pelos infeites da cabeça, e pelas flechas, e arcos com que vinham bem guarnecidos" (Sampaio e Sousa, 1956).

 

Segundo o relato da viagem, os indígenas que "a nada assentiam" arremessaram contra os portugueses suas flechas, no que:

 

"... se revolveu a descarregar sobre aqueles bárbaros una descarga de outros tantos tiros quantos eram os homens, que ali se achavam. Sofreram os índios constantes a primeira descarga, talvez julgando que as armas de fogo só serviam para ua vez, mas vendo que se tornavam a carregar, e disparar, pondo muitos as mãos onde recebiam o dano, se voltavam com todos repentinamente para o mesmo mato, onde se haviam escondido a primeira vez" (Sampaio e Sousa, 1956).

 

Diante desse sucesso, o comandante, "...conhecendo eficazmente que a Virgem e Imaculada Senhora da Conceição, protetora dessa diligência, lhe mostrava o meio de poder salvar a sua vida, e a dos camaradas que o acompanhavam...", ordenou novo disparo contra os índios "...e logo à primeira descarga, tão velozmente correram, que só muito longe se viram parar alguns".

 

Mesmo com armas de fogo, Paulo de Almeida sabia que nada poderia meia dúzia de homens, dentro daquele território que mal conheciam, ao contrário dos inimigos decididos a expulsá-los e que, se resistissem, logo pereceriam.

 

"... pois se só em menos de 24 horas se poderam ajuntar de 400 para acima, que seriam pouco mais ou menos os que se chegaram a vez, todos moços robustos, e escolhidos, o que sucederia se se demorasse ali mais tempo" (Sampaio e Sousa, 1956).

 

A expedição vai recuando pelo mesmo caminho, observando as cruzes, que haviam levantado novamente, lançadas ao chão. A mensagem era bastante clara. Não se renderiam nem às quinquilharias que se lhes ofereciam, nem ao poder de fogo do inimigo. A conquista do oeste paranaense, a partir de então, teve como principal empecilho a resistência das nações Jê.

 

A Carta Régia, assinada pelo Governo Imperial, em 1808, e dirigida ao Governador da Província de São Paulo, décadas depois, legalizou o morticínio, a usurpação e o trabalho forçado, através da violência.

 

A Carta ordenava que se principiasse a guerra contra as nações que se rebelassem ao jugo português, e que se organizassem milícias para esse fim. Também concedia aos milicianos ou mesmo aos moradores que aprisionassem os nativos o direito de utilizá-los segundo suas vontades pelo prazo de quinse anos.

 

O conteúdo da Carta é, em 1º de abril de 1809, revista pelo Príncipe Regente, a pedido do Governador da Província de São Paulo. Embora se dignasse reintegrar o caráter humanitário da conquista daqueles sertões, continuava ordenando a violência e a escravidão como último recurso.

 

Aos incessantes ataques indígenas, que se sucederam nas fazendas e povoados do oeste paranaense, se retribuíam com caçadas aos bugres. Em 1814, o Governador da Província de São Paulo declarava que os moradores de Itapeva, Castro e Apiai:

 

"...costumam fazer todos os anos uma caçada sôbre êles, e matando e ferindo e afugentando-os, apanham os que podem, os quais são logo reduzidos à escravidão mais abjeta; e, o que ainda é pior, vendidos, com ultraje da humanidade em praça pública ou leilão, sempre, debaixo do pretexto de que o objeto da venda é o serviço e não a pessoa..." (Machado, 1968).

 

Nessa época, o segundo planalto paranaense, embora despovoado, já havia sido registrado, principalmente com o nome de ricos patriotas de São Paulo, Paranaguá e Santos. E cabia que um só homem pudesse ser proprietário de mais de uma dessas grandes fazendas, que se instalaram apenas com intuito de exploração e não de colonização, até a serra da Esperança. Ao lado desses latifúndios, outras propriedades menores se instalaram ao longo da estrada que ligava Curitiba e São Paulo, geralmente ao lado dos fogos ou povoados que ali se fixaram com o comércio dos tropeiros (Machado, 1968).

 

Com a emancipação política do Paraná, em 1853, tais penetrações tinham como objetivo o mapeamento das principais vias de comunicação no interior. A partir de então, foram fundadas colônias militares e aldeamentos indígenas no interior do Estado.

 

Com efeito, a região de Foz do Iguaçu, após a passagem de Cabeza de Vaca, ficou relegada ao esquecimento até 1876, com a expedição realizada pelo Capitão Nestor Borba.

 

A Colônia Militar de Foz do Iguaçu, entretanto, somente foi instalada no ano de 1889. Designada, então, pelo Governo Imperial, coube a Comissão de Estradas Estratégicas a exploração da região para a construção de uma estrada e abertura de picada entre as Cidades de Guarapuava e Foz de Iguaçu.

 

Encarregado da tarefa, o Capitão de Engenharia Joaquim José Firmino chegou a Foz do Iguaçu no dia 15 de julho de 1889, encontrando no local um pequeno povoado composto, majoritariamente, por estrangeiros:

 

"...Por ocasião da descoberta de Foz do Iguaçu o território brasileiro já era habitado. Existiam no mesmo 324 almas, assim descriptas: brasileiros, 9; franceses, 5; hespanhoes, 2; argentinos, 95; paraguayos, 212; inglez, 1" (Brito, 1977).

 

A abertura da picada foi realizada mediante grande sacrifício, tantos eram os perigos daqueles sertões. Brito relata a desistência de alguns homens da expedição:

 

"...Das primeiras 7 léguas de picada por diante, appareceram vestigios de indios selvagens, facto que occasionou ter sido o explorador abandonado por alguns operários da turma e o descontentamento no animo dos que ficaram (...) Além disto o terreno accidentadíssimo; o ataque de tigres que rondavam e investiam contra o pessoal da turma e os animais pertencentes à mesma a ponto de devorar alguns destes. A travessia de rios caudalosos (em numero de 16) não impediram o tenente Firmino, de marchar..." (Brito,1977).

 

Mais adiante, ao atravessar o rio Henrique Dias, a expedição encontrou uma picada, a qual era utilizada pelos ervateiros paraguaios. A exploração da erva-mate e a extração de madeira, por grupos estrangeiros, era uma atividade corriqueira naquela região. Isolada do resto do País, são as empresas argentinas e paraguaias que primeiro se beneficiaram do comércio daqueles produtos. Mesmo com a fundação da Colônia em Foz do Iguaçu, a área continuaria, durante um longo período, sofrendo o isolamento imposto pelas longas distâncias e a falta de vias de comunicação. A Colônia, nos primeiros anos de funcionamento, abrigou muitos ervateiros que já se encontravam ali, e as atividades extrativas exercidas na região continuaram sendo, predominantemente, estrangeiras.

 

Nessa época, sob a responsabilidade de Brito, muitos índios Cayuá, que perambulavam pelos sertões, foram aldeados em Catanduvas:

 

"...Os referidos Guaranys não fallavam mais o seu idioma primitivo, sim um dialéto, corrupção deste idioma, tanto assim que o chefe da commissão e outras pessôas entendidas denominaram-n’os de Cayuás, ou cabelludos, por terem os cabellos compridos como o das mulheres. (...) É costume entre os indigenas, os velhos faserem os moços conhecer o passado desde os primordios. Em obediencia a este costume, os velhos abrem-lhes as folhas do livro verbal que receberam dos seus antepassados..." (Brito, 1977).

 

Os Cayuá viviam nas imediações do rio Paraná, próximo às Sete Quedas, porém tiveram que abandonar a região devido aos ataques de outros grupos conhecidos como Caingá ou Kamg ou, ainda, Coroados, os quais pertenciam à família lingüística Jê. As relações belicosas entre os Tupi-guarani e os Jê estão sempre presentes nas referências sobre os indígenas.

 

O autor salienta o estado de depredação encontrado nas áreas de Foz do Iguaçu e Guarapuava e as riquezas que ainda restavam em suas reservas florestais:

 

"...Com excepção da familia das palmeiras, "onde canta o Sabiá", que no segundo não canta mais, porque não há em absoluto, devido a barbara devastação que soffreu e soffre dos estrangeiros saccadores de herva-matte e madeira (...). Se não há palmeira nesta região em compensação há o gigante pinheiro (...). A fauna é riquissima: Há o tigre (onça) pintado, o preto e o canguçu..." (Brito, 1977).

 

Abundavam na região outros animais como o tamanduá-bandeira e outro menor; duas variedades de anta, uma grande e outra pequena (denominadas pelos cablocos de "cambicica"); duas de veado, o pardo e outro menor chamado "capororóca", o queixada, o cateto e o quati.

 

Outras descrições de indígenas, que habitavam a região de Foz do Iguaçu e suas imediações, são relatadas por Juan B. Ambrosetti, logo depois da instalação da Colônia:

 

"...El area que ocupa la Colonia, está cubierta de selva virgem impenetrable, que há sido necessario voltear y quemar en parte, para poder edificar y plantar" (Ambrosetti, 1895b).

 

A etnografia levantada pelo pesquisador argentino é referente aos grupos Cainguá e Kaingáng, pertencentes às famílias lingüísticas Tupi-guarani e Jê, respectivamente.

 

As aldeias Cainguá investigadas localizavam-se na área do "Alto Paraná" e uma a meio caminho da picada entre Foz e Guarapuava. Segundo o autor:

 

"...Los Cainguas formam una nación poderosa que, en su mayor parte, tiene sentados sus reales en el territorio paraguayo, com una dispersión geografica vasta; puede decir-se que, en el Alto Paraná, ocupan la región boscosa hasta Iuitorocai y se internan hasta muy al centro, rodeando casi la maior parte de los herbales..." (Ambrosetti, 1894).

 

Esses grupos executavam músicas com grande habilidade. Na ocasião, entre seus instrumentos nativos (flautas, pitos, tacuaruzú-bombo e guitarra, tambores e porongo de baile), figuravam outros adotados da cultura européia como violões e violinos. Possuíam muitos cantos relacionados `as práticas religiosas e realizavam os "bailes".

 

Os Cainguá possuíam dois tipos de habitação: as provisórias, feitas de ramagens de palmeira, e aquelas mais estáveis, os "tapuís" que, situadas numa clareira do interior das florestas, possuíam dimensões variadas, com paredes feitas de pau-a-pique, cruzados com taquaras partidas ao meio, amarradas com cipó, revestidas em ambos os lados com grossa camada de barro, revelando a aculturação que vinham sofrendo.

 

Eram horticultores, praticavam a pesca, a caça e a coleta de alimentos silvestres. Obtinham o fogo pela fricção de varetas. Suas vestimentas eram as batícolas (peças de algodão com 50cm de comprimento e 1m de largura), usadas pelos homens amarradas na cintura com um cinturão de pano. As mulheres usavam uma espécie de canga de algodão da cintura até o joelho. Compunham o traje, ainda, vários adereços, como o payé (amuleto), o bocoy (pequena bolsa de couro), adornos de pluma, sementes, colares, tembetás, entre outros. As pinturas faciais realizadas pelas mulheres também foram evidenciadas.

 

As atividades de tecelagem, cestaria e cordelaria eram realizadas pela mulher. Tais produtos eram, também, comercializados com outros grupos. A cerâmica estava sendo substituída por recipientes de metal.

 

Ambrosetti (1895a) contatou, também, os Kaingáng, que habitavam o oeste do Paraná, percorrendo as selvas do Piquiri, Ivaí e Iguaçu. Formavam pequenos bandos, explorando os recursos naturais da região em estado de nomadismo. Praticavam uma agricultura incipiente, sendo o milho o principal produto cultivado. Todavia, a base da alimentação estava substanciada nas atividades de caça, pesca e coleta de vegetais e mel. Frutos silvestres como mamão-jaracatiá*, jabuticaba, vacu, guabiroba, araticu e pindó eram consumidos, também, assados. Na ausência do milho ou mandioca, produziam farinha do pindó. Coletavam insetos como o tambu, o qual poderia ser consumido cru ou frito.

 

A caça de animais de pequeno e médio porte era praticada através de técnicas de aprisionamento ou abate. A técnica comumente empregada na pesca consistia no aprisionamento dos peixes em cestos (paris) colocados no rio. Costumavam utilizar a defumação para conservá-los durante um período maior de tempo. O fogo era obtido, além da fricção de varetas, por meio de pederneira.

 

Consumiam bebidas alcóolicas feitas de mel e milho nos "bailes". Para essas festividades, de cunho religioso, os indígenas ornamentavam-se com pinturas corporais pretas, cocares de plumas coloridas e outros adornos fabricados com sementes, dentes e contas. Os homens usavam o kuru, espécie de grande manto quadrado amarrado no ombro e uma peça de tecido parecido com uma camiseta muito curta sem mangas. Utilizavam como instrumentos musicais flautas, trombetas de taquara, chocalho e um instrumento parecido com o taquaruçu-bombo dos Cainguá, que produzia uma sonoridade surda. A dança, realizada durante a cerimônia, consistia na disposição dos homens em fila, cada qual empunhando o taquaruçu. Começavam os movimentos com uma espécie de marcha, seguindo o ritmo da batida e, de quando em quando, a marcha era interrompida com pequenos saltos.

 

Fabricavam tecidos a partir da fibra de urtiga-braba com os quais confeccionavam o traje masculino e o feminino. As mulheres usavam uma espécie de saiote preso na cintura com uma faixa tecida de araticu e broto de taquara.

 

A produção de cerâmica, na ocasião, estava sendo abandonada em função da adoção de recipientes de metais. Praticavam outras atividades artesanais como a cestaria e a cordelaria que, ao lado da tecelagem e da olaria, eram realizadas, majoritariamente, pelas mulheres.

 

No começo desse século os remanescentes dessa cultura foram observados pelos Antropólogos Herbert Baldus e J. Vellard.

 

Após a fundação da Colônia, a situação de abandono continuou inalterada. A população era composta, majoritariamente, por argentinos e paraguaios, trabalhadores dos ervais, que vieram fixar residência no território brasileiro, e por pequeno número de brasileiros, representados pelos militares e funcionários do governo.

 

O comércio restringia-se a alguns estabelecimentos, propiciando que o fluxo intenso das transações de mercadorias acontecesse por via fluvial. Posadas, na Argentina, era o principal centro de abastecimento da Colônia.

 

Silveira Neto descreve a agitação vivenciada na Colônia quando da chegada dos vapores argentinos Edelyra e España e, também, pela movimentações dos peões e das tropas, que vinham prover o abastecimento dos acampamentos ervateiros. A bordo dessas embarcações estrangeiras eram adquiridos até mesmo produtos da pequena lavoura e aves domésticas, uma vez que a indústria extrativa, sendo mais lucrativa, absorvia toda a atividade, em detrimento da produção da agricultura de subsistência (Silveira-Neto, 1939).

 

Esse quadro propiciou, por um lado, que a moeda argentina circulasse livremente na Colônia e mesmo nas repartições públicas. Por outro lado, a língua mais falada na região era o castelhano. A dependência comercial da Colônia ao mercado argentino e a exploração dos recursos naturais pelas empresas platinas podem ser entendidas como o resultado do isolamento geográfico da região do extremo sudoeste do Paraná com o restante do Estado.

 

Para se atingir Foz de Iguaçu, partindo de Curitiba, o percurso era feito por via marítima, de Paranaguá a São Francisco e daí à Montevidéu e Buenos Aires, e depois por via fluvial, subindo o rio Paraná até Rosário, Corrientes e Posadas, na Argentina, para, então, alcançar Foz.

 

Em fins do século passado, logo após a Proclamação da República, a Colônia sofreu novo retrocesso com a passagem dos revolucionários federalistas, os quais invadiram e saquearam o povoado, ocasionando a fuga de parte dos habitantes, dentre os quais muitos não mais retornaram. Outro fator que levou ao abandono da região pelos moradores foi a insegurança gerada pela não-legalização da posse da terra.

 

Com a Proclamação da República, em 1889, o Governo do Paraná concedeu vastas extensões de terras, devolutas da União, no sudoeste do Estado, a grupos estrangeiros para a exploração da indústria do mate e da madeira. As concessões visavam a colonização e o desenvolvimento da região. Entretanto, tal objetivo nunca chegou a ser alcançado, pois grande parte das divisas obtidas pelo empreendimento acabava em mãos estrangeiras. Esse sistema de exploração e predação das riquezas naturais ficou conhecido como sistema de obrages, tendo durado até, aproximadamente, a década de cinqüenta do século corrente:

 

"...Essa exploração, típica desde o início do século passado na Argentina e no Paraguai, penetrou de forma natural e espontânea, pelos vales navegáveis do Paraná e Paraguai. Como o controle geoeconômico da navegação do sistema do Prata pertencia à Argentina, foram os obrageros desta nação, os principais responsáveis pela introdução desse sistema em território brasileiro, ou mais especificamente: paranaenses e matogrossense..." (Wachowicz, 1982).

 

O processo de exploração predatória dos recursos naturais tornou-se mais acelerada:

 

"...Dos portos ribeirinhos saíam jangadas de toras de madeira de lei e embarcações carregadas de erva-mate com destino à Argentina. A exploração ia implacavelmente esgotando por dezenas de quilômetros a faixa de terra paralela ao grande rio, sem que nada de positivo restasse para o País. Também explorada era a mão-de-obra da população engajada naquela atividade, à nível de escravidão, subjugada pela prepotência dos capatazes..." (Chmyz, 1982).

 

Em pouco tempo a região sudoeste do Estado foi ocupada por dezenas dessas obrages e por milhares de trabalhadores:

 

"...Essa numerosa mão-de-obra não era brasileira, era preferencialmente paraguaia, i.é., guarani. São os denominados guarani modernos, descendentes dos índios aldeados pelos jesuítas, nas suas famosas reduções de Mato Grosso, Paraguai, Paraná e região missioneira. Muitos deles miscigenaram-se com as populações rurais, surgindo essa numerosa população que Darcy Ribeiro denomina de guarani modernos. Essa população de origem indígena, falando o guarani, há séculos convivendo com as populações brancas, consideradas civilizadas, é que vieram fornecer a leva principal de mão-de-obra para a implantação das obrages, tanto na Argentina, como no Paraguai e no Brasil..." (Wachowicz, 1982).

 

O Município de Foz de Iguaçu é criado em 1914 integrado a esse sistema econômico. Todavia, até o início da década de 20, o Município continua isolado dos centros urbanos mais próximos, sem vias de acesso rodoviárias.

 

Em 1920 é inaugurada a estrada Guarapuava/Foz do Iguaçu. A inauguração foi realizada com uma viagem oficial, na qual estavam presentes várias autoridades da Capital.

 

Segundo o relato, a passagem da comitiva era esperada pelos moradores como um acontecimento inaudito. Eram recebidos nas cidades, ao longo do trajeto, pelas autoridades locais com toda a pompa e festividades.

 

A Cidade de Foz, nessa época já era iluminada com luz elétrica, possuía estação telegráfica, dois hotéis e um hotel-cassino, defronte às Cataratas, em construção. Suas ruas foram niveladas, em função do terreno acidentado e, algumas delas eram arborizadas. A população estava estimada em cinco mil habitantes.

 

Instalaram-se na região as empresas ervateiras de Domingos Barthe, Nunez Gybaja & Cia., Júlio Allica e outras menores, como a de Fulgencio Pereira, Hygino Alegre, Cafferata, Pacifico Modela, Leandro Irmãos e Carvalho, as quais trabalhavam com numeroso pessoal contratado, em geral paraguaios e argentinos.

 

O Município contava com algumas indústrias: um engenho de serra e uma fábrica de farinha de mandioca, ambas de propriedade do prefeito Jorge Schimmelpfeng, e duas fábricas de aguardente.

 

As estradas e os portos existentes ao longo do rio Paraná, assim como outras benfeitorias, foram construídas, principalmente, pelas próprias indústrias extrativas. Dos portos destacavam-se os de Santa Hellena, da empresa de Domingos Barthe, São Francisco, de Nunez Gybaja & Cia., Britannia, da Companhia de Madeiras do Alto Paraná, Artaza, de Júlio Allica, e Mendes, de Larangeira. Como a margem do rio era muito íngreme, os portos funcionavam com uma espécie de elevador mecânico, conhecido como zorra (funicular).

 

Jaime Ballão narra sobre os saltos de Santa Maria, distantes 29km da Cidade de Foz do Iguaçu:

 

"...A estrada que nos conduz às cataratas, é uma rua, através da floresta virgem, por onde os autos passam, voando, a sombra das grandes árvores seculares. Em alguns pontos a estrada parece um túnel, coberta como se acha pelos frondosos galhos de gigantes ipês e outros reis da floresta..." (Ballão, 1921).

 

A construção da estrada rodoviária Guarapuava/Foz, entretanto, não contribuiu, significativamente, para a mudança da situação de isolamento da região. Quando chovia a estrada tornava-se intransitável e, mesmo nas épocas de estio, algumas carroças que se atreviam a levar mercadorias provenientes de Curitiba, chegavam com tal atraso, que as duplicatas venciam antes da chegada dos comboios (Andrade, 1941).

 

Na década de vinte, a Cidade é novamente ocupada por mais um movimento revolucionário. Em 24 de setembro de 1924 Foz do Iguaçu é invadida, sob o comando de Juarez Távora, por um grupo de quinze soldados, tornando-se durante um período de seis meses a sede do comando revolucionário da Coluna pelo Brasil. A ocupação da região pelos tenentes revoltosos ocasionou a fuga de parte da população e a estagnação da economia. Muitas empresas estrangeiras foram invadidas pelas tropas revolucionárias, tendo suas sedes queimadas. Entre outros, por ali passaram Luiz Carlos Prestes, João Alberto Lins Barros e Siqueira Campos.

 

O contato com as frentes revolucionárias e o descaso com que o governo estadual tratava a região levaram a adesão, pela maioria dos habitantes, às idéias de nova divisão do País, presentes entre parte da intelectualidade brasileira. Com a revolução de 1930 essas propostas corporificam-se com a sugestão da criação dos territórios federais, entre os quais o Território Federal do Iguaçu, o qual só será levado adiante no período do Estado Novo (1937-1945) (Wachowicz, 1985).

 

A revolução de 30 foi um momento de redefinições para a região de Foz de Iguaçu, no sentido de sua inserção política e socioeconômica ao Estado. Nomeado interventor federal no Paraná, Mário Tourinho determinou várias medidas para a nacionalização da região. Esse movimento ficou conhecido como "Marcha para o Oeste" e objetivava a consolidação das fronteiras com a Argentina e o Paraguai. Visava o uso obrigatório da língua portuguesa e da moeda nacional no comércio e nos serviços públicos, além de anular concessões de terras a grupos estrangeiros. Com essas propostas o interventor procurava conter o avanço das idéias separatistas que imperavam desde os anos vinte.

 

A anulação das concessões de terras feitas às companhias colonizadoras do Rio Grande do Sul fez com que se formassem grupos de pressão junto ao Governo Federal, provocando o afastamento de Mário Tourinho. As companhias visavam a colonização do sudoeste do Estado por populações vindas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Em decorrência da valorização das terras na região, interessava, principalmente, a elas, a criação do Território Federal do Iguaçu, desligado do governo do Paraná, administrativamente.

 

A proposta de criação do Território Federal do Iguaçu foi efetivada em 1943, aproveitando-se do Artigo 165, da Constituição de 1937, o qual estabelecia que a faixa de 150km de terra ao longo da fronteira não poderia ser comercializada, colonizada ou receber estradas sem a aprovação do Conselho Superior de Segurança Nacional (Wachowicz, 1985).

 

Foz do Iguaçu, todavia, foi a capital do Território por apenas oito meses. Após esse período a sede foi transferida para Laranjeiras do Sul, alegando-se para isso a proximidade com outros centros urbanos.

 

Com o término do Estado Novo, em 1945, e com a votação da nova Carta Constitucional, em 1946, foi aprovada a emenda, que Bento Munhoz da Rocha apresentou com o apoio do então interventor federal no Paraná, Brasil Pinheiro Machado, reintegrando o Território Federal do Iguaçu ao Estado do Paraná.

 

Assim, até a década de 70, a região oeste e sudoeste do Estado foi colonizada por colonos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Ao lado das grandes propriedades, instalam-se outras menores, voltadas para a policultura baseada na mão-de-obra familiar com baixa tecnologia (Karsten & Ferreira, 1989).

 

Com efeito, esse novo delineamento na ocupação do sudoeste foi, também, o resultado da falência das indústrias estrangeiras do mate, que já na década de 30 apresentavam sérios problemas, resultantes, em parte, da nova legislação, que impunha o emprego majoritário de mão-de-obra nacional.

 

A região de Foz do Iguaçu, todavia, continuou enfrentando os mesmos problemas estruturais do começo do século. Ainda faltavam estradas, telecomunicações, aeroportos e uma infra-estrutura turística eficiente. O comércio continuava voltado ao mercado argentino (Karsten & Ferreira, 1989).

 

A intenção separatista manifestou-se novamente em 1968 com a tentativa de criação do Estado do Iguaçu. Embora reunisse lideranças representativas das regiões oeste e sudoeste do Estado, o movimento não obteve êxito. Porém, a partir de então, o governo do Estado passou a designar verbas mais significativas para a região (Wachowicz, 1985).

 

Somente na década de 70 grandes transformações vão impulsionar o crescimento de Foz. Nesse período, acompanhando a tendência do oeste e sudoeste do Estado, a economia do Município volta-se para a produção especializada de grãos para a exportação, com a mecanização do trabalho agrícola e a constituição de grandes latifúndios.

 

Outro fator que teve grande impacto sobre a região foi a construção da UHE de Itaipu. Suas obras atingiram áreas urbanas e rurais do Município de Foz de Iguaçu, São Miguel do Iguaçu, Medianeira, Matelândia, Santa Helena, Marechal Cândido Rondon, Terra Roxa e Guaíra, desalojando grande número de colonos.

 

A UHE gerou, por parte do governo federal, significativos investimentos na Cidade de Foz, melhorando os serviços de telecomunicação, ampliação do aeroporto e mesmo abrindo novas avenidas e construção de bairros inteiros, para alojar os funcionários de Itaipu.

 

A Cidade recebeu, também, investimentos por parte da iniciativa privada, principalmente, na ampliação e na modernização da infra-estrutura voltada ao turismo e no setor de serviços em geral.

 

Essas mudanças foram acompanhadas por um crescimento demográfico sem precedentes. Em 1970, a Cidade contava com uma população de 20.147 habitantes, passando para 101.447, em 1980.

 

Com a concretização das obras da UHE houve uma diminuição dos investimentos na região. Entretanto, isso não significou a estagnação da economia do Município de Foz. Os melhoramentos efetuados, durante a construção de Itaipu, permitiram que a Cidade continuasse crescendo, explorando o potencial turístico e a produção de grãos para a exportação (Karsten & Ferreira, 1989).

 

Os problemas fundiários de expropriação da terra, resultantes tanto da construção de Itaipu, como da nova política agrícola do Estado, desencadearam o Movimento dos Sem Terra do Oeste do Paraná (MASTRO).

 

Com a construção da UHE de Itaipu, assim como em outros empreendimentos hidrelétricos, foram desalojados indígenas residentes nas áreas afetadas pelas obras e pelo reservatório. No caso da Itaipu, a nova reserva destinada ao grupo não foi aceita pelos indígenas, que alegavam não haver no local recursos suficientes para sua sobrevivência. O parecer do antropólogo Edgar de Assis Carvalho (Carvalho, 1981), designado pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA), demonstrou o descaso com que as autoridades conduziam a questão dos Avá Guarani do Ocoí-Jacutinga:

 

"...Em julho do corrente ano, o "Foz do Iguaçu" afirmava de modo contundente que "a FUNAI surpreendeu a todos por sua omissão, eis que só tomou conhecimento da reserva através do CIMI, órgão da Igreja..." Mais adiante reiterava que a "Itaipu não revela o menor interesse em que aquela área seja reconhecida como reserva indígena, pois neste caso a Empresa Binacional terá que esperar novo e específico decreto desapropriatório emanado da Presidência da República para poder remover os índios para inundar" (Carvalho, 1981).

 

Os subterfúgios adotados pelo órgão tutelar, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI), foram severamente criticados por Carvalho, uma vez que o atestado de indianidade estabelecido desclassificava a maioria do grupo:

 

"...Com mais esse ato de vandalismo cultural, fere-se frontalmente a lei 6.001, rompe-se com os direitos constitucionais, nega-se o exercício da diversidade a um grupo indígena que se configurou como habitante imemorial da área. Urge que o Estado cumpra com suas funções, nos estreitos limites da lei 6.0001/73, destinado à comunidade indígena, de acordo com o artigo 20, parágrafo 3º, "área equivalente à anterior, inclusive quanto às condições ecológicas". Que se respeite a história cultural de cada grupo indígena, que se imprima significado positivo à auto-identificação étnica, esses serão os requisitos mínimos, senão indispensáveis, para que as culturas indígenas em seu conjunto possam exercer sua diversidade no corpo da Nação brasileira" (Carvalho, 1981).

 

O conflito durou até a década de 90, sendo concedida uma área do entorno do lago de Itaipu, situada no Município de São Miguel do Iguaçu.

 

A demarcação das terras indígenas no Estado do Paraná foi desde sempre uma questão conflituosa, como em quase todo o País.

 

Como exemplo, em 1949 o governador do Estado do Paraná, Moysés Lupion, concedeu ao grupo Slavieiro uma área de 6.000 alqueires, até então, ocupada pelos índios do antigo aldeamento de Mangueirinha. O litígio durou décadas e, em 1979, a decisão veio a favor do grupo econômico.

 

Foram muitos os problemas enfrentados pelos remanescentes das inúmeras nações indígenas, que habitavam o atual território paranaense, com a política de desenvolvimento adotada pelo governo brasileiro, a partir da década de 60.

 

Em 25 de novembro de 1983, Tupã-i ou Marçal de Souza, morador da Reserva de Dourados, líder Guarani, teria sido assassinado. Até o momento o caso não foi esclarecido.

 

Hoje, segundo a Organização Não-governamental Terra Maters, sediada em Curitiba, vivem no Paraná, distribuídos em 15 reservas, aproximadamente 12.000 índios, sendo que 3.000 estão relacionados à família lingüística Tupi-guarani e os demais à Jê.

 

6.6.2. Arqueologia da Região do Parque Nacional do Iguaçu

 

Os primeiros dados arqueológicos sobre a ocupação indígena do oeste do Paraná são devidos ao naturalista argentino Juan B. Ambrosetti. Nas duas últimas viagens em que realizou pelo rio Paraná, entre os anos de 1892 e 1894, coletou e escavou artefatos indígenas antigos nas margens do Brasil e Paraguai. Ao visitar as cataratas do Iguaçu encontrou fragmentos de recipientes cerâmicos junto aos detritos vegetais, acumulados na margem do rio, julgando-os transportados pela caudal a partir de terrenos erodidos no interior (Ambrosetti, 1895b).

 

Nos trechos desmatados, Ambrosetti registrou recipientes cerâmicos, principalmente grandes urnas, e artefatos de pedra como lâminas de machados e mãos de pilões (Figura 49). O achado de tembetás de resina, no interior de urnas, possibilitou comparações com os produzidos pelos índios Cainguá dos arredores. Estudados também pelo naturalista argentino, foi esclarecido que os Cainguá comunicavam-se através de uma língua que os relacionava à família Tupi-guarani.

 

As ocorrências arqueológicas, que se multiplicaram nos dias em que o pesquisador permaneceu na Colônia, foram devidas às atividades dos moradores locais. Encontradas durante a faina diária, em várias ocasiões, as peças foram quebradas durante a tentativa de remoção, utilizadas como depósitos de líquidos quando retiradas inteiras ou simplesmente ignoradas. Essas foram as escavadas por Ambrosetti, com a colaboração das autoridades locais.

 

Escavações foram feitas, também, em montículos de terra e pedras existentes em grande quantidade e que se revelaram estéreis aos olhos da época. Foram mencionados, ainda, artefatos de pedra lascada, entre os quais uma ponta de projétil foliácea. O acervo recolhido por Ambrosetti teve como destino o Museo de La Plata, na Argentina.

 

Mais de sete décadas transcorreram até que novas abordagens arqueológicas fossem realizadas naquela área. Com o incremento da região oeste, especialmente a partir da década de 40, o patrimônio arqueológico, cuja potencialidade foi vislumbrada por Ambrosetti, continuou a ser dilapidado, à medida em que avançavam o desmatamento e a ocupação do solo. Esse processo não excluía a área do Parque, que só foi criado em 1939. Até 1980, ainda existiam no PNI enclaves constituídos por pequenas e grandes propriedades, prejudicando o ambiente que deveria ser preservado.

 

A falta de uma infra-estrutura adequada no Parque facilitava, também, atos de vandalismo cometidos em trechos florestados e próximos da sua sede administrativa. Na década de 60, por exemplo, o CEPA/UFPR chegou a reter uma coleção de fragmentos cerâmicos, que havia sido retirada da UC por um visitante e levada para Curitiba.

 

Quando o CEPA/UFPR realizou as prospecções no sítio PR FI 8: Cataratas do Iguaçu, em janeiro de 1969, os pesquisadores foram guiados por um paraguaio designado, para esse fim, pela administração do Parque. O guia conhecia o local desde 1942 e havia presenciado a retirada, por outros visitantes, de várias urnas contendo restos ósseos humanos. Os buracos constatados na ocasião por toda a área corroboravam a informação.

 

Figura 49 - Artefatos arqueológicos recolhidos nas proximidades da Colônia Militar de Foz do Iguaçu, entre 1892 e 1894 (extraída de Ambrosetti, 1895b)

Os trabalhos de 1969, integrados ao Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas, foram originalmente estruturados para abranger um trecho da margem do rio Paraná, ao norte da Cidade de Foz do Iguaçu. A incursão ao Parque foi ocasional e em função das notícias recolhidas sobre a existência de abundante material indígena nas proximidades das Cataratas. Pensava-se que o local poderia estar relacionado com a redução de Santa Maria, que teria sido fundada pelos jesuítas do século XVII, nas cercanias. Descartada tal possibilidade, tendo em vista que as estruturas constatadas no sítio PR FI 8 referiam-se a um estabelecimento indígena não-influenciado pelos europeus, os procedimentos adotados limitaram-se à obtenção de pequenas amostras de material para estudo comparativo.

 

As pesquisas então desenvolvidas na margem do rio Paraná, desde as imediações da ilha de Acaraí até o rio Bela Vista, embora dificultadas pela ainda densa vegetação ribeirinha, possibilitaram a descoberta de dezoito sítios arqueológicos. Foram mais comuns os sítios cerâmicos e relacionados à tradição Tupi-guarani. Mostrando tendências diferenciadas na tipologia e morfologia da sua cerâmica, esses sítios foram agrupados em fases denominadas Ibirajé e Sarandi. Essa última, à qual está vinculado o sítio PR FI 8, estudado no Parque, revelou-se como a mais recente da tradição na área (Chmyz, 1971).

 

Alguns sítios cerâmicos, encontrados principalmente em ilhas no rio Paraná, apresentaram características próprias e foram batizados como pertencentes à fase Icaraíma. É possível que essa fase represente os índios Payaguá, referidos historicamente (Chmyz & Schmitt, 1971).

 

Outros sítios, finalmente assinalados por concentrações de lascas e artefatos de pedra, foram agrupados na fase pré-cerâmica Pirajuí. Vinculados à tradição Humaitá, amplamente difundida no sul do Brasil e países limítrofes, esses sítios atestaram a ocupação milenar do oeste do Paraná.

 

Novos trabalhos arqueológicos foram realizados nas proximidades do Parque, em decorrência da construção da UHE de Itaipu. Desenvolvido entre 1975 e 1983, em concomitância com as obras de engenharia civil, o Projeto Arqueológico Itaipu registrou 243 sítios nas margens brasileiras do rio Paraná, afetadas pelas edificações e reservatório do empreendimento hidrelétrico. A periodização arqueológica iniciada em 1969 foi completada e ampliada, abrangendo um espaço de tempo situado entre 6000 a.C. e 1920 d.C. (PAI, 1976; 1977; 1978; 1979; 1980; 1981 e 1983 e Chmyz, 1979; 1982; 1987a; 1987b e 1989).

 

Nessas abordagens, a localização de sítios foi facilitada pela crescente atividade agrícola da região. Com a erradicação de grande parte da cobertura vegetal primária ou secundária e o revolvimento do solo para o plantio, as evidências arqueológicas ficavam muitas vezes expostas nos campos agrícolas. Por outro lado, essa interferência ocasionou danos irreparáveis aos sítios, dispersando os seus traços e eliminando quase todas as suas estruturas. Embora ainda encerrando potencial informativo, a possibilidade da sua interpretação foi diminuída.

 

Os sítios arqueológicos encontrados em todas as pesquisas representavam os resíduos dos estabelecimentos humanos do passado. Dependendo do tipo do solo, condições topográficas do terreno e cronologia, os resíduos, que se acumularam em espaços restritos, ocorriam superficialmente ou a mais de 1m de profundidade, formando camadas. Ocupavam áreas com poucos metros quadrados, atestando rápidas atividades periféricas de coleta, caça e pesca ou maiores, com mais de 16.000m², nos quais os grupos permaneceram por mais tempo. Os primeiros constituíram sítios-acampamento e os últimos, geralmente, sítios-habitação. Em alguns dos últimos, pela disposição dos resíduos, formando pequenas concentrações espaçadas, foi possível a reconstituição topográfica das habitações, que compunham originalmente a aldeia indígena.

 

Com exceção de sítios da tradição Itararé, às vezes também identificados por estruturas em relevo, como casas subterrâneas e aterros circulares ou elípticos, os demais, de origem indígena, não apresentavam quaisquer indícios que os assinalassem acima da superfície do terreno.

 

Um sítio histórico encontrado no extremo norte da área apresentou estruturas em forma de muros alongados e paralelos, construídos de terra, pela técnica da taipa de pilão. Relacionava-se ao período de domínio espanhol, nos séculos XVI e XVII.

 

Nos sítios, conforme o estágio de desenvolvimento cultural dos seus formadores, conservaram-se, além dos indícios das estruturas habitacionais, artefatos elaborados sobre núcleos e lascas de rocha, os resíduos da sua confecção, objetos feitos de resina e ossos, fragmentos de recipientes e objetos cerâmicos e restos alimentares, representados por sementes e ossos de animais, os últimos geralmente associados com estruturas de combustão. Em poucas ocasiões foram detectados recipientes cerâmicos intactos. Mesmo as grandes urnas carenadas, enterradas com restos humanos em profundidades maiores, apresentavam-se quebradas.

 

Como resultado das pesquisas efetuadas na área de Foz do Iguaçu, foram definidas dez fases arqueológicas. As mais antigas, consideradas pré-cerâmicas e vinculadas a grupos de caçadores-coletores generalizados, receberam as denominações Vinitu, Pirajuí, Ipacaraí e Tatuí. As mais recentes, atribuídas a grupos que tinham em comum a produção de cerâmica e a horticultura, foram denominadas como fases Itacorá, Ibirajé, Sarandi, Icaraíma, Cantu e Assuna. Foram percebidos, ainda, indícios de outras ocupações que, por apresentarem traços diferentes, não puderam ser incluídos nas fases estabelecidas.

 

A fase Vinitu teve poucos sítios nas imediações de Foz do Iguaçu, sendo mais representada ao norte, em direção a Guaíra. Ocupavam áreas com menos de 1.000m² e apresentavam-se superficialmente ou formando camada a mais de 1m de profundidade. Os seus artefatos, elaborados quase exclusivamente sobre pequenas lascas e lâminas obtidas pela percussão direta. Retocadas pelas técnicas escamada, escamada progressiva e paralela, demonstram avançado conhecimento tecnológico de trabalho em pedra. Correspondem a peças bem definidas e funcionais, como pontas de projéteis lanceoladas ou foliáceas, e outras com pedúnculo e aletas, facas e muitas variedades de raspadores (Figura 50). Foram freqüentes, também, lascas não retocadas, mas usadas como facas e raspadores.

 

Mais numerosos foram os sítios da fase Pirajuí. Com áreas chegando a ultrapassar 3.000m², os seus sítios encontravam-se até 65cm de profundidade. Caracteriza-ram-na artefatos de grandes dimensões, obtidas pela percussão direta, com retoques através de lascamentos escamados e escamados progressivos. São representados por lâminas de machados, bifaces angulares, picões, talhadores e variedades de raspadores (Figura 51). Lascas e núcleos sem modificação posterior, foram utilizados como trituradores, percutores, facas, raspadores e goivas. As datações para essa fase oscilam entre 4960 a.C. e 335 a.C.

Figura 50 - Material lítico da fase Vinitu (extraída de PAI 3, 1978)

 

O terceiro grupo identificado, denominado como fase Ipacaraí, foi pouco representado em número de sítios. Suas áreas eram pequenas, alcançando, no máximo, 700m²; seus depósitos raramente chegavam até 40cm de profundidade. Os artefatos foram produzidos pelas técnicas de percussão direta e bipolar e poucos foram retocados pelo lascamento escamado. Constituem talhadores, picões, lâminas de machados e poucas variedades de raspadores (Figura 52). A datação da fase é estimada por volta de 3000 a.C.

Figura 51 - Material lítico da fase Pirajuí (extraída de PAI 2, 1977)

Pouco expressiva no extremo sul da área da UHE de Itaipu foi, também, a fase Tatuí a última pré-cerâmica definida pelas modernas pesquisas. Os seus sítios foram localizados principalmente em terrenos de várzea, onde atingiam até 140cm de profundidade e ocupavam áreas com até 3.500m². Nas camadas arqueológicas ocorreram muitas lascas residuais, obtidas pela percussão direta e pouquíssimos artefatos retocados pela técnica escamada. As peças não modificadas posteriormente, entretanto, mostravam sinais de utilização como trituradores, quebradores de coquinhos, facas, alisadores e raspadores (Figura 53). As datações situam-se entre 2115 a.C. e 660 d.C.

 

Os grupos ceramistas horticultores que passaram a ocupar a área durante a era Cristã, devem ter substituído gradativamente algumas das populações anteriores. Sendo mais numerosos, habitaram-na intensamente, implantando grandes aldeias. Cada grupo produzia cerâmica conforme os seus padrões culturais. A prática da cerâmica entre eles, porém, não excluía o uso de artefatos de pedra. Esses continuaram a ser confeccionados através das técnicas de percussão direta e escamada, mas surgiram novas tecnologias de retoque, como o picoteamento ou martelamento, alisamento e polimento. Esses retoques foram usados para a produção de lâminas de machados, pilões e mãos de pilões, além de objetos especiais, como tembetás e pendentes.

 

Figura 52 - Material lítico da fase Ipacaraí (extraída de PAI 1, 1976)

A cerâmica era confeccionada pela técnica acordelada e queimada ao ar livre. Existem exemplos de peças modeladas. Quanto ao acabamento da superfície, as vasilhas eram simplesmente alisadas ou decoradas com o auxílio dos dedos, unhas, estiletes ou espátulas, carimbos, tecidos ou trançados, sabugos de milho e tintas, resultando nos acabamentos classificados como simples, corrugado, ungulado, serrungulado, inciso, entalhado, ponteado, carimbado, escovado, pintado etc. Outros objetos eram feitos com argila: cachimbos, rodelas de fuso, suportes de panelas, carimbos e adornos.

 

Entre os grupos ceramistas, os mais numerosos foram os pertencentes à tradição arqueológica Tupiguarani. Os seus grupos foram agrupados nas fases Itacorá, Ibirajé e Sarandi. Tal divisão, que se baseou em vários traços diagnósticos, entre os quais a freqüência de decorações cerâmicas, tem conotação cronológica, sendo mais antiga a primeira.

Figura 53 - Material lítico da fase Tatuí (extraída de PAI 7, 1983)

Os sítios dessas fases eram superficiais, tinham áreas que chegavam a 13.000m², e eram normalmente constituídos por concentrações de material espaçadas. As concentrações, freqüentemente acentuadas por manchas de terra preta, correspondiam às bases das habitações e informavam sobre o padrão de implantação das aldeias. Conforme a fase, as concentrações dispunham-se em círculo, semicírculo e alinhadas em forma de L e T.

 

Os recipientes cerâmicos foram produzidos pela técnica acordelada, com grande variedade de formas, desde a pequena tigela até a grande urna carenada. A técnica da modelagem foi constatada em pequenos recipientes. Na fase Itacorá foram classificadas 37 formas de vasilhas e, na Ibirajé, 25 (Figura 54). Nas três fases o acabamento da superfície foi variado também, incluindo o simples e as decorações por pintura, engobo vermelho, corrugação, incisão, entalhe, ungulação, escovado etc. A pintura foi praticada sobre a face do recipiente previamente preparada com engobo branco. Empregando tintas vermelha, marrom e preta, executavam motivos geométricos, como triângulos, retângulos, gregas, círculos, semicírculos etc. Esses motivos foram, muitas vezes, combinados, dando à peça belo efeito visual.

 

De cerâmica foram, ainda, confeccionados cachimbos tubulares e angulares, rodelas de fuso, suportes de panelas e carimbos. Urnas contendo pequenos recipientes, adornos e Tembetás de resina e quartzo, informavam sobre os rituais funerários ( Figura 55).

Figura 54 - Morfologia cerâmica da fase Itacorá (extraída de PAI 3, 1978)

Lascas e núcleos de pedra foram utilizados como facas, raspadores, trituradores, quebradores de coquinhos e abrasadores. Os retocados por picoteamento, alisamento e polimento correspondem a lâminas de machados, mãos de pilões, pilões, pendentes e tembetás em forma de T. As datações obtidas para as fases Itacorá, Ibirajé e Sarandi cobrem uma faixa temporal que vai de 1190 d.C até 1695 d.C.

 

Em alguns sítios das fases Ibirajé e Sarandi foram encontradas peças originárias do contato inicial com os europeus a partir da primeira metade do século XVI. Quatro sítios mostraram, inclusive, fortes alterações na sua cerâmica em conseqüência do contato. Os recipiente com base plana e em pedestal produzidos pelos índios tornaram-se comuns, assim como pratos, castiçais e base de estatueta. As vasilhas decoradas com engobo vermelho aumentaram em freqüência e surgiram as que tiveram a sua face marcada com tecido e escovada com pente. Essas alterações na prática indígena tradicional comparam-se àquelas observadas nas vilas espanholas e reduções jesuíticas estabelecidas no oeste paranaense, entre os séculos XVI e XVII.

 

Figura 55 - Conjunto funerário em sítio da tradição Tupiguarani (extraída de PAI 4, 1979)

 

Os sítios da fase Icaraíma somente foram encontrados nas proximidades de Foz do Iguaçu. Eram superficiais e tinham áreas com menos de 500m². A tipologia cerâmica é muito parecida com a das fases da tradição Tupiguarani, porém, diferenças marcantes são notadas na sua morfologia e na forma da aplicação das decorações na sua superfície (Figura 56). A cerâmica Icaraíma pode ser comparada com a produzida pelos índios Payaguá, contatados pelos espanhóis nas margens dos rios Paraná e Paraguai, em 1528.

Figura 56 - Morfologia cerâmica da fase Icaraíma (extraída de Chmyz & Schmitt, 1971)

 

 

 

A fase Cantu foi muito representada. Seus sítios eram superficiais e chegavam a atingir 16.000m² de área; junto a alguns havia casas subterrâneas e aterros. A incidência de cerâmica, geralmente representada por fragmentos de recipientes simples, foi pequena. Alguns mostravam decorações por engobo vermelho, carimbo e marcas de cordel. As dez formas reconstruídas, referem-se a vasilhas de pequenas dimensões com paredes delgadas (Figura 57).

 

O material lítico foi mais abundante nos sítios, sendo elaborados sobre lascas e núcleos. Estavam presentes facas, raspadores, goivas, alisadores, talhadores, pilões, mãos de pilões, lâminas de machados e quebradores de coquinhos. Obtidos pelas percussão direta e bipolar, algumas peças foram retocadas pelo lascamento escamado, picoteamento e alisamento.

 

Não há datação absoluta para essa fase, mas a sua cerâmica ocorreu de forma intrusiva em sítios Tupiguarani, indicando a sua contemporaneidade. A fase Cantu pertence à tradição arqueológica Itararé, e é provável que esteja relacionada aos índios da família lingüística Jê.

Figura 57 - Morfologia cerâmica da fase Cantu (extraída de PAI 2, 1977)

Indícios de outro grupo indígena, assinalados por um pequeno sítio superficial, foram encontrados. Com área inferior a 100m², englobava, principalmente, fragmentos de recipientes cerâmicos simples. De qualidade inferior, em relação à cerâmica da fase Cantu, a desse sítio era constituída por pequenos recipientes de formas geralmente cônicas (Figura 58). Alguns cachimbos angulares foram registrados, estando um deles decorado com incisões. O material lítico foi escasso, salientando-se um quebrador de coquinhos.

 

É possível que esse sítio isolado, denominado como PR FI 145, esteja relacionado aos índios Kaingáng, pertencentes à família lingüística Jê. Os Kaingáng viveram na área entre o final do século passado e o início do atual. Não se deve descartar, entretanto, a possibilidade de que o sítio represente um assentamento de índios Guayaki, observados na mesma época e que produziam uma cerâmica comparável à encontrada. Alguns autores filiaram os Guayaki à família lingüística Tupi-guarani, admitindo que a cerâmica tenha sido por eles adotada dos Kaingáng.

 

A fase Assuna representa a ocupação ceramista mais recente da região. Seus sítios foram encontrados somente nas imediações de Foz do Iguaçu; eram superficiais e abrangiam áreas com pouco mais de 600m² de área. Correspondiam aos estabelecimentos de pequenos e rarefeitos grupos familiares neobrasileiros ou caboclos.

 

Figura 58 - Morfologia cerâmica do sítio PR FI 145 (extraída de PAI 4, 1979)

 

 

A cerâmica da fase Assuna reflete a fusão de tecnologias indígenas e portuguesas. A fusão mostrou-se mais intensa que a verificada nos produtos indígenas das vilas espanholas e reduções jesuíticas dos séculos XVI e XVII. Mesmo assim, notou-se nela a incidência de grande parte dos traços diagnósticos da fase Sarandi, da tradição Tupiguarani. As formas dos recipientes não foram muito variadas, mas estava presente a carenada (Figura 59). As bases planas e em pedestal ocorreram com freqüência. A superfície das vasilhas foi alisada ou decorada com engobo vermelho, escovado, corrugado, incisão etc. Foram comuns peças que apresentavam técnicas decorativas associadas. Cachimbos angulares também foram registrados, assim como poucos raspadores, talhadores, abrasadores, quebradores de coquinhos e pederneira de pedra.

 

Cronologicamente esta fase está situada entre a segunda metade do século XIX e princípios do atual, quando o oeste do Paraná passou a sofrer profundas mudanças sociais e econômicas.

 

Além das pesquisas acima resumidas, existem informações de outras desenvolvidas pelo Museu Paranaense, ao lado do Parque, no Município de Capanema, quando cinco urnas funerárias da tradição Tupiguarani foram expostas pela erosão da margem esquerda do rio Iguaçu. Apesar da depredação causada por moradores locais, uma das peças foi resgatada intacta pelos arqueólogos. A peça media cerca de 80cm de altura e continha restos ósseos humanos e oferendas constituídas por recipientes, peças líticas e resíduos alimentares (Gazeta do Povo, 09/08/1983).

 

Anteriormente, no início da década de 1960, Antonio Schimmel, realizando prospecções na margem argentina do rio Iguaçu, localizou, entre a sua confluência com o rio Paraná e o Hotel das Cataratas, peças relativas a ocupações pré-cerâmicas e cerâmicas (Schimmel, 1967). A maior parte dos indícios foi encontrada ao longo de caminhos e junto a terrenos remexidos para a instalação da infra-estrutura do hotel argentino.

 

Os dados produzidos pelas abordagens arqueológicas desde o final do século passado, no interior e nas proximidades do Parque, comprovaram a intensa ocupação do espaço por grupos indígenas através de milênios. Permitiram, também, a avaliação das características culturais e estruturais dos diferentes estabelecimentos, corroborando o relato etno-histórico, a partir do século XVI. As pesquisas que os geraram enfatizaram, por outro lado, o acelerado processo de dilapidação do patrimônio arqueológico em função das atividades agropastoris e urbanas modernas.

 

Figura 59 - Morfologia cerâmica da fase Assuna (extraída de PAI 3, 1978)

 

Diante desse quadro, a área do PNI, por encerrar sítios em grande parte preservados, mostra-se muito importante também para futuros estudos arqueológicos.

 

6.6.3. Arqueologia da Área do Parque Nacional do Iguaçu

 

6.6.3.1. As Pesquisas

 

Além das ocorrências relatadas no item anterior, referentes às peças descontextualizadas, observadas por Juan B. Ambrosetti na margem do rio Iguaçu, junto às Cataratas, e ao sítio PR FI 8: Cataratas, registrado pelo CEPA/UFPR, não se tem conhecimento de outra abordagem feita por especialista na área do PNI.

 

Muitas informações existem, entretanto, especialmente da parte de moradores do seu entorno, sobre sítios arqueológicos nele encontrados em várias ocasiões e sobre peças cerâmicas dele retiradas. Por se tratar de constatações geralmente associadas a atividades ilegais e não condizentes com as finalidades do Parque, os relatos são muito vagos. Sendo os achados atribuídos a outras pessoas que não os informantes, torna-se difícil a sua comprovação.

 

Notícias mais consistentes, recolhidas durante os trabalhos, referiam-se a "construções circulares e retangulares de terra", descobertas há poucos anos por um médico argentino, a urnas cerâmicas erodidas, na margem direita do rio Iguaçu, nas proximidades do porto da balsa da estrada do Colono, e a "amontoados de pedras com sinalizações ilegíveis" perto do rio Benjamim Constant. As "construções" foram encontradas entre os rios Gonçalves Dias e Castro Alves e, com a morte do descobridor, a sua localização na mata só é do conhecimento do Guarda Florestal Dioni Ceganfredo, que o acompanhou. O sítio com as urnas, "que boiaram nas águas da enchente do rio" e as "pedras com sinalizações ilegíveis" foram relatadas pelo Guarda Florestal Rubens Luiz Barreto.

 

O grande volume de dados resultantes das pesquisas desenvolvidas ao longo do rio Paraná e trechos do médio rio Iguaçu, da Cidade de Foz do Iguaçu, para o norte, e da barragem da UHE de Salto Caxias para, leste, respectivamente, demonstrando a ocupação dos espaços por grupos indígenas pré-históricos e históricos, bem como por europeus a partir do século XVI, pode ser tomado como prognóstico para a área do Parque.

 

Apesar das fontes secundárias existentes para a região, julgou-se importante e necessária uma abordagem arqueológica no Parque que permitisse a verificação da intensidade dos indícios, sua composição e do estado de conservação.

 

As prospecções foram realizadas em dois curtos períodos, no primeiro semestre de 1998, por dois pesquisadores do CEPA/UFPR, com o apoio logístico proporcionado pelo PNI. O projeto previa três enfoques: um na margem direita do rio Iguaçu, nas proximidades das Cataratas, outro ao longo da estrada do Colono e o último junto aos formadores do rio Floriano.

 

O primeiro trecho foi acessado através das trilhas existentes e pelo rio principal. Na mata foram abertas picadas acompanhando cursos fluviais. Além da visualização superficial do terreno, pequenos cortes-experimentais foram praticados espaçadamente para a localização de traços arqueológicos.

 

Na margem do rio Iguaçu, situada entre as corredeiras da Irene e a foz da Sanga Boqueirão, as picadas foram intensificadas para o interior, à procura de elementos relacionados à redução de Santa Maria. Nesse trecho, na cartografia jesuítica do século XVII, está assinalada "S. Maria" (Figura 47). Tal referência poderia ser apenas alusiva às Cataratas, assim como ao "Salto Grande", que foi destacado no mesmo mapa, no rio Paraná. A diferença entre as nominações é a cruz acompanhando a de S. Maria, convenção presente nas demais reduções marcadas no mapa jesuítico.

 

Vários dias foram empregados nessa procura e as picadas abertas, muito difíceis e vagarosas, não foram suficientes para se vasculhar todo o espaço pretendido. As possíveis ruínas da redução de Santa Maria não foram encontradas.

 

Na seqüência, as pesquisas sofreram alterações quanto à programação original. Impossibilitada de atuar na estrada do Colono, o que permitiria uma avaliação do impacto que tenha causado ao patrimônio arqueológico e a constatação do sítio erodido na margem do rio Iguaçu, próximo ao porto da balsa, a Equipe limitou-se a um trabalho ao longo da divisa seca do Parque. A existência de estradas carroçáveis, margeando a floresta, algumas delas constituídas por trechos da antiga via de comunicação entre Guarapuava e Foz do Iguaçu, facilitou o acesso e a observação das características ambientais.

 

Indícios arqueológicos foram detectados na linha fronteiriça compreendida entre os rios Represinha e Silva Jardim. Foram percebidos superficialmente nos barrancos da estrada e junto aos palanques da cerca do Parque ou através de cortes-experimentais, ao longo das picadas abertas na mata adjacente.

 

Nessa oportunidade, foram localizadas as "pedras com sinalizações ilegíveis", que estavam relacionadas a um túmulo histórico, com lápides.

 

O terceiro enfoque na área do Parque não chegou a ser executado devido a problemas gerenciais dessa revisão do Plano de Manejo.

 

Tendo em vista os objetivos dos trabalhos, foram adotados procedimentos que possibilitassem, no momento da constatação dos indícios arqueológicos, a coleta de dados sobre a sua contextualização, dispersão, conservação e filiação cultural. Procedeu-se, também, ao recolhimento de amostras em todos os locais, para o seu manuseio em laboratório.

 

Medições feitas desde a margem dos cursos fluviais até os pontos das ocorrências, permitiram o seu posicionamento nas cartas geográficas disponíveis. Para efeito de controle, os indícios foram numerados seqüencialmente e, dessa forma, foram assinalados na Figura 60.

 

As peças recolhidas foram marcadas conforme a numeração seqüencial, juntamente com a sigla PNI, a da UC. Para a descrição dos indícios constatados, foi obedecida a ordem do seu achado.

 

Indícios cerâmicos e líticos foram localizados a 110m da margem direita do rio Iguaçu, a cerca de 5km acima das Cataratas (Figura 60). Ocupavam a encosta de suave elevação, ao lado de uma faixa de terreno plano inundável (141m snm*. Dominado pela vegetação arbórea rarefeita, o local era constituído pelo latossolo avermelhado.

 

Buracos esparsos pela área indicavam antigas atividades de escavadores clandestinos; outras perturbações eram devidas a tocas de animais. Fragmentos cerâmicos isolados ou amontoados ocorriam pela superfície do terreno. Um recipiente parcialmente quebrado e grandes pedaços de outros foram encontrados em meio às folhas e solo humoso, formando um conjunto na porção central do espaço ocupado. As porções expostas estavam cobertas de musgo. Essas peças foram retiradas do local.

 

I. Os Indícios Arqueológicos do Parque Nacional do Iguaçu

 

A dispersão do material arqueológico na superfície do terreno, além dos cortes-experimentais praticados, serviram de base para o estabelecimento aproximado da área abrangida pela ocupação. Seus vestígios compreendiam um espaço elíptico, com 160 x 140m (17.584m²). A configuração apresentada pelos indícios, formando concentrações espaçadas, inferia a existência de várias bases de habitações.

 

Nos cortes praticados, o material tendia a formar uma camada entre 14 e 19cm de profundidade. Peças descontextualizadas ocorriam desde a superfície do terreno, até o início da camada. O solo mostrava-se granuloso e de cor marrom até 16cm de profundidade, tornando-se compacto e avermelhado para baixo. Blocos e lascas de basalto e riolito eram comuns.

 

Do local foram retiradas peças de cerâmica de cor marrom escovadas com antiplástico grosso que, após os procedimentos laboratoriais, tiveram suas características definidas. Também foram encontrados fragmentos de recipiente cerâmico.

 

Outros indícios cerâmicos e líticos localizados a 275m da margem direita do rio Iguaçu e a 140m da margem direita do córrego Santa Luzia. Estavam 50m a nordeste da lagoa Jacaré (Figura 60, no 2). Ocupavam a encosta de uma elevação, a 200m snm. O local encerrava vegetação arbórea rarefeita, encontrando-se próximo a uma extensa pastagem de fazenda desativada. O terreno era constituído pelo latossolo avermelhado. Os indícios arqueológicos foram achados junto ao solo preso nas raízes de grande árvore tombada e nas imediações e compreendem fragmento de cerâmica simples com antiplástico fino, lasca simples em forma de cunha e um fragmento de bloco de rio liso, alterado pela exposição ao calor do fogo.

 

Novos indícios líticos localizados a 240m da margem direita do rio Iguaçu, acima da ilha das Palmeiras e, a 350m da margem direita do córrego do Mingau (Figura 60, no 3). Ocupavam a encosta de uma elevação suave, a 202m snm. Coberto pela vegetação arbórea rarefeita, o terreno do lugar era constituído por solo argilo-arenoso, de coloração marrom-escuro. Essa formação era localizada, estendendo-se um pouco em direção ao rio e nos arredores predominava o latossolo avermelhado.

 

Os indícios foram revelados pelos cortes-experimentais, aos 15cm de profundidade. Todas as peças são originárias de seixos-rolados e mostram lascamentos pela técnica da percussão direta, correspondendo a uma lasca simples com crosta de riolito, uma lasca simples em forma de cunha de riolito e um núcleo esgotado de quartzito.

 

Recipiente cerâmico também foi localizado a 200m da margem direita do Iguaçu, acima da ilha das Palmeiras e a 400m da margem direita do córrego do Mingau (Figura 60, no 4). Ocupava a encosta de uma suave elevação, a 204m snm. A peça foi encontrada na superfície do terreno, a cerca de 40m a sudoeste dos indícios PNI – 03, e a vegetação e o solo apresentavam as mesmas características daquele local. Estava quebrada, mas um dos pedaços faltantes foi recuperado logo abaixo, coberto pelas folhas (Figura 61c). Trata-se de uma tigela de boca constricta, base convexa e faces simples. A pasta foi temperada com antiplástico grosso. Mede 7cm de altura, 12cm de diâmetro e 10cm na abertura. A sua espessura é de 7mm.

 

Ainda, indícios cerâmicos e líticos foram localizados a 600m da margem direita do rio Iguaçu, acima da ilha das Palmeiras e, a 70m da margem direita do córrego do Mingau (Figura 60, no 5). Ocupavam o flanco de uma elevação suave, a 198m snm.

 

No lugar, a vegetação arbórea era pouco cerrada e o terreno constituído por latossolo marrom-escuro; nos arredores era avermelhado. Os cortes-experimentais, praticados ao longo de uma picada, revelaram os indícios por uma extensão de 15m, o que poderia representar uma das dimensões da base habitacional. As peças ocorreram continuamente, até 15cm de profundidade e referem-se a duas tradições culturais: à Tradição Tupiguarani (três fragmentos de cerâmica simples com antiplástico grosso e um fragmento de cerâmica pintada com antiplástico grosso) e à Tradição Itararé (dois fragmentos de cerâmica simples com antiplástico fino; duas lascas simples em forma de cunha; três microlascas retiradas de seixos-rolados de riolito (2) e silexito (1) e um fragmento de silexito sem evidências da ação humana).

 

Em outro sítio foram localizados indícios líticos a cerca de 1.550m da margem direita do rio Iguaçu e, a 50m da margem esquerda de um afluente do rio São João (Figura 60, no 6). Estavam no leito da trilha do Poço Preto, no flanco de uma suave encosta (220m snm). A trilha cortava o latossolo avermelhado e era ladeada pela vegetação arbórea.

 

As peças foram encontradas superficialmente, mas devem ter sido expostas pela movimentação de terra, sendo dois núcleos esgotados de riolito. Mostram facetas de lascamentos pela técnica da percussão direta, sendo originários de seixo-rolado e de bloco, respectivamente.

 

Indícios líticos localizados a 6.000m da margem direita do rio Iguaçu e a 30m da margem esquerda do rio Caapaço (Figura 60, no 7) ocupavam a encosta de uma elevação íngreme, a 240m snm. O espaço era dominado pela vegetação arbórea. Os indícios foram encontrados superficialmente, junto à cerca do PNI. Podem ter sido expostos pela erosão do latossolo avermelhado ou pelos cortes destinados a fixação dos palanques da cerca. Correspondem a duas lascas simples, com crosta obtidas pela técnica da percussão direta de blocos de basalto.

 

Indícios líticos e cerâmicos foram localizados a 5.200m da margem direita do rio Iguaçu e a 20m da margem esquerda de um afluente do rio Caapaço. Distavam 250m da sua margem esquerda (Figura 60, no 8). Ocupavam a encosta de uma suave elevação, a 250m snm.

Figura 60 - Sítios arqueológicos (veja os números) localizados e estudados no Parque Nacional do Iguaçu

 

 

Figura 61 - Recipientes cerâmicos da tradição Tupiguarani. a, b, urnas; tigela, retiradas do Parque Nacional do Iguaçu

 

 

 

Foram encontrados ao longo da cerca divisória do Parque e no leito da estrada carroçável contígua. Eram superficiais e espalhavam-se por uma área com 6m de diâmetro. O terreno era constituído pelo latossolo avermelhado e, na área do Parque, dominado pela vegetação arbórea. Prospecções realizadas nas margens do rio Caapaço e nas de alguns dos seus afluentes revelaram fragmentos de carvão vegetal em vários pontos. Situavam-se entre 12 e 15cm de profundidade.

 

São representadas por um fragmento de cerâmica simples com antiplástico grosso; uma lasca simples com crosta, obtida pela técnica da percussão direta de um seixo-rolado de riolito; uma lasca preparada de silexito, resultado do lascamento pela técnica da percussão direta e três núcleos esgotados de silexito, correspondentes a seixos-rolados com facetas de lascamentos pela percussão direta.

 

Indícios líticos localizados a 5.200m da margem direita do rio Iguaçu e a 400m da margem direita do rio Caapaço (Figura 60, no 9) ocupavam a encosta de uma elevação, a 258m snm. Foram encontrados na superfície do latossolo avermelhado, ao lado da cerca do Parque. As peças são: uma lasca simples em forma de cunha, resultado de um lascamento pela percussão direta de seixo-rolado de riolito e um seixo-rolado de riolito, que foi utilizado como bigorna, com sinais de uso nas porções centrais de ambas as faces; esmagamentos existentes em um de seus lados apontam para a sua utilização, também, como percutor.

 

Indícios líticos localizados a 15.600m da margem direita do rio Iguaçu e a 250m da margem direita do córrego Pinheirinho (Figura 60, no 10) ocupavam a encosta de uma elevação, a 270m snm. As peças estavam ao lado da cerca do Parque, junto a um rebaixamento do terreno. Tratava-se de um canal de escoamento de águas pluviais da estrada carroçável adjacente. O corte no latossolo avermelhado atingiu 50cm de profundidade.

 

Os objetos recolhidos correspondem a 1) uma lasca simples com crosta, obtida pela percussão direta de seixo-rolado de riolito; a lasca foi utilizada como faca. Os sinais de uso ocorrem em ambas as faces da sua extremidade distal, e 2) um núcleo retocado de riolito, obtido de bloco; a peça foi configurada como biface angular através da percussão direta. Retoques escamados foram produzidos em ambas as faces de uma extremidade (Figura 62).

 

Figura 62 - Biface angular da tradição Humaitá encontrado no sítio arqueológico PNI - 10, no Parque Nacional do Iguaçu

Outros indícios cerâmicos e líticos foram localizados a 15.400m da margem direita do rio Iguaçu e a 120m da margem esquerda do córrego Itaipu, conhecido localmente como lajeado do Polaco. O ponto dista 430m da margem direita do córrego Pinheirinho (Figura 60, no 11). Ocupavam o flanco de uma elevação, a 282m snm. Foram encontrados ao lado da cerca do Parque, na superfície do latossolo avermelhado. Compõem-se de 1) um fragmento de cerâmica simples com antiplástico fino; com espessura de 4mm, o fragmento representa uma porção do bojo do recipiente, e 2) duas lascas preparadas, obtidas pela técnica da percussão direta de núcleos de riolito; a maior foi utilizada como faca, estando os desgastes dessa função situados na sua extremidade distal.

 

Outro indício lítico foi localizado a 14.300m da margem direita do rio Iguaçu e a 250m da margem direita do rio Silva Jardim (Figura 60, no 12). Ocupava o flanco de uma elevação suave, a 262m snm. A peça, encontrada ao lado da cerca do Parque e na superfície do latossolo avermelhado, corresponde a uma lasca simples em forma de cunha; é um seixo-rolado de riolito pela percussão direta.

 

Mais indício lítico foi localizado a 14.200m da margem direita do rio Iguaçu e a 15m da margem direita de um pequeno afluente do córrego Bananeiras. Distava 250m da margem direita desse (Figura 60, no 13). Ocupava a encosta de suave elevação, nas proximidades de extensa várzea, a 264m snm. Estava ao lado da cerca do Parque, na superfície de um solo argiloso de cor preta, sendo uma lasca simples em forma de cunha, resultante do lascamento pela técnica da percussão direta de um seixo-rolado de riolito.

 

Indícios líticos localizados a 12.900m da margem esquerda do rio Iguaçu e a 25m da margem direita do córrego referido no item anterior distavam 500m a sudoeste do ponto anterior (Figura 60, no 14). Ocupavam a encosta de suave elevação, nas proximidades de extensa várzea (262m snm). A peças foram vistas ao longo da divisa do Parque, por uma extensão de 15m. Encontravam-se na superfície do solo argiloso de coloração preta.

 

Os indícios correspondem a uma lasca simples com crosta, obtida pela técnica da percussão direta em seixo-rolado de riolito; três lascas simples em forma de cunha, retiradas de seixos-rolados, através da percussão direta; duas são de riolito e uma de silexito; duas microlascas de riolito, resultadas de seixos-rolados lascados pela percussão direta, e dois fragmentos atípicos de silexito, sem indícios de interferência humana.

 

Indícios líticos foram localizados a 12.600m da margem direita do rio Iguaçu e a 100m da margem direita do córrego citado nos dois últimos pontos. Distavam 350m a sudoeste do PNI 14 (Figura 60, no 15). Ocupavam o flanco de suave elevação, nas proximidades de uma extensa várzea, a 264m snm. Foram encontrados junto à cerca do Parque, por uma extensão de 25m, na superfície de um solo argiloso de cor cinza.

 

As peças apresentam-se como 1) três lascas simples em forma de cunha; foram retiradas de seixos-rolados de riolito pela técnica da percussão direta; 2) uma lasca preparada, obtida pela técnica da percussão direta de núcleo de basalto; 3) duas lascas simples em forma de cunha, utilizadas como raspadores de extremidade; ambas foram retiradas de seixos-rolados de riolito; os desgastes de uso ocorrem na extremidade distal das peças, limitando-se a uma de suas faces; 4) três microlascas, procedentes de seixos-rolados, sendo duas de riolito e uma de silexito; 5) quatro núcleos esgotados, seixos-rolados parcialmente lascados; dois são de riolito e dois de silexito, e 6) um núcleo utilizado como talhador; apresenta-se como um seixo-rolado de riolito, que sofreu lascamentos pela percussão direta em parte da face de uma extremidade; no gume formado, ocorrem desgastes de uso.

 

A 3.800m da margem direita do rio Iguaçu e a 25m da margem esquerda do córrego Voltinha (Figura 60, no 16), indícios líticos ocupavam a encosta de uma suave elevação, a 232m snm. Estavam sobre o latossolo avermelhado, ao longo da divisa do Parque, por uma extensão de 80m.

 

Mostram as seguintes características: 1) duas lascas simples com crosta, procedentes de seixos-rolados de riolito; 2) três lascas simples em forma de cunha, retiradas de seixos-rolados de riolito (2) e silexito (1); 3) duas lascas preparadas, obtidas de núcleos de riolito e silexito; 4) uma lasca simples em forma de cunha, utilizada como raspador de extremidade; retirada de um seixo-rolado de riolito, a peça apresenta desgaste em uma face da extremidade distal; 5) três microlascas de riolito; 6) três núcleos esgotados, correspondentes a seixos-rolados de riolito, com alguns lascamentos pela percussão direta; 7) dois núcleos utilizados como talhadores; são seixos-rolados de riolito, que receberam lascamentos pela técnica da percussão direta e 8) duas peças atípicas; fragmentos de núcleos de basalto e riolito, sem evidências de interferência humana.

 

Indícios líticos localizados a 3.500m da margem direita do rio Iguaçu e a 50m da margem direita de um córrego afluente do rio Represa Grande (Fig. 60, no 17) ocupavam a encosta de suave elevação, a 248m snm. Foram recolhidas superficialmente, ao longo de 10m da divisa do Parque. Estavam sobre o latossolo avermelhado.

 

As peças compreendem 1) duas lascas simples com crosta, retiradas de seixos-rolados de riolito; 2) uma lasca simples em forma de cunha, obtida de um seixo-rolado de riolito; o artefato mostra desgastes em conseqüência do uso em uma face da extremidade distal; 3) dois núcleos esgotados de silexito, seixos-rolados que serviram para produção de lascas, e 4) um núcleo utilizado como percutor; seixo rolado de riolito que mostra, em uma face e um lado, esmagamentos causados pelo uso.

 

Indícios cerâmicos e líticos encontravam-se a 3.650m da margem direita do rio Iguaçu e a 5m da margem esquerda do rio Represa Grande (Figura 60, no 18). Ocupavam a encosta de suave elevação, a 210m snm. Ocorreram na divisa do Parque, por uma extensão de 30m. Estavam na superfície do latossolo avermelhado.

 

Referem-se a três 1) fragmentos de cerâmica simples com antiplástico grosso; 2) sete fragmentos de cerâmica simples com antiplástico fino (Figura 63); 3) duas lascas simples com crosta, resultantes de lascamentos efetuados em seixos-rolados de riolito; 4) doze lascas simples em forma de cunha, procedentes de seixos-rolados de riolito (10) e silexito (1) e de bloco de basalto (1); 5) quatro lascas preparadas obtidas de seixos-rolados de riolito (3) e silexito (1); 6) cinco lascas utilizadas, retiradas de seixos-rolados de riolito (3), silexito(1) e quartzo (1); 7) cinco microlascas obtidas de núcleos de riolito (3), silexito (1) e quartzo (1); 8) três núcleos esgotados; dois seixos-rolados de silexito e um de riolito, que serviram para a produção de lascas, e 9) um fragmento de artefato; parte de um percutor de riolito conserva na porção restante do seixo-rolado esmagamentos em conseqüência do uso.

 

Outros indícios cerâmicos e líticos foram localizados a 3.750m da margem direita do rio Iguaçu e a 50m da margem direita do rio Represa Grande, um pouco abaixo da foz do rio Moreno (Figura 60, no 19). Ocupavam a encosta de uma elevação, a 212m snm. Foram encontrados desde a divisa do Parque até um espaço agrícola existente ao lado. Espalhavam-se por uma área com 30m de diâmetro (706,50m²). Eram superficiais, distribuindo-se esparsamente pelo latossolo avermelhado.

 

Os indícios consistem em 1) três fragmentos de cerâmica simples com antiplástico grosso; 2) 22 fragmentos de cerâmica simples com antiplástico fino (Figura 63); 3) duas lascas simples com crostas resultantes do lascamento de seixos-rolados de riolito e silexito; 4) seis lascas simples em forma de cunha; 5) seis lascas usadas, sendo uma lasca simples em forma de cunha, retirada de seixo-rolado de riolito, foi usada como faca, duas são raspadores laterais sobre lascas simples em forma de cunha, uma delas foi usada, também, como raspador de escotadura; as três últimas, representadas por lascas preparadas, retiradas de núcleos de riolito, foram usadas como raspadores de extremidade; os bordos ativos situam-se na extremidade proximal de uma e na distal de duas; em duas peças ocorrem, ainda, sinais de uso como faca e goiva; 6) uma lâmina produzida a partir de seixo-rolado de riolito; 7) uma lâmina utilizada como faca; os desgastes incidem em ambos os lados; resultou do lascamento de seixo-rolado de riolito; 8) oito microlascas obtidas de seixos-rolados de riolito (7) e silexito (1); 9) cinco núcleos esgotados; seixos-rolados de riolito (2), quartzito (2) e silexito (1), com lascamentos de percussão direta; 10) dois núcleos utilizados; um núcleo de quartzito foi usado como percutor, com esmagamentos em um bordo; a outra peça é um talhador de um seixo-rolado de silexito, que recebeu lascamentos em uma extremidade e um lado; 11) um núcleo retocado; seixo-rolado de riolito, que mostra lascamentos por percussão direta em uma face; o retoque por lascamento escamado, que o definiu como raspador convexo, foi efetuado em uma extremidade e porções contíguas dos lados; 12) duas pedras gretadas; correspondem a fragmentos de riolito que sofreram a ação do calor do fogo; 13) quatro fragmentos atípicos; pedaços de silexito e quartzito sem indício da ação humana, e 14) uma peça intrusiva; fragmento de louça porcelana branca, corresponde a uma parte da aba de prato.

 

Em mais um sítio encontraram-se indícios líticos e cerâmico localizados a 3.850m da margem direita do rio Iguaçu e a 110m da margem direita do rio Represa Grande (Figura 60, no 20). Ocupavam o flanco de suave elevação, a 220m snm. Ocorriam ao longo da cerca do Parque, por uma extensão de 20m; atingiam, também, uma parte da área agrícola próxima. Estavam na superfície do latossolo avermelhado.

 

Figura 63 - Recipientes cerâmicos da tradição Itararé. Formas reconstruídas a partir de fragmentos recolhidos nos sítios arqueológicos PNI - 08, 18 e 19, no Parque Nacional do Iguaçu

O material apresenta as seguintes características: um fragmento de cerâmica simples com antiplástico fino; duas lascas simples com crosta; três lascas simples em forma de cunha; uma lasca usada em forma de cunha; seis núcleos esgotados e dois núcleos usados.

 

No sítio 21 (Figura 60, no 21) encontram-se indícios líticos localizados a 4.760m da margem direita do rio Iguaçu e a 5m da margem esquerda do rio Represinha. Ocupavam o flanco de suave elevação, a 210m snm. Encontrados na divisa do Parque, por uma extensão de 12m, os indícios apresentavam uma tendência de concentração nas proximidades do rio. Dispunham-se superficialmente no latossolo avermelhado.

 

Correspondem a: 1) três lascas preparadas; 2)duas lascas usadas; 3) uma lâmina; 4) quatro microlascas; 5) uma microlasca usada, produzida através do lascamento de um núcleo de quartzo; a peça tem sinais de uso como faca no lado esquerdo, e 6) um núcleo esgotado.

 

Mais indícios líticos localizados a 4.700m da margem direita do rio Iguaçu e a 100m da margem esquerda do rio Represinha foram encontrados (Figura 60, no 22). Ocupavam a encosta de uma elevação suave, a 218m snm. Foram encontrados esparsamente, por uma extensão de 120m, acompanhando a divisa do Parque. Dispunham-se superficialmente no latossolo avermelhado.

 

As peças recolhidas apresentam-se como: 1)duas lascas simples com crosta; 2) quatro lascas simples em forma de cunha; 3) três microlascas, procedentes de seixos-rolados de riolito; 4) uma microlasca usada, resultante do lascamento de um núcleo de quartzo; 5) dois núcleos esgotados e 6) três atípicos, fragmentos de núcleos de riolito, sem evidência de trabalho humano.

 

Indício cerâmico foi localizado a 3.650m da margem direita do rio Iguaçu e a 35m da margem direita do rio Represa Grande (Figura 60, no 23). Ocupava a encosta de suave elevação, a 212m snm.

 

Em trechos de ambas as margens do rio Represa Grande foram realizados cortes-experimentais. Muitos deles evidenciaram fragmentos de carvão vegetal entre 15 e 20cm de profundidade. Um dos cortes forneceu, aos 20cm de profundidade, um fragmento de cerâmica simples com antiplástico fino. Representando uma poção do bojo de recipiente, o fragmento tem 5mm de espessura. Uma coleta do carvão associado à cerâmica foi efetuada para futura datação.

 

Possíveis estruturas funerárias foram localizadas a 5.500m da margem direita do rio Iguaçu. Encontram-se a, aproximadamente, 100m da nascente de um afluente da margem esquerda do rio Caapaço (Figura 60, no 24). Ocupam a encosta de elevação muito suave, a 278m snm.

 

Foram constatados dois montículos na superfície do terreno formado pelo latossolo avermelhado. Um deles está situado a 9,50m da divisa do Parque e o outro a 21m. Distam cerca de 520m da torre do Posto de Fiscalização da Capoeirinha, existente próximo à estrada do Colono.

 

A única intervenção realizada foi na estrutura encontrada mais internamente no Parque e consistiu na limpeza dos arbustos que a cobriam. De formato elíptico, o montículo tem 2,00m de comprimento e na base 1,20m de largura; a sua altura máxima atinge 0,40m. Uma depressão circunda a base da estrutura, que é constituída pelo mesmo tipo de solo dos arredores. A estrutura medida havia sido observada por um dos moradores da vizinhança a mais de trinta anos, quando freqüentava assiduamente o Parque.

 

Possíveis estruturas funerárias encontram-se a 140m da margem direita do rio Iguaçu e a 70m da margem direita do córrego Apepu (Figura 60, no 25). Ocupavam a parte plana do terreno e a encosta da elevação contígua, a 200m snm. Ocorrem dispersos pela, área apresentando, em geral, as mesmas características dos observados em PNI – 24. Existem, porém, entre aqueles, alguns montículos de formato circular.

 

Indícios líticos localizados a 7.700m da margem direita do rio Iguaçu e a 800m da margem direita do córrego Capoeirinha (Figura 60, no 26). Ocupavam a encosta de suave elevação, a 284m snm. Foram encontrados na divisa do Parque, na superfície do latossolo avermelhado.

 

Consistem em 1) uma microlasca de silexito; 2) um núcleo utilizado e 3) um fragmento atípico; pedaço de quartzito, sem evidência de trabalho humano.

 

Novo sítio (27) continha indícios líticos, localizados a 12.100m da margem direita do rio Iguaçu e a 100m da margem direita de um afluente do córrego Bananeiras (Figura 60, no 27). Distavam 300m a sudoeste do sítio 15. Ocupavam a encosta de suave elevação, nas proximidades de extensa várzea, a 264m snm. Foram encontrados superficialmente, no solo argiloso de coloração cinza, ao lado da divisa do Parque.

 

Apresentam as seguintes características: 1) duas lascas simples em forma de cunha; 2) uma microlasca retirada de núcleo de riolito e 3) um núcleo esgotado; seixo-rolado de silexito, que apresenta vários lascamentos por percussão direta.

 

Estrutura funerária histórica foi localizada a 15.600m da margem direita do rio Iguaçu e a 300m da margem esquerda do córrego Pinheirinho, um afluente da margem direita do rio Benjamim Constant (Figura 60, no 28). Ocupa a encosta de suave elevação, a 300m snm.

 

O remanescente da estrutura encontra-se junto à divisa do Parque, englobado pela vegetação arbórea e ao lado da antiga estrada Guarapuava – Foz do Iguaçu. Envolto em lendas que circulam entre os moradores dos arredores, o local foi dilapidado por escavadores de tesouros. A ação clandestina foi extremamente danosa e atingiu, principalmente, o túmulo. O entorno foi, também, vandalizado.

 

Durante a intervenção arqueológica, realizou-se uma limpeza superficial do terreno. Com a remoção de pequenos arbustos e das folhas acumuladas, ficaram visíveis as porções ainda intactas do conjunto funerário e dos seus componentes deslocados e espalhados pelos arredores.

 

Era constituído por uma mureta, o jazido e um possível cordão de isolamento (Figura 64). As matérias-primas utilizadas na sua edificação referem-se a rochas (de basalto, riolito e mármore) e metais (ferro e ferro galvanizado). Em alguns pontos foi constatado o emprego de argamassa de cal e cimento.

 

A mureta dista 3,30m da margem da estrada, acompanhando-a por uma extensão de 13,50m. Com uma altura de 0,55m e largura de 0,95m, foi construída com blocos de basalto e riolito. De várias dimensões, as pedras foram encaixadas sem o uso de argamassa, resultando uma parede regular. Não foi perturbada, mas está sofrendo alguns deslocamentos na extremidade sul devido ao crescimento de árvores.

 

O jazigo encontra-se a 7,50m de distância da estrada ou 3,50m da mureta. A determinação das suas dimensões ficou prejudicada pelo vandalismo Dele resta a porção frontal, que é constituída por blocos de rocha, geralmente em forma de lajotas irregulares, unidos com argamassa de cal. De forma piramidal, com o ápice situado a 0,90m da superfície do terreno, as paredes aprofundam-se por mais 0,60m. Cessam abruptamente no latossolo avermelhado. O acabamento cuidadoso da face externa das paredes e limitado às junções das pedras pode ser verificado na porção exposta, acima da superfície do terreno.

 

Com exceção do pequeno trecho da abóboda frontal, todo o espaço do túmulo foi escavado. O profundo buraco resultante, que se estende um pouco para o lado sul, deve corresponder às suas dimensões originais: cerca de 3,50m de comprimento e 2,00 de largura.

 

Entre o túmulo e a mureta permanece fincada no solo parte de uma estaca quadrangular de cimento armado. Fragmento de outra estaca, foi encontrada junto à cerca do Parque, no meio dos blocos de rocha deslocados. Talvez relacionem-se a um cordão de isolamento em torno do túmulo.

 

Figura 64 - Planta da estrutura funerária histórica encontrada no sítio arqueológico 28, no Parque Nacional do Iguaçu

Misturados com os escombros, do lado norte, ocorreram fragmentos de outros componentes do jazigo, como parte de pedestal com cruz incompleta e fragmentos de lápides. O pedaço de pedestal, com 40cm de comprimento e 22cm de largura, é escalonado e encimado por uma haste de ferro. Próximo à extremidade livre da haste, permanece a amarração de arame galvanizado que fixava a haste horizontal de cruz. A haste vertical mede 60cm de altura e 2cm de largura.

 

O fragmento de uma das lápides, com 35cm de comprimento e 16cm de largura, é de mármore branco e ainda está presa a uma porção da estrutura das pedras; conserva partes do epitáfio em alto-relevo.

 

Quatro pedaços de outra lápide produzida com pó de mármore cinza-claro estavam parcialmente ocultos pelas pedras e terra amontoadas. Uma delas refere-se às margens angulares e só apresenta uma estreita moldura em alto-relevo. As demais trazem porções do epitáfio em alto-relevo (Figura 65).

 

Os fragmentos da segunda lápide, por serem de pequenas dimensões e passíveis de roubo, foram recolhidos. É provável que as porções restantes de ambas as lápides ainda estejam no local, assim como indícios de outros elementos associados ao conjunto funerário. Para o seu registro satisfatório seria necessária uma abordagem arqueológica mais demorada.

 

Das várias tentativas feitas com moradores das cercanias, para a recuperação da memória do cemitério isolado, uma foi produtiva. Um habitante das proximidades do córrego Itaipu (lajeado do Polaco), informou que conheceu a estrutura intacta, que era de forma piramidal e assinalada por duas lápides, uma com palavras que não entendia e outra em português. Não se lembrou o nome do sepultado, mas explicitou a data: 1923.

 

Figura 65 - Fragmentos da lápide da estrutura funerária procedente do sítio arqueológico 28, encontrado no Parque Nacional do Iguaçu

 

 

6.6.3.2. O Diagnóstico

 

Embora não se tenha executado o projeto original, as abordagens feitas em dois trechos da área do PNI proporcionaram elementos suficientes para a avaliação do patrimônio arqueológico existente. Confirmaram, inclusive, os prognósticos em função dos dados disponíveis para o oeste do Paraná.

 

Dos contatos mantidos com a população vizinha ao Parque, resultaram informações sobre a ocorrência de artefatos arqueológicos em campos agrícolas do seu entorno, indicando a mesma densidade de sítios constatada na área do Projeto Arqueológico Itaipu, na margem do rio Paraná.

 

Na área do Parque, os indícios de assentamento antigos foram sempre encontrados nas proximidades do rio Iguaçu e de seus afluentes, em pontos elevados e não suscetíveis a enchentes. Ocupavam grandes espaços, caracterizando sítios-habitação ou menores, exemplificando sítios-acampamento. Os primeiros referem-se às antigas aldeias indígenas e indicam permanência mais prolongada dos seus habitantes. São locais que encerram estruturas mais complexas.

 

Os menores informam sobre acampamentos, instalados para as atividades periféricas dos moradores das aldeias, como caça, pesca ou coleta. Os grupos mais recentes, além de explorar os recursos naturais, produziam alimentos em roças. Cada uma dessas práticas requeria um assentamento provisório diferenciado, dependendo do tempo em que os pequenos grupos permaneciam afastados da aldeia. Essa interpretação baseia-se no tamanho dos espaços ocupados pelos indícios e na sua composição.

 

Partindo da aldeia, para obtenção de alimento, matéria-prima etc., os grupos dominavam um espaço que poderia abranger mais de 5km ao seu redor. Como as aldeias eram abandonadas após alguns anos e reimplantadas em outro trecho não explorado, o padrão de subsistência anterior repetia-se no novo espaço. A multiplicação de assentamentos referentes às aldeias e acampamentos durante os 7.000 anos de história da área foi, em parte, revelada pelas atuais pesquisas, estimando-se a mesma densidade para os trechos não vistoriados.

 

Os indícios foram encontrados na superfície do terreno e em profundidades maiores. Tais situações são devidas à idade dos assentamentos, além dos processos de sedimentação que envolvem tipo de solo e topografia. Os relativos a grupo pré-ceramista estavam a 50cm de profundidade (sítio 10), enquanto os ligados aos ceramistas encontravam-se na superfície (sítio 04) ou até 15 ou 20cm de profundidade (sítios 01, 05 e 23).

 

Horizontes formados por fragmentos de carvão vegetal, constatados nas proximidades dos indícios sítios 07, 08, 09, 20 e 23, atestam atividades periféricas, como as agrícolas. Esse dado, muito importante para a compreensão do uso do solo, é raríssimo em áreas perturbadas.

 

A intensidade da ocupação do Parque foi revelada, ainda, pela superposição de camadas arqueológicas. Um espaço apresentava traços pertencentes a culturas distintas, que se acumularam em tempos diferentes (sítio 05).

 

Além dos indícios comentados, em dois pontos da área foram observados pequenos aterros elípticos e circulares (sítios 24 e 25). Essas estruturas especiais foram registradas em outras partes do sul do Brasil e estão relacionadas a práticas funerárias indígenas. No vale do rio Piquiri, no Estado do Paraná, túmulos parecidos faziam parte de um sítio-habitação denominado PR UB 4: Rio Carajá - 1, que também encerrava um túmulo de grandes dimensões, casas subterrâneas, bases de habitações superficiais e caminho.

 

O relevo apresentado pelas estruturas do sítio do rio Piquiri, descoberto e estudado logo após a derrubada da floresta, pode ser comparado com o descrito pelo Guarda Florestal Dioni Ceganfredo, com relação às "construções de terra" encontradas entre os rios Gonçalves Dias e Benjamim Constant, dentro do Parque.

 

As análises laboratoriais permitiram a filiação cultural dos traços coletados durante as pesquisas. Os indícios assinalados no sítio 10, no médio curso de um dos mais importantes tributários do rio Iguaçu, englobados pelo Parque, referem-se a grupo pré-ceramista da fase Pirajuí, tradição Humaitá. Devem corresponder a um sítio-acampamento. O artefato biface angular recolhido é um traço diagnóstico da fase. Definida na área do Projeto Arqueológico Itaipu, a fase Pirajuí tem datações variando de 4960 a.C. a 335 a.C.

 

Os outros indícios recolhidos referem-se às tradições ceramistas Tupiguarani e Itararé. Os primeiros foram constatados na margem do rio Iguaçu, exemplificando sítios-habitação (sítios 01, 02 e 05) e sítio-acampamento (04).

 

A área do sítio 01 foi levantada correspondendo, as suas dimensões, aos sítios-habitação dessa tradição na região. Apresentou, também, bases de habitações dispostas espaçadamente, que não foram delimitadas. Encerrava grande quantidade de traços arqueológicos, muitos deles expostos pela exploração clandestina. Os referentes a urnas cerâmicas, alvos principais do vandalismo podem, ainda, ser recuperados e, após restauração, utilizados em mostras museológicas. Apesar dos danos sofridos, esse sítio oferece condições de pesquisa e poderia ser aproveitado para fins turístico-culturais através de projeto específico. O sítio 01 pertence à fase Sarandi. As demais ocorrências da tradição Tupiguarani não puderam ser filiadas a fases devido à pequena amostragem.

 

Os trabalhos realizados no sítio 05 permitiram a delimitação parcial de uma das bases de habitação. O sítio não está perturbado e possibilita estudos detalhados.

 

Tendo em vista o resultado das pesquisas e as informações recolhidas, como a do sítio existente nas proximidades do porto da balsa, da estrada do Colono, verifica-se que a tradição Tupiguarani instalou-se preferencialmente na margem do rio Iguaçu. Seus vestígios não foram encontrados mais internamente no Parque.

 

Os indícios referentes à tradição Itararé, porém, além de serem mais numerosos, no interior, foram detectados em todos os trechos vistoriados. Para efeito de tipologia prévia, os indícios 14, 15, 16, 18, 19, 20, 22 e 23 foram considerados como sítios-habitação. Não apresentando, nas suas áreas, estruturas mais elaboradas como as do acima citado PR UB 4, esses sítios poderiam exemplificar acampamentos ocupados por espaço de tempo maior, para atividades mais prolongadas. Os demais, assinalados em 03, 05, 06, 07, 08, 09, 11, 17, 21 e 26, inferem acampamentos resultantes de atividades exploratórias de curta duração.

 

As ocorrências rotuladas provisoriamente como sítios-habitação estavam junto aos formadores dos cursos fluviais secundários e afastados do rio principal.

 

As prováveis estruturas funerárias observadas nos sítios 24 e 25 podem estar ligadas à tradição Itararé, uma vez que foram registradas em sítios da fase Cantu, na área do Projeto Arqueológico Itaipu.

 

A tendência apresentada pelos indícios dessa tradição, indica que o mesmo padrão interiorano deve se repetir no trecho compreendido entre os rios Benjamim Constant e Gonçalves Dias. Desse espaço procedem informações que talvez levem à descoberta de um sítio típico da tradição Itararé. Nele ocorre a araucária, que é componente importante do ambiente preferido pela tradição.

 

Os traços arqueológicos referentes aos outros grupos indígenas, identificados pelas pesquisas anteriores na região de Foz do Iguaçu, não foram detectados nas atuais. Tal resultado deve-se unicamente ao curto espaço de tempo despendido na avaliação.

 

Sobre as ruínas da redução jesuítica de Santa Maria, que também não foram encontradas, cabem algumas considerações complementares. No comentário inicial desse item tentou-se precisar o significado da grafia "S. Maria". Em mapa jesuítico do século XVII, a posição da redução está assinalada ou nomeia as Cataratas. Assim como nas atuais pesquisas, as ruínas foram procuradas em outras oportunidades por várias pessoas, inclusive o médico argentino já referido, que julgou tê-las localizado no médio rio Gonçalves Dias.

 

No Mapa Topográfico da Província do Paraná, publicado em 1876 (Paraná, 1876), as ruínas de Santa Maria figuram na margem do rio Paraná, um pouco acima da confluência do rio Iguaçu e próximo ao local que seria ocupado pela Colônia Militar de Foz do Iguaçu, em 1889. Elaborado com base nos levantamentos dos engenheiros Beaurepaire Rohan e Rebouças para a região oeste, o mapa assinala outras localidades espanholas e jesuíticas extintas, algumas delas de forma incorreta.

 

Historiadores que trataram do assunto, como Jaeger (1957) e Cardozo (1970), não mencionam a redução de Santa Maria, na Província do Guairá. Foi considerada por Chmyz (1976) e por Montoya (1985), nos anexos à tradução da Conquista Espiritual de Montoya. Na obra de Cortesão (1951), que transcreve e comenta os manuscritos da Coleção de Angelis, sobre o Guairá, existem vagas referências a uma redução na margem do rio Iguaçu.

 

Referências, essas, contidas na Carta Ânua (carta-relato) do Padre Nicolau Durán, em que dá conta das reduções do Paraguai, durante os anos de 1626 e 1627: "...Quatro leguas se navegan por el Parana desde la reducion del Iguazu, hasta la de la Natd. de N. Señora de la Acaray poblacion que aunque a algunos años se le dió principio han sido tan tenues los que hasta agora há tenido que se han pasado en silencio en las otras annuas."

 

A redução de Natividad de Nuestra Señora de Acaray foi fundada em 1619, na margem do rio homônimo, próximo à sua confluência no rio Paraná, no Paraguai.

 

A outra alusão a redução do rio Iguaçu consta da mesma Carta Ânua: "...Luego despache recaudos a todos los demas que quedaban por reducir muchas leguas alrededor, i dentro de un mês vino tanta gente, que no siendo antes mas de 100 las familias se hizo un pueblo muy grande y aiudaron despues para que se hiziese la reduccion del Iguazu... Quentase en ella 400 familias y 1050 bautizados, los 500 son adultos, los demas infantes, y todos ya proximos al bautismo, y el dia de oy estaran ya todos bautizados..."

 

De difícil administração, devido ao ambiente favorável ao desenvolvimento de mosquitos hematófagos e à resistência de pajés e índios avessos à nova ordem, essa redução, estabelecida pelo Padre Diego de Boroa, em 1626, não deve ter se estruturado urbanisticamente como as mais antigas do rio Paranapanema. A data da sua fundação estava muito próxima da destruição da Província do Guairá, pelos bandeirantes, em 1631.

 

Mesmo que não encerre restos de edificações em taipa de pilão, que permitiriam a sua identificação superficial, o ponto ocupado pela redução pode ser definido através de uma pesquisa sistemática. Entre os sítios arqueológicos da tradição Tupiguarani que venham a ser registrados, o que serviu de base para o trabalho jesuítico fornecerá indícios do contato que incluirão produtos indígenas alterados e peças de origem européia.

 

Além dos índios Tupi-guarani tutelados na redução de Santa Maria, a carta jesuítica refere-se a outros existentes nas proximidades: "...Hanse echo y se hazen algunas salidas por medio de los indios de esta reduccion, que los invian los padres a correr toda la tierra al rededor y a cojer unos indios que hallan deramados, y han llevado mucho al pueblo, entre estos com dos o 3.es famillas de una particular nacion que mas son selvajes que hombres, porque viven siempre por los montes muy espessos sin tener lugar determinado. tienenlos rostros como de monos, andan todos encorbado, tienen tan torpe la facoltad motiva que de ninguna manera saven, ni pueden correr, y estan entre los demas indios del pueblo como atonitos y el mondo nuevo. Eran 15 por todos, y luego se llevo para si el cielo tres niños y un adulto, que en la hora de la muerte se bautizaron, y el P. me escrive que entiende que muy en breve haran los demas el mismo camino, porque como se criaron en montes cerrados estan en lo raso y como en ayeno elemento."

 

Esses índios seriam os Guanhanho ou Gualacho, conforme a terminologia da época, e podem estar relacionados à tradição Itararé, identificada pela arqueologia, especialmente em terrenos mais elevados do Parque.

 

Os outros indícios observados durante as pesquisas dizem respeito a um túmulo e a um complexo hidrelétrico. Ambas as estruturas datam da primeira metade do presente século.

 

O túmulo, conforme já explicado, encontra-se na divisa do Parque, ao lado da antiga estrada Guarapuava/Foz do Iguaçu. Foi vandalizado, mas ainda pode ser trabalhado arqueologicamente, para a recuperação das lápides e o detalhamento da sua área. Esses elementos, juntamente com os resultados de entrevistas com moradores locais, permitirão o resgate da sua história.

 

Entre as estruturas relacionadas à Usina Hidrelétrica São João, algumas encontravam-se demolidas. Alicerces e paredes de edificações em alvenaria de pedras e tijolos foram constatados, alinhados no meio da mata. O efeito visual das ruínas nesse ambiente é instigante e poderia, depois de um planejamento, ser aproveitado para visitação.

 

6.7. Ocorrência de Fogo e Fenômenos Naturais Excepcionais

 

Os casos de fogo no Parque estão relacionados, em geral, com a época de inverno, quando o índice de chuvas diminui consideravelmente e a ocorrência de geadas é freqüente (outono e inverno). O ressecamento da vegetação pelas geadas proporciona condições ideais para o surgimento de casos de fogo, ligados essencialmente a causas antrópicas.

 

Historicamente, a área de maior incidência de incêndios é aquela onde ocorre a Floresta Ombrófila Mista (ou Mata de Araucária) no norte do Parque, sobretudo ao longo da BR-277, entre os Municípios de Céu Azul e Santa Tereza do Oeste. Normalmente o fogo desenvolve-se a partir da vegetação rasteira e gramíneas (poáceas) existentes na faixa de domínio da rodovia, cuja manutenção precária favorece seu desenvolvimento e potencializa o risco de fogo. Apesar da sua situação de quase total abandono, a estrada velha de Guarapuava (antiga estrada Cascavel/Foz do Iguaçu) também representa risco de incêndios para o Parque.

 

A BR-277 apresenta intenso fluxo rodoviário, sendo ramal principal do escoamento da safra agrícola e também rota turística regional, em direção ao PNI. Os focos de incêndio, daí originados, provêem de pontas de cigarros jogadas por viajantes descuidados e fogueiras feitas para aquecer refeições e prover calor.

 

Os incêndios de maior expressão ocorreram nos anos de 1957, 1975, 1978 e 1991. O incêndio de 1957 foi grande e histórico, ocorrido no Estado, tendo destruído uma área de 300ha do Parque, na Zona Intangível, em área de Floresta Ombrófila Mista (Auer, 1994). Tal incêndio foi combatido somente com a chegada de chuva. O incêndio de 1975 foi também de grandes proporções, atingindo o Parque nas imediações de Céu Azul, mais uma vez atingindo a Floresta Ombrófila Mista. Em todos esses casos, o foco foi a BR-277.

 

No ano de 1977 vários focos foram verificados, todos próximos à BR-277, mas, extintos rapidamente, atingiram área pequena de mata secundária. Em abril e maio de 1978, três focos de fogo apareceram na margem da estrada velha de Guarapuava, destruindo um total de 7.000m² de mata secundária. Outros focos foram identificados nos anos subseqüentes, mas fora do Parque e controlados rapidamente.

 

Em 1991, foi registrado o último grande incêndio do Parque. Em função das suas proporções, foi combatido por equipes do IBAMA, do Corpo de Bombeiros e de prefeituras locais, atingindo cerca de 40ha, durante dois dias. Na ocasião, foi utilizado o sistema bambi-jump, com um helicóptero da concessionária do PNI Helisul Taxi Aéreo.

 

No início de 1993, também margeando a BR-277, foi queimada uma área de 10ha do Parque, no Município de Céu Azul.

 

A partir de então, passou-se a realizar uma parceria informal com os agricultores vizinhos, no sentido de se permitir o cultivo da área da faixa de domínio da estrada, com lavouras de soja, mantendo-a, assim, como uma forma de "aceiro agrícola". Apesar de questionável, a fórmula deu certo, e os poucos e pequenos focos de fogo, que apareceram, foram facilmente combatidos.

 

Com a privatização da BR-277 para a empresa Rodovia das Cataratas S/A, em 1997, iniciou-se uma parceria com ela para a manutenção de um aceiro e uma área gramada na faixa de domínio para se controlar uma das principais causas do fogo, que deriva do fluxo de veículos pela rodovia. Faz-se também necessário o estabelecimento, em parceria com as prefeituras, de Brigadas de Combate ao Fogo. No caso, os primeiros contatos com as Prefeituras de Céu Azul, Santa Tereza do Oeste, Lindoeste e Capitão Leônidas Marques já foram realizados.

 

O rio Iguaçu, como já foi dito aqui diversas vezes, constitui os limites sudeste, sul e parte do sudoeste do PNI. Por ser rio de grande porte, as flutuações de sua vazão refletem diretamente na área do Parque. Assim é que o ciclo das enchentes e estiagens tornam-se bastante evidentes ao longo do rio Iguaçu, principalmente nas Cataratas. As secas mais pronunciadas foram nos anos de 1975, 1978 e 1995. A seca de 1978 reduziu o volume das Cataratas em 80%, fato que despertou a atenção nacional (Auer, 1994).

 

Por sua vez, as grandes cheias ocorreram em 1971, 1977, 1988 1993 e 1996. Em conseqüência do volume de água, ficou acumulada grande quantidade de vegetação nos pilares da passarela sobre o salto Floriano, carregada pelas águas. Tal acúmulo ocasionou a derrubada da passarela em 1993. Ainda, na cheia de 1996, próximo ao final das obras de construção de uma nova passarela, a água carregou as máquinas e ferramentas utilizadas nas obras.

 

Também em 1972 e 1979 enchentes de grandes proporções elevaram o nível do rio Iguaçu em 3m à montante das Cataratas e em 20m à jusante. A antiga passarela aí existente foi destruída pela força das águas e inundada uma extensa faixa ao longo do rio, porém sem muitos prejuízos para o Parque (Auer, 1994).

 

Para evitar tal tipo de acidente, as passarelas contam hoje com guarda-corpos móveis, que são retirados quando o nível do rio Iguaçu passa da marca de 2,3m, à montante das quedas. A medida evita a pressão sobre os pilares da passarela, pois que permite o fluxo da água sem maior resistência.

 

O ano de 1998 foi especialmente chuvoso, mantendo o nível do rio Iguaçu, praticamente de maio a outubro, próximo de 2m e ultrapassando a marca de 3,2m em setembro. Assim, tal fato requer constante acompanhamento e ação imediata, pelo menos em relação à existência da passarela e seu uso pelo público visitante.

 

Outro fenômeno que vem merecendo destaque nos últimos anos são os grandes vendavais (pequenos tornados) localizados, cujos ventos, de grande intensidade, têm provocado notáveis danos à vegetação do PNI. Em agosto de 1997, em áreas próximas à ilha do Sol (ou do Pesqueiro) e à estrada do Colono, o vendaval atingiu mais de 200ha. Em setembro de 1998, em frente à Cidade de Céu Azul, o vento provocou uma linha de destruição de mais de 3km de extensão, por cerca de 200m de largura, e, em janeiro de 1999, uma área pequena foi atingida na Picada Benjamim, no Município de Matelândia.

 

Fenômeno que chama atenção é a ocorrência de uma trepadeira que vem sufocando as árvores e vegetação remanescente, especialmente ao longo da trilha das Cataratas. Ainda sem maiores estudos, a situação requer cuidados, pois pode, ainda, provocar a queda em cascata de árvores. Uma delas, ao cair, até mesmo por senescência, por estar presa às demais pela trepadeira, arrasta outras consigo.

 

Conforme discutido no item 5.2.1. Clima, os fenômenos El Niño e La Niña, que alteram as condições de precipitação, temperatura e umidade do ar, já são objeto de estudos específicos por professores da UFPR, em parceria com o SIMEPAR, e requerem acompanhamento e pesquisas pelo Parque, para verificar situações que ameaçam os recursos da área, especialmente a exacerbação dos efeitos de fragmentação e comprometimento da sucessão na recuperação das áreas perturbadas. Ainda, merecem atenção, os efeitos dos fenômenos em relação a situações extremas de chuva e seca, que representam problemas para o Parque.

 

6.8. Atividades do Parque Nacional do Iguaçu e seus Impactos Evidentes

 

6.8.1 – Atividades Apropriadas

 

6.8.1.1 - Fiscalização:

 

O serviço de fiscalização no Parque Nacional do Iguaçu é realizado, basicamente, pelo Batalhão da Policial Florestal do Paraná, mediante convênio firmado entra o IBAMA e a Polícia Militar do Paraná, que mantêm um destacamento de 39 policiais.

 

O Batalhão conta com quartel situado próximo a administração do Parque, residências, dois postos fixos de fiscalização, um em Céu Azul e outro em Capoeirinha, situado junto a Estrada Velha de Guarapuava, na margem direita da Estrada do Colono, sentido Serranópolis/Capanema. Em cada um desses postos ficam dois policiais prestando serviços dioturnamente. No posto de Céu Azul, situado na porção norte do Parque, a equipe de fiscalização é acompanhada por um servidor do IBAMA.

 

O Parque conta somente com quatro Agentes de Defesa Florestal que trabalham no portão, no controle da entrada de visitantes, não havendo por parte destes, qualquer envolvimento na atividade de fiscalização. Esporadicamente e em situações especiais um Agente de Defesa acompanha as operações da Polícia Florestal.

 

O esquema de fiscalização adotado pelo Batalhão esta estruturado em três equipes de nove policiais cada, que se alternam em escala de cinco dias de trabalho seguidos de dez de folga.

 

A fiscalização é realizada no interior e no entorno do parque, sendo feita a pé, em viaturas e/ou em pequenas embarcações. No entorno é realizada nas estradas adjacentes ao Parque com abordagem a veículos, barreiras nas rodovias e operações eventuais nos rios. A região das cataratas, onde se concentra a maior parte dos visitantes, é percorrida várias vezes ao dia pelos policiais florestais, que para o visitante representa a presença institucional.

 

A realização e o êxito da atividade dependem essencialmente das boas condições dos veículos, motores e barcos, sendo realizadas conforme a disponibilidade de equipamento, o que não permite um planejamento sistemático dessa atividade.

 

A situação ambiental de várias regiões do Parque evidenciam a deficiência da atividade de fiscalização, decorrentes do esquema de escala adotado, do número insuficiente de Policiais Florestais, da insuficiência e muita vezes inadequação dos equipamentos e da dificuldades de acesso a determinados pontos no interior da unidade.

 

6.8.1.2 - Pesquisa:

 

Apesar do Parque dispor de algumas facilidades para a realização de pesquisas, o número de pesquisas realizadas, por demanda expontânea, é quase insignificante.

 

Dentre as pesquisa realizadas nos últimos três anos podem ser destacadas as seguintes:

 

Projeto Carnívoros do Iguaçu, que tem como principal objetivos o estudo da ecologia de carnívoros silvestres da região do PNI. O Projeto é apoiado pelo Centro Nacional de Predadores (CENAP) (do IBAMA) e pela Sociedade Pró Carnívoros. Esta pesquisa esta em andamento, apresentando bons resultados e propiciando intercâmbio científicos com pesquisadores do Parque Nacional del Iguazú. Devido às suas características, o Projeto instalou uma bases no interior do Parque. Além das atividades de pesquisa, esse Projeto vem dando atendimento aos proprietários rurais quem vem sofrendo com problemas de predação de seus animais domésticos por carnívoros silvestres do Parque.

 

Análise da Predação por Mamíferos Silvestres nas Propriedades do Entorno do Parque. Pesquisa realizada pela então Mestranda Lucila Manzati, aluna da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz Mestrado Ciências Florestais, e da Universidade de São Paulo.

 

Levantamento das Espécies, Horário de Atividade, Ciclo Reprodutivo, Dieta, Dispersão de Sementes e Estrutura de Comunidade dos Quirópteros (Chiroptera; Mammalia) do PNI. Pesquisa de Doutorado, realizada por Margareth Lumy Sekiama, aluna da Universidade Estadual de Londrina. Esta pesquisa ainda não foi concluída.

 

Para elaboração desse PM, foram realizado uma Avaliação Ecológica Rápida e outros levantamentos envolvendo os seguintes temas: Caracterização da Vegetação, Macrófitas Aquáticas, Avifauna, Mastofauna, Entomofauna, Herpetofauna, Ictiofauna, Qualidade da Água, Hidrografia, Clima, Arqueologia e Etnohistória, Fragmentação, Geologia, Geomorfologia e Solos, Contextualização Internacional do Parque, Aspectos Socioeconômicos, Históricos, Culturais e Políticos, Análise da Malha Viária, Capacidade de Suporte e Manejo do Impacto da Visitação e elaborado um Sistema de Informação Geográfica da AER (Anexo 25).

 

6.8.1.3 - Educação Ambiental

 

Com relação à Educação Ambiental, o Parque Nacional do Iguaçu firmou convênios com a SPVS para diagnosticar e estabelecer as diretrizes para essa atividade.

 

As ações propostas no âmbito desse convênio, direcionam ações para os diversos públicos do PNI, e dentre elas podem ser destacadas:

 

contratação de empresa especializada para desenvolvimento de Programa de Educação Ambiental para o entorno do Parque;

 

aplicação de curso de educação ambiental para o Pelotão da Polícia Florestal e para os servidores do Parque;

 

formação básica em educação ambiental para duzentos professores dos municípios do entorno do parque, onde os mesmos receberam noções para diluição do tema nas disciplinas curriculares e formação de agentes multiplicadores;

 

elaboração de cartilha de educação ambiental direcionada para alunos dos municípios lindeiros ao Parque;

 

elaboração de folhetos sobre o Parque;

 

produção de filme institucional e de educação ambiental sobre o Parque a ser distribuídos nas escolas da região e órgãos ambientas estaduais e municipais; e

 

campanhas educativas.

 

Outra atividade desenvolvida pelo Parque são as visitas especiais realizadas pelas escolas municipais de primeiro grau através de agendamento. Na ocasião os estudantes assistem palestras sobre fauna, flora e sobre o Parque, propriamente dito.

 

6.8.1.4 - Visitação:

 

Para análise da visitação no Parque Nacional do Iguaçu foram utilizados dados do período compreendido entre 1972 à 1997, e tiveram por base as pesquisas realizadas por Magro & Vieira (1998a e 1998b).

 

Segundo esses estudos, a visitação do PNI apresentou oscilações nesse período, conforme pode ser visto na Figura 66.

 

Durante o ano, para o período de 1972 à 1997, a visitação foi assim distribuída: os meses de janeiro e julho apresentam as maiores taxas de visitação, correspondem ao período de férias escolares, com uma média de 12% do total; os meses de fevereiro, outubro, novembro e dezembro apresentam a média de 9%, setembro apresentou uma média de 8%, seguido dos meses de março, abril e agosto, que apresentaram, cada um, a média de 7% . O mês de menor movimento corresponde à junho, com a média de 5% do total de visitação. A Figura 67 ilustra as situações apresentadas.

Figura 66 – Número total de visitantes por ano no Parque Nacional do Iguaçu no período de 1972 a 1997

Figura 67 – Média de Visitação Mensal do Parque Nacional do Iguaçu entre 1972 e 1997.

Analisando a procedência dos visitantes do PNI verifica-se que a visitação de brasileiros segue a curva de visitação total do PNI (Figura 66), decrescendo a partir de 1994. Já a visitação de estrangeiros apresenta-se com diferenças menos acentuadas para o mesmo período, havendo um decréscimo de 1994 para 1995 e de 1996 para 1997. Uma análise da Figura 68 demonstra que o número de visitantes estrangeiros permaneceu praticamente o mesmo nos últimos anos e o de brasileiros, por sua vez, diminuiu drasticamente.

Figura 68 – Total de visitantes brasileiros e estrangeiros no Parque Nacional do Iguaçu de 1992 a 1997

Dentre os visitantes do Parque estão aqueles que por sua condição ficam isentos do pagamento da taxa de ingresso. Os visitantes dispensados desse pagamento são as crianças com até sete anos, os idosos acima de setenta anos e convidados especiais. Hoje o número de pessoas isentas do pagamento do ingresso no Parque é inexpressivo se comparado com o total da visitação, como pode ser visto na Figura 69.

 

Figura 69 – Número de pagantes, isentos e cortesias em relação ao número total de visitantes no Parque Nacional do Iguaçu, de 1995 a setembro de 1998.

Hoje o PNI oferece poucas alternativas de visitação, condicionando que o tempo médio de permanência do visitantes se limite a duas ou três horas, tendo como principal destino a trilha da Cataratas.

 

Segundo pesquisa, uma pequena parte dos visitantes (cerca de 10% em média), e na sua maioria estrangeiros, tem como ponto de visitação a trilha do Macuco, onde o visitante pode desfrutar de um passeios pela floresta e outro de barco pelo rio Iguaçu ajusante das cataratas.

 

Em pesquisa realizada no período de 10 a 15 de outubro de 1998 no Parque foi levantado a nacionalidade dos visitantes que procuram essa opção de lazer ficando registrado que os argentinos lideram em numerosos, seguidos pela Espanha e Brasil. A quarta posição é da Ásia (devido à visitação proveniente do Japão) e o quinto lugar é ocupado pela América do Norte, conforme apresentado na Figura Quadro 18.

 

Quadro 18 - Freqüência de visitação por nacionalidade na trilha do Macuco, no Parque Nacional do Iguaçu, no período de 10 a 15 de outubro de 1998.

Nacionalidades mais freqüentes

Dia 10

Dia 11

Dia 12

Dia 13

Dia 14

Dia 15

TOTAL

Argentina

85 (1o)

151(1o)

92 (1o)

32 (5o)

 

92 (2o)

452

Espanha

42 (2o )

36 (3o)

 

66 (1o)

 

49 (3o)

293

Brasil

28 (3o)

139(2o)

35 (3o)

37 (4o)

 

20 (5o)

259

Alemanha

  

52 (2o)

58 (2o)

36 (2o)

97 (1o)

243

EUA

28 (3o)

20 (4o)

22 (5o)

 

18 (4o)

25 (4o)

113

Japão

17 (4o)

18 (5o)

 

42 (3o)

  

77

Uruguai

    

38 (1o)

 

36

África do Sul

    

31 (3o)

 

31

Coréia

  

28 (4o)

   

28

Rússia

  

22 (5o)

   

22

França

    

16 (5o)

 

16

Outros

30

130

17

33

46

3

Total

230

494

268

254

185

286

 

As áreas sombreadas correspondem à maior visitação no dia, e os números em parêntesis informam a posição que o país ocupa na visitação

 

Outra demanda de visitação que ocorre esporadicamente no Parque se dá por grupos de observadores de aves que percorrem a Trilha das Bananeiras e do Poço Preto com o objetivo de visualizar as espécies que ocorrem nessas áreas.

 

6.8.1.5 - Manutenção

 

A manutenção das instalações do Parque é feita sempre que os recursos orçamentários permitem e dentro de prioridades estabelecidas pela administração da UC. Os serviços de manutenção e limpeza são prestados pela empresa. Ambiental Serviços Terceirizados LTDA. que mantem na UC 25 pessoas desenvolvendo essas atividades nas áreas de administração e visitação.

 

O lixo é armazenado em conteineres distribuídos nas Áreas de Desenvolvimento do Parque e recolhido diariamente pela Prefeitura Municipal de Foz do Iguaçu.

 

Para o controle de incêndio provenientes da BR-277 o Parque mantem um aceiro na faixa de servidão dessa estrada, no trecho situado entre os municípios de Céu Azul e Santa Tereza do Oeste, contando, para tanto com o apoio de alguns proprietários lindeiros e da Prefeitura de Céu Azul.

 

Os veículos e demais equipamentos do Parque têm sua manutenção em oficinas da região que dispõe de condições para atender a demanda da área. A lavagem, troca de óleo e pequenos consertos são realizados na unidade de conservação.

 

6.8.2 - Atividades Conflitantes

 

No Parque Nacional do Iguaçu verificam-se atividades conflitantes com os seus objetivos de manejo e que comprometem a proteção dos recursos naturais nele contidos. Os problemas advindos dessas atividades serão abordados mais detalhadamente no item Problemática constante desse Encarte ficando aqui apenas um pequeno registro sobre estas.

 

A fiscalização precária do Parque propicia atividades como caça e pesca na UC sendo estas evidenciadas com alta freqüência nas incursões feitas em seu interior ou mesmo ao longo de rios periféricos como os rios Iguaçu e São João. Nas operações de fiscalização são encontrados no interior da UC utensílios de acampamento e armadilhas o que evidencia a passagem de caçadores pela área. Um dos meios de penetração na unidade para esses fins são os rios que atravessam o Parque como os rios Silva Jardim, Benjamim Constante e outros.

A pressão de caça na UC vem provavelmente influenciando no comportamento de algumas espécies como a onça que busca em propriedades vizinhas o alimento que se tornou escasso no interior do Parque.

 

A extração de recursos vegetais, em especial a retirada de palmito, evidenciada em quantidade bastante significativa, é outra atividade clandestina que vem pressionando os recursos naturais do Parque. A presença de indústrias de beneficamente de palmito em território argentino, fronteiriço a UC, pode estar contribuindo para a intensificação dessa exploração que ocorre no PNI.

 

O PNI tem em seu interior a BR-469 e a Estrada do Colono que lhe dão acesso e representam grandes problemas para a UC. A BR-469 no entanto não se torna incompatível com a UC uma vez que é o único acesso as Cataratas do Iguaçu, objeto primordial de interesse à visitação do Parque, sendo esta um dos objetivos primários da Unidade. Um dos principais problemas dessa estrada é o volume de tráfego aliado ao excesso de velocidade o que leva a um número significativo de atropelamentos de animais em deu percurso. Com relação a Estrada do Colono este PM dedica dois anexos específico sobre o assunto (Anexo 26 e 27, Volume IV).

 

A presença de uma linha de transmissão que corta uma pequena porção deste Parque em seu limite norte levando energia para o abastecimento de Céu Azul merece atenção principalmente no que se refere aos procedimentos de manutenção.

 

Algumas estruturas instaladas no Parque apresentam conflitos com os objetivos de criação da UC, como as barragens dos rios São João e do Macuco.

 

6.9. Aspectos Institucionais

 

6.9.1. Pessoal

 

O PNI dispõe de um quadro de servidores bastante reduzido (dezesseis funcionários), como pode ser visto no Quadro 9, para atender a sua demanda, exigindo, assim, a contratação de prestadoras de serviços, que executam serviços gerais, de vigilância e de cobrança de ingresso (Quadros 10 e 11), bem como o estabelecimento de convênio com a Polícia Militar do Estado do Paraná, que mantém hoje na área um Batalhão da Polícia Florestal com 32 homens, que se encarregam da fiscalização do Parque, que conta, eventualmente, com a participação de funcionários do Parque.

 

Além do número insuficiente de funcionários, a qualificação e o enquadramento funcional não permitem que eles possam desempenhar todas as atividades que uma UC, com as peculiaridades do PNI, exige para atingir seus objetivos primários de manejo, quais sejam, proteção, uso público, pesquisa e educação ambiental.

 

As oportunidades de capacitação oferecidas mais recentemente aos funcionários do Parque referem-se a cursos ministrados em 1998 a saber: 1) Relações Humanas e Motivação Organizacional, ministrado pela SPVS, com duração de 18h, que atendeu a oito funcionários da área de administração; 2) Qualidade no Atendimento e Educação Ambiental em UC, ministrado pela SPVS, com carga horária de 16h, tendo participado doze servidores, entre aqueles lotados no Parque e de prestadora de serviços, que exerce a atividade de arrecadação; 3) Planejamento do PNI, ministrado pela CONSULTRAINER, com duração de 36h, que contou com a participação de oito funcionários da área de administração. Dois funcionários receberam, ainda, treinamento em manejo e administração de UC, ministrado pela Escola Móvel da DIREC/IBAMA e UNILIVRE.

 

O Parque vem contando há seis anos com o apoio do CENAP no desenvolvimento de pesquisas com felinos e na análise das solicitações de pesquisa dirigidas ao PNI, uma vez que o Centro tem uma de suas bases instalada no interior da UC, dispondo de dois pesquisadores.

 

A Chefia do Parque é exercida por um oceanógrafo, com mestrado em geologia e experiência em administração de parques nacionais, tendo chefiado, por cinco anos, o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, e sendo um dos responsáveis pela sua implantação, e por dois anos o Parque Nacional da Lagoa do Peixe. Ele iniciou seus trabalhos no ex-IBDF, em 1986, como estagiário do Projeto TAMAR.

 

A sua experiência profissional, adquirida ao longo de treze anos trabalhando junto às UC, levou-o a ser indicado para a chefia da ex-Divisão de Gerenciamento de Unidades de Conservação (DIGER), da DIREC/IBAMA, em Brasília, cargo que exerceu durante dois anos, no período de 1992 a 1994.

 

Atualmente vem desempenhando a função de Chefe do PNI, há dois anos e meio, e em sua administração vem dando ênfase às atividades de uso público da UC e à terceirização de serviços.

 

A maioria dos funcionários, inclusive o Chefe da UC, mora dentro do Parque, que dispõe de excelente infra-estrutura de residência, o que favorece a permanência desses no local.

Quadro 9 - Pessoal lotado no Parque Nacional do Iguaçu

NOME

TEMPO DE SERVIÇO

IDADE

ESCOLARIDADE

CARGO

FUNÇÃO

 

TOTAL

IBAMA

    

1- Apolônio Nelson Sousa Rodrigues

19

17

37

2° Grau

Agente Administrativo

Responsável Técnico e Operacional

2 - Cezar Monteiro Pirajá Jr.

21

11

44

3° Grau e Mestrado

Contador

Chefe Substituto

3 - Elionaí Lira Pereira1

17

17

41

3° Grau

Agente Administrativo

Responsável Transportes e Recursos Humanos

4 - Flávio Bunselmeyer Ferreira

04

04

30

2° Grau

Agente Administrativo

Informação e Controle

5 - Jarbas A Carvalho Honório

12

10

41

2° Grau

Agente de Defesa Florestal

Portaria

6 - Carmélio M. Dantas

23

07

55

1° Grau incompleto

Agente de Defesa Florestal

Supervisor de Caixas

7 - João Iraci da Silva

17

17

44

2° Grau

Agente Administrativo

Portaria Informação e Controle

8 - José Lino Martins

15

07

49

2° Grau

Técnico em Colonização

Encarregado de Serviçosiços Gerais

9 - Gerson Antônio do Nascimento

23

07

42

2° Grau

Agente de Defesa Florestal

Supervisor de Caixas

10 - Júlio C. Gonchorosky

13

13

38

3° Grau e Mestrado

Oceanógrafo

Chefe da UC

11 - Laurizelma de C. Batalha1

05

05

42

3° Grau

Agente de Portaria

Protocolo

12 - Maria das Dores Pereira de Carvalho

17

17

42

2° Grau incompleto

Agente Administrativo

Patrimônio e Almoxarifado

13 - Salete Ferreira da Costa

13

13

33

3° Grau

Contadora

Arrecadação

14 - Sebastiana Q. Abreu

18

18

43

2° Grau

Agente de Defesa Florestal

Supervisor de Caixa

15 - Terezinha A. Sotelo Martinez

13

13

35

3° Grau

Administrador

Setor Orçamentário e Financeiro

16 - Zeferino Moreira2

31

26

69

1° Grau incompleto

Artífice de Eletricidade e Comunicação

Em licença

Fonte: Parque Nacional do Iguaçu: abril/99 1 - Em processo de transferência 2 - Em processo de aposentadoria

Quadro 10 - Funcionários contratados por empresas prestadoras de serviços no Parque Nacional do Iguaçu

NOME

INGRESSO NO IBAMA

EMPRESA

SERVIÇOS PRESTADOS

1 - Alcides P. da Paixão

04/03/96

Ambiental

Manutenção

2 - Alice Rosa da Silva

16/04/96

Serviços Terceirizados Ltda

Limpeza

3 - Anildo Antônio Taschetto

03/01/96

Serviços Terceirizados Ltda

Limpeza

4 - Antoninho Catofesta

16/11/96

Serviços Terceirizados Ltda

Limpeza

5 - Aparecido F. da Silva

01/04/97

Serviços Terceirizados Ltda

Limpeza

6 - Artidor de Quadros

04/05/98

Serviços Terceirizados Ltda

Limpeza

7 - Cláudio Alencar de Souza

01/12/95

Serviços Terceirizados Ltda

Limpeza

8 - Francisco Catafesta da Silva

17/08/98

Serviços Terceirizados Ltda

Limpeza

9 - Gilberto Lucindo de Almeida

03/01/96